Transeunte

Olha! Quem lá segue…
sempre firme,
sempre presente,
dono de seu nariz
sem destino algum porque quis.

Passa pela avenida,
passa pelo beco,
pede uma tubaína do botequim
e um jornal na banca do seu Joaquim
– mas o jornal é tão caro, deixa pra lá…

Tão rota a vestimenta que o cobre,
faminto por uma coxinha,
sedento por um pingado,
bêbado pra passar vergonha
nem quer se dar ao regaço.

Mas o coxinha, convocado pela madame
da loja finesse da Oscar Freire
sequer pensa no que fazer direito
leva as mãos aos punhos desse sujeito
e o conduz ao camburão.

Delegado, depoimento, termo circunstanciado,
e o deslocamento para o abrigo,
decreptude, ignomínia, abjeto
e a intenção de precaução
nada mais se tornou que um ato de contrição.

Apenas era um senhor bem vivido,
enfadado da riqueza,
que decidiu sair das convenções
e percebeu na tua própria pele
como é que é tão duro viver na pobreza.

Mas então, o relógio soa,
tal como a batalha final,
ao som de Mendelssohn
o magnata diz: “foi só um sonho”
e começou mais um diário carnaval.

E ao ver o seu piano, agradeceu “pela beleza do mundo”.


Ouvindo... Pixies: The Sad Punk

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Hodologia

(Como se fosse possível fazer isso…)

A infância,
essa modesta temperança,
cheia dos intuitos pessoais,
salvaguardas maternais
e a rejeição ao leite

O mel e as borbulhas de amor,
o sacrifício soando com muito frescor,
Antenas e pensamentos alfas,
pregadores formas claras,
os carrinhos se alinhando em massa

Traços, sempre fugidios,
cores fortes, aberrantes, disformes,
expressões dum sujeito arredio
solitário em seu universo

O ocaso dos tempos de escola,
traumas de autoridade, receio intenso
que muito tarde encaro e venço,
sem antes passar por barreiras em verso

Conheci o mundo dos artefatos helênicos,
através dos artefatos futurísticos,
munido de apriorísticos,
fiz meu pequeno diferencial:
esforço mínimo pra mim

As conheci, ah sim, essas há muito,
quem me dera fosse mais direto,
dileto, sagaz e menos vergonhoso
que este físico em alvoroço
se fez concumbinar?

Enfim, com jogos lúdicos extensos,
sentimentos à deriva intensos,
coisas que pouco posso sintetizar nesses poucos versos,
fazem dessa hodologia complexa pancrônica,
apenas um breve resumo incompleto…

O resto se faz através da vivência.


Ouvindo... Deep Purple: Slow Train

Cerebélico

O que nos adianta,
ter essa massa cinzenta em mãos,
e deixar desgarrar outras posses mais valiosas?

Antes de conhecer a própria alma pela alma,
reconhecer o outro corpo com teu corpo,
quis conhecer os meios de separar alma e corpo?

Com as mãos sob a ordem da massa cinzenta,
o sujeito manufaturou a bomba-H,
as ogivas nucleares,
e datas sem sentido, como prospecto de coleção

Com a massa cinzenta conduzindo ordinariamente as mãos,
líderes em pungência convictos de si memoraram feitos:
lançaram a suástica em arremesso à estrela-de-Davi,
degolaram através da foice e do martelo as ilusões de um mundo utópico,
divinizaram homens de frio pulso, cujo nome é impronunciável
se não antecedido e pós-cedido de um heroico epíteto

Massas cinzentas buscam coibir outras massas cinzentas,
pregando a aporia do fim dos tempos da medicina,
onde qualquer desvio comportamental não seja apenas
o desvirtuamento da alma, mas sim
o defeito corporal biogênico, passível de ser combatido
através das doses cavalares de princípios medicamentosos

E as mãos, bem, essas entre si,
jamais se encontram, devido à angústia
que fundamentalmente a massa cinzenta
pôs em teu caminho pelas várias camadas
da cinzenta face artificial do mundo moderno…

Que sequer permite mais o peso da poesia
e da rima colorida do espírito jugulado por afasia.


