Confissões [12]

Mas amiga, alegria! Que eu quero me alegrar, eu quero te alegrar, pois que uma alma maternal está me alegrando, movendo o vazio que havia em mim pra outro lugar. Não que eu veja flores, não que eu veja coloridos… Estou sob o mesmo céu cinzento, estou sobre o mesmo concreto. Apenas não fico tão cinza quanto o céu e não me incorporo ao cimento.

Fico tão feliz ao saber que, com algo tão simples, posso dar novas perspectivas a nós… Descobri que carência eu tenho de ti: não é bem paixão, não é bem amor… É mesmo aquela necessidade de falar bobagem sem me sentir penalizado pelas máscaras que há muito me aturdiam… É a possibilidade de não ter que ficar enterrando minha sinceridade diante de ti, amiga, de dizer o que penso dessa vida, de dizer o que quero, de dizer o que penso de você, e, antes de tudo, de te escutar, de dividir contigo minhas alegrias, sem qualquer compromisso sério social de troca mercantil.

Vamos, amiga! Divida essa alegria, a seu jeito, comigo… Posso talvez me sentir desamparado na próxima rocha, mas eu sei que estará ao meu lado, e eu estarei do seu…

Falando bobagens a mil! Smiley de boca aberta


Ouvindo... Crosby, Stills and Nash: Since I Met You

Confissões [8]

Enfim, amiga… Eu sinceramente não sei de mim! Reconheço na minha pessoa um ser duplo, triplo, múltiplo, pois que ao mesmo tempo que juramento a mim mesmo que te respeito, eu te traio em pensamento por uma pele macia, por um olhar penetrante, por um sorriso meticuloso. Como pode isso? Realmente eu não sei… Saia de mim, ultrajes!

Ajude-me amiga! Dê-me teu ultimato, pro bem ou pro mal. Eu preciso dele pra saber se compensa assumir essa torpe faceta cafajeste, haja vista que não me queira como eu te quero; ou se abdico dessas superficialidade, e faço de ti meu monumento a ser esculpido pelos próximos anos…

Por favor amiga… Faça alguma coisa, urgente! Não sabes, estimada, o quanto sofro diante desse impasse. Ao passo que eu amo a ti, eu desejo as outras. Isso é provação divina, bem imagino – torpe nesses quesitos que sou – e não sei por quantas mais devo passar pra te merecer. Eu sei que não corro atrás de ti, você precisa respirar, você precisa do seu tempo, mas…

Mas por favor, eu te suplico, com todos os endossos: faça uma resolução, porque seu tempo de pensar me parece uma eternidade, e não sei por quanto tempo vou ter de sobrevida antes de uma severa epifania. Sim! Eu estou sujeito às epifanias, muito mais que no passado. Não consigo esconder mais nada de ninguém…

Nada, exceto o que realmente sinto por você.

Por favor, considere isso em seu ultimato! Pela minha epifania.


Ouvindo... Maria McKee: No Other Way To Love You

Confissões [7]

Por favor, minha amiga; reconsidere meu pedido: sofro incessantemente no recôndito do meu aconchego a hostilidade do desentendimento e da Discórdia, filha da Noite funesta. Quem me deveria ser exemplo não faz mais que decepcionar, diante de tanta briga e confusão, diante de tanto ego ferido querendo se sobrepor e diante de tanta fútil necessidade de se impor diante de outrem.

Nada há que resolva isso, nada! Seja um conciliador jurídico, ou psicanalista ou uma religião, até porque sei que talvez cada um deles pode ter tido a sua possibilidade de resolver o problema que presencio. E nenhum deles foi eficaz.

Detesto, querida amiga, esta máscara social que erigem pra dizer: “tá tudo bem, somos pessoas felizes”. Não! Não são pessoas felizes: são pessoas contentes, o que é sutilmente diferente. Pessoas ricas, com direito a comprarem tudo o que quiserem, inclusive forjarem amizades, são pessoas contentes; pessoas que constroem mundos ideais onde fogem da realidade quando bem lhe aprazem são pessoas contentes. Contentamento, querida amiga, é uma droga anestesiante, pro momento, fútil e descartável… Eu quero felicidade: contigo, pra mim, de quem me é exemplo; verídica, autêntica e duradoura.


Ouvindo... Hüsker Dü: Powerline

Confissão (2)

Mas, enfim, eu vi tudo o que você queria. Vi na janela da alma o que você queria, não porque você mostrou pra mim, mas porque eu extraí de você. Sim! Eu extraí isso de você, abrindo carta branca do que eu sentia por você. Agora você sabe, amiga, que eu não sabia de você em mim, e eu queria saber de mim em você. Você disse que “não” pra mim… Tudo bem, isso admito. Mas também não diz “sim” para o outro. E isso me perturba. Sinto um ambiente suspenso. Entre vocês há um penhasco, bem profundo, vertiginoso. Só que tem uma ponte ligando os dois desfiladeiros. Mas que droga! Vocês sequer estão com coragem de atravessa-la. Que é isso? Medo de que a ponte esteja quebradiça? Ah, faça-me o favor… Foi-se o tempo em que cada um de nós tinha o colo seguro e protetor de mãe para nos proteger. Tá na hora de vocês – e eu também – correr o risco de atravessar a ponte.

Mas, pra falar a verdade, já corri esse risco tantas vezes com tantas pessoas dos dois lados do desfiladeiro. Eu garanto: atravessa-lo não é nenhum prejuízo. Apenas vejam onde os passos desgastaram a madeira: ali é seguro pisar.

Mas faz favor, você, amiga, e ele: não me façam mais de garoto de recados e caixinha de segredos. Não sou padre, tampouco cupido ou túmulo pra guardar segredo. Logo, logo, desanimo do meu ideal de vida e vou ser mais um desses pobres coitados autômatos da sociedade, cobrando por terapias de casais que sequer deram as mãos na vida real.

É isso! Decida o que você quer de sua vida, amiga. Porque eu já decidi seguir o meu trajeto, e ele não inclui mais passagem em sua vila…


Ouvindo... Rush: Force Ten

Confissão

Tua suavidade é meu veneno, amiga. Tua suavidade, teu alheamento não-intencional, tua ternura, tudo isso me confunde, me inebria e encarece de me deixar em dúvida sobre mim mesmo. Será que te quero? Será que te quero bem? Será que te quero aqui, agora, do meu lado, ouvindo o que ouço e compartilhando de um mundo que você acha intransponível? Não sei… Há um caminho tortuoso entre nós, você o reconhece e o repudia. Mas, ao mesmo tempo que você o repudia, não o previne. Bastava uma palavra mágica na sexta-feira, sábado eu estava aí do seu lado, tentando entender como funciona esse fluxo de pensamento tão inconstante teu. Inconstante como uma pena que corre o teu papel florido e enfeitado… Caderno de jovem adolescente, que sabe o quanto a vida é cruel e, mesmo assim, ainda sonha com teu cavaleiro de armadura que te resgate dos sultões perniciosos e lhe dê aquele beijo tão esperado, não mais no final da história, mas no começo de uma nova.

Fala dele, dele… Mas tudo parece tão para mim, as pistas todas conspiram para mim… Não sei, deve ser minha imaginação e meu vazio afetivo dizendo que sim, são… Se ao menos você me convidasse pr’um café, pra confessar olho-a-olho, sem precisar dizer que “ele” é o outro, ou – o que melhor esperaria – o “ele” fosse eu. Eu sei que se olhasse teus olhos, você com certeza confessaria tudo, mesmo que não desejasse confessar. O olho, já dizem, é a janela da alma, e não fosse essa distância, e esse bloqueio comunicacional entre nós – apenas essa mera troca de cartas – saberia o que você queria de mim, e eu saberia o que eu realmente queria de você… E você saberia disso, sem devaneios.

Mas agora estou achando que está sendo muito tarde… Você, minha amiga, está cansando de esperar resposta e esse “ele” pode acabar se tornando uma terceira pessoa: nem o outro, nem – para meu desespero – eu.


Ouvindo... Jethro Tull: Teacher

Uma Carta Solta no Correio

Email Leia apenas se você tiver estômago forte. Os correios decidiram levar esta carta para uma benzedeira, tamanho o descaso e o negativismo que havia nela.

Seria isso uma carta de amor?


São Paulo, 22 de Abril de 2011

Olá, querida…

Já é a décima correspondência que te mando, e acredito que será sem resposta…

Sei que você sequer vai passar desta página. Você não tem tempo…

Tenho certeza que antes você olha para todos, menos para mim.

Continuar lendo

Cartas Osasquenses

Confessionário

Os fatos e pessoas aqui descritos são ficcionais, e os endereços escolhidos ao acaso.

Email Osasco, 26 de junho de 2002

Remetente: Av. Marechal João Batista Mascarenhas de Moraes, xx
São Pedro, Osasco – SP

Destinatário: Rua dos Maracolis, xxx
Colinas de Ibiúna
Ibiúna – SP

Caro colega Marcelino Giovanni,

Como tem passado?

Espero que esteja bem em seu novo endereço. Ouvi falar que é um dos mais chiques da cidade… É, você merece. E muito.

Conseguiu tudo o que queria em sua vida: um carro importado, esta casa – que você nunca me mandou fotos – , montar seu próprio negócio aí na sua cidade, após um relativo duro esforço aqui em Osasco.

Também não é pra menos: você, meu colega de Fundação, lá do Vila Yara do médio. Teu pai é um competente gerente lá do banco. Sabemos muito bem. Meu pai sempre contou com a ajuda dele na questão das finanças pessoais. Você estava lá na Fundação por direito. Eu estava por um relativo mérito: me destaquei um pouco mais na minha escola do fundamental… Coitada da escola… Eu não era dos alunos que fosse chamado de orgulho escolar, mensura de avaliações estaduais. Tive a sorte de assistir a algumas poucas aulas de Matemática, que me garantiram a passagem à prova na Fundação….

Bom… Passei porque outro sujeito havia desistido da vaga. Eu fui o primeiro dos últimos, daqueles que não sequer imaginariam estar lá. Antes de mim, foi outro, que já tinha uma mãe funcionária, um segundo que apenas fazia pose de entendido, mas levava uma colinha na mão, e uma moça; essa sim, a que poderia ser considerada o melhor produto originado daquela escola. Marilena Hernandes era o nome dela. Uma estranha no ninho: morava num bairro mediano, aqui próximo de mim. Por uma questão de consciência social, os pais dela decidiram matriculá-la aqui na minha escola, mas tinham amplo direito de, desde cedo, fazê-la estudar numa melhor instituição.

Fomos colegas desde os primeiros anos, você sabe… Ela me deu a maior força para entrarmos juntos na Fundação. Ela possui um espírito incentivador como nenhuma outra moça ali naquela escola tinha. Sem falar no quanto era bonita… E você sabe muito bem disso. Sabe pois éramos o trio parada-dura da nossa época. Você nos acolheu muito bem a esse universo distinto. Ajudou – e muito – nossa caminhada por lá. Esforçou-se por nos colocar nos círculos sociais tão fechados que ali estavam.

Sei que não foi um êxito de esforço… Nunca fui pra essas conversas de gente da classe média: séries de tevê paga, filmes blockbuster, Anália Franco, idas aos bailes dos veteranos… Um mundo tão confuso pra mim, que em casa tínhamos daquela de tubo na antena de vareta, os filmes de dez anos da Sessão da Tarde, o shopping Galeria, onde eu podia comprar alguma coisa com uma rara mesada dos meus pais, isso sem falar na formatura nossa, que não participei.

Não sei se você sentiu minha falta nela, colega. Nunca recebi qualquer carta sua a respeito. Eu fiquei triste com certos assuntos, bobos até demais…

Queria poder compartilhar com você um pouco da minha amargura.

Como você deva saber, não levava muito jeito para qualquer coisa: nem pro esporte – o professor de Educação Física sempre teve que improvisar algum esporte-terapia que pudesse praticar – nem pra redação – como aquela Angela reclamava dos meus garranchos sem sentido – nem pras artes – minhas casinhas de desenho eram quadradas, e as pessoas bonequinhos de palito. Nunca entendi computação – por isso te envio essa carta, e não um e-mail – nem qualquer outra coisa. A muito custo, recentemente, consegui um bico de pedreiro numa obra, a exemplo de meu pai. Mas meu patrão é severo comigo, e diz sempre que eu levo jeito pra peso de papel.

Achava que a única capacidade que tinha neste mundo era de compreender as pessoas. Mas nem isso achei ter também…

Como sabe, havia uma pessoa muito especial na Fundação que chamava a atenção como ninguém. Eu fiquei gradativamente deslumbrado com ela – e quem não fica? – e ela era uma das poucas pessoas com quem me dava bem ali. Bem até demais, como se fôssemos velhos amigos, desde o jardim de infância.

Mas então chegou um sujeito, que pagava de bom moço, de família de prestígio, com tudo o que há de bom e melhor nesse mundo. Tudo o que não era bom, ele era. Tudo o que não conseguia ser ali, ele conseguia. Em todo evento, lá estava ele, fazendo presença. Nos que eu conseguia participar, com muita economia, tentava aproximar-me dele, para poder compartilhar um pouco desse prestígio, mas eu sempre fazia o papel de sombra, quando não o da poeira varrida do acontecimento.

Meses antes da nossa formatura, estava eu diante da deslumbrante colega, num evento na Fundação festivo. Ela estava bela, como nunca! Percebi-me com suadouro, tremendo: não era outra. Aquela pessoa tocava fundo em mim…

Mas eu, apesar de achar que entendia as pessoas, nunca tive coragem de dizer, com meu pequeno arsenal de palavras, o quanto gostava dela. Acho que tive medo de ser material de uso descartável, por não oferecer assunto para mais de cinco minutos, exceto se for para Assistente Social.

