Erato

Email À Eleonora Mioto.

O sonho continua, e as matizes de cores imergem num degradê de sensações


Por vezes, faço questão de não ir à Conferência dos Sentimentos… Há coisas num mundo surreal dos sonhos que jamais superam essas sensações vivazes de conhecer os fatos do mundo, de compor nas ruas da ilogicidade… Dos arbustos florescentes na esquina, dos ipês amarelos forrando o chão dum tapete florido…

Canto, Erato, sem sofreguidão e lamento,
uma ode à beleza de um sonho em desvanecimento
que consiste num trafegar solitário e ausente,
refletindo as cores dum azul cingente.

Perpassa, dantes, teu manto escrito
polivalente, iluminado e bem sortido,
ao passo que teu clarividente espírito
se denuncie amiga da minha pena aqui curtido.

Ela. Erato. Nome austero, evidente. Acompanha-me desde idos tempos de frescor infantil. Nos poemas sobre os girassóis, nos jogos de troca-palavras sobre os blocos de arquitetura dos textos. Não foi muito manifesta sua influência, exceto por outros que com ela conviveram. Vinícius, Cecília, Quintana, Lisboa…

Borboletas, chuva, um coraçãozinho… Coisas saudosas de infância… O trem, o burrinho de andanças, o telefone de disco… Objetos e meios que não voltam mais.

O carvão, o animal e a mecânica deram lugar a outras coisas, nesta crua realidade. O tempo é implacável.

O tempo, cara Musa, poesia-inspirar
é implacável, não há do que cessar
as engrenagens dão lugar a eletroímãs
as últimas ideias serão sempre as primas.

Confesso, nesta infância sutil que eu vivia,
no concreto cinza, o que me apetece
é uma esfera de ar azul-celeste
que levitando, me consumia em alegria.

Eis os tempos que passam como um sopro em nossa vida… Nossos objetivos mudam, nossas ideias mudam… Conhecemos a dura realidade – a realidade física, sensível e dolorosa – e as magias da infância são desinventadas. Os apegos infantis cedem espaço a outros apegos.

Mais sorrateiros… Mais libidinosos…

Mas o romper está justo na flor,
que desabrocha na clareira, por entre as relvas
e subtende um convite de mistério e calor…

Manto da noite, que cobre sol e selvas,
vê o que me fez de meus olhos:
Abrolhos! Abrolhos!
E os lampejos doces e frutíferos da malícia,
convidam, indiscretamente a provar esta delícia.

A juventude é o meio mais divisível de uma psique humana. Muitas desgarram dessa magia infantil e endurecem seu coração para as realidades, tornando-as mais marmorizadas, opacas e numeráveis. Alguns raros (sem parcialidades, juro!) transformam essa magia feliz numa melancolia pungente, sempre constante e furtiva… Sempre furtiva, evoluindo num frenesi incontrolável, onde cada vez mais, os gestos, os afetos, e as pequenas letras tomam espaço para valorizar tão contundida existência.

Fenícias, falácias, funestas carícias,
como me enganaram, deixaram supressas,
as dores em alma, orifícios abertos,
que preencheu com tulipas de aromas de mar.

Fenícias! Citereias! Cianos olhares que fazem
nada mais que seu justo papel,
arrebataram esta feliz criança, agora é tarde,
deixem-na provar um pouco deste mel.

Erato se mostra uma Musa que está sempre presente, com seu papiro e sua pena, prontas a ceder a aqueles que ainda querem ver um colorido do minúsculo espectro do arco-íris de outrora, daquele tempo que, em algum momento da vida, desejou-se autopreservar do caótico funcionamento da maturidade. A maturidade, em tons cinzentos… Cada dia mais cinzentos, mais opacos, mais insossos e insalubres…

Sinto que meu passado me chama:
as luzes de pirilampos e as romãs do fundo do quintal,
os aros de aço-carbono-enferrujado e as bolinhas de gude
saindo do baú das minhas lembranças.

