Radar Musical: Sessenta e Seis

Marisa Monte

Universo ao Meu Redor

[EMI, Phonomotor; estúdio]

Resenha por Douglas L. Melo

Marisa Monte - Universo ao Meu Redor

Continuando a dobradinha conveniente de Marisa Monte, a curiosidade posterior por essa dita contraparte se fez por canções como “O bonde do Dom” e pela curiosidade que me impelia, já não tanto quanto antes, das idas a estes e aqueles lugares, em busca de novas coisas… O tempo, por mais dizer, era da pesquisa, chave-motor de meu curso… Um colorido que, na ocasião de escrever estas notas presentes, se me revelou recomeçar, dependendo do meu esforço em conduzir minhas obrigações mínimas, e uma revelação, fantasiosa, de um sonho, das melhoras sobre os empecilhos da rotina.

Num ritmo frenético da vida, parar e prestar atenção, no anterior e neste álbum, é uma dádiva que uma solene pessoa deveria se dar em algum momento da vida…


Setlist

  1. Universo ao meu redor: há um clima intimista, sim, a exemplo do anterior… Mas o retoque do samba – ah… esse – faz um início de toada bastante interessante.
  2. O bonde do Dom: a toada da Lapa, uma lembrança de Noel Rosa, e uma voz feminina… A carro-chefe é muito eficaz.
  3. Faixa de destaque Meu canário: a tristeza cantada de uma forma tão linda pelo cantar do passarinho.
  4. Três letrinhas: uma baladinha afirmativa, gostosinha de se ouvir…
  5. Quatro paredes: toda uma orquestração bem trabalhada, um gosto musical bem referendado para se compor. Tranquilo, sim; inovador, não tanto… mas que importa isso? É tão bom.
  6. Perdoa, meu amor: a gente reconhece, de cara, um bom chorinho para se ouvir – pessoais à parte, me representa nestes dias.
  7. Cantinho escondido: o apelo intimista de MM, cantado em razão do companheirismo afetivo… Soa discreto, diminuto. Vale destacar o experimentalismo musical de fundo – isto é uma garrafa batucada por uma pequena barra de metal?
  8. Statue of Liberty: um leve cantar globalizado… ligeiro como a NY.
  9. A alma e a matéria: soa cristalino, como o tema… E ainda não bastasse, me lembra os tempos de 2005 – uma profecia sinestésica?
  10. Lágrimas e tormentos: o efeito musical de caixinha de música no início mostra um ímpeto experimental procurando permear toda a musicalidade do álbum. Falar das letras já é ser crítico excessivamente inóspito: tudo conspira perfeitamente a favor de se sentimentalizar com o álbum.
  11. Satisfeito: algo aqui soa a Chico Buarque – atire a pedra pro samba quem discorde.
  12. Para mais ninguém: nada que enjoe. No entanto, pensar em algo inovador a este momento seria superestimar a simplicidade do samba, colocá-lo no patamar de outros gêneros que são pressionados a se reinventar dentro de um mesmo álbum… Vamos seguindo, então, na mesma toada com carinho.
  13. Vai saber?: o refrêgo do combalimento soa aqui tão sereno, com uma estrutura de samba de fim de noite… O barzinho do morro está fechando, já é noite, e me parece que o futuro musical aqui soará tão saudoso.
  14. Pétalas esquecidas: os tercetos tão bem dispostos nos dispõem a pensar o quão belamente regular foi todo este álbum… Lindo e inesquecível.

Sambinha bom

Fico pensando o quão reducionista é categorizar com estrelinhas…

EstrelaEstrelaEstrelaEstrela e 1/2


Ouvindo... Marisa Monte: Satisfeito

Por ora, os poucos que ainda hão de ser feitos serão álbuns internacionais… estamos chegando ao fim de mais uma temporada.

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Radar Musical: Sessenta e Cinco

Marisa Monte

Infinito Particular

[EMI/Phonomotor, estúdio]

Resenha por Douglas L. Melo

Marisa Monte - Infinito Particular

O momento era das já minhas saudosas idas frequentes a Osasco, estando em ambiente, ainda suburbano de Ibiúna, indo e vindo em razão do meu curso. O que tenho desta época, em termos de lembranças, são as melhores possíveis… Os tempos dos colegas que, assim como eu, podiam dispor do tempo de não-aulas para passear, visitar lugares e ver eventos culturais. O carinho que tenho, refugado, por Osasco à essa época, remete aos cuidados com a música que tive pelas épocas de longa pausa entre faculdades.

