Confissões [6]

Enfim, minha amiga, sinto sua falta… A negação da existência primordial, descendente da Noite Caótica, me cerca de uma tal maneira tão perturbadora, que jamais antes fez. Ela tomou, persuasiva, todos aqueles que à minha íntima volta convivem, prenunciando o fim dos tempos. Eu sei que sou forte, mas não sou uma muralha indestrutível. Se assim fosse, não sofreria, mas tampouco não amaria… A vida não teria sentido não-racional… Aquele sentido de satisfação que só algo etéreo, espiritual, nos forneceria. O “obrigado” de alguém… O “de nada” de retorno…

Por favor, amiga, não suma… A descendência funesta Noite Caótica quer de toda forma arrebatar você para um beco-sem-saída, te desencorajar a seguir em frente… Quer desencorajar todos à nossa volta! Quer anunciar o fim-dos-tempos que não existem como uma hecatombe material! Não permita que ela tire o sorriso de teu rosto, não permita que ela me faça deixar de sorrir pra você.

Não permita que ela me faça esquecer que, apesar de toda angústia que eu vivo, eu amo dialogar contigo, e na incerteza de mim, possa achar a certeza de que quero ainda ver o desabrochar da flor que tem um perfume, igual ao do teu carinhoso colo, amiga. Não permita que ela silencie estas palavras por uma cinzenta intenção, seja pelo derramamento de sangue alheio, seja pelo sentimento de vingança do ofendido que se acha no direito de revidar pela mesma moeda com que foi ferido.

Mostre-me o caminho da comunhão despretensiosa, amiga, pois que, apesar de ter dado a todos a sua vez, eu também desejo a minha; não por ser egoísta, mas é que a espera e dura, solitária… E amiga da descendência funesta da Noite Caótica.


Ouvindo... Faith No More: Everything’s Ruined

Cerebélico

O que nos adianta,
ter essa massa cinzenta em mãos,
e deixar desgarrar outras posses mais valiosas?

Antes de conhecer a própria alma pela alma,
reconhecer o outro corpo com teu corpo,
quis conhecer os meios de separar alma e corpo?

Com as mãos sob a ordem da massa cinzenta,
o sujeito manufaturou a bomba-H,
as ogivas nucleares,
e datas sem sentido, como prospecto de coleção

Com a massa cinzenta conduzindo ordinariamente as mãos,
líderes em pungência convictos de si memoraram feitos:
lançaram a suástica em arremesso à estrela-de-Davi,
degolaram através da foice e do martelo as ilusões de um mundo utópico,
divinizaram homens de frio pulso, cujo nome é impronunciável
se não antecedido e pós-cedido de um heroico epíteto

Massas cinzentas buscam coibir outras massas cinzentas,
pregando a aporia do fim dos tempos da medicina,
onde qualquer desvio comportamental não seja apenas
o desvirtuamento da alma, mas sim
o defeito corporal biogênico, passível de ser combatido
através das doses cavalares de princípios medicamentosos

E as mãos, bem, essas entre si,
jamais se encontram, devido à angústia
que fundamentalmente a massa cinzenta
pôs em teu caminho pelas várias camadas
da cinzenta face artificial do mundo moderno…

Que sequer permite mais o peso da poesia
e da rima colorida do espírito jugulado por afasia.


Ouvindo... Grateful Dead: Smokestack Lightning

Confissões [5]

Mas o que te conto, colossal amiga, é o quanto de saudade prezo por sentir de ti. De conduzir meus passos perto de ti, sobre ti, dentro de ti… De te conhecer todo dia melhor, maior e mais dinâmica; respirar o ar que você respira, de conhecer os lugares que você conhece tão bem, pois estão assentados sobre teu colo  como ninguém. Ninguém sabe, como você sabe o que há no teu colo. Pude te descobrir tão tarde…

Tenho saudades de ti, falo isso aos outros com uma cara de bobo como nunca antes me viram. Me sinto babaca, com tantas outras por aí mais saudáveis, escolho a ti, amiga fumegante, caótica, urbanoide e bucólica. Seu senso boêmio que me fez apaixonar por ti, amiga. Você sabe disso, disso tirou proveito, agora é tarde: descobri que gosto de ti quando longe de ti fiquei. Agora, todo retorno casual me é de uma efusividade tal que não me suporto. Olho para ti, e teus contornos tão sedutores me chamam a atenção. Quantos detalhes! Quantos joguetes… Tudo em você me chama a máxima atenção agora. Eu era teu pequeno, eu era um ingênuo. Toda música antiga que eu ouvia, agora me faz lembrar você.

Seus caminhos, amiga, são como minha casa, aconchegante, que antes não aproveitei. É certo que não te conheci como queria, sempre te via pelas partes não tão belas; as mais belas se revelaram muito mais atraentes pra mim agora. Agora que estou longe, distante de ti, minha italiana favorita…


Ouvindo... Bo Bice: Blades Of Glory

Uma cidade? Uma amiga? Quem me conhece, sabe que pode ser qualquer uma dessas duas coisas. Bons fluídos para todos no novo ano que se aproxima.