Minutas de um Executor Oficial

Nota de antecipação: o conto não representa opinião do autor, constituindo-se apenas duma ficção – indesejada, porém necessária – para propósitos que não os literalmente nele explicitados.
Nota sobre a nota: parece idiota fazer esse apontamento, mas dado que há ausência de dividir o ficcional de uma vontade de parcela da população atualmente mundo afora, faz-se necessário alertar para que este e outros contos não sejam tomados como mote de exemplo de conduta no mundo real. Dado o aviso de cocheira, segue o conto.


Sou filho de ex-militar, daqueles que sempre desejaram ouvir que o cotidiano de todo filho de família é acordar ao som da corneta, e tratar o pai como Supremo Magnânimo e a mãe como Gerenala-de-Caserna. Todo mundo na rua deveria marchar, e não andar. Roupa fardada a todo lado, apenas com a cor ornando com a característica local: tons de cinza pra cidade, de areia pro litoral, de verde pro interior e selva. E só.

Constitui minha vida delatando os zoeiras de minha turma em escola. Por sorte, pra evitar retaliações, meu pai me fez homem, me colocou em Artes Marciais… Apesar de tanta dissensão com o Mestre, que falava pela honraria e caráter de defesa, consegui minhas faixas e dans.

A escola sempre foi um ambiente onde, pessoalmente, vi que a anarquia comuna reinava. Pobretada se achando o máximo. Professoras dizendo da União Soviética e de Cuba de idos do século XX. Notadamente, doutrinação. Eu meti muito o relho nas provas, tentando provar que eram regimes do demônio. Só na recuperação que eu assentia, sempre assinalando ao final das questões um sinal que concordei comigo, de que aquilo não me pertencia.

Minha vida começou a se constituir quando, ao anteparo do novo governo, ilustre e promissor, do Infalível Líder – como foi concorde dentre os nossos – livrei o mundo de dois maconheiros sujismundos e desgraçados que rodavam a praça do centro da cidade. Tinham militares lá. Muitos fiavam-se que eu seria detido: fui é condecorado, através do mérito dado na cidade. Me convidaram às carreiras de armas, e lá pretendi seguir estudos.

Mas meu crescimento como Grande Justiceiro – como fui batizado nas turmas de Exceutores – deu-se com a criação da nova força extrapolicial que os primeiros governos do Infalível fizeram dentre os jovens, para assegurar nossas carreiras, caso esse ingresso nas Polícias e Exércitos não fosse garantido. Treinamentos pra identificar tipos suspeitos, irresponsáveis, ociosos e subversivos eram-nos dados, ao mesmo passo que intervinham nos nossos currículos da escola de outrora, instituindo por decreto a aprovação com summa laudus, e ainda fazendo a milenar Justiça Divina arcar sobre aqueles professores contrariadores da ordem. Eu tive a deliciosa primazia de ser um dos primeiros a executar, inclusive, alguns dos meus próprios docentes, nos primeiros Esquadrões de Correção, instituídos após uma nova tentativa de obliterar nosso grandioso Mito.

Desde então, eu e minha família só tem recebido bênçãos dos Céus e da Terra, enquanto eu, perspicaz como sou, construí uma carreira ímpar, livrando as ruas daqueles tipos que só fazem causar vergonha nacional, e identificando padrões de comportamento como ninguém presentes nesses intragáveis subversivos. Quando, dos vindouros mandatos – cada vez mais favoráveis ao nosso Líder Infalível – essas Instituições foram se desenhando com o propósito de evitar, desde o berço, que qualquer pensamento contrário eclodisse, feito erva daninha, estava eu lá, dando contribuições imensas acerca do assunto: algoritmos inteligentes e previsivos sobre possíveis conversas de código em rede, leitores ópticos para demonstrar a franqueza do inquerente, métodos invisíveis de tortura para mascarar possíveis intervenções de órgãos de defesa do exterior – que se tornavam cada vez mais rareados. Tudo isso, em boa parte, através dos demonstrativos dos relatórios que emiti acerca das 3000 execuções que fiz até então.

