Derradeiras Epifanias (Finitudes e Iniciativas)

Que ventura, se presente ao ambiente,
nesse desvario inconcluso alicerçado,
no conhecer-se como ser vivente
na tecnológica proteção sendo ameaçado

Penso, logo existo, não responde tantas perguntas
quanto o motor imóvel aristotélico,
a linguagem não-verbal apresenta nas nuances
as curvas longuilíneas e amorfas
dessa Pandora descendente
que persuade minha harmonia.

Harmonia? Sim, ela existe, mas diferente
da apolínea ordem lógica, se manifesta
nos Caóticos matizes de cores esvoaçantes
que perpetram seu fluxidio vórtice de profusão

Perfaz, solicitude, sua veracitude perpétua,
projeto em construção incessante,
desde aqui, agora e em diante
nas curvas dos velhos hábitos aqui dispostos
apostos novos regimentos de ígnea proporção
da sinceridade premente e solícita

Epifania? Te abraço com carinho,
se sempre de mim fizer uma pessoa melhor!

Sempre e sempre!


Ouvindo... Eagles: Those Shoes

Confissões [10]

Amiga… Há uma distância moral entre nós, uma distância que impede que você esteja calejada dos meus ímpetos; uma distância que me impede de ser devoto de ti. Quero de todo o coração supri-la. A saudade é intensa… Tua presença, e apenas tua presença, é capaz de muita coisa. Sinto muito tua falta. Para a cura dessa doença terrível, já me vali dos mais diversos medicamentos, legais e caseiros. Quase que me enveredo pelas fugas fáceis. Sorte que nelas há uma maior distância, o que me impede de fugir desse monstro que me persegue, travestido de mim mesmo, um outro espelhar, que me critica, me julga, e me insegura.

Não faça essa cara… Por favor, não me deixe mais angustiado de mim mesmo. Me diga: sou eu? Estou sendo pessimista, mais além da conta? Engraçado… Eu sempre sou o sujeito mais requisitado pr’esses assuntos com outros, mas quando se trata de mim, ajo tão ou até mais ignóbil que todos os que já presenciei coisa igual. Medo do ‘não’? Confesso… Duro mais é confundir as perspectivas e na rejeição fechar as portas de nossa amizade.

Nunca me senti tão direto, mas não é mais possível aguentar: vivo longe de tudo e de todos; não me satisfazem as gravatas rigidamente ajustadas, os sapatos sempre lustrados como exigência, as máscaras erguidas, quando bem sabemos que nos estertores as maledicências são mais atrozes que entre nós, que temos menos papas na língua… Não me satisfazem os títulos técnicos, as honrarias do progresso, o status do crescimento financeiro, nada disso. A fivela do caubói-empresário e o chapéu de latifundiário fedem mais podre que a mais desprezível carniça.

Temo passar pela crise de consciência solitário, queixoso e sem quem possa extirpar meus medos, atenuando-os de maneira saudável. Nada de dianética, nada de auto-ajuda neutralizadora, nada de dopar a mente. Me enoja a ideia da padronagem total, me causa tremenda repulsa o rígido assentimento às convenções sociais. Um romântico atrasado no tempo? Um modernista às avessas? Um shopping já há muito não me constitui atrativo, aquelas senhoras sem brilho no olhar, carregando sacolas mecanicamente, cheias de sapatos, vestidos, joias, que vão usar uma vez na vida e depois irão jogar fora… Desprezo total, deprimência extrema. Pergunte, instigue a elas, minha amiga: não são capazes de impingir um milésimo de personalidade em seu discurso, discurso que você é capaz de realizar com propriedade no mero cotidiano.

Me dói seguir contra a maré, sempre. Antes não fosse capaz de repulsar tudo isso aí acima, antes fosse conivente e patrocinador desses vazios comportamentais, mas não…

A tua presença, amiga, que me edifica como sujeito singular, compensa tudo isso.


