Confissões [9]

Não…

Por favor, colega… Mal te conheci!

Não sabe o quanto teu elogio é um veneno pra mim… Um veneno desejável, procurado, uma morte moral certeira… Não me ludibrie! Isso é perigoso.

Sabes agora o quanto a solidão me afeta… E já é tarde! Não posso voltar atrás. Me deixou inteiramente aos teus pés!

Por favor, seja rude comigo, colega, eu te peço. Não massageie meu ego tão intensamente como você outrora fez. Vou acabar por me dopar com semelhante droga e pedir cada vez mais por ela. Não massageie-o! Seja um pouco contida, ofereça resistência, deixe-me confuso, deixe-me doido… Ou deixe-me…

… Pois que a amiga que tanto me declaro já deve ter saído de cena, justamente por eu trocá-la pelo atalho rompido ao vento de um temporal, feito você, misteriosa colega.


Ouvindo... Jethro Tull: Elegy

Confissões [8]

Enfim, amiga… Eu sinceramente não sei de mim! Reconheço na minha pessoa um ser duplo, triplo, múltiplo, pois que ao mesmo tempo que juramento a mim mesmo que te respeito, eu te traio em pensamento por uma pele macia, por um olhar penetrante, por um sorriso meticuloso. Como pode isso? Realmente eu não sei… Saia de mim, ultrajes!

Ajude-me amiga! Dê-me teu ultimato, pro bem ou pro mal. Eu preciso dele pra saber se compensa assumir essa torpe faceta cafajeste, haja vista que não me queira como eu te quero; ou se abdico dessas superficialidade, e faço de ti meu monumento a ser esculpido pelos próximos anos…

Por favor amiga… Faça alguma coisa, urgente! Não sabes, estimada, o quanto sofro diante desse impasse. Ao passo que eu amo a ti, eu desejo as outras. Isso é provação divina, bem imagino – torpe nesses quesitos que sou – e não sei por quantas mais devo passar pra te merecer. Eu sei que não corro atrás de ti, você precisa respirar, você precisa do seu tempo, mas…

Mas por favor, eu te suplico, com todos os endossos: faça uma resolução, porque seu tempo de pensar me parece uma eternidade, e não sei por quanto tempo vou ter de sobrevida antes de uma severa epifania. Sim! Eu estou sujeito às epifanias, muito mais que no passado. Não consigo esconder mais nada de ninguém…

Nada, exceto o que realmente sinto por você.

Por favor, considere isso em seu ultimato! Pela minha epifania.


Ouvindo... Maria McKee: No Other Way To Love You

Perfeito, Apesar dos Outros

Você acha sua vida complicada? Pois saiba que há vivências mais complexas que a sua (ou não; os fatos relatados aqui não possuem vínculo algum com pessoas reais. Caso haja, trata-se de mera coincidência).


Margareth morava num bairro mediano de Nova Amplitude. Necessitando auxiliar seus pais que contraíram, um deles um tumor no intestino e o outro uma crise profunda de depressão resultando em coma, a então jovem de dezessete anos, que nunca havia encarado o mercado de trabalho, procurou desesperadamente emprego na cidade, sem sucesso. Exigiam experiência – e muita. Com os pais aposentados por invalidez e a renda bruta da casa despencando vertiginosamente, Margareth viu-se num beco sem saída.

Num dia de afogar as mágoas, deparou-se com um sujeito bem apessoado, que garantiria resolver o seu problema. Pobre da moça, que caiu na lábia do sujeito. Alta da bebida, topou um serviço de “faxina” na casa de um cliente da alta sociedade da cidade. E acabou por levar um coito.

Percebeu isso por deparar-se no outro dia, esparramada na cama do sujeito, com um lençol amarrotado e ligeiramente ensanguentado, próximo de si.

Não deu por outra: pegou suas coisas, e seguiu caminho para casa. Um tio da cidade vizinha foi convocado para prestar assistência aos seus pais no hospital: precisava colocar as ideias em ordem. Não era para menos: Margareth nunca experimentara uma relação sexual antes, e somente o “patrão” poderia comprovar para ela o quanto esta tinha talento pra coisa.

Pior ainda foi saber que ao retornar para casa, lá estava o cafetão que indicou seus préstimos. Como ele chegou até ali? Simplesmente, a audácia de vasculhar os documentos pessoais de Margareth enquanto estava de porre. Daí em diante, foram dois anos cobrando comissões absurdas, com a ameaça de revelar aos pais dela e a toda a cidade o que ela tinha feito naquela noite. Mesmo assim, Margareth consentiu: o que lhe sobrava dava pra pagar as contas triviais da casa e o tratamento dos pais. Mudou de vestuário muito rápido, tingiu os cabelos, vendeu sua casa em Nova Amplitude e foi morar numa cidade maior próxima, onde nenhuma pessoa conhecida pudesse encontrá-la.