O indivíduo chegou, deu um sorriso para ela e, pela primeira vez, demonstrou sua real face para mim. Pediu-me para procurar pela festa outro colega nosso, que eu sabia, não com muita certeza, que não estava lá…. Poderia ter me enganado? Ele estava? Fui conferir. E como o evento era muito grande, passei aquela noite toda, sem aproveitar com meus poucos colegas o calor da alegria.

Percebi que ele não queria minha presença ali… Pois quando voltei, ele soltou um olhar gélido para mim, e a beldade estava toda no encantamento dele. Não sei que argumento – de palavra ou material – ele usou, mas uma coisa foi certa: foi eficaz.

E ela nunca mais sequer quis saber da minha presença… Fiquei muito puto com isso! E estou até hoje! Soube que ambos casaram e mudaram-se para outra cidade alguns anos depois, após terminarem a faculdade: ela, de Direito; ele, de Engenharia Petrolífera. Tudo na USP.

Eu tive que me contentar com um semestre mal-sucedido na faculdade de Pedagogia da cidade de Carapicuíba, aqui do lado. Mesmo contando com o apoio do governo federal, não pude obter o conceito mínimo para manter minha bolsa. Sem dinheiro, com minha mãe já falecida e meu pai com uma aposentadoria esdrúxula, tive que começar a trabalhar, fazendo alguns bicos, sempre remunerados abaixo do valor que costumavam ser cobrados. Mal aprendi a dirigir a velha Kombi de meu pai, arranjei multas pelas rodovias, sempre descompensando ainda mais meus ganhos.

Remoí por anos a fio aquele episódio da Fundação. Eu podia, muito bem ter dado uma sova na cara daquele sujeito idiota, ao menos! Mas era óbvio que eu saía perdendo também. Aquela moça bonita podia me achar um grosso, um brutamontes… E eu achava que ela merecia coisa melhor que eu.

Tolerei outros padrões de beleza menos favorecidos, na minha rua, na comunidade religiosa daqui perto, de todo e qualquer lugar que ia. Olhei-me pro espelho um dia, e convenci-me de que não tinha atributo suficiente para ser atrativo para mulher bonita nenhuma. Mas mesmo tentando com as feias, nem isso conseguia… Faltava charme, faltava beleza, assunto…

E o mais fundamental: faltava dinheiro. Tudo aquilo que aquele sujeito e você tinham de sobra, vindo da família, e depois, obtido do próprio.

Cara!…

Como me sinto um idiota e um inútil! Já quis algum dia integrar o submundo da criminalidade, ou assaltar uma arma daquelas bem pesadas, só para atirar naquele mesquinho, ou ainda para acabar com minha agonia!!! Mas sabia que meu pai precisava de apoio: portanto, não seria agradável para ele enterrar o próprio filho, ou vê-lo ser marginalizado e preso.

Desisti desse objetivo. E assumi que não tenho chance nenhuma de viver nesse mundo cão acompanhado por uma – uma única – mulher… Que bastava a mim, sobreviver o suficiente para ajudar meu pai a pagar as últimas dívidas dele antes do fim da vida, evitar que ele caia no alcoolismo, e a manter comida na casa, para ele e para mim.

Meu pai é a única pessoa nesse mundo que genuinamente deseja tudo de bom para mim. Talvez meu último incentivo de dar razão à minha vida. Mas jamais quis revelar a ele esta angústia, que guardo comigo há doze anos.

Revelo a ti porque, não sei, você pode dar uma razão especial de me ouvir. Afinal, fomos colegas na Fundação. Você evitou que eu estivesse mais deslocado naquele ambiente estrangeiro do que realmente estava. Devo muito a você… Reformo sua casa e, se quiser, ainda pago.

É o mínimo que devo oferecer a ti, já que foi você aquele sujeito que quis ter coragem de dar a sova… Desculpe-me revelar… Eis aí o motivo da minha ausência na formatura.

Sucesso na sua vida… Acho que essas coisas são dadas de berço e hereditárias. Você tem mais é que brilhar… Eu tenho mais é que me contentar em ser a poeira da sombra.

E mande abraços à sua esposa e minha amiga, Marilena Hernandes Giovanni. Desculpe-me confundir o espírito dela de caridade com amizade e com amor.

Espero ansiosamente sua resposta,

Respeitosamente,

Moacir da Silva

* soube-se desta carta pelo fato do destinatário ter recusado-na. Sendo inservível, o entregador se compadeceu da letra tosca escrita nela, bem como da ortografia terrivelmente mal-elaborada. Reescreveu a carta para expressar a angústia de alguém que sequer teve a coragem de arriscar um momento de sua vida, para obter alguma auto-estima para seu futuro.


Ouvindo... Alice in Chains: Queen of the Rodeo