Remake-ing

Vórtice:
doxoduto
ad infinitum

Triunvirato cosmicum
babilônico desvario

Se manifesta védico
compêndio upanishad ulterior

Deslocamento espaço-temporal
conceito profuso, fato inerte

Esvoaça! Esvoaça!!!
apocalíptico
o desvelo terrível
e a redenção no ajoelhar
diante da imagem curvilínea
áurea virtude nevisse presente

Qual diva circuncisa
qual musa conspurcada
qual vate incrédulo
qual desafio prospecto
qual uno proveito
qual Máquina em orbe perfeita
circunspecto hermetismo
qual economia forte
qual caseira forje
qual indústria portento
qual força reativa
qual cirurgia desfigurativa
qual figura prerrogativa
do status quo realinhado?

O Processo, roda refeito
tal qual a budista circunferência vivaz
girando imersa no peito

Agora, os novos tempos vindouros
trazem em si a insanidade
em que a transparência irritante
decifra, nos códigos abertos
a clausura dos tempos de pedra:

Nada de novo se faz diante do Sol,
o catalisador da imensa Fagulha Universal.


Ouvindo... Rolling Stones: It Won’t Take Long

Hiperatividade

Tarde da noite, e eu aqui acordado,
imaginando diálogos mentais
carregados de verossimilhança.

Trazendo fantasmas pro sono
anestesiando não mais o repouso
calibrado em pílulas behavioristas.

Talvez o gengibre deu uma sacudidela
ou a canela em excesso, eu não sei,
convém, agora, pôr-me a me dissipar.

Há diferentes latências
entre mim e outros humanos
uma frequência maior, perjuro
das minhas profundas reses.

Não vejo por outras vias
o desenlace do irreparável:
o tic-tac-toc agostino, em novas
formas veio e se perdurou.

Mas calma, uma hora o sono vem
e traz consigo o prenúncio dum novo Sol.


EmailEscola Em 12 de julho de 2013

Ouvindo... Rolling Stones: Citadel

A Revolução dos Bichos

Erros do mundo: como repará-los?
Porventura pensou para quem isso perguntas?

A mim? Artífice majestoso,
da triunfante lábia mágica,
o evento, antes ordinário
agora novas feições adquire;
não mais o tempo admite
os ratos de porões acuados,
os sapos brejeiros às cegas com msoquitos
e as raposas soturnas covardes…

Os tempos são outros; fui passado,
leões à caça se põem imponentes,
águias e falcões se visam em voos,
e os tigres, contumazes guerreiros
condensam, diante dos cascos de vídea
das rochas que as noturnas
criaturas delas se apoderam.

Eu? Pena – literalmente falando –
vi a ferrugem da Máquina
e me portei feito galinha.


Email Em 09 de julho de 2013

 Ouvindo... Limp Bizkit: Lonely World

Humanidade: 11.9 Richter

Smiley indecisoO conto começou com uma mera coincidência com alguns dos fatos, mas foi elaborado posteriormente em algum ponto após os ocorridos recentes.


Num determinado dia, a casa de José, humilde morador do bairro dos Rodrigues, foi aterrada por um berro uníssono familiar: anunciava no Bom Dia Brasil a suspensão definitiva do Bolsa Família, sob decisão do reascendente governo federal tucano.

A mulher de José, que fervia o leite – o último da parcela anterior do programa, – rogou uma praga imensa: pro mundo, pra José e pra si mesma. Jogou uma panela pela janela, atingindo em cheio o telhado dos vizinhos de baixo.

– Que merda é essa??

– Vá para a puta que pariu, sua branquela nojenta!!! Você, seu marido falastrão e o demônio do seu filho que estuda naquela buceta maldita chamada USP, seus tucanos cagões!!!


No bar Nossa Senhora do Carmo, entre uma e outra leva de chope à mesa, os homens discutiam, não sobre o Corinthians que ganhou a Copa do brasil, mas, quem ainda recebia o benefício:

– Então, Mirizola?

– Pois é, também não recebi.

– Culpa do José que convenceu a nós todos para votar no zé-tucano.

– Culpa real é daquela família de estranhos, brigões, mãozinhas-de-cirurgião; cheios de não-me-toques, com filho metido a universitário e que fica parasitando as mesinhas daqui, quando o Manezilo tem que fechar o bar.

– Pra esperar o caduco do paizinho dele… se bem que… tadinho daquele senhor, quando o nojentinho podia perfeitamente pisar no barro. Ah… essas pessoas da cidade.

– Então Mirizola? Quéque fazemos?

– Colar lá no Professor da Prefeitura. Quem sabe ele dá um jeito.


Caucaia estava um pinel. Além dos habituais alunos do fundamental, havia uma celeridade de pais de família, impedindo os ônibus de saírem. Resquícios daquele momento histórico em que os jovens saíram a protesto pelas tarifas. Pena que, agora, quanto mais se aproximavam do Ensino Médio, menos eram vistos como pessoas amigáveis.

– Agora eles não pagam nada, e aquele aumento tão recusado voltou. Adianta? Adianta???

– Deixa eles, Ernestina. Lutaram por um monte de outras coisas. Temos saúde melhor… tá, não tanto assim melhor…

– Ferre-se Juvenal! Há dois anos ainda perco o meu banco de rainha prum pentelho de sei-lá-onde do barrão, que insiste em colocar a mochila, justo onde devo colocar meus pés. Ele não para de estudar nunca!!! Nunca! E eu, droga, tenho que ficar me matando pra trabalhar o mesmo tanto pra comprar menos. Culpa desses universitários que saíram no treze pra mexer no que tava bom.

O coro em uníssono era amedrontador:

– Estudantes! Vocês vão ver! A copa foi e vamos matar vocês!!!

Dez universitários olhavam a multidão com uma cara resignada. Nenhum susto: saberiam, infelizmente, que a nova tropa de choque de Cotia iria atuar ali, pois outros três ônibus e alguns carros novos viraram alvo de destruição.

– Uma pena, Eleonora, uma pena…


Dois dias depois, a Globo, finalmente, não teve novelas por três dias, em todos os horários. A exemplo do V de Vinagre, o plantão noticiava, de forma perniciosa, focalizando os protestos mais agressivos, e alguns arruaceiros, tatuados com CV e PCC, como se fossem os mandantes da coisa toda. À revelia do manifesto do Gigante, o elogio à proposição, enfim tomada pela presidência, nada mais fazia que inflamar os ânimos do primeiro protesto de classes populares.


As grandes universidades, enquanto faziam seus primeiros debates, foram surpreendidas por hordas de pessoas que, desorganizadamente, gritavam violência, violência! Causando prejuízos inestimáveis, dez vezes maior que o trezão.

A audiência de canais alternativos cresceu, e os menos corajosos em sair às ruas empreendiam seu tempo livre em assistir às sessões do Senado, um hábito que passou a ficar muito comum…

A ex-presidente criticou veementemente o partido da situação, dizendo que acabou por minar a economia brasileira, já falida pelo recuo dos grandes eventos e da presença de políticas antiassistencialistas.

Na casa do Rodrigues abaixo da de José, não se ouvia os sons do filho universitário, comentando ponderadamente sobre o ocorrido. Dizem as línguas justas que havia cartazes no interior oferecendo recompensas por estudantes mortos. Acusação: terem mexido com um Brasil que tava dando certo.


Estado de sítio na Semana da Pátria decretado.

Professores de todas as categorias, estudantes e ativistas, sobretudo os que não estavam empregados, foram refugiados nos quartéis. Um paradoxo: tudo aquilo que historicamente fora combatido pelos movimentos estudantis, agora abriga àquela classe. Falava-se, entre os populares, num pacto entre a inteligência brasileira e os militares.

– Mirizola, aquele pentelho da casa alta não voltou mais faz semanas.

– Bom mesmo. Tô preparando minha carabina pra estourar os miolos dele. Quem mandou ele liderar um protesto aqui, em Ibiúna, destituindo o grande Bello, em razão do familiar do Coronel?

– José, que acha?

– Complicado… Os pais dele fecharam o acesso que tinham por cima, muraram a casa toda, colocaram câmeras e sei-lá-mais que alarmes. Riquinhos… Deixe estar eles derem mole lá, o uspiano bucetudo vai ficar sem papai…


O jovem do Rodrigues veio com escolta, provida pela Universidade. Tinha que pegar toda a sua biblioteca, ameaçada de virar fogueira e charuto de palha pelo bairro. Ao sair da casa, deu duas batucadas marciais e ergueu uma bandeira branca de paz, enquanto se ouvia as sirenes da região apontando para uma incursão de gás sonífero no bairro do Verava, residência do prefeito instituído.