O mundo, neste momento, goza de sua mais contumaz superioridade: varremos do mapa todo intuito comunista, todas as leituras desta pauta só são mantidas em banco da dados apenas para comparar tentativas de retomada de suas ideias, feitas vez por outra n’algum lugar distante. Já temos consolidado em todos os lares nacionais sistemas complexos, dignos de ficção científica, capazes de adivinhar quando algum ato subversivo está a ser maquinado. Nas ruas também. Quase não há pensamento nessa nova ordem mundial que não seja sabido a sua intenção. As pessoas andam conforme a música. E a música é ditada pelos nossos ilustres líderes mundiais, cujo norte declarado: uma pessoa de pensamento fraco não merece estar viva.

Um dos últimos trabalhos que faria como executor – coisa que nunca deixei de fazer foi sair em campo contra aqueles tipos – antes de minha posse como Ministro da Vigilância Institucional, após gloriosos governos desde nosso primeiro grande Mito, deu-se em saída da Igreja. Foi curioso ver um daqueles tipos mendicantes na porta da Igreja, contrastando entre os civis, que finalmente cumpririam os sonhos familiares, de um grande quartel, enquanto aquele elemento estava fedendo a carniça. Ele lia uma Bíblia, e isso era incomum, já que a Bíblia tornara-se reservada para os sacerdotes, apenas pautando-se aos demais, ouvir suas recomendações. Após o seu devido extermínio, recolhi deste seu precioso livreto – uma edição bem acabada, ilustrada com o que há de grandioso da arte eclesiástica. Sem poder deixar o item no gabinete de trabalho, optei por levar o espólio pra casa.

Não sei o que devo ter tomado de bebida em casa, cheguei a ler o Apocalipse – uma leitura, desde minha juventude, não recomendada pelos meus pais, o que fora curioso – e fiquei pasmo… O nosso arquinimigo se mantinha numa esfera fora do material, era necessário eliminá-lo, fazer reinar a Paz na Terra aos homens de Boa Vontade. E eu sempre fui um homem de boa vontade, dediquei a vida inteira sobre isso.

Mas a sensação não me deixava por três dias seguidos: saberia que, no dia de minha posse no Ministério, teria que abarcar uma missão sem tamanho. Não dormiria um minuto sequer, sem traçar os meus próprios métodos para alcançar isso. Cheguei a crer que escreveria algo pertencente a um certo comunismo primitivo – uma heresia sem desculpas, não fosse eu homem de alto escalão, e, portanto, isento de ter todo o aparato institucional de vigilância psíquica. Debruçado neste tempo infindável nos meus projetos, decidi fazer um descanso: segui ao banheiro. Teria que tomar um banho.

Qual não foi minha surpresa ao encarar, num vidro diante do box do banheiro, um indivíduo bastante mórbido. Foi a primeira vez, juro!, que me assustei com alguém que oferecia real risco. Seus olhos, intumescidos de veias expandidas, num vermelho tão mais encarnado quanto o sangue daqueles mais de 3000 inválidos, executados, desde aquele meu primeiro maconheiro. Rugas de um monstro digno de filme de terror. Os cabelos envilecidos. Uma pestana sempre pululando da sua face, feito um mórbido monstro.

Algo teria que ser feito. Aquele inóspito tinha cara de anarquista e assassino em série. Velava muito pela vizinhança que eram constituídas de famílias magnânimas, produtivas e essenciais para o bom funcionamento econômico nacional. Peguei minha Taurus de estimação, a primeira arma que tive em exercício e guardava em local seguro. Ela não falharia jamais.

