Cerebélico

O que nos adianta,
ter essa massa cinzenta em mãos,
e deixar desgarrar outras posses mais valiosas?

Antes de conhecer a própria alma pela alma,
reconhecer o outro corpo com teu corpo,
quis conhecer os meios de separar alma e corpo?

Com as mãos sob a ordem da massa cinzenta,
o sujeito manufaturou a bomba-H,
as ogivas nucleares,
e datas sem sentido, como prospecto de coleção

Com a massa cinzenta conduzindo ordinariamente as mãos,
líderes em pungência convictos de si memoraram feitos:
lançaram a suástica em arremesso à estrela-de-Davi,
degolaram através da foice e do martelo as ilusões de um mundo utópico,
divinizaram homens de frio pulso, cujo nome é impronunciável
se não antecedido e pós-cedido de um heroico epíteto

Massas cinzentas buscam coibir outras massas cinzentas,
pregando a aporia do fim dos tempos da medicina,
onde qualquer desvio comportamental não seja apenas
o desvirtuamento da alma, mas sim
o defeito corporal biogênico, passível de ser combatido
através das doses cavalares de princípios medicamentosos

E as mãos, bem, essas entre si,
jamais se encontram, devido à angústia
que fundamentalmente a massa cinzenta
pôs em teu caminho pelas várias camadas
da cinzenta face artificial do mundo moderno…

Que sequer permite mais o peso da poesia
e da rima colorida do espírito jugulado por afasia.


Ouvindo... Grateful Dead: Smokestack Lightning

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Momento Poesia: Transcendência

Rotina diária, inclarividente
o ocaso de um alucinógeno
transformando a realidade:

O que antes era cinza, hoje contente
lançado ao prognóstico
da irresoluta inverdade

Se dissipa em lances vertiginosos
malabarismos metaplasmáticos
sequências de zero sendo divididas continuamente
e astronômicos domínios compondo sinfonias cognitivas

Visões da décima primeira dimensão
táteis, avatares e segunda pele mesclam-se
nesta ulterior realidade, compondo fragmentos
computacionais virtualizando seu plano unívoco…

Unívoco e sem-escolha,
sem-vergonha, sem-caráter, sem-conteúdo
muros de convenções sendo derrubados incessantemente
duas, três, quatro, cinco vezes, sem serem reconstruídos

Construtos, tufões, argamassa, espátula e canhões
o que se ergueu uma hora cede
e depois de finda essa quermesse
dos bons costumes alheios inexpressivos
o viajante-caixeiro, experimentado na arte do ácido e da infusão
conversa com seu segundo-eu, terceira consciência e quarto espírito
egos incessantes sobrepostos nesta investida terrestre
da existência da Era de Aquarius,
que por mais que seja aceita
não deseja se manifestar…

As folhas de ouro do eucalipto substituíram a marola do cenário mainstream
pelo fumo químico dos paletós industriais, impávidos pela negação da experiência…
A grande experiência provida pelo turbilhão da antiguidade,
inonimável…
por se cessar
o efeito,
da
trans-
cen-
dência…

(Ora…! Já acabou?)


Ouvindo... Pink Floyd: Money