Em homenagem a B.V. (ou sobre as Baleias Azuis)

Na baleia azul – a portentosa musculus
vigora a gigante pulsão da vida:
em teu masculino ato copulatório,
as aqua-sementes, quando não germinam
em uterino blau-grande-balinácea prosperar
de provento a outras vidas, coralíneas,
pequenos písceos e outros demais
no ecossistema a vida suportais
em comunhão com seu triste assaz soar.

Fazemos mênção a esse pequeno epitáfio ao nosso estimado e finado colega Bartholomeu Vinardi, nascido cá no nosso glorioso estado da Bahia há coisa de 30 anos, como princípio de nosso discurso de homenagem post-mortem a esse que dedicou seus estudos em biologia, sobretudo ao ecossistema onde conferiu grande relevância aos ditos grandes cetáceos.

Bartholomeu – ou, para os mais íntimos, Bart, o que imaginamos que tenha vindo daquele personagem do Simpson tanto seu batismo como a lei da economia de fala – que, outrora, era troçado por Ju-Barte, já que em nossas saídas do Ensino Básico, lá nas lindas costas da Bahia, não raro, este nosso então pequeno se debruçava, nas praias, a ouvir os longínquos cantos balináceos (Abrolhos não estava tão longe de nós). Nosso Bart, a despeito dessas troças, decidiu desde muito jovem: seria biólogo. Assim o fez. Dedicou seus últimos anos para ingressar no curso de biologia da Federal de cá. Ingressou, de fato, e sua dedicação e identificação com o curso foi intensa: atravessou a graduação com louvor, fez mestrado e doutorado em uma única tacada.´

Para as defesas, debruçou-se num tema controverso, do qual a epígrafe, de autoria dele nos seus últimos tempos redigiu: os resíduos esparmotozoidais do ato sexual entre baleias constituía uma dieta-base para organismos de micro- e pequeno porte no ecossistema local onde subsistem as baleias, sobretudo as Jubarte e as Azuis. Embora os bastidores troçavam dessa hipótese, sua mesa de arguição tratou de recebê-la com devida atenção, conferindo-lhe os títulos. Mas o ceticismo vigