Confissões [5]

Mas o que te conto, colossal amiga, é o quanto de saudade prezo por sentir de ti. De conduzir meus passos perto de ti, sobre ti, dentro de ti… De te conhecer todo dia melhor, maior e mais dinâmica; respirar o ar que você respira, de conhecer os lugares que você conhece tão bem, pois estão assentados sobre teu colo  como ninguém. Ninguém sabe, como você sabe o que há no teu colo. Pude te descobrir tão tarde…

Tenho saudades de ti, falo isso aos outros com uma cara de bobo como nunca antes me viram. Me sinto babaca, com tantas outras por aí mais saudáveis, escolho a ti, amiga fumegante, caótica, urbanoide e bucólica. Seu senso boêmio que me fez apaixonar por ti, amiga. Você sabe disso, disso tirou proveito, agora é tarde: descobri que gosto de ti quando longe de ti fiquei. Agora, todo retorno casual me é de uma efusividade tal que não me suporto. Olho para ti, e teus contornos tão sedutores me chamam a atenção. Quantos detalhes! Quantos joguetes… Tudo em você me chama a máxima atenção agora. Eu era teu pequeno, eu era um ingênuo. Toda música antiga que eu ouvia, agora me faz lembrar você.

Seus caminhos, amiga, são como minha casa, aconchegante, que antes não aproveitei. É certo que não te conheci como queria, sempre te via pelas partes não tão belas; as mais belas se revelaram muito mais atraentes pra mim agora. Agora que estou longe, distante de ti, minha italiana favorita…


Ouvindo... Bo Bice: Blades Of Glory

Uma cidade? Uma amiga? Quem me conhece, sabe que pode ser qualquer uma dessas duas coisas. Bons fluídos para todos no novo ano que se aproxima.

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Erato

Email À Eleonora Mioto.

O sonho continua, e as matizes de cores imergem num degradê de sensações


Por vezes, faço questão de não ir à Conferência dos Sentimentos… Há coisas num mundo surreal dos sonhos que jamais superam essas sensações vivazes de conhecer os fatos do mundo, de compor nas ruas da ilogicidade… Dos arbustos florescentes na esquina, dos ipês amarelos forrando o chão dum tapete florido…

Canto, Erato, sem sofreguidão e lamento,
uma ode à beleza de um sonho em desvanecimento
que consiste num trafegar solitário e ausente,
refletindo as cores dum azul cingente.

Perpassa, dantes, teu manto escrito
polivalente, iluminado e bem sortido,
ao passo que teu clarividente espírito
se denuncie amiga da minha pena aqui curtido.

Ela. Erato. Nome austero, evidente. Acompanha-me desde idos tempos de frescor infantil. Nos poemas sobre os girassóis, nos jogos de troca-palavras sobre os blocos de arquitetura dos textos. Não foi muito manifesta sua influência, exceto por outros que com ela conviveram. Vinícius, Cecília, Quintana, Lisboa…

Borboletas, chuva, um coraçãozinho… Coisas saudosas de infância… O trem, o burrinho de andanças, o telefone de disco… Objetos e meios que não voltam mais.

O carvão, o animal e a mecânica deram lugar a outras coisas, nesta crua realidade. O tempo é implacável.

O tempo, cara Musa, poesia-inspirar
é implacável, não há do que cessar
as engrenagens dão lugar a eletroímãs
as últimas ideias serão sempre as primas.

Confesso, nesta infância sutil que eu vivia,
no concreto cinza, o que me apetece
é uma esfera de ar azul-celeste
que levitando, me consumia em alegria.

Eis os tempos que passam como um sopro em nossa vida… Nossos objetivos mudam, nossas ideias mudam… Conhecemos a dura realidade – a realidade física, sensível e dolorosa – e as magias da infância são desinventadas. Os apegos infantis cedem espaço a outros apegos.

Mais sorrateiros… Mais libidinosos…

Mas o romper está justo na flor,
que desabrocha na clareira, por entre as relvas
e subtende um convite de mistério e calor…

Manto da noite, que cobre sol e selvas,
vê o que me fez de meus olhos:
Abrolhos! Abrolhos!
E os lampejos doces e frutíferos da malícia,
convidam, indiscretamente a provar esta delícia.

A juventude é o meio mais divisível de uma psique humana. Muitas desgarram dessa magia infantil e endurecem seu coração para as realidades, tornando-as mais marmorizadas, opacas e numeráveis. Alguns raros (sem parcialidades, juro!) transformam essa magia feliz numa melancolia pungente, sempre constante e furtiva… Sempre furtiva, evoluindo num frenesi incontrolável, onde cada vez mais, os gestos, os afetos, e as pequenas letras tomam espaço para valorizar tão contundida existência.

Fenícias, falácias, funestas carícias,
como me enganaram, deixaram supressas,
as dores em alma, orifícios abertos,
que preencheu com tulipas de aromas de mar.

Fenícias! Citereias! Cianos olhares que fazem
nada mais que seu justo papel,
arrebataram esta feliz criança, agora é tarde,
deixem-na provar um pouco deste mel.

Erato se mostra uma Musa que está sempre presente, com seu papiro e sua pena, prontas a ceder a aqueles que ainda querem ver um colorido do minúsculo espectro do arco-íris de outrora, daquele tempo que, em algum momento da vida, desejou-se autopreservar do caótico funcionamento da maturidade. A maturidade, em tons cinzentos… Cada dia mais cinzentos, mais opacos, mais insossos e insalubres…

Sinto que meu passado me chama:
as luzes de pirilampos e as romãs do fundo do quintal,
os aros de aço-carbono-enferrujado e as bolinhas de gude
saindo do baú das minhas lembranças.

Ficando velho, volto a ser criança…
os humores deixo desvanecer na bonança,
e as memórias, vagas se avivam,
avivam como neste belo sonho.

Todo mundo tem a oportunidade de encontrar Erato em suas vidas. Basta lembrar das cores, sabores, sons e aromas da infância. As sensações e seduções dos tempos da pós-juventude são apenas simulacros de necessidades uterinas, e eis a razão: todo mundo algum dia se deparou em sonho com Erato. Amorfa, assumindo a beleza mais conveniente que agrade ao marinheiro de primeira viagem, ditando as sentenças-chave que apenas os poucos e raros se lembrarão ao acordarem, buscando nos mais diversos seres e profundos sentimentos onde encontrar seus correspondentes reais.

E eis que surgem as paixões, que nos poetas, além de serem movidas por Eros, são expressas em palavras pelo sopro de Erato.

Venha… Jamais me deixe nesta empreitada,
Erato das formas amorfas, que assume erudito encanto,
amaina esse juvenil-adulto-senil canto,
e me faça ver a tulipa azul da infância encantada.


Ouvindo... Puddle Of Mudd: Blurry