Carta Post-Mortem

Valparaíso, 03 de maio de 2033

Aos meus queridos colegas de pena,

A vida é absurda. Não mais me cabe. Quando lerem esta carta, provavelmente estarei vendo um futuro melhor, distante deste Universo fugaz e horrendo.

A existência é absurda. Nascemos, vivemos e morremos, conforme as leis da Natureza. Alguns mais afortunados casam e deixam seus filhos e suas heranças… Bastam se dizerem advogados, deputados ou empresários. Eu escolhi ser escritor e professor de Filosofia, daqueles que defendem uma nova economia de mercado mais humana e solidária. Assinei meu atestado de pobreza. Vivi nos subúrbios de Valparaíso, uma cidade que vi, menino, ser ambiente das festas típicas. Hoje, é local dos condomínios, das festas eletrônicas regadas a orgias (as orgias que tanto li dos antigos prosadores internacionais do início do milênio) e sinestesias geradas por aparelhos de realidades aumentadas, hiperaumentadas, que não só modificam as percepções dessas crianças com cordão umbilical de banda larga e fibra óptica biotécnica, que nascem com uma conta de e-mail vinculada e tantos outros apetrechos a mais que nos falam, Vocês, do fim do século passado, estão por fora das novas tendências, não estão sabendo se adaptar aos novos tempos, tempos de integração, do compartilhamento de pensamento, da unificação de ideias em torno de um bem comum… Eu conheci isso por Marx, fizeram tudo errado, agora os Jovens Ons estão submissos a um Grande Servidor, não sabem o que é sofrer, não sabem o que é sentir-se sozinho pelo sentir-se sozinho, não sabem o que é a falta, não sabem o que é ter necessidade, bastou o paizinho assinar um Termo de Pacto no nascimento e implantar o chip de integração, ainda na barriga, Veem o mundo com o sentimento de útero, São felizes pobres, felizes por não necessitarem de mais o que tem, Não quero ver meu filho sofrer por falta de dinheiro, Vou submetê-lo a essa coisa do demônio, não há jeito, Melhor que ele não se sinta triste por esse mundo. Vão lá eles, assinam, os meninos não choram, as meninas não choram, mamam mecanicamente, não pedem carinho do pai da mãe, não precisam, aos cinco anos, Quero ir ao Magnânimo, centros de máximo prazer, se copulam como gentes grandes não fariam, Os pais, coitados, antes já se mataram por Amor a Deus, imersos na gloriosa vergonha que se declamam. Não há quase mais pessoas acima dos trinta anos desde 2024, quando o Magnânimo foi introduzido nas sociedades. Os poucos que estão aí, são daqueles que não assinaram o Termo de Pacto para os filhos, ouviram xingos e xingos deles aos sete, oito, nove, quando perceberam que acessar a internet, como eu acessava nos meus anos de infância, já era coisa off, Eu quero uma vida totalmente On, diziam pra vocês, meus pares de pena, e quando assinam a Prospecção de Adesão, outro termo, morriam por não estarem acostumados…

A felicidade é absurda. Vocês se arrependeram de eleger o governo que até hoje está, travestido de social, dando tudo o que estas novas gerações pedem, aos oito anos Papai, vou ajudar o Governo a crescer, entram na Criogenia aos vinte e saem de lá aos vinte e dois, diferentes, com uma pele elástica, não sentem nada, Nunca sentiram, Agora moram nos condomínios. Lá não entram minhas, nem suas obras, Livros são desinteressantes, nos fazem entristecer, dizem, Gostamos dos discursos orquestrados, gostamos de ouvir, gostamos de sentir que o que se sentia há bons anos, Eles amam é sentir o discurso… Passam horas baixando os arquivos de discurso, as velhas literaturas não são lidas nem escutadas, e sim assimiladas com gostos e cheiros e visões que certas vezes os atores da finada Globo se submeteram a fazer a mando do Governo. Mas isso… ah, isso meus caros, não demanda mais as vinte e quatro horas do dia, Eles sentem O Capital reverberando em hormônios do sangue deles, enquanto produzem para a sociedade contente deles os utensílios necessários para a vida funcional que vão desempenhar, em favor do Governo, sem queixas, sem revoltas, tudo perfeito, tudo uma felicidade absurda, que me faz ódio pensar como funciona.

A pena é absurda. Depois da morte de Rubem Fonseca, não houve mais contista capaz de dizer o que esse mundo precisa. Todo mundo se tascou a fazer romance técnico, literatura de autoajuda desprezível, os caras da tecnologia trataram de suprir a depressão coletiva que assolava o mundo por volta de vinte. Foi preciso o assassinato de duas lideranças do mundo para que eclodisse a mais eficaz ditadura. Zola, Dostoiévski, Assis, Lispector e muitos outros foram sinestesiados para logo em seguida serem queimados. Bibliotecas? Só as clandestinas. Cartas a papel, preservação tola de costumes dos tradicionalistas. Falam que isso é o futuro inevitável do comunismo. Não não é! Isso é o futuro inevitável da sociedade, o futuro de formigas, o futuro de quem não quis se aplacar das coisas que nos tornam humanos.

As oportunidades são abusrdas. Foi há vinte anos, eu era um tecnólogo, disse Não sei se deveria investir nisso, é perigoso Por que, me disseram, As pessoas sentirão falta disso, em caso de pane elétrica. Fingiram que ouviram, foram consultar outro, um amigo meu, Empreendedor ao máximo, Vendeu pai mãe e o caralho-a-quatro pra fazer sucesso. Hoje o que se pode chamar Brasil está nas mãos dele, Ele é o cara! Ele e os filhos dele e os poucos amigos que ali cultivam, lá em São Paulo, numa área isolada de tudo. E o que é melhor – ou pior? – sem essa vida On, esse puto da vida lhes ensinou o quanto isso é pernicioso… Pra eles. Era pra ser comigo, ter a loira que ele tem, a grande fração de terra que ele tem, os amigos que ele tem, a vida que ele tem… Eu? Eu fiquei no meu idealismo, paguei o preço pela minha lealdade à vida, não quis ser o Co-dono do país, em conjunto com o governo. Minha paga? Não foi a deportação nem a tortura nem qualquer outra privação dos anos anteriores, minha privação foi dada por mim… O homem quer ser dominado por algo irresistivelmente maior que ele, ele quer se entregar ao escatológico e inevitável fim, Ele, por mais autônomo que seja, não consegue se desprender das suas humanas convicções e contradições.. O tempo de homens plenos se foi junto com os Anos de Ouro da Grécia…

O futuro é absurdo. Espero, de imensa ingratidão, que essa sociedade seja submetida às larvas interplanetárias e explodam com esse mundo de fingimentos cada vez mais verdadeiros. O futuro livre do homem era ser capitalista, acumulador e individualista. Compartilhar tudo com todos, na realidade é uma bobagem sem tamanho, porque algum sortudo verá nisso uma oportunidade para se promover, e olhar para baixo com orgulho e dizer – enganadoramente? – que é a pessoa mais plena do Universo, que Deus é uma grande bobagem.

O absurdo é Absurdo. Queria que este indivíduo fosse eu, mas, por Fortuna, verei o fim das minhas queixas com minha morte depressiva e libertadora.

Com carinho desprezível,

Aliguiero Danteschi


A lida desta carta, por meio da tecnologia da Sinestesia, em agosto de 2036, comemorou, publicamente, os vinte anos de inserção do Novo Regime, ensinando à Comunidade os malefícios que se têm ao não introduzir seus rebentos no Sistema Sinestésico de Vivência Coletiva Governamental. O sentimento de pena foi devidamente explorado numa experiência emocionante, promovido pela Sociedade de Escritores de Valparaíso.

Em tempo: Aliguiero Danteschi era o último dos sobreviventes dos tempos de transição no país. Sua presença era considerada incômoda pelo governo, pela razão de incentivar a não-adesão dos nascituros a um futuro de serenidade e gloriosa paz que a tecnologia podia lhe oferecer.