Ouvindo... Grateful Dead: Smokestack Lightning

Poesia para os tempos de conflito

Humaneco

Para todos os homo sapiens (?) que forem convenientes a isso…


O humaneco
era apenas um animal
que gritava, berrava e esbofeteava
para intimidar seu semelhante,
e descobriu o fogo

O humaneco
com o fogo, descobriu
que podia aquecer a água que toma
e destruir a casa de seu semelhante,
e descobriu a forja de lanças

O humaneco
com a forja de lanças, descobriu
que podia caçar o seu alimento
e podia ferir o coração do seu semelhante,
mas podia ser ferido de volta ainda,
e descobriu a flecha

O humaneco
com a confecção de flechas, descobriu
que podia abater uma fera
e com uma larga distância
encravar uma no crânio de seu semelhante,
mas no titubear de retesar o arco
descobriu a besta

O humaneco
com o fabricar da besta, descobriu
que bastava um pequeno toque
para derrubar seu oponente,
mas ávido em ver seu serviço
ser efetivo contra seu semelhante,
para que o serviço seja rápido e direto,
descobriu a arma de fogo

O humaneco
com o poder da arma de fogo
derrubou civilizações inteiras,
mas querendo julgar-se racional
e enobrecer sua existência perante seu semelhante,
(re)descobriu o poder das leis

O humaneco
com as leis,
construiu um simulacro sadio,
da sociedade que queria,
com quem queria,
e ao semelhante que não queria
descobriu o poder do decreto de guerra

O humaneco
com o decreto de guerra
impôs ideais e expandiu seu território
em terras nunca imaginadas,
mas não lhe bastou ver seu semelhante
morto… Tinha que vê-lo sofrer amargamente
e descobriu os métodos de tortura

O humaneco
com a tortura
sentiu-se deus
e deliciou-se com as lágrimas
do seu semelhante,
mas vindo novamente a lei
e dizendo que aquilo era feio,
o humaneco não se contentou
e descobriu o veto à livre expressão

O humaneco
com o veto à livre expressão
criou o alheamento
da opinião formada do seu semelhante
que sofreu calado, com medo
de tudo o que o humaneco descobriu
e então se achou em direito de revidar

E então o semelhante,
que também nada mais era que um humaneco
descobriu algo muito inovador,
mas, sobretudo, primitivo:
descobriu o grito, o berro e a bofetada.


Ouvindo... Faith No More: Zombie Eaters

Momento Poesia: Transcendência

Rotina diária, inclarividente
o ocaso de um alucinógeno
transformando a realidade:

O que antes era cinza, hoje contente
lançado ao prognóstico
da irresoluta inverdade

Se dissipa em lances vertiginosos
malabarismos metaplasmáticos
sequências de zero sendo divididas continuamente
e astronômicos domínios compondo sinfonias cognitivas

Visões da décima primeira dimensão
táteis, avatares e segunda pele mesclam-se
nesta ulterior realidade, compondo fragmentos
computacionais virtualizando seu plano unívoco…

Unívoco e sem-escolha,
sem-vergonha, sem-caráter, sem-conteúdo
muros de convenções sendo derrubados incessantemente
duas, três, quatro, cinco vezes, sem serem reconstruídos

Construtos, tufões, argamassa, espátula e canhões
o que se ergueu uma hora cede
e depois de finda essa quermesse
dos bons costumes alheios inexpressivos
o viajante-caixeiro, experimentado na arte do ácido e da infusão
conversa com seu segundo-eu, terceira consciência e quarto espírito
egos incessantes sobrepostos nesta investida terrestre
da existência da Era de Aquarius,
que por mais que seja aceita
não deseja se manifestar…

As folhas de ouro do eucalipto substituíram a marola do cenário mainstream
pelo fumo químico dos paletós industriais, impávidos pela negação da experiência…
A grande experiência provida pelo turbilhão da antiguidade,
inonimável…
por se cessar
o efeito,
da
trans-
cen-
dência…

(Ora…! Já acabou?)


