Confissões [11]

Ai, amiga… Confesso que esperei tanto por ti, mas nem sei bem se te conheço mais… Tua rotina é tão diferente da minha, a distância aparenta ser tão grande agora, os ambientes que nos cercam estão cada vez mais menos convidativos, seus intuitos e projetos são ligeiramente diferentes dos meus… A gente combina, mas não combina. A gente se complementa, enfim?

Queria um abraço mais apertado de você agora, mas a minha vida não permite mais dar atenção a você, justo pelos mesmos motivos que eu… Sei lá, essa época eu prevejo que será de resguardo… De um grande resguardo, solitário e sempre, meu e teu, um para com o outro.

E a criatividade para o período pouco ajuda nesse momento. Um discurso seco impera diante de mim. Dai-me as tuas cores, amiga. Querida amiga…


Ouvindo... Elton John: Western Ford Gateway

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Confissões [10]

Amiga… Há uma distância moral entre nós, uma distância que impede que você esteja calejada dos meus ímpetos; uma distância que me impede de ser devoto de ti. Quero de todo o coração supri-la. A saudade é intensa… Tua presença, e apenas tua presença, é capaz de muita coisa. Sinto muito tua falta. Para a cura dessa doença terrível, já me vali dos mais diversos medicamentos, legais e caseiros. Quase que me enveredo pelas fugas fáceis. Sorte que nelas há uma maior distância, o que me impede de fugir desse monstro que me persegue, travestido de mim mesmo, um outro espelhar, que me critica, me julga, e me insegura.

Não faça essa cara… Por favor, não me deixe mais angustiado de mim mesmo. Me diga: sou eu? Estou sendo pessimista, mais além da conta? Engraçado… Eu sempre sou o sujeito mais requisitado pr’esses assuntos com outros, mas quando se trata de mim, ajo tão ou até mais ignóbil que todos os que já presenciei coisa igual. Medo do ‘não’? Confesso… Duro mais é confundir as perspectivas e na rejeição fechar as portas de nossa amizade.

Nunca me senti tão direto, mas não é mais possível aguentar: vivo longe de tudo e de todos; não me satisfazem as gravatas rigidamente ajustadas, os sapatos sempre lustrados como exigência, as máscaras erguidas, quando bem sabemos que nos estertores as maledicências são mais atrozes que entre nós, que temos menos papas na língua… Não me satisfazem os títulos técnicos, as honrarias do progresso, o status do crescimento financeiro, nada disso. A fivela do caubói-empresário e o chapéu de latifundiário fedem mais podre que a mais desprezível carniça.

Temo passar pela crise de consciência solitário, queixoso e sem quem possa extirpar meus medos, atenuando-os de maneira saudável. Nada de dianética, nada de auto-ajuda neutralizadora, nada de dopar a mente. Me enoja a ideia da padronagem total, me causa tremenda repulsa o rígido assentimento às convenções sociais. Um romântico atrasado no tempo? Um modernista às avessas? Um shopping já há muito não me constitui atrativo, aquelas senhoras sem brilho no olhar, carregando sacolas mecanicamente, cheias de sapatos, vestidos, joias, que vão usar uma vez na vida e depois irão jogar fora… Desprezo total, deprimência extrema. Pergunte, instigue a elas, minha amiga: não são capazes de impingir um milésimo de personalidade em seu discurso, discurso que você é capaz de realizar com propriedade no mero cotidiano.

Me dói seguir contra a maré, sempre. Antes não fosse capaz de repulsar tudo isso aí acima, antes fosse conivente e patrocinador desses vazios comportamentais, mas não…

A tua presença, amiga, que me edifica como sujeito singular, compensa tudo isso.


Ouvindo... Metallica: No Remorse

Confissões [8]

Enfim, amiga… Eu sinceramente não sei de mim! Reconheço na minha pessoa um ser duplo, triplo, múltiplo, pois que ao mesmo tempo que juramento a mim mesmo que te respeito, eu te traio em pensamento por uma pele macia, por um olhar penetrante, por um sorriso meticuloso. Como pode isso? Realmente eu não sei… Saia de mim, ultrajes!

Ajude-me amiga! Dê-me teu ultimato, pro bem ou pro mal. Eu preciso dele pra saber se compensa assumir essa torpe faceta cafajeste, haja vista que não me queira como eu te quero; ou se abdico dessas superficialidade, e faço de ti meu monumento a ser esculpido pelos próximos anos…

Por favor amiga… Faça alguma coisa, urgente! Não sabes, estimada, o quanto sofro diante desse impasse. Ao passo que eu amo a ti, eu desejo as outras. Isso é provação divina, bem imagino – torpe nesses quesitos que sou – e não sei por quantas mais devo passar pra te merecer. Eu sei que não corro atrás de ti, você precisa respirar, você precisa do seu tempo, mas…

Mas por favor, eu te suplico, com todos os endossos: faça uma resolução, porque seu tempo de pensar me parece uma eternidade, e não sei por quanto tempo vou ter de sobrevida antes de uma severa epifania. Sim! Eu estou sujeito às epifanias, muito mais que no passado. Não consigo esconder mais nada de ninguém…

Nada, exceto o que realmente sinto por você.

Por favor, considere isso em seu ultimato! Pela minha epifania.


Ouvindo... Maria McKee: No Other Way To Love You

Confissão (2)

Mas, enfim, eu vi tudo o que você queria. Vi na janela da alma o que você queria, não porque você mostrou pra mim, mas porque eu extraí de você. Sim! Eu extraí isso de você, abrindo carta branca do que eu sentia por você. Agora você sabe, amiga, que eu não sabia de você em mim, e eu queria saber de mim em você. Você disse que “não” pra mim… Tudo bem, isso admito. Mas também não diz “sim” para o outro. E isso me perturba. Sinto um ambiente suspenso. Entre vocês há um penhasco, bem profundo, vertiginoso. Só que tem uma ponte ligando os dois desfiladeiros. Mas que droga! Vocês sequer estão com coragem de atravessa-la. Que é isso? Medo de que a ponte esteja quebradiça? Ah, faça-me o favor… Foi-se o tempo em que cada um de nós tinha o colo seguro e protetor de mãe para nos proteger. Tá na hora de vocês – e eu também – correr o risco de atravessar a ponte.

Mas, pra falar a verdade, já corri esse risco tantas vezes com tantas pessoas dos dois lados do desfiladeiro. Eu garanto: atravessa-lo não é nenhum prejuízo. Apenas vejam onde os passos desgastaram a madeira: ali é seguro pisar.

Mas faz favor, você, amiga, e ele: não me façam mais de garoto de recados e caixinha de segredos. Não sou padre, tampouco cupido ou túmulo pra guardar segredo. Logo, logo, desanimo do meu ideal de vida e vou ser mais um desses pobres coitados autômatos da sociedade, cobrando por terapias de casais que sequer deram as mãos na vida real.

É isso! Decida o que você quer de sua vida, amiga. Porque eu já decidi seguir o meu trajeto, e ele não inclui mais passagem em sua vila…


Ouvindo... Rush: Force Ten