Ouvindo... Metallica: No Remorse

Derradeiras Epifanias (As Primeiras de Muitas)

Fim dos tempos,
a xícara de café anuncia a derrocada,
as putas lotando a esquina,
incorrigível concorrência,
a desmagnetização planetária,
o caos econômico,
o terremoto some-areia,
o olho-por-olho imperando,
a intolerância reinando,
o swing rolando,
ninguém é mais de ninguém…

A noite clarifica mais que o dia,
a xícara de cafeína fortificada,
o LSD vendido a esmo pelas avenidas,
moças de azuis olhos cantando árias,
funestas odes do apocalipse,
as poetisas em declínio,
os poetas em desespero,
o pobre em decomposição,
e o rico em corrupção.

A cegueira de espírito – essa a pior,
que possui a alma em vista d’outrem,  
torna frio, impossível relação;
mais uma xícara de esteroides,
o repórter a coletes à prova de bala,
o canhão de laser apontado para a Caxemira,
e a assepsia sobre as baratas.

Não se canta sobre o Amor,
sobre o Louvor, sobre a Angústia:
todo sentimento foi extinto,
só existe satisfação,
superficial orgulho,
profunda inveja,
muita, muita ira,
e doses de xícaras de dopaminas.

Máquinas em rebelião,
greve automatizada, o escravismo orgânico,
“É a evolução, baby!!!”
Tua recompensa, meu filho, pra tua cega obediência,
será o paraíso, mas para isso,
derrame o sangue impuro da face da Terra,
pois que enquanto a matéria não for queimada,
o espírito jamais poderá atravessar a porta da Esperança,
através de doses cavalares de xícaras de veneno.

A vida de Andrômeda,
que enfim veio nos conhecer,
na noite profunda da rotunda Gaia ferida em seu âmago,
decepcionou-se com nossas atitudes,
e num gesto de compaixão, decidiu,
por fim a este agonizante óbito terrestre,
tomar um barril de resíduo de plutônio,
exterminando as sobras fétidas desse Sistema Solar,
engoliu o Sol, feneceu Europa, Io e Caronte…
Implodiu Júpiter e o Cinturão de Marte,
e no conglomerado de Virgem,
o braço de vida semi-inteligente
conhecida como planeta Terra,
foi extinto dos arquivos universais.

Não sobrou nem planos espirituais pra contar a história,
os visitantes de Andrômeda, aturdidos, entraram em combustão,
e ninguém soube da poesia outrora escrita,
que previra o fim dos tempos
em que se podia, sem nenhuma culpa,
tomar um copo d’água,
para se sentir bem.


Ouvindo... Jethro Tull: A Passion Play (I)

Cerebélico

O que nos adianta,
ter essa massa cinzenta em mãos,
e deixar desgarrar outras posses mais valiosas?

Antes de conhecer a própria alma pela alma,
reconhecer o outro corpo com teu corpo,
quis conhecer os meios de separar alma e corpo?

Com as mãos sob a ordem da massa cinzenta,
o sujeito manufaturou a bomba-H,
as ogivas nucleares,
e datas sem sentido, como prospecto de coleção

Com a massa cinzenta conduzindo ordinariamente as mãos,
líderes em pungência convictos de si memoraram feitos:
lançaram a suástica em arremesso à estrela-de-Davi,
degolaram através da foice e do martelo as ilusões de um mundo utópico,
divinizaram homens de frio pulso, cujo nome é impronunciável
se não antecedido e pós-cedido de um heroico epíteto

Massas cinzentas buscam coibir outras massas cinzentas,
pregando a aporia do fim dos tempos da medicina,
onde qualquer desvio comportamental não seja apenas
o desvirtuamento da alma, mas sim
o defeito corporal biogênico, passível de ser combatido
através das doses cavalares de princípios medicamentosos

E as mãos, bem, essas entre si,
jamais se encontram, devido à angústia
que fundamentalmente a massa cinzenta
pôs em teu caminho pelas várias camadas
da cinzenta face artificial do mundo moderno…

Que sequer permite mais o peso da poesia
e da rima colorida do espírito jugulado por afasia.


Ouvindo... Grateful Dead: Smokestack Lightning