Cerebélico

O que nos adianta,
ter essa massa cinzenta em mãos,
e deixar desgarrar outras posses mais valiosas?

Antes de conhecer a própria alma pela alma,
reconhecer o outro corpo com teu corpo,
quis conhecer os meios de separar alma e corpo?

Com as mãos sob a ordem da massa cinzenta,
o sujeito manufaturou a bomba-H,
as ogivas nucleares,
e datas sem sentido, como prospecto de coleção

Com a massa cinzenta conduzindo ordinariamente as mãos,
líderes em pungência convictos de si memoraram feitos:
lançaram a suástica em arremesso à estrela-de-Davi,
degolaram através da foice e do martelo as ilusões de um mundo utópico,
divinizaram homens de frio pulso, cujo nome é impronunciável
se não antecedido e pós-cedido de um heroico epíteto

Massas cinzentas buscam coibir outras massas cinzentas,
pregando a aporia do fim dos tempos da medicina,
onde qualquer desvio comportamental não seja apenas
o desvirtuamento da alma, mas sim
o defeito corporal biogênico, passível de ser combatido
através das doses cavalares de princípios medicamentosos

E as mãos, bem, essas entre si,
jamais se encontram, devido à angústia
que fundamentalmente a massa cinzenta
pôs em teu caminho pelas várias camadas
da cinzenta face artificial do mundo moderno…

Que sequer permite mais o peso da poesia
e da rima colorida do espírito jugulado por afasia.


Ouvindo... Grateful Dead: Smokestack Lightning

Resenhas Filosóficas: Dez

Um Manual para a Masculinidade Erótica

KIERKEGAARD, Sören;
Escola Diário de Um Sedutor
ISBN 85-7232-525-5
Trad.: Jean Melville
Ed. Martin Claret
São Paulo, 2002


Misture a confiança de um sujeito em seu repertório argumentativo, e o frescor juvenil de uma moça ainda não experimentada: eis a receita que é feita de escopo a obras como essa.

O teólogo e filósofo dinamarquês, considerado canonicamente como o pai do existencialismo, faz um convite à imersão do universo desse sujeito, crente em sua missão, incólume, necessária e austera em conduzir uma donzela à vivência plena de seus gozos [sim, em outras palavras, meu amigo, trata-se dos passos necessários para deixá-la com vontade de ter sua primeira relação].

Através de muitas imagens evocadas – em figuras e em lembranças psicofísicas do próprio narrador –, o louvor àquela pessoa, alvo de suas investidas, é o tema central dessa digressão, meio literária, meio filosófica. Haveria sucesso nessas investidas? Ou seriam essas nada mais que cumuladas fantasias de méritos imaginavelmente obtidos?

Ao ponto de vista de quem narra, tem-se absolutamente o controle de tudo. Todos os passos são milimetricamente ponderados; as reações são previsíveis; há uma cartilha do que deve ser feito – e do que não deve também – e a mecanicidade dos atos é julgada própria de quem se ostenta como sedutor. Cabe nos dias atuais tal pessoa? Ou tais “vítimas”, que não se emendam mais a ser vítimas, mas sim, algozes de sua própria vitimicidade? Há um sedutor idealizado pelo próprio autor, presente em nosso meio, capaz de ostentar os mesmos sucessos por mérito próprio, e não apenas por uma concessão feminina?

A reflexo de sua época, em que convenções sociais reprimem as vontades primordiais e preservam uma artificiosa mocidade, Kierkegaard nos põe em xeque sobre nossas vicissitudes eróticas, sua amplitude e consequências.


Estrutura: LâmpadaLâmpadaLâmpadaLâmpada

Clareza: Smiley de boca abertaSmiley de boca abertaSmiley de boca abertaSmiley de boca aberta e 1/2

Contestatividade: Explodindo de raivaExplodindo de raiva

Avaliação Final: EstrelaEstrelaEstrelaEstrela


Ouvindo... Pearl Jam: Thumbing My Way