Ao cabo de dois anos nesta ocupação, um peso na consciência havia desvanecido com o falecimento dos pais. Desenganados, Margareth preparou cautelosamente o discurso que revelaria os fundos que cuidavam de seus pais. Obteve o perdão deles, pois compreenderam que não tinha sido culpa dela cair naquela vida, e foi encorajada a tomar uma atitude frente ao cafetão que tinha, bem como buscar sair daquela vida de alguma forma.

A resposta veio durante justo o dia do enterro de seus pais – ambos faleceram no mesmo dia – em que, acompanhada do cliente da noite seguinte, que se compadeceu de seu lamento, decidiu agir por ela. Descobriu os podres do seu aliciante e conseguiu encaminhá-lo às autoridades.

Na verdade, o indivíduo tinha sido deportado, pois pertencia a um grupo internacional de tráfico sexual, e era o último elemento resistente ainda na região.

Agradecida, Margareth ainda havia oferecido a oportunidade de compensar o pagamento gordo que seu cliente havia lhe feito – na semana seguinte, obviamente – mas o rapaz, advogado de família de posses de Nova Amplitude, dispensou a consumação do pagamento, e sugeriu à jovem que procurasse algum emprego, e ofereceu um estágio em seu escritório.

Ela aceitou, mas o que o jovem não soube durante os três anos em que ela trabalhava como sua secretária era que, pelo fato de ter obtido um cliente do seu velho expediente um pagamento gordo pelos seus préstimos libidinosos, Margareth ainda desempenhava, na surdina, as atividades de prostituta de luxo, selecionando apenas clientes que podiam pagar muito bem, e que não demonstrariam nenhum risco em expô-la publicamente. Além do mais, a remuneração adicional, gerenciada somente e tão-somente por ela agora, permitiu que rapidamente ela acumulasse uma pequena fortuna, podendo comprar uma boa casa na capital, um carro importado e ainda sobrar dinheiro na poupança.

Foi o que aconteceu, quando, pelo descuido, o advogado descobriu que ela ainda vivia aquela vida arriscada – embora não soubesse que a experiência que ela adquiriu não a permitiu mais ser subjugada por qualquer outro oportunista. – Mas o que afligia aquela alma caridosa era que ele demonstrava um apreço maior que amizade pela Margareth, mas nunca havia se declarado abertamente para ela.

Por impulso, acabou demitindo a moça. Não deu outra: desapareceu por completo daquela região e foi viver na capital, conforme suas contas lhe permitiam.

Continuou a desempenhar seus préstimos, selecionando seu público como sempre, mas, sempre de olho no lápis – aprendizado dos tempos de secretaria – percebia que em dois anos, teria que mudar de estratégia: suas requisições haviam diminuído.

Arriscou-se a publicar anúncios em jornais de segunda categoria: poderia estar entrando noutra fria, mas aconteceu algo incrível.

Margareth teve como seu primeiro cliente de anúncio um sujeito bem peculiar: um colega de infância. Era este um daqueles arredios alunos aplicados, subjugados pelos outros; mas ele, hoje, era um daqueles sujeitos boa-pinta, com um vocabulário bastante elaborado, e uma voz fenomenal, digna de um cantor.

Pela primeira vez, Margareth sentiu-se combalida por alguém. E intrigada: como aquele sujeito poderia ter se transformado num figurão irresistível?

Foram necessários mais de um encontro, em que o intuito do contato para sexo foi sendo gradativamente substituído por jantares finos e casuais.

Margareth sentiu-se impelida a conhecer a casa dele, mas seu colega – chamado Johnny – não dava brechas. E decidiu fazer algo que nunca faria antes: ousou persegui-lo até sua morada.

Qual não foi sua surpresa quando descobriu que Johnny era um prostituto de luxo também! Mas a descoberta deixou latente o quanto Johnny não queria isto mais para sua vida. Fazendo uso de um sistema de indicações, obtinha três ou quatro clientes com uma já consumada. Havia acumulado um montante de fortuna vinte vezes maior que o de Margareth – que também não era pouca coisa.

Mas a vida de objeto sexual para Johnny estava ficando enfadonha, desgastante e ele queria encerrá-la encontrando alguém que entendesse sua realidade e o ajudasse a modificá-la. E esse alguém escolhido, foi justamente sua colega de infância, que na realidade, caçoava miseravelmente dele.

Após uma intensa briga e alguns dias de isolamento mútuo, ambos viram que tais detalhes eram idiotas: ambos viveram realidades desconcertantes, foram injetados no submundo da prostituição por necessidade, fizeram fortuna, mas nunca se realizaram pessoalmente.

Não deu outra: feitas as pazes, trataram imediatamente de desaparecer com todos os seus contatos, vender seus imóveis no país e mudar para o exterior.

A última e mais recente pista que se pôde obter de ambos é que ele comprou um par de alianças e um buque de rosas, e ela um par de passagens para primeira classe, para o exterior…

E nunca mais se ouviu notícias de ambos.


Ouvindo... Celine Dion: Let Your Heart Decide