Marisa Monte é uma voz terna que me embalou a finesse musical que cultivava pelo período da TV por assinatura e a ávida assistência pela MTV e VH1. Ela, futuramente, seria representativa de uma colega que tenho por muitíssima estima, quase que como por irmã. A suavidade nestes termos, que abaixo se descrevem, se tornam tão bucólicos, capazes de destrinchar o meu, hoje, tão calejado coração, pelos eventos recentes que me fizeram ser descrentes de um futuro mais colorido. Um tom, embora mais pálido, de cor nas músicas desta Musa de cuidado vocal tão esplêndido, espero que sejam o cuidado que necessito pelas ordens do meu dia, tão fatigado pelo já vivido…


Setlist

  1. Infinito particular: a estrutura ambientável da melodia e o contraste poético do lírico revelam “o melhor e o pior” de MM… O aspecto intimista da canção é, deveras, o mais casuístico do que ela se propõe a fazer.
  2. Vilarejo: uma canção para se ouvir na solidão da noite e pensar – por que o futuro não poderia voltar a ter o colorido de tempos passados?
  3. Faixa de destaque Pra ser sincero: a balada romântica… Ah… Essa necessidade tão ternamente melancólica para se falar das coisas do coração. Destaca-se a toada violeira e todo o batuque carinhoso.
  4. Levante: destaque pros metais de sopro, devidamente harmonizados com os vocais, leves e bem cristalinos…
  5. Aquela: um cadin’ cuidadosa com o arranjo… cadin’ bom… E bastante preocupada com uma ludicidade do cancioneiro, a meu ver, confessadamente nordestino.
  6. A primeira pedra: a lição bíblica colocada a foco para  as coisas do coração. Destaque para a estrutura musical, quase que com atmosfera marcial.
  7. O rio: uma música de efeito onomatopeico, um acalanto e uma lírica exemplar – nos sentidos que se possa promover. Bom pra se ler Mia Couto… Combina e muito!
  8. Gerânio: o tema floral, que exige o mais colorido dos nossos pensamentos para a vivência do mundo. O exotismo é o belo pano de fundo entregue nesse pequeno epitalâmio para o cotidiano.
  9. Quem foi: o paradoxo do cotidiano, que remete ao cancioneiro da MPB mais antigo – e estranhamente saudoso.
  10. Pernambucobucolismo: uma surpresa para a sequência do álbum… A estrutura ocultista e futurista melódica cria um ambiente ímpar, digno de se ouvir com mais cautela, antes de se nominar.
  11. Aconteceu: o princípio lembra um clássico Noel Rosa… A cadência misteriosa da música deixa um tema tão melancólico mais suportável, mais tão-comum, numa letra com ares de minimalista.
  12. Até parece: o sucesso intimista de música-dor-de-coração tem essa cara…
  13. Pelo tempo que durar: pianinho para uma música com cara de fim-de-noite… Está acabando os quase quarenta minutos de uma leitura muito pessoal do modus operandi de se fazer música… Parece ser uma profunda pena a coisa encerrar assim, humanamente sublime.

Acalanto bem terno…

Aquele momento que você exige se reestruturar para o futuro pede, dentre o universo de canções próprias para o tema, esta obra-prima.

EstrelaEstrelaEstrelaEstrelaEstrela


Ouvindo... Marisa Monte: Aquela

Na próxima oportunidade, a dobradinha de MM com o anteparo complementar musical dela…

Radar Musical: Cinquenta e Seis

Tim Maia

Tim Maia (1971)

[Polydor, estúdio; relançado pela Abril Coleções]


Terminando a sequência do síndico que me interessa – depois desses três resenhados surge alguns Racionais que prefiro evitar – esse último foi para mim de uma surpresa tão grande ter encontrado em algum lugar que não poupei esforços e me pus a  adquiri-lo também.

A ocasião não foi daquelas extraordinárias: tinha decidido minha vida espiritual em caminhos mais conhecidos fazem tempos, havia decidido meus rumos acadêmicos, e esperava pela big-new-thing [que até hoje parece não ter plenamente acontecido].

Como supunha, algumas das minhas canções preferidas do Tim que me faltavam encontrei aqui. E, apesar do álbum não ter causado um impacto tão severo como os outros anteriores me fizeram, talvez não tenha dado a atenção necessária a ele. Veremos como isso fica nesta – leiga – resenha.