– Realmente, pai. Fonseca tinha razão… Mas, agora, pelo bem desta biblioteca e deste pessoal, você não vai poder lê-la. Por favor, se cuide, você e a mãe, e por favor, não escute a Plim-plim elogiando, mais uma vez, o fim do Bolsa Família… Não por eles, mas pelo nosso passado recente.

E quase que ele esqueceu a histórica primeira página de 23 de junho de 2013 da Folha, acreditando que aquilo era um sinal dos tempos de Apocalipse.


Ouvindo... Sophie Ellis-Bextor: Revolution

À José J. K.

Caro Especialista:
para ti
tenho um servicinho…

Vide esta moça (mostro a foto),
Não! Não é execução: trabalho um cadinho diferenciado
Porta de entrada, caríssimo pórtico
para a paranoia social existente
na farmaconspiração.

Eis! Madeixas alvas, feito tua Kirsten
– hey! Não me aponte essa tua Glock aí –
missão: faça-se convalescente
feito um desvario aporético
mas faça bem como o Hamlet
afinal, como tu mesmo diria:
Hominis insania lucidum est
– se alguém o disse, creio que sim,
também almejo ser latinista…
tá tá… Latim só pra quem conhece, entendi!

Enfim, meu caro, chamo-a de Babilônica…
crime? Nenhum, a não ser
ser algoz de minha fármaco condição
pois a ela me rendi
a ela dei minha capacidade de imaginar
a ela dei meu potencial
a serviço da ciência
sim! Essa maldita tecnicidade
que laboratiza os corpos
e põe no bolso encangalhado seus quinhões.

Hum, tu tá entendendo – calma aí!!!
Não estoure os miolos dela –
use-a como pórtico de entrada…
encontre o filho da puta que assina
as bulas de Depakote
essa pequena cápsula robotizada
que vira um Leviatã em nossa rede neural
e impede a telepatia entre pobres mortais
– sim, sabe o que acontece depois que você toma teu antidepressivo, Especialista?
… isso mesmo… Você tá ficando velho em tua função, sua mira não está tão boa assim –
estoure, isso sim, os miolos daquele rabo-mole que age em duas linhas:
a primeira, esta de Natrium Divalprohatum, financiamento ativo,
a segunda, a ode à Cultura do Perfeito, essa pérfida e horrível
capciosa maneira de pensar dos nossos dias, do tudo-contente
do nada-falho, do nunca-descansar…

Aham! Tu compartilha o mesmo…
mas calma aí, Especialista!
munição pouca é bobagem
– não falo em latim porque eles não tinham armas de fogo –
Melhor quatro, não! cinco pentes! Talvez seis ou sete
mil câmeras serão seus primeiros executados
use a Babilônica como seu escudo humano
e tua senha de entrada no pavimento A+³

Eis, lá, o filho da mãe, cagando ouro
e limpando com notas de euros
vai no seu helicóptero
e mora em Alphaville
sim! São Paulo é tua área de ação
e esta, José – falo assim porque você sabe que
isto é absolutamente sério – será
a tua mais difícil missão.

Pago bem: eu
e os tantos milhões
aprisionados por essa bosta de Cultura
e também por essa rósea
cápsula pútrida da vigilância!

Ah! A linda Babilônica?
Faça o que bem quiser,
só não a execute
– afinal, ela também sabe latim.

(Continua)


Ouvindo... Bad Religion: The Hopeless Housewife

Crepúsculo a la Lilith

Adeus, dia…
seguirei meu caminho
no turno da noite

Eis, bela, ó notívaga
vontade primordial do envelo
tua urbanoide paixão
só noturna
pode vir a ser

Lilith, Lilith
teu som jamais será o amanhecer
eis que o Deus Hélio
deve deixar o caminho das orbes
para que tu, babilônica, se defina
nos vaga-luzes de sódio e neón

Eis, bela, ó soturna
na fulcra Rebouças via
noturna pauliceia desvairada
ah! o frescor de uma Fleur-de-Lis
de lítio serás teu soar
no maquinal orbe-mundo complexo
da geratricial fulminante venue

Lilith, Lilith
sei que adormeces de dia,
bem aí guarda teu segredo,
mas falta pouco, o Deus Hélio vai
e enfim mostrará o teu desvelo

… deve ser por isso,
que desde infante
Clair de Lune foi minha ode
dos sonhos que por ti
querer eu quereria,
ó, Fleur-de-Lis – lítio.


Ouvindo... Nazareth: Vancouver Shakedown