Saúdo-te, graça evocada

Saúdo-te com todo o vigor
a letra transcorrendo em duas palavras,
a vontade esperneando em borboletar
o ímpeto fenícico que das cinzas ressurge.

As canções fazem sentido,
transparência nas tuas orbes,
Máquina do Mundo aprazível
que belo engenho!
Muito me admira teu criador,
quem quer que seja
ter te conduzido à vida
e dela te fazer singular.

É nova poesia? Não, confesso,
já teve mais perniciosas antes
mas cada performance é divina
cada respiro faz sentido
nesse urbanoide caos que vivemos
te vejo, flor-de-lis primaveril
a acossar sem dó nem piedade
a alma do poeta…

Que deseja a Máquina do Mundo
como reflexo do epifanico saber
do vórtice do frenesi e do Amor livre.

Faça-me o favor: escuta e prestifique
pois meu convite é direto:
a saudação e tua graça evocadas
nada mais são
do que um convite
de desflorescer
a vontade do poeta.


Ouvindo... Elton John: Simple Life

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Confissões [16]

Eis que me encontro à deriva, inestimada amiga, pois que está tão perto, e ao mesmo tempo, tão distante. Falta incentivo, falta ação, falta muita coisa…

E agora? Me vejo no meio de tantas palavras e agora me vejo prisioneiro delas… Descobri que tudo o que antes fiz, antes construí por elas, nada mais foi do que uma forma de me cativar à solidão. Eu? Estou estou bem comigo mesmo, mas acho que você está certa: nada supera o agir prático, os sentimentos aflorarem sem ruídos. Enfim, mais ação e menos blábláblá… Chega de enrolações, nem que isso custe toda a capacidade poética que construí.

Sim… Quero colocar toda essa escrita a túmulo, se preciso, pra ficar contigo, porque acho injusto a alegria dos apaixonados ser feita dos meus insucessos amorosos. Não é justo tantos casais se aprumarem tendo como base meu amor que manifesto por ti. Não é justo que o motor da compaixão sentimental do mundo se componha do meu inatismo afetivo. Chega disso!

Fala pra mim, amiga, que sim; e vivenciemos a poesia com menos palavras e mais carinhos.


Ouvindo... Stone Temple Pilots: Creep

Confissões [15]

Razão… A razão me chama, minha amiga… Pede pra te dizer adeus! Não dá mais pra viver à custa de sentimentos. Tá na hora de acordar pra realidade no raiar do sol, de encontrar caminhos certeiros… Não mais o calor córdio, não mais o ímpeto emocional. Resultados! Resultados! É tudo que me pedem, e é tudo que preciso oferecer.

Eu sei disso porque, amiga, você seguiu o mesmo princípio: vai formar tua vida profissionalmente, vai fazer algo de útil e não vai se deixar enlevar por essas coisas desse demiurgo de marca maior…

Não mais durante a luz do sol me permitirei distrair-me com floreios, enfeites e adornos desnecessários. O tempo da poesia à luz do dia acabou. Agora é hora de trabalhar…

Pelo menos, amiga, me dê um sorriso no início de noite. Porque somente nessa hora plácida, eu resgatarei todos esses projetos da alma adormecidos.


Ouvindo... Elvis Costello and The Attractions: Uncomplicated

Confissões [13]

I

… Amiga… quase irmã…

Já adianto que sentirei saudades de você…

Percebo há quanto tempo o mal que unicamente foi feito de nosso convívio… A saudade será tamanha, e já sentirei estas saudades.

Esse processo de irmandade… Foi tão inevitável… Tua voz de veludo, tão melíflua – aprendi essa palavra na prática – foi meu chamariz pessoal para saber que você existe… Amiga! Te tomei como irmã, agora já é tarde. Muito melhor lhe tomasse de outro jeito, mas agora é tarde…

Sentirei saudades de você… Algum dia…

Você foi tão profética… Nem sei se já assumo: irmã, cúmplice amistosa, amicíssima… Sabes muito bem que amiga não pode ser, já que sabes muito o que ser amiga implica para mim. Tudo, menos amiga.

Sinto saudades de você… quase irmã.

Agora, falta menos tempo do que eu imagino. Cada um segue seu caminho, você, irmã, o teu; eu sigo o meu. Ei-me lembrar que perguntara a mim: estará sempre presente em minha vida? Eu digo, Claro que sim, se acaso você o quiser.

E que queira, e muito, quase-irmã, estar presente em minha vida, pois eu sentirei saudades de você, algum dia.


II

E você, amiga, que mal te conheço direito, por que me fazes sofrer? Que terrível intuito o teu… Por que justo naquela tarde de chuva? Por que tua face me instigou? Por que tua indumentária? Por que nossas coincidências geográficas? Por que todo esse conjunto, sua… sua… Helena de Tróia! Pandora dos tempos míticos! Não há explicação! Pões à prova minha constância, constância augustina, feito aquela descrita por Macedo… Mas você não é meu amor de infância… Dentre todas as amigas, não-irmãs que tenho, você é a que conheci amanhã… Amanhã…! Nem agora, nem ontem… Você é a amiga do futuro! Nada há que te iguale! Droga!!! Mil vezes droga!!! Não fazes a mim usar verbos na perfeita segunda conjugação, não faças com que me sinta um escravo diante de ti, estou pasmo, vicioso e terrivelmente açoitado por tua singularidade, amiga! Agora é tarde! Agora é tarde… Construí tantos cartões de visita em minha mente, já bem conhecidos, e de último minuto apresenta o teu!

Agora que faço?! Muitos amores estão ofuscados diante de teu efêmero brilho… Um brilho efêmero que posso tornar permanente em minha órbita celestial. Beldade etérea! Algo sem igual… Não faças isso mais comigo amiga… Esconda estas janelas da alma no recôndito de tua intimidade… Pelo menos diante deste sôfrego cantador de virtudes estéticas e essenciais.

Não faças, do meu louvor, hinos de sofrimento! Não, não, não, favor, amiga!…


Ouvindo... Alanis Morissette: Flinch

Hodologia

(Como se fosse possível fazer isso…)

A infância,
essa modesta temperança,
cheia dos intuitos pessoais,
salvaguardas maternais
e a rejeição ao leite

O mel e as borbulhas de amor,
o sacrifício soando com muito frescor,
Antenas e pensamentos alfas,
pregadores formas claras,
os carrinhos se alinhando em massa

Traços, sempre fugidios,
cores fortes, aberrantes, disformes,
expressões dum sujeito arredio
solitário em seu universo

O ocaso dos tempos de escola,
traumas de autoridade, receio intenso
que muito tarde encaro e venço,
sem antes passar por barreiras em verso

Conheci o mundo dos artefatos helênicos,
através dos artefatos futurísticos,
munido de apriorísticos,
fiz meu pequeno diferencial:
esforço mínimo pra mim

As conheci, ah sim, essas há muito,
quem me dera fosse mais direto,
dileto, sagaz e menos vergonhoso
que este físico em alvoroço
se fez concumbinar?

Enfim, com jogos lúdicos extensos,
sentimentos à deriva intensos,
coisas que pouco posso sintetizar nesses poucos versos,
fazem dessa hodologia complexa pancrônica,
apenas um breve resumo incompleto…

O resto se faz através da vivência.


Ouvindo... Deep Purple: Slow Train