Melissa: A Dupla [3]

Dia dez… Me parece que, apesar da manhã nebulosa que faz aqui em São Paulo, eu e a minha – estranhamente atraente – irmã Daph seguimos nosso caminho pela linha que passa ao lado do Eldorado, em meio-ligeiros cinco minutos até a padaria da Estrela, onde vamos desembarcar e caminhar até a Cidade Universitária. De lá, pegamos os Circulares: ela, no lado daquelas casinhas máximas (ainda quero morar numa delas e ser a rainha do próprio espaço) em direção ao IME, pro seu curso especial; e eu, eu, bem, à minha amada-enquanto-grego FFLCH, assim porque eu vou encarar uma aula com aquele professor gente-fina…

Gente-fina? É como se houvesse uma criatura de bar imersa dentro do meu subconsciente, falando que o tal professor de morfologia seria pessoa confiável pra empreender uma conversa informal. Mas peralá, como é que posso dar crédito a alguém que fala que foi considerado superdotado no Japão? Sim, gosto de baixezas, mas gosto das baixezas clássicas, das escatologias priápicas, Aristófanes, o Falo no Jardim… Ah, o Falo no Jardim, qual digna obra do latim, eu a quero de presente da Beatriz… ooops, não! Rubens!

Engraçado… De repente, eu passei a admirar a minha grande colega do inglês Beatriz, não sei por quê motivo. Tudo bem, gosto de moças, não nego isso, negar eu sei que é ruim… Mas da Bia eu gosto pelo que ela faz, não pelo que ela é… Sobretudo porque me veio à mente aquele corpo de bailarina-de-dança-ventre em performance…

Uma imagem tipicamente de gosto masculino…

– Me-el! Acorda! Deu de dormir em pé? Veja: canteiro de obras. Chegamos.

Realmente… Deu de querer pensar mais que o normal por hoje… Como se mais uma consciência povoasse minha cabeça, e bem que estava me sentindo como que pensando fora de mim.


Tinha um sujeito falando bobagens no busão hoje… Ele falava no fim dos tempos, falava do que eu bem conheço pela Máquina do Mundo, Imbecil, Diz que faz matemática, mas não faz no IME, está com um jornal nas mãos, lendo a coluna de Cultura, Aquelas novelas da Globo, bem eu sabia santo Chomsky que não fazem bem, Viu Fantástico, anda cumprimentando todo mundo com uma cara de bunda, O pai dele não faz nada!!? Alguém, por favor, dê um atestado de demência pra ele? Bem, não posso me preocupar com estranhos, sobretudo com estranhos que andam anunciando o fim dos tempos… 1999, 2000, 2012… onde vamos parar? Máximas de Grice, vocês são o meu mantra em horas assim. Ele olha pra mim com uma cara de quem viu um assombro, como se lembrará disso por décadas e décadas, santíssimos! Se parar pra pensar, ele tem aquela cara de alien, feito uma lembrança remota e tão recente que me absorve a cabeça.

Detesto essas pessoas que ficam esquadrinhando sua alma, com a face mais descarada possível e inimaginável. Apesar dele se denominar matemático, eu bem vejo – pela pouca psicanálise que conheço – que ele será daqueles grandes observadores do mundo, daqueles seres que querem descobrir a palavra perfeita, o verso sublime, o objetivo gigante. Há algo naquela alma muito grandioso. Isso é uma afirmação que faço em mente, Faço e assento, basta aqueles olhos esbugalhados pararem de ver o evidente, e passarem a ver o profundo das coisas, Saber esquadrinhar o universo interno dos outros, Saber ver sem ver com as vistas, Bem sei o que é ver o que não é visto, Vide o morfema vazio, vide as estruturas invisíveis das línguas, vide tudo, meu jovem. Te dou um augúrio: você sairá dessa certeza de exatas, meu caro, Sairá dessa certeza e perceberá como o mundo das incertezas das humanas é muito mais interessante, Não virará os olhos para os lados, diante desse ente mais completo e intrínseco da existência: a língua.

Pronto! Ele desceu na UNIFIEO, e eu sigo com os ventos que levantam as folhas no decorrer do caminho em direção à portaria três, O dia nublado na capital paulista será muito produtivo, Algo há, Theo, Algo há de divisor de águas a partir de hoje, O matemático, ah o matemático, Foi só uma infeliz coincidência, Coincidência de quem vislumbrará algo novo provindo do Destino…

E pensar no Destino assim em maiúsculo, me lembra invariavelmente na chata da Melissa aaah!, eu vou ter que encarar ela no meu encalço mais uma vez.


“Pensei no Destino, Bia”

O quanto eu agradeço pela minha habilitação… Não há palavras pra isso.

– Imagina, querida! Eu é que tenho que dizer o quanto o Destino é importante pra mim. Pra mim, pra você, pra todos… Eu juro que quando entrei aqui, não entendia dessas coisas… Achava o mundo grego uma coisa de sete cabeças…

– Sete cabeças só a Hidra, querida Bia!!!

– Enfim enfim… Deu até vontade de fazer matérias do grego contigo.

– Eu sei. E quem não fica com vontade quando ouve falar da mitologia?

Se bem que eu acredito piamente que não há uma simples mitologia. Acredito no mito do Andrógino, acredito em tudo que Platão disse – e a Elaine contesta, mas mesmo assim a considero modelo de influência – e bem imagino o quanto seria menos conturbada a época se voltássemos aos preceitos da grécia clássica.

– Ah, Mel! Você é um gancho na habilitação, sabe? Anote minhas palavras: acho que dentro de cinco anos não haverá outra como você. Sabia que o Theo até está se prestando a fazer uma matéria clássica também.

Pronto… Meu dia se inicia muito bem… “Valeu, senhorita Beatriz.”

– Ele? Bia… Bia… Ele é um pobre coitado que só foi parar na Linguística por medo de aprender uma língua. É sempre assim… Esses linguistas estão ali porque não querem literatura ou não conseguem adquirir léxico. E vale aquela máxima: se não aprende bem um algo, se aprende muitos algos não muito bem.

– Ah, Mel… Querida! Não acha que é implicância sua alfinetar desse jeito o pobre coitado do linguista?

– Nãoooo, Bia… Não é a questão dele ser um pobre coitado. Coitado um coisa nenhuma. Ele bem entende do que ele sabe, sabe de muito, sim, eu sei, mas sabe. Deve ser uma daquelas pessoas que queriam se realizar na engenharia, sei lá.

Volto a tomar um gole do meu suco, enquanto a Bia me olha com uma face tão paralisada.

– Que foi?

– Fiquei te estranhando… É você mesma?

Por que estou sendo posta em dúvida?

– Hum… Por que você diz isso, Bia?

– Numa hora dessas, você se divertiria fazendo do Theo seu saco de pancadas.

– Queee… Quem disse que me faço de saco de panca-a-a-a…

Nem me dei conta se tomei todo o suco da Lanchonete. Só me vi indo pro banheiro num lance de escadas como que o raio de Zeus que consumirá os ossos do boi.

– Mel… Me-el! – a Bia está batendo na porta do meu banheiro. Mas não sei se abro pra ela.

Fala!

– Tá passando mal?

Será que só eu percebi o clítico erroneamente utilizado no contexto? Ou será que a Bia estava pensando em inglês e esperava por um enclítico? Eu ando me perguntando o porquê da primeira pessoa se manifestar dessa maneira tão absurda hoje, como se houvesse outro ser dentro de mim.

E, principalmente, ando me perguntando o porquê acho conhecer tanta linguística quanto o Theo… Será que os deuses estão de brincadeira comigo? Gosto de acreditar no joguete do Destino, mas acho que hoje está um pouco demais…


Eis, Prédio de Letras, Lar de Camões, de Pessoa, de Machado, de Clarice – embora eu concorde com o professor metaleiro que ela seja uma escritora-cozinheira-de-fogão – de Drummond e agora de Saramago, São quase quinze pras oito, e há um monte de gente na área externa, uns descansando na mureta, alguns outros puxando um beque, Não que eu vá contra eles, mas eles por eles e nós por nós, Ah, olha lá o Caio, grande bixo, Diz que vai fazer linguística, Bom caminho o dele, a Vanessa colega de bons tempos de ano básico, foi pro espanhol, Dizia que me seguiria no árduo caminho das pedras da Linguística, que fraquejo! Olha só, o Luiz, como vai meu camarada? É assim, muitos gestos, poucas palavras, hoje decido investir no extralinguístico.

Fome… Não fosse a Corifeu, hoje iria bandejar no café, com a Elisa e a Sara, gente incrivelmente especial, Eu falo, elas vão derreter corações algum dia, Fazer o quê, meu caminho mesmo é ir naquela lanchonete que a cada gestão do Centro, vai inflacionando os preços, mas fazer o que…

Olha só, a Bia está lá, com dois sucos de laranja na mão. Ela não é dessas coisas. Olá, Theo, ela me chama, saudades dela, digo, Tem promoção de fidelidade de clientela, brinco com ela, Ah, o suco? Nada demais, alguém deixou aqui, mas acho que não aguento tanta laranja. Tuuuudo bem, não sou de rejeitar suco, já peguei. Hum, sem açúcar, como bem gosto, e gelado! Ei! Quem pediu esse aqui? Aaah, aquela minha colega, a Mel.

Tive que me lembrar de Grice para evitar de cometer uma gafe diante da minha amiga Bia. Compartilhar da mesma garrafa da Melissa, benza! Não é por nojo meu… Poderia ser do dela, Ela volta pra buscar? Não, não creio, tava falando com ela, de repente ela seguiu caminho pro banheiro. Nossa! Nunca ouvi falar da Melissa passar mal, o que foi que houve? Ahn, eeh… Bem, acho que deve ser uma rinite, sabe né, esse tempo nublado, fumaça da Rebouças.

Bem alguma coisa me chamava a atenção, Tudo me parecia misterioso, Um aroma de cerrado tomava conta de minhas narinas, Era a chapada, era a noite me chamando à lembrança, Experimento, Experimento.

Me sentia impelido a caminhar em direção ao espaço aberto da Letras com a Sociais, haviam cerca de vinte pessoas por lá, talvez mais, Não sei, Era algo além de mim, Vi ela, o mistério de desde os meus tempos de início de curso, aquela beldade que por algum motivo desconhecido sempre entrava em pequenos atritos comigo, Pequenos, eu digo, pois no que a vi, um espírito complacente me impeliu a Está tudo bem com você Melissa? A Bia me falou que você passou mal, quer uma ajuda?

Não entendo o que tá havendo… Só consegui processar agora o que presenciei, quase que como espectador, quando ela me olhou com as pupilas mais que contraídas, com um tom de voz totalmente diferente do já costumeiro. Que é que você está fazendo aí!!! Por que você não vem pra cá ocupar o seu devido lugar!!! Eu devia estar aí!!! Maus agouros pra você, seu monstro!!!

E se recolheu num passo desconcertante, quase que no choro, com todos os presentes, desde a escadaria até o acesso da biblioteca, nos olhando, Sinceramente Melissa, quanto mais tento te entender menos te entendo, Não há Semiótica capaz de te explicar.


Ouvindo... Sophie Ellis-Bextor: Bittersweet

Melissa: A Dupla [2]

A terça de manhã me soa surreal… Do nada, já me desperto dum desperto muito inócuo, lembro-me dos ruídos incessantes tomando posse de meus ouvidos, Cara, como eles zunem até agora, Lembro-me dum sonho tão palpável mas tão palpável, uma narrativa tão acessível, Será que foi verdade? Não, não pode ser, Eu não acredito nessas coisas de aliens, Mas meu sonho – se é que foi assim – me trouxe dois personagens, esguios, magrelos, com contornos suaves, com olhos avermelhados e evidentes, Uma palavra que me soa constante no inconsciente – experimento – experimento – fica ecoando na minha cabeça, Não é porque o ouvi nesse fato, sequer me lembro de alguma língua humana naquele momento, Mas é como se fosse tão familiar, Tão familiar aquela ruidera, Meu Chomsky que me salve! É ele, Sim, é ele, Tem certeza, Óbvio, procuramos tanto tempo por isso, É nossa chance de descobrir o potencial desses seres, O que raios acontecia nesse sonho, não sei bem dizer, Uma dor me persegue até agora na nuca, um calor bem intenso. E se nos enganarmos, Não sei, O que pode haver é um aniquilamento de consciência, E se ocorrer, Que não ocorra em público, Por quê, Silêncio, ele pode estar entendendo, Estou vendo, Estado de suspensão, rápido, Espero que ele tenha períodos de descanso fácil, Essa raça é previsível, entrega-se à loucura e ao desvario com algumas dezenas de horas despertas, Jamais vai achar que isso é real, Asseguro.

Gelo possuindo minha alma, a imagem de toda a minha vida sendo repassada na minha frente. Meu primeiro brinquedo, minha primeira palavra, detalhes que me tomaram a consciência aleatórios, misturados. Chomsky! Me dou conta, e me encontro estarrecido diante do Sol da manhã, refletindo sobre como seria eu se não fosse eu, Por que você faz isso, Sei lá, lidando a noite toda em aceso, em apagado, não sei o quê qual motivo, penso em mim fora de mim, Foi como se eu tivesse sido arrebatado de mim e posto noutro corpo, Ficava vasculhando minha cabeça tentando lembrar de alguma coisa que algum grego lá dos tempos dos grandes discursos filosóficos comentava, Mas ah cara, Sem crises, Sua vida é a ciência lógico-discursiva na linguagem, o Gerativismo é tua pátria, gregos? Ah, vá a merda, os gregos ficaram pro passado, nem língua viva eles têm, O que há de herança hoje? Um país submisso à União Europeia, Onde está o passado glorioso, Quem sabe, Quem sabe é apenas aquela tua colega Melissa! Ah não, a Mel…

E fato é que devo estar farto de Diamantina, Fofocas, focas estranhas tomam meu imaginário, algo que veio como que um automático, Como pode isso, Não sei estou cheio de perguntas e poucas respostas, Só me lembro do desejo da noite de segunda, e que amanhã, começo meu quarto semestre, Quatro sempre foi meu número de sorte, Um quadrado, os ângulos retos, A retidão, O positivismo e a certeza de que o Gerativismo resolve tudo. Que vão à merda os Estruturalistas, os Cognitivistas, os estudiosos classicistas, importa a minha Linguística, importa que basta um simples método acústico, Eu sei, A lógica distintiva, E pronto, Basta decidir quais itens da linguagem promover para verificar o quanto o método é infalível.

Infalível, É ele, Não há outro, Não fosse essa cabeça cheia de ruídos, teria eu plena consciência de ver ele em sua totalidade, Mas essas fofoquinhas tão estranhas que me absorvem à cabeça, Não sei, deve ser a noite mal dormida, e eu tenho uma necessidade urgente de tombar à cama, Mas o café me está aí, Meu jovem, algum problema, Não não, estou bem, Certeza, seu rosto se encontra pálido, Pálido, Palidérrimo, Fosse eu dizer pra você, menino, tu teve de ter uma experiência ufanística, Mesmo, Verdade, dizem que aquele paredão que você fez o repouso na última noite, por vezes, é visitado por etês, Etês! Verdade meu jovem, ontem mesmo, tava lá com meu caboclo, ele dizia, Mulé, vem vê o que tá ali vagando no céu. Ai, João Caipora, respondi, deixa se aprumar, não percebe que são aqueles tais de vião que o povo da cidade fala tanto, vai ver um pouso de mergência. Deixamos o assunto morrer, e fomos cuidar do nosso forninho. Mas descanse, Não, não posso, a viagem será longuíssima e eu tenho que partir o quanto antes, Certeza, Absoluta, Eis a conta, jovem, dinheiro ou cartão?


Nunca tive a sensação tão magnificente de me banhar e sentir a pele tão lisa quanto antes… Eu, Melissa, meia-irmã da Daph e invejada por muitas na Faculdade, como não me dei nisso antes, e refletia, numa fração de segundo, o quão bom era ter, depois de tanto tempo, ter me olhado detidamente no espelho. Saí de uma noite terrível, era como se não tivesse dormido há dias… Estava cansada! Sim!! Estava cansada, e renovada, e bem não sabia, por que, ao mentalizar essas coisas, me soava tão estranho me qualificar com o feminino. Afinal, eu era uma mulher, e estava espetacular. Apesar do tempo nublado que fazia por aquela hora, tinha certeza de que poderia sair pra desforra me valendo do arsenal que me esperava do lado de fora.

– Ó sua doida! Vem cá, vai me deixar tomar o banho ou fazer uma super-produção? Arranjou namorado, enfim, Mel?

… ó Zeus! Lançai um raio de oblívio nessa ignorante. E o rogo foi tão intenso em mim, como que se a instância de um homem tomasse meu ser. E essa sensação me acompanhava desde a hora que acordei…


Nove, um número que sempre me incomodou, terrível martírio, E quando vou dormir, Não sei, Cansado, Só quero me esbaldar na cadeira do rodoviário a caminho de São Paulo, e começar a me preocupar com a Linguística meu amor, e português o meu terror. As paisagens se sucedem, desde a manhã e até a noite, Uma melancolia me toma seriamente, como que se abandonasse uma parte de mim lá, na Chapada, como se uma vida fosse lá, Deixada, Experimento, Experimento.


A Daph estava lá, esperando na porta, com o seu pijaminha verde-piscina, com sua face corada, parecendo uma bonequinha.

– Vamos, Mel… Eu sei que tu demora uma eternidade pra tomar esse banho, mas eu tenho que ir pro IME logooo!

E depois de tentar lembrar a (diga-se de passagem longa) noite de sono que vim a ter, percebi que havia algo de diferente naquela manhã. Perguntei a mim mesma se possuía quarenta anos, dado que sentia ter uma longa experiência de vida, como se tivesse vivido duas vidas, e muito distintas: como se, a cada sonho que tive, vivesse uma era, uma experiência de outra vida. Fazia sentido pra minha imaginação pensar que o panteão olímpico queria testar minha honra e glória, me atribuindo uma segunda vida. E eu sabia! Sabia muito bem o que fazer, os sonhos não eram disformes, ilógicos ou sem nexos. Talvez um surto de consciências no plano mais profundo das ideias me perturbava. Uma experiência exata, strictu sensu, a lógica, o estruturalismo, o gerativismo… Lembro da Linguística básica do ano anterior, e ela passou a fazer melhor sentido em certos aspectos. Pensei na FonFon do semestre anterior e como todas aquelas explicações tão rápidas do Viaro faziam sentido agora, e de um modo surpreendente. Lógica na fonologia, lógica na sintaxe… Uma segunda leitura de literatura se apossou de mim, um modo diferente de vida…

– Orra, Mel! Parece que você tava travada na privada. Não sei o que demora mais: um homem no envio do barroso vaso adentro ou a gente.

Daph está afiada hoje. Percebia muito rápido que algo me possuía a cabeça. Algo que pesava junto com tudo aquilo que aprendi de casos morfologicamente marcados, desinências e contratos… No grego, eu repetia pra mim mesma, no grego.

E, ao levar as roupas para minha cama, me encarei uma segunda vez no espelho, agora nua: não percebia antes o meu próprio corpo. No começo, tive uma sensação de prazer inexplicável, um segundo espírito me chamando a me jogar na frente daquela imagem. Eu estava vivendo plenamente o mito de Narciso, tive medo de estar apaixonada por mim mesma, mas com alguns minutinhos a mais, convenci-me de que apenas não me encarava há tanto no espelho… Percebi uma marquinha de nascença no meu braço esquerdo, debaixo do pulso, e ela era misteriosamente geométrica: havia ali como que uma estrela de seis pontas, vazada num hexágono ao centro, do tamanho de uma unha do dedo mindinho.


O sono vinha e não vinha, O peso das pálpebras aumentava conforme eu seguia caminho pra capital, bem como minha cisma com relação àquela noite, A luz que me tragava deixava um vácuo dentro de mim, Passei a sentir como se tivesse vivido metade de minha vida, e a outra estivesse perdida, Mas os meus quase vinte anos estavam ali, intactos, Nenhuma das lembranças de infância foram apagadas, E por que seriam, Estava pensando demais, devia ser um choque de temperatura, É, é um choque de temperatura, Uma água, um café, A paisagem se avoluma, luzes de Belo Horizonte se aproximam, São Paulo estará aí, e terei um sonho melhor esta noite Se teria Medo da luz Medo do experimento Medo do vazio Medo do medo do desconhecido, Quantas vezes não tive medo, Sei lá, você teve medo muitas vezes e, Opa! O que é isso? Uma marca debaixo do meu braço esquerdo, na altura do pulso, mostra uma estrela de seis pontas vazada por um hexágono, Nunca te notei aí estrelinha, Não é uma tatuagem, Não é uma queimadura, O que seria, e o Sol, aquela luz amarela do dia que revela tudo, parece me reservar uma quarta-feira incrível, como se eu nunca a vivesse antes!


Nunca fiquei tão satisfeita em compor meu visual pra aquela manhã… Percebia o frescor do vento: como me sopram bons augúrios o Zéfiro que ressoa impetuoso janela do quarto adentro. Daph está preparada pra sua aula de Estatística – ela é ouvinte em condição especial na turma; se ela desejar e ingressar lá, pode aproveitar os créditos – e eu ainda estou decidindo se visto o All-Star clássico ou o marca-texto cor-de-abóbora.

– Arrasa, mana! Pega esse chamativo All-Star e desce pro mundo e mostre a Safo que existe em você!!!

E eu já via, no mirante do Sol que vinha do Leste, a luz que me traria, na Maria Carolina, a manhã que me trazia presságios de mistérios a serem descobertos.

Já eram quase sete e meia: duas horas quase que de reflexão sobre mim, algo que desde que decidi pelo grego em minha vida, nunca pude fazer. Havia uma séria impressão de que uma única imagem me deixaria aturdida pelo resto do dia, da semana, e, quem sabe, da vida. E a imagem – pasme! – inconscientemente me soava como se fosse estranho… Estranhamente particular.


Narciso Sturlini, Minha última parada e bastava alguns passos rua acima pra casa Como dói Não dormi nadinha, pensando na marca que ali cada vez mais não parecia estar, Me lembrava do que houve, Sono, sono, experimento, não aguento mais, Minha mãe, zelosa, viu minha face absurdamente pálida, Filho, Quié mãe, Que cara de morto, Vai… Tome um cházinho, não vá pra aula hoje, Não, tem aula dum tal de Araújo, dizem que ele é genioso, não quero arriscar, perdi quase dez dias. Vá! Toma! Não manhê, Eu tranco a porta à chave e daqui você não sai até tirar esse sorriso de frouxo, Tudo bem, Aaah, as mães: a instância ditadora do feminino, Como seria bom que todos os pais fossem pais, varões, mulher combina com paixão, com amor fogoso; homens com respeito, com ordem e com rigor.

A caneca me vêm às minhas mãos, um vapor sopra e ganha cor diante do vento uivoso que me bate do Leste, Engraçado, vejo um vapor colorido, Ao ingerir a primeira dose, uma série de vozes toma minha cabeça, Vozes femininas, Vozes de criança, Confissões acerca dos rapazes, Meu Deus! Jesus apaga a luz, migaaa! Que é aquele rapaz gatoso da Penha, todo garimpado no ouro, Ah, ele é Beltrano, ele tem um Porsche, a família dele é muito aprumada, é da vizinhança da Mel na Maria Carolina, ei! querida, o que tem a dizer deles? Eu, eu não tenho nada a dizer, só vejo ali um homem, um homem muito cheio de si, Sinto minhas pernas flutuarem, encontro o encosto do meu sofá e admirando o Sol que começa a ensaiar a saída das frestas do (acho que era) meu quarto, meus braços adormecem, e a última luz que vejo por um não-sei-quanto-tempo é um translúcido verde, partindo do meu pulso esquerdo, junto com uma indescritível sensação de atravessar uma película eletricamente forte, e a luz do despertador apontando o início da manhã do dez de agosto.


Ouvindo... PSY: Year of 77 (77? ??) [feat. LeeSSang & Kim JinPyo]

Melissa: A Dupla [1]

Cinco e meia: o meu despertador toca, e é engraçado! Eu sempre costumo despertar do lado esquerdo da cama, e agora estou despertando do lado direito, e o que é mais interessante é que sequer dei de cara com a parede, mesmo sabendo que na noite anterior, tava lá ela do meu lado direito, portanto tinha que acordar pelo esquerdo… Também não tinha um espelho tão grande assim no meu quarto (um pequeno fio de luz adentrando o quarto que me fez percebê-lo). Mas, como é de costume, sentia necessidade de ir ao banheiro… Não estava me preocupando com a disposição das coisas, que ao mesmo tempo soava tão estranha e tão familiar. E fui. Peguei minha toalha de rosto – que a propósito estava bem mais macia – e segui pro banheiro. Inclusive o caminho do banheiro era o inverso, como que se eu tivesse entrado no mundo dos espelhos…

De repente, meio que a um acesso de inconsciente profundo, me vi num embaraço porque, quando arriei a calça, meio que no aperto da urina, vim a borrar meu pijama… Meu belo pijama rosa de bolinhas vermelhas…

Espera um pouco… Por que borrar? Não tinha deste costume até a última noite… Era certo que se fizesse a necessidade urinária de pé, nada aconteceria… Talvez um pouco de derramamento nas bordas do vaso, um pouco de urina a limpar durante à tarde…

Mas isso foi o exame detido de consciência… Estava, no banheiro, a roupa pra usar no dia que se iniciava. Após lavar a remela dos olhos que me deixavam em alvoroço, me veio o grande susto.

A roupa constava num conjunto de blusinha cor violeta, e um shortinho jeans daqueles bem adornados de peças metálicas.

O banheiro tinha ares de banheiro de uma jovem de dezesseis anos. Azulejos e revestimentos em tons que variam do rosa ao vinho.

E, dentro do boxe, havia uma calcinha.

Deuses gregos que me salvem! O que está havendo aqui! E de repente, me dei conta de que a região frontal do meu corpo pesava em volume, bem como a região da linha dos quadris. Uma sensação fisiológica bem diferente, porém muito familiar. E então, aconteceu uma coisa inexplicável quando me encarei no espelho.

Eu era uma moça de vinte anos, bela, pele lisa sem espinhas, cabelos ondulados levemente tingidos com um tom de vermelho arroxeado, e por mais que me revire durante o sono, basta uma escova de oito minutos e voilá, inveja das amigas sobre mim! Tinha seios bastante volumosos, com um caimento impecável, uma proporção de cintura e quadris de causar acidentes de trânsito e todo esse conjunto, da cabeça aos pés, era algo fantástico de se ver, sou linda, perfeita e gostosa! Eu me amo, minhas amigas me invejam e os rapazes me desejam! E nesse último exame de consciência, me detive amargamente, com uma inexplicável repugnância… Foram segundos de um fluxo de informações que me tomavam a alma e a mente.

O atordoamento culminou quando vasculhei nos inócuos pensamentos meu nome: Melissa Franz Selkie, tenho uma meio-irmã um pouco mais nova, mas nem tanto… Dafne, filha do mesmo pai. Sou uma aluna do curso de Letras da histórica Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, faço grego e português, e ingressei no ano de dois mil e quatro no curso. Havia algo de estranho em tudo isso, não cansava de repetir a mim mesma: eu tinha uma história, tinha uma infância, tive meus problemas de mulher… minha primeira menstruação aos onze anos, os incentivos particulares de prazer no escondido do meu quarto, minha primeira vez com um rapaz que pouco valia com treze anos – algo que profundamente me enojava – e minha experiência quase secreta aos dezesseis com minha melhor amiga, fazendo sexo – que me excitava toda vez que pensava nisso, e não hoje, mas como que se fosse desde sempre – que quase me deixou atordoada, quando durante um ano, minha querida mana Daph – assim me referia carinhosamente – cogitou me denunciar aos meus pais o fato, e assim conseguiu uma série de vantagens no nosso colégio… Mas, de todo, foi até bom… Não olhava pra minha meia-maninha como ela mereceria. Ajudei ela a ganhar auto-estima ao incentivá-la a namorar um amigo de confiança que tinha… Uma moça discreta, que quase não se fazia invejar, hoje, via, uma moça feita, robusta, tão bela quanto eu… O estranho que persistia é que, lembrando o quanto ela é hoje por causa disso, um instinto de desejo possuiu meu corpo, o que não acontecia antes. Era minha irmã… Meio… que seja, mas jamais a havia olhado com olhos assim.

O fato, é que me perguntava o porquê de me estranhar naquela manhã de dez de agosto de dois mil e cinco. Fazia um tempo fechado, mas certeza que não choveria… Ouvia o vento como que se me contasse uma poesia, uma sublime canção, como que se já a tivesse escutado de outros tempos. Segui pra minha ducha quente, e desatei a imaginar o quão divertido seria meu dia com a matéria de Língua Grega II e de Morfologia do Português.

Mas aí, me veio outro surto de consciência… Me lembro de um sonho tão tátil e sensível que tinha um toque de realidade que comecei a pensar se ele seria verdadeiro. Fato é que se eu escrevesse no meu diário, e viesse a guardá-lo e lê-lo daqui a um ano, me surpreenderia com os resultados.


Oito de agosto de dois mil e cinco. Que bela noite observo na chapada Diamantina, as estrelas se detêm em meu olhar de astrônomo apurado… Aquela matéria de Astronomia que fiz no IAG valeu-me enfim de muita coisa. As estrelas nunca foram assim tão vistosas como na capital… Pena que amanhã vou seguir caminho de volta à minha faculdade… A Linguística me espera na quarta-feira… E aquela aula maçante de Morfologia, onde tenho que aguentar aquela esnobe da Melissa…

Esnobe, porém esplêndida e desejável Melissa, entusiasta do grego!

Mas tenho a terça-feira de uma manhã com um café-da-manhã, à moda do sertão…

Uma estrela-cadente perpassa o céu… Fazer um desejo, diz a tradição… Tolices… Tolices… Mas nos rendamos a ela num contexto de tamanha calmaria. Quero ter um ano incrível, disse a mim mesmo, já num decorrer de ano que foi cheio de altos e baixos até então… Mesmo perdendo bons dias de aula, foi feliz ter me dado o direito de fazer esse retiro social.

Mas me foi muito interessante ver a curvatura da estrela que se tornava cada vez mais evidente. E quando me dei conta, assombrei-me com o clarão que dois minutos depois tomava o ambiente. Não tinha pra onde fugir. Um ruído de alta frequência tomava conta de meus ouvidos enquanto no clarão insuportável detia meu olhar nas duas figuras sinistras que se aproximavam na contra-luz.

E então desmaiei.


Ouvindo... Elton John: Understanding Women