Setlist

  1. A Festa do Santo Reis: uma ode à cultura local cristã, ao estilo todo Tim Maia, com direito a onomatopeia de bode.
  2. Faixa de destaque Não Quero Dinheiro (Só Quero Amar): sem palavras – bem que o mundo hoje poderia ser tão hedonista como canta essa [palavras de um financeiramente desprovido de recursos].
  3. Salve Nossa Senhora: mais uma vindo de baião, e o ponto de contato entre o divino e o profano [hein, Tim safadinho…!]
  4. Um Dia Eu Chego Lá: confissões de operário / proletariado, esperançoso na prosperidade financeira.
  5. Não Vou Ficar: como o romper de uma relação pode ser elevado à condição de uma música up? Perguntasse ao síndico enquanto ele esteve entre nós.
  6. Broken Heart: a primeira em inglês – o soul latente, e a confissão de que aquela presença especial nos faz bem…
  7. Você: a melhor forma semiótica musical do Tim com certeza deve estar aqui, nesta balada incrível que mexe com toda a tensão necessária para criar contrastes.
  8. Preciso Aprender a Ser Só: não combinou com o resto do conjunto… Uma quebra no crescente de qualidade, com uma música deveras sombria.
  9. I Don’t Know What To Do With Myself: uma contida recuperação, com direito a backing vocal em português e voz principal em inglês.
  10. É Por Você Que Vivo: isso é um sanduíche cujo pão são músicas tipo lullabies? Ah, não… Há um arranjo estupendo – contido, é verdade – no final.
  11. Meu País: um retrato da breve passagem do Tim nos Estados Unidos?
  12. I Don’t Care: manda bala, malandro internacional, e destila uma boa pra terminar esse álbum – tarefa cumprida!

Chama o síndico (de novo??)

O álbum possui suas propriedades, mas acho que um ouvido apurado, mais soul music pode contribuir com suas opiniões.

EstrelaEstrelaEstrelae 1/2


Technorati Marcas: ,,

Ouvindo... Tim Maia: Um Dia Eu Chego Lá

 

Termina aqui a tríade do Tim Maia, mas ainda há mais alguns álbuns a serem resenhados (minha estante que aguente tanto álbum assim…)

Radar Musical: Cinquenta e Três

Tim Maia

Tim Maia (1970)

[Polydor, estúdio, relançado pela abril coleções]


Interessado em conhecer mais da discografia de Chico Buarque, da qual há muito tempo havia coletado aquele incrível álbum contendo “A Banda”, descubro que a coleção havia cessado nas bancas – com uma periodicidade semanal, acredito que só fãs reais puderam cumprir o objetivo de ter toda a coleção do Chico em mãos – e iniciado esta do Tim.

Pois bem, sempre achei, acima dos contratempos que se puseram na vida do Tim, uma boa pessoa, e um excelente cantor. Numa linguagem simples – longe de até ser simplista – Tim sabe fazer música… Não só pelos hits emplacados, mas pelos lados B, ignorados pela mídia. Os músicos que o acompanharam imprimiram o mesmo sentimento de positividade, seja nas canções de cunho passional, seja nas mais alegres e upbeats.

O resultado se apresenta na forma de – curtos? – trinta minutos recheados de uma mescla ímpar de MPB com soul, bebido direto da fonte.

Setlist

  1. Coroné Antonio Bento: nítida influência do baião – e a excentricidade do coronel…
  2. Cristina: o meio caminho entre o soul americano e a nossa MPB – a paixão transpirando a saudade de uma mulher.
  3. Jurema: a lenda de uma mulher – as influências do soul americano e do tempo de estadia nos Estados Unidos nessa em inglês.
  4. Padre Cícero: uma minúscula biografia de uma personagem real e típico de nosso nordeste…
  5. Flamengo: uma pequena brincadeira-homenagem ao (possível?) time de coração do Tim, animada e recheada de uma ovação, digna de estádio.
  6. Faixa de destaque Você Fingiu: densa, mas cheia de elementos grandiosos: um eco permanente, cordas à vontade, e todo o potencial vocal do futuro Síndico.
  7. Eu Amo Você: um tema tardio de novela, coral suave, Tim em modo lento e um pronome reto como acusativo, pianinho, cordas e um tema para apaixonados… Eis o sucesso dos primórdios do soul brasileiro?
  8. Primavera (Vai Chuva): no começo, imaginamos uma sequência que quebra a “melosidade” das anteriores, mas vemos que estamos na parte mais romântica do álbum – inclusive falamos aqui de uma das mais interpretadas…
  9. Risos: uma atmosfera de ciranda confere caráter único a esta canção (uma candidata a música de roda pro futuro?)
  10. Azul da Cor do Mar: quem se perguntava onde estão as canções de incentivo, próprias do soul, achará aqui a resposta, nesta canção bem upbeat, que remete às imagens da praia, como o reduto dos sonhos.
  11. Cristina nº 2: uma reprise, mais acelerada de uma que já, lá no começo, havíamos ouvido.
  12. Tributo a Booker Pitman: quase um R&B – agrada a quem gosta de quebras de toda a forma, que surpreendam no final… Mostrando a competência de um cantor multifacetado.

Toca na Alma?

O álbum possui o tamanho certo… Nem mais nem menos. Agrada a muitos gregos e a muitos troianos, sejam eles entusiastas dos ritmos brasileiros ou dos importados.

EstrelaEstrelaEstrelaEstrela e 1/2


Ouvindo... Tim Maia: Você Fingiu