Ouvindo... Pink Floyd: Money

Momento Poesia: Oceanphoenix

Há momentos em nossa vida, que precisamos transcender as barreiras espaço-temporais


Refaz, na tua ausência permanente,
a presença-deusa em ti congressa,
queira, possessa a tua espada lancinante
versa e anversa na alma impressa,
produz em mim calor gritante
nesta tua producente arma sincera.

Oceano de mares doces,
Ares de jasmim frutífera em cores,
peço humildemente, presente à vida
fazem de mim aedo desta existência devida.

Apresenta-se a vivida desditosa e pérfida conduta,
não mais labuta seu desarranjo matinal,
pássaro de fogo, devaneio em mente,
propõe intente conflagra vórtice mal,
diz de sua prudente façanha, barganha, montanha,
manifesto de Hefesto, de presente forja em punhal…

Não se lança mais neste conflame harpejo,
conduta labuta enxuta jogada ao extremo,
proporciona em si a desditosa sina que maquina,
inerte imberbe e possessa,
ai de mim, outrora oimoi, aedo em funesta perdição?

Conduz seu valor na benquista vanglória…
a inglória profusão de sentimentos,
qual intento se fez em parte deste protesto,
contesto, insisto, refaço, posso, congraço e choro
pranto…
pranteio,
prontidão,
recomeço minha jornada
com um cálice de vinho roxo na mão…

Já não há mais de mim ali,
ali-mente em discreto refúgio,
o peixe oceânico, dono do subterfúgio,
qual remoinho se proclama ausente,
presente, contente, descrente – tente!

Provenha de ti o teu destino precário,
neofilosofobia, e apague esse recado!

Um dois três quatro,
o tempo agora é de encargo,
dois mil denários, este é teu rendimento,
provimento, sofrimento, intento, contento, rompimento,
quantos entos vou ter que suportar?
Valha-me o meu cartão de crédito e o débito automático,
estático,
fantástico,
ingrato,
sujeitoso,
fanático e majestoso,
Posto em desgosto, ponho a ti a sua conta…
Desponta no horizonte o grande olho de Hórus,
orando por você,
vigiando sua honra;
despede-se o livre cidadão,
na mortalha do viaduto, sobre imersa atenção,
a tutela estatal, de bastião em mãos,
promove o homem-lixo-humano,
um ano, dois meses e dez dias, berreiros nas vias,
bicho-homem em profusão nos celeiros industriais,
consumido pelos fogos fátuos primordiais…

Agora só o silêncio diz,
teclas e cliques diante de teu nariz,
fazem você retornar à uterina condição-matriz…
Produto humano de sua criação,
o homem se escraviza temendo sua libertação.

… A libertação real, não a forjada,
de escorraçar a merda da cadeira,
e meter pés e mãos na leva da estrada,
em busca dos originais equilíbrios naturais,
do pássaro-fogo ressurgido das cinzas,
e do peixe perene oceânico que em condução vagais.


Ouvindo... Yes: Saving My Heart

Momento Poesia: Intitulável por sua Causa…

Dedicada a alguém que não sei se conheço ou que sei que não conheço


Olhares transpassados sempre em vista
que desvanecem ao passar do tempo:
como podem intuir razão quista
debaixo de inglorioso lamento?

Vislumbres divinos, égide feita
rosáceas plumas conferem ardor
desta queixa insolúvel imperfeita
desata num nó noturno calor.

Concede teu afeto tão glorioso,
a este galante tão mal resolvido
que te quer por singelo desvario?

– Não! Muito antes quero-te tão prestoso:
cante em mim teu verso amado e querido
ora aceito, mas depois contrario…


Ouvindo... Aphrodite’s Child: Such A Funny Night