Ao adentrar o recinto, percebi que não estava lidando com um qualquer: ele era um copista, repetia todos os meus movimentos com uma acurácia sem fim! Percebi o mais antecipado possível que deveria enganá-lo. Seu olhar denunciava: desejava me matar! Mas, quando fui perceber sua falsa acuidade imitativa, notei que apenas quando apontasse pra ele que faria o mesmo. Após fazendo-o de bobo estúpido com mais alguns gestos, que percebi que ele fosse um charlatão anencéfalo a serviço de um qualquer, e no que esbocei levar a arma nas minhas têmporas, ele fez o mesmo. Creio que ele queria me desafiar e criar um empecilho em meu lar, se suicidando. Esperei alguns poucos minutos, olhando fixamente a ele, em busca dum ato falho.

Nunca viria. Era uma eternidade de chantagem em meu banheiro.

Berrei diante dele: “seu verme! Siga em frente! Faça!!!”

A ameaça era repetida com igual fervor pelo elemento. A ameaça e aquele sinal, que só eu sabia, ele também marcava. Decididamente, blefava tanto, ou mais que eu.

Forcei uma reação última, engatilhei o tambor.

Creio que terei dificuldades e atrasos para estar presente em minha posse. Mas acho que consegui fazer aquele elemento se executar enfim…


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À José J. K.

Caro Especialista:
para ti
tenho um servicinho…

Vide esta moça (mostro a foto),
Não! Não é execução: trabalho um cadinho diferenciado
Porta de entrada, caríssimo pórtico
para a paranoia social existente
na farmaconspiração.

Eis! Madeixas alvas, feito tua Kirsten
– hey! Não me aponte essa tua Glock aí –
missão: faça-se convalescente
feito um desvario aporético
mas faça bem como o Hamlet
afinal, como tu mesmo diria:
Hominis insania lucidum est
– se alguém o disse, creio que sim,
também almejo ser latinista…
tá tá… Latim só pra quem conhece, entendi!

Enfim, meu caro, chamo-a de Babilônica…
crime? Nenhum, a não ser
ser algoz de minha fármaco condição
pois a ela me rendi
a ela dei minha capacidade de imaginar
a ela dei meu potencial
a serviço da ciência
sim! Essa maldita tecnicidade
que laboratiza os corpos
e põe no bolso encangalhado seus quinhões.

Hum, tu tá entendendo – calma aí!!!
Não estoure os miolos dela –
use-a como pórtico de entrada…
encontre o filho da puta que assina
as bulas de Depakote
essa pequena cápsula robotizada
que vira um Leviatã em nossa rede neural
e impede a telepatia entre pobres mortais
– sim, sabe o que acontece depois que você toma teu antidepressivo, Especialista?
… isso mesmo… Você tá ficando velho em tua função, sua mira não está tão boa assim –
estoure, isso sim, os miolos daquele rabo-mole que age em duas linhas:
a primeira, esta de Natrium Divalprohatum, financiamento ativo,
a segunda, a ode à Cultura do Perfeito, essa pérfida e horrível
capciosa maneira de pensar dos nossos dias, do tudo-contente
do nada-falho, do nunca-descansar…

Aham! Tu compartilha o mesmo…
mas calma aí, Especialista!
munição pouca é bobagem
– não falo em latim porque eles não tinham armas de fogo –
Melhor quatro, não! cinco pentes! Talvez seis ou sete
mil câmeras serão seus primeiros executados
use a Babilônica como seu escudo humano
e tua senha de entrada no pavimento A+³

Eis, lá, o filho da mãe, cagando ouro
e limpando com notas de euros
vai no seu helicóptero
e mora em Alphaville
sim! São Paulo é tua área de ação
e esta, José – falo assim porque você sabe que
isto é absolutamente sério – será
a tua mais difícil missão.

Pago bem: eu
e os tantos milhões
aprisionados por essa bosta de Cultura
e também por essa rósea
cápsula pútrida da vigilância!

Ah! A linda Babilônica?
Faça o que bem quiser,
só não a execute
– afinal, ela também sabe latim.

