Ignição

De raspante,
início de combustão,
o peso do ar em flamas
conduzindo o vórtice do consumo
exacerbado em calor, ar e matéria
num fogo fátuo, invisível
previsível nos seus portentos

Queima e junto com essa finitude
esparsa meu doentio flagelo
que tanto me conduz ao declínio
que me consome numa sarça ardente
incombustível e perene
– o fogo que nunca se apaga
e que sempre me deixa em medo
medo de mim mesmo
consumindo esse calor interno a esmo

Fumaça que ascende a intoxicar
o ambiente que aqui circunda
o fogo fátuo, chama incombatível
que consome a terra e o ar,
e a água seca, compenetrada
em sua auto-destruição

E as cinzas que restam, bem, essas
jamais se darão ao luxo de se tornar vida.


Ouvindo... Neil Young and Crazy Horse: Driveby

Poesia para os tempos de conflito

Humaneco

Para todos os homo sapiens (?) que forem convenientes a isso…


O humaneco
era apenas um animal
que gritava, berrava e esbofeteava
para intimidar seu semelhante,
e descobriu o fogo

O humaneco
com o fogo, descobriu
que podia aquecer a água que toma
e destruir a casa de seu semelhante,
e descobriu a forja de lanças

O humaneco
com a forja de lanças, descobriu
que podia caçar o seu alimento
e podia ferir o coração do seu semelhante,
mas podia ser ferido de volta ainda,
e descobriu a flecha

O humaneco
com a confecção de flechas, descobriu
que podia abater uma fera
e com uma larga distância
encravar uma no crânio de seu semelhante,
mas no titubear de retesar o arco
descobriu a besta

O humaneco
com o fabricar da besta, descobriu
que bastava um pequeno toque
para derrubar seu oponente,
mas ávido em ver seu serviço
ser efetivo contra seu semelhante,
para que o serviço seja rápido e direto,
descobriu a arma de fogo

O humaneco
com o poder da arma de fogo
derrubou civilizações inteiras,
mas querendo julgar-se racional
e enobrecer sua existência perante seu semelhante,
(re)descobriu o poder das leis

O humaneco
com as leis,
construiu um simulacro sadio,
da sociedade que queria,
com quem queria,
e ao semelhante que não queria
descobriu o poder do decreto de guerra

O humaneco
com o decreto de guerra
impôs ideais e expandiu seu território
em terras nunca imaginadas,
mas não lhe bastou ver seu semelhante
morto… Tinha que vê-lo sofrer amargamente
e descobriu os métodos de tortura

O humaneco
com a tortura
sentiu-se deus
e deliciou-se com as lágrimas
do seu semelhante,
mas vindo novamente a lei
e dizendo que aquilo era feio,
o humaneco não se contentou
e descobriu o veto à livre expressão

O humaneco
com o veto à livre expressão
criou o alheamento
da opinião formada do seu semelhante
que sofreu calado, com medo
de tudo o que o humaneco descobriu
e então se achou em direito de revidar

E então o semelhante,
que também nada mais era que um humaneco
descobriu algo muito inovador,
mas, sobretudo, primitivo:
descobriu o grito, o berro e a bofetada.


Ouvindo... Faith No More: Zombie Eaters