Ficando velho, volto a ser criança…
os humores deixo desvanecer na bonança,
e as memórias, vagas se avivam,
avivam como neste belo sonho.

Todo mundo tem a oportunidade de encontrar Erato em suas vidas. Basta lembrar das cores, sabores, sons e aromas da infância. As sensações e seduções dos tempos da pós-juventude são apenas simulacros de necessidades uterinas, e eis a razão: todo mundo algum dia se deparou em sonho com Erato. Amorfa, assumindo a beleza mais conveniente que agrade ao marinheiro de primeira viagem, ditando as sentenças-chave que apenas os poucos e raros se lembrarão ao acordarem, buscando nos mais diversos seres e profundos sentimentos onde encontrar seus correspondentes reais.

E eis que surgem as paixões, que nos poetas, além de serem movidas por Eros, são expressas em palavras pelo sopro de Erato.

Venha… Jamais me deixe nesta empreitada,
Erato das formas amorfas, que assume erudito encanto,
amaina esse juvenil-adulto-senil canto,
e me faça ver a tulipa azul da infância encantada.


Ouvindo... Puddle Of Mudd: Blurry

Mnemosine

Smiley com sono Outro dia, eu, imerso num sonho


Estavam concentrados todos os poetas e aedos de todas as épocas.

Estavam reunidos para a conferência dos sentimentos, uma conferência que ocorre ininterruptamente, em anacronia; bastava que alguma noite algum destes dormia e então o ingresso estava garantido.

O Breu do Esquecimento da Lucidez, no Mundo Físico, vez ou outra, atrasava o início desta conferência. Regado a rum, a café ou a ecstasy, os encontros casuais desse pérfido inimigo sempre encurralavam os convidados à portaria da conferência. E sempre os tiravam, sem muito sucesso, de um ou dois encontros.

Mesmo assim, a ausência de um destes era fundamental para o fracasso do todo.

Eu fui introduzido, não sei bem como, por uma das entidades curadoras desta conferência, em algum dia de minha existência… Se elas – as Musas – se encarnam em mil faces em diversos momentos de nossas vidas, quem saberá?

Desconfio que haja representantes diretas delas nesse mundo terreno, dando pistas de como elas se caracterizam lá, naquela conferência surreal. Muitas de suas características também aqui são refletidas.

Não muito raro, me deparei com Eratos, Calíopes, Terpsícores, Uranias… E até mesmo sua progenitora.

Mnemosine.

As pistas são tão evidentes que até mesmo um mais entendido é capaz de ser confundido. Pode estudar as Musas e sua Magna Mãe a esmo.

Mas as Musas não são estudáveis. São apreciáveis. E isso aprendi da pior (melhor) maneira possível.

No sonho, nesta conferência.

Raros podem encostar nela. Decerto, aqueles que já, em nosso tempo cronológico não mais perduram, não possuem mais amarras físicas que são capazes de conduzir a sensação de choque de alta-voltagem, magnético porém repulsivo, que qualquer desavisado e sem autorização atreve-se a encostar em Mnemosine ou em qualquer uma das suas nove filhas com Zeus Ajunta-Nuvens.

O castigo? Nenhum, exceto ficar com aquela imagem perseguindo sua reminiscente memória física – isso é castigo? – das vestes carmim, seus cabelos esvoaçantes e seus rostos tão lívidos e perfeitos, que quase nenhum simples rosto na face desse mundão insosso da realidade consegue corresponder a essa impávida face esbelta que se presenciou no sonho.

O que ocorre? Até que essa existência se desvaneça, nenhum poeta iniciado vislumbrará mais do que dez rostos na face da Terra. Dez rostos familiares, envolvidos num mistério etéreo, que enlaçam impetuosamente o pobre coitado a seu automutilamento literário – ou pictográfico, ou musical, ou qualquer outra, aquela que o desavisado ousou tocar.

E que diga de um que quis tocar, ao mesmo tempo, uma das filhas e a mãe?

Eu fui este louco… E acredite, nunca me esqueci desse sonho (real).


Ouvindo... Asia: Heat Of The Moment