Confissões [19]

Amiga! Sabes que não sinto mais saudades de ti… Você mudou, eu também. Tudo bem que um fator essencial está em mim: a recíproca afetiva, mesmo que distante, supriu a falta da tua resposta. Resposta que desde há muito esperava de ti. Mas mudamos, esse é o fato. Hoje ainda escrevo, mas não mais para o muro jerusalense de lamuriações afetivos do recôndito da alma. Perdi fervor romântico pelo suprimento do carinho. Agora há uma melhor concretude de sentimentos…

Cansei de ficar te louvando nos recônditos faz eras. Pensava que teus escritos encontrassem sintonias nos meus. Eu não quis acreditar que escrever seria antídoto para dor de cotovelo e inveja alheia. Você traiu sua escrita! Traiu por um intuito muito material do suprimento afetivo… Mas pode ser que eu esteja falando exatamente o que estou fazendo.

Mas não traio minhas palavras: amar uma e apenas uma pessoa não te dá o direito de abdicar da anterior sinceridade. Não queimemos nossos escritos do passado por caprichos a dois. Não fui nem serei sugestionado pela minha contraparte afetiva em razão disso… E você, amiga? Que você fez? Guardou seu intento-escritor na criogenia, para viver a materialidade do teu amor – assim, minúsculo, sensível, peremptório e fugaz.

Espero, estimada, que sua traição com o inalienável sentido da palavra não te venha, com uma Providência custosa, a remover de sua vida seu amor-matéria. Não quero, jamais, vê-la escrever por causa de um vazio amoroso. O escrever não é o amor-compensatório que se recorre quando não tem mais jeito. Quiser escrever, escreva sempre, seja solitária, casada com um economista, um ator, um operário, um magnata…

Mas que eu esteja enganado e seja punido pelo saber de que escondes, no recôndito das suas gavetas, algumas das mais sinceras considerações da sua imaginação literária.


Ouvindo... The Doobie Brothers: One by One

Reinfanciando-nos

Outrora a infância foi um bem precioso, não dado pelos deuses, mas entregue aos homens pelos homens – o século das luzes teve participação nisso. – Agora, saber quando ela acaba na vida de alguém é uma tarefa bastante difícil de se especificar. Se tomamos como ponto de partida – ou melhor, sua finitude – a autodescoberta sexual, podemos dizer que a infância dura nos últimos doze anos bem menos que antigamente, dada a exposição das nossas crianças a conteúdos eróticos cada vez mais precocemente. Se tomamos como ponto a perda de hábitos eminentemente infantis, podemos dizer que há pessoas que se comportam como eternas crianças, dado que não carregam para si responsabilidades que são comuns à vida adulta; ou até a antecipam, por gestarem seu precioso tempo em compromissos eminentemente pertencentes ao mundo dos adultos – tome como exemplo prático as crianças que aparecem nos programas de televisão e poderá ter uma ideia do que falo então.

Não é refletir sobre o caráter dessa infância primeira que vou tratar aqui… Outros podem fazer melhor esse trabalho, gostaria apenas de citar uma infância moral que acho que muitos de nós perdemos quando decidimos deixar de ter estas primeiras infâncias: a infância readquirida.

Não falo de readquirida no sentido estrito de agirmos feito crianças, solicitarmos os cuidados de alguém – mesmo porque, à guisa da nossa idade, pode ser que tomemos como prováveis tutores nossos pessoas mais novas que nós – ou de agirmos infantilmente em meio à sociedade. Falo daquele espírito esportivo de considerarmos apenas o presente, não deixar o passado sangrando indefinidamente, tais como brigas infantis, que no novo raiar do sol se dissipam; sabermos nos relacionar mais amigavelmente com os animais de estimação que temos em casa, levando-os a readquirir sua infância também; contar aquelas piadas que são os mais infames trocadilhos como a manga (da camisa ou a fruta?) o que seria um leme (ou onde fica Leme?); e, principalmente, se deixar conduzir pela sessão desenho que há em canais especializados mundo afora (aquela infância que te identificou, mais lúdica, por vezes psicodélica, e que beira o absurdo, com o fator-sangue reduzido, o que não vemos muito hoje).

Falo isso porque quando não nos permitimos pelo menos algum desses elementos fazer parte, ao menos uma vez por semana na vida, percebemos o quanto de triste olhamos para o mundo. Já não basta o que o mundo adulto impinge sobre nós, intensificarmos isso em nossa vida pode nos tornar mais rancorosos, duros e até insensíveis. E o nosso íntimo convívio bem percebe isso em nós. Um pouco de criança não faz mal em certos momentos – bem dosados, óbvio – de nossa cinzenta realidade.


Ouvindo... Opi Ft Farruko, Ñengo Flow & Julio Voltio: LoveMachine (Radio Actitud)