(Continua)


Ouvindo... Bad Religion: The Hopeless Housewife

Uma Carta Solta no Correio

Email Leia apenas se você tiver estômago forte. Os correios decidiram levar esta carta para uma benzedeira, tamanho o descaso e o negativismo que havia nela.

Seria isso uma carta de amor?


São Paulo, 22 de Abril de 2011

Olá, querida…

Já é a décima correspondência que te mando, e acredito que será sem resposta…

Sei que você sequer vai passar desta página. Você não tem tempo…

Tenho certeza que antes você olha para todos, menos para mim.

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Alice no País das Maravilhas

Por Lewis Carroll

Tradução de Márcia Feriotti Meira


Este livro é uma das mais famosas obras-primas da literatura universal destinada ao público infantil.

Alice no País das Maravilhas (1865) são fantasias oníricas e lúdicas sobre a realidade e a linguagem. Explorando a aparente ausência de sentido em sentenças gramaticalmente corretas, Lewis Carroll foi um dos pioneiros na pesquisa de uma nova ciência do discurso, por meio da simbolização.

Aparentemente destinada às crianças, na verdade oculta questionamentos de toda espécie, lógicos ou semânticos, problemas psicológicos de identidade a até políticos, tudo sob a capa de aventuras fantásticas.

Esta edição apresenta as famosas ilustrações originais, criadas por John Tenniel.

Fonte: divulgação; Ed. Martin Claret


Imagine aquele sonho desvairado que você teve na última noite [não falo do meu… ele pareceu mais um pesadelo Smiley chorando] em que nada se explicava, tudo começava e ficava pelos meados, você seguia para lugar nenhum e o mundo mudava à sua volta (e até mesmo você!).

Pois bem, Carroll fez disso enredo de livro.

Apresentando mini-histórias, a princípio desconexas, de uma garota imersa nos próprios sonhos, que curiosamente, e constrangedoramente, predica sobre todas as situações que a rodeiam numa terra bizarra, onde animais falam, apresentam comportamentos típicos do ser humano – ou por dizer na ótica do autor, bizarros – e que mal sabe fazer um juízo de si mesma naquele contexto de convivência – uma aparente falta de malícia, “tipicamente” infantil – que anteriormente poderia ser considerado motivo de chacota entre os clássicos escritores, onde enredos necessariamente devem ser concisos.

Por ser de uma leitura metalinguística muito complexa, distinções entre diversas versões são frequentes. Esta em mãos, apesar de dar uma ideia bem abalizada sobre as questões de pragmática, não aprofunda-se na complexidade que o original em inglês [dizem] aparenta. Outras versões do clássico abordam o problema dos dêiticos (as palavras que só ganham sentido pelo seu uso concreto) ou das inversões de conceitos arraigados em nossa sociedade (quem não se lembra do clássico exemplo dos “desaniversários” na releitura infantil do desenho dos estúdios da Disney?)

Uma rápida busca no mar da internet pode te conduzir às mais distintas versões de Alice. Mas o livro em questão traz uma leitura que rompe com o lirismo imaginário de quem está acostumado com a animação dos estúdios Disney, ou a releitura sombria de Burton no filme-animação lançado há não muito tempo.

De toda forma, qualquer que seja o material que você veja ou leia, fica aquela nossa clássica recomendação de leitura – principalmente se você tiver um arcabouço poderoso em inglês, para ler o original.

Qual o diferencial?

Contrariamente aos outros livros que aqui citamos, de todas as formas, assentemo-nos na tradição, qual seja ela, a reprodução das ilustrações à pena feitas para o original, por John Tenniel.

Avaliação

Uma posterior leitura de outra tradução na íntegra pode dar uma melhor noção de como avaliar esta com propriedade. No momento…

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Ouvindo... Madonna: Hung Up

Favor não perguntar sobre o sonho. Minha consciência agradece…