Ouvindo... Slayer: Piece by Piece

A Caneta Magnum

A Caneta Magnum

Suicídio
ao positivismo
produtivo
e otimista

Cada palavra
funciona
como veneno
antípoda

Déspota
assassina
a pena
que digita

Persuade
ao mal
que duvida
e incita

Maldade
ao córdio intento
de amar
e dar contentamento

Pensa e pensa
impinge
a dúvida
e o deslize

Rubro e preta
a sobriedade
poética
da cinzenta urbe

Da desordem
proclamada
regressa ao infindo
vontade humana

Niilista enfim
concede voz ao macabro
e ao inóspito
desejo pessoal

A pena, quando escreve
na ânsia de fazer um bem
expõe de melindrosa maneira
um indizível mal


Ouvindo... Uriah Heep: Midnight

O sepulcro de Rousseau

Os jornais ficam loucos na passagem do dia 24 para 25 de dezembro daquele fatídico ano inonimável. Tudo porque, na vila Progresso Iluminada, um menino de apenas cinco anos portava uma arma de fogo nas mãos – uma Glock 9mm com silenciador – e assassinou os pais, militantes de esquerda, “acidentalmente”, salientou o periódico, que incluiu a notícia tão tardiamente a ponto de mandar as gráficas pararem o processo que corria no especial de Natal.

Os assinantes da Grande São Paulo ficaram tão putos por receberem seus jornais com três horas de atraso – a maioria deles, trabalhadores de serviços essenciais que não paravam no Santo Dia – as reclamações foram diversas de exemplares afanados, os SACs se entupiram de reclamações, chamou-se o contigente extra de funcionários que estavam em descanso com suas famílias. Houve, nos dias seguintes, um divórcio, três mortes por estafa e um caso de violência relatado na Delegacia da Mulher. Prenderam os médicos e o marido violento. O hospital tinha como provar que a morte dos funcionários nada teve a ver com a incompetência dos médicos, e eles entraram em protesto. A comunidade odiou e foi protestar diante do edifício da CRM. Apesar do trânsito do dia ser diminuto, houve confronto; chamaram a polícia e teve muitos feridos e mais alguns mortos, dos quais um deles era chefe do tráfico de alto naipe na Zona Leste.

Foi a semana mais terrível, pois o PCC montou uma força-tarefa capaz de criar um cenário de terror por conta da pretendida retaliação. Queimou dezenas de postos policiais, explodiu centenas de outros no Estado e ameaçou matar o governador. Este, diante da opinião pública fervilhante, arredou mão de pedir à União para colocar o Exército e a Força Nacional nas ruas. Prenderam quem devia e quem não devia. O caldo ficou absurdamente grosso e a presidente precisou decretar estado de sítio no sudeste, pois a encrenca tomou proporções calamitosas. ONU, os EUA e diversas entidades digladiaram-se para entender o que realmente havia acontecido naquele Natal. Os megaeventos foram cancelados e a economia brasileira foi para o brejo, carregando o mundo para uma interminável crise capitalista… Nada novo.

As famílias, já no desespero epifânico, ao assistir o Fantástico, recheado destas e de diversas outras horripilantes notícias, presenciaram a entrevista que sondou todo o histórico da família do menino que havia morto os pais na virada do ano. Tentaram, a todo custo, explicar algum motivo para o fato dele ter feito aquilo: irresponsabilidade paterna, conduta familiar inadequada pela escolha ideológica dos pais, bullying na escola…

Dias depois, a sociedade estava pedindo o fim do Estatuto da Criança e do Adolescente, bem como decretando o fim da infância tal como a conhecemos. Tudo porque, reiteradas vezes e com uma incomum postura, o menino olhava a câmera e a repórter e dizia “matei por que eu desejava, do fundo da minha alma, que eles morressem!”, com uma voz intumescida de ódio primitivo. Não houve o Angelus do ano novo porque o Papa passou muito mal, vindo a falecer poucos dias depois, ao saber que grupos de extremismo ultraconservadores e fanáticos ao redor do mundo estavam, por si sós, rechaçando violentamente crianças, “potenciais agentes de Satanás no mundo”.

A imagem do fim da infância deu-se, iconicamente, quando um homem vestido de branco e um simulacro de asas de anjo arremessou uma cruz numa estátua de gesso de um menino Jesus na manjedoura, na Picardia, no início do novo ano…


Para ouvir ao som de New Order: Elegia