Confissões [4]

Eis, enfim, amiga, que estou aqui diante de você… Você é minha redenção nesse momento tão sensível da minha caminhada. Eu sei que não te mereço, eu sei… Ando tão inconformado com isso. Por causa da sua negação, rejeitei o que há de nobre em mim. Assumi-me porco capitalista, assumi-me insensível perante teu semelhante. Já não há mais volta. Acabou. Eu vivo a um só resígnio cruento e áspero de subsistência. De quem não tem coragem de dar espaço a um ser vivente melhor que eu. O espaço que aqui ocupo, a comida que consumo, de nada isso vale… Sou um dejeto social posto à margem pela minha própria covardia.

Amiga… Se quiser não vivo mais por mim… Eu vivo por ti, basta que fale um “sim” qualquer, eu limparei seus pés, cuidarei de tua louça, serei teu escravo, por causa da punição que a Justiça Divina me outorgou por abandono de nobreza – pena capital, a vaga do céu já não me é outorgada no fim dos tempos…

Quem me dera, não quero vagas no céu… Chega desse fanatismo de tentar ser doador da humanidade. Meu esforço é vão… Antes quero ajudar a quem corre uma lágrima aqui do meu lado, mesmo que ignóbil seja sua motivação. Não quero mais entender os desígnios divinos… Não quero mais ludibriar-me com a promessa da Vida Eterna – eu sei que muito bem sofreria ainda se a tivesse. Prefiro a finitude e o sofrimento como redenção da minha parca alma. A dor sempre teve caráter de redenção, amiga, saiba disso. Eu sei que dói em você saber isso, mas saiba, amiga… Dói mais em mim.

Eu quero acreditar que posso me doar a ti, mas há forças perspicazes e inumanas que me tomam aqui, contrárias a isso. Sei que é delas o mérito de não estar aí, junto contigo, merecedor das benesses. Sei que é também, o fato de não estampar um sorriso falso, diante dos pequenos aspectos de caridade que vejo por aí, que tampouco mereço o apreço social. Eu sou um desvio aberrante de homo sapiens, esperando pela minha contraparte, que não vai aparecer tal como eu desejaria… Alguém à altura dessa amiga que é você, que tanto confio estes meus devaneios toda santa noite.

O dia não me conforma mais, meu lugar à luz do sol já foi ocupado. Resta-me vagar pela noite das avenidas mal-iluminadas, compartilhando do pão do rejeitado da sociedade. Eu, que bem provido ainda do cuidado patrício, sequer ouso em falar: deixe-me a sós, com esse meu pesar.

Dói demais essa dor-de-cabeça que não admite lágrimas escorrendo pela face.

Dói demais não me contentar com o que tenho.

Dói demais saber que você tem medo de mim.

Dói muito saber que minha dor não atinge ninguém.

É só um “sim”, pra eu participar da tua vida, amiga, como um amigo que você confia em mim, nesta singela carta.


Ouvindo... R.E.M.: Man-Sized Wreath

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Momento Poesia

Verdade (Dolorosa)

E de que adianta,
propor um novo contento,
se neste meu intento
feridas obstinadamente construir?

E de que adianta,
nessa angústia em passada,
o tardar duma nova alvorada
seu beijo desejar e nunca possuir?

E de que adianta,
nesse tormento irascível
o afligir-se insensível
pousar nessa bela amizade?

E de que adianta?
Num momento obtuso,
perder-te em meu recluso
confidente, austera beldade?

Sou um péssimo fardo egoísta,
que mal conseguiu distinguir
o furacão da brisa.


Ouvindo... Lone Justice: You Are The Light