Hiperatividade

Tarde da noite, e eu aqui acordado,
imaginando diálogos mentais
carregados de verossimilhança.

Trazendo fantasmas pro sono
anestesiando não mais o repouso
calibrado em pílulas behavioristas.

Talvez o gengibre deu uma sacudidela
ou a canela em excesso, eu não sei,
convém, agora, pôr-me a me dissipar.

Há diferentes latências
entre mim e outros humanos
uma frequência maior, perjuro
das minhas profundas reses.

Não vejo por outras vias
o desenlace do irreparável:
o tic-tac-toc agostino, em novas
formas veio e se perdurou.

Mas calma, uma hora o sono vem
e traz consigo o prenúncio dum novo Sol.


EmailEscola Em 12 de julho de 2013

Ouvindo... Rolling Stones: Citadel

A Revolução dos Bichos

Erros do mundo: como repará-los?
Porventura pensou para quem isso perguntas?

A mim? Artífice majestoso,
da triunfante lábia mágica,
o evento, antes ordinário
agora novas feições adquire;
não mais o tempo admite
os ratos de porões acuados,
os sapos brejeiros às cegas com msoquitos
e as raposas soturnas covardes…

Os tempos são outros; fui passado,
leões à caça se põem imponentes,
águias e falcões se visam em voos,
e os tigres, contumazes guerreiros
condensam, diante dos cascos de vídea
das rochas que as noturnas
criaturas delas se apoderam.

Eu? Pena – literalmente falando –
vi a ferrugem da Máquina
e me portei feito galinha.


Email Em 09 de julho de 2013

 Ouvindo... Limp Bizkit: Lonely World

Repouso-Letargia

O protesto neymarino

Eis! A amnésia coletiva
não havendpo mais motivos
para se erguer a voz.

As estradas continuam rodáveis
com seus buracos, sim!
mas rodáveis.

Compraram a imersão do desvario
querendo nominá-la
e descaracterizá-la.

Isso que dá, Magnânima Tétis,
compartilhar com outrem
tua esplendorosa Orbe.

Me recuso, neste caminho
simplesmente ordinário
ver o Barão, em pé, intacto.

Onde estão os filhos do descontento?

De volta a seus redutos,
esperando a Gloriosa Inflação…


Ouvindo... David Bowie: Cygnet Committee

Inquisição Rosária

Quando o Luís, rei da França
deixou-se cair pela inquisição
a Ciência tornou-se em medo
e seus produtos em combustão

Qual perda irreparável em ânsia
feito à humanidade em desvario
queimadas todas suas obras
materna aura decepciona ao vazio

Atraso intenso se fez na progressão
e ressentimentos que se comprazem
na vingança contemporânea nítida
dos abastados peregrinos em viagem

E a Inquisição Rosária, de intenções boas
fez o Inferno ficar cheio de ideias
da deposição das mentes ameias
que vingativas contrariam caras-coroas.


Ouvindo... James Taylor: Whenever You’re Ready

Poesia para os tempos de conflito

Humaneco

Para todos os homo sapiens (?) que forem convenientes a isso…


O humaneco
era apenas um animal
que gritava, berrava e esbofeteava
para intimidar seu semelhante,
e descobriu o fogo

O humaneco
com o fogo, descobriu
que podia aquecer a água que toma
e destruir a casa de seu semelhante,
e descobriu a forja de lanças

O humaneco
com a forja de lanças, descobriu
que podia caçar o seu alimento
e podia ferir o coração do seu semelhante,
mas podia ser ferido de volta ainda,
e descobriu a flecha

O humaneco
com a confecção de flechas, descobriu
que podia abater uma fera
e com uma larga distância
encravar uma no crânio de seu semelhante,
mas no titubear de retesar o arco
descobriu a besta

O humaneco
com o fabricar da besta, descobriu
que bastava um pequeno toque
para derrubar seu oponente,
mas ávido em ver seu serviço
ser efetivo contra seu semelhante,
para que o serviço seja rápido e direto,
descobriu a arma de fogo

O humaneco
com o poder da arma de fogo
derrubou civilizações inteiras,
mas querendo julgar-se racional
e enobrecer sua existência perante seu semelhante,
(re)descobriu o poder das leis

O humaneco
com as leis,
construiu um simulacro sadio,
da sociedade que queria,
com quem queria,
e ao semelhante que não queria
descobriu o poder do decreto de guerra

O humaneco
com o decreto de guerra
impôs ideais e expandiu seu território
em terras nunca imaginadas,
mas não lhe bastou ver seu semelhante
morto… Tinha que vê-lo sofrer amargamente
e descobriu os métodos de tortura

O humaneco
com a tortura
sentiu-se deus
e deliciou-se com as lágrimas
do seu semelhante,
mas vindo novamente a lei
e dizendo que aquilo era feio,
o humaneco não se contentou
e descobriu o veto à livre expressão

O humaneco
com o veto à livre expressão
criou o alheamento
da opinião formada do seu semelhante
que sofreu calado, com medo
de tudo o que o humaneco descobriu
e então se achou em direito de revidar

E então o semelhante,
que também nada mais era que um humaneco
descobriu algo muito inovador,
mas, sobretudo, primitivo:
descobriu o grito, o berro e a bofetada.


Ouvindo... Faith No More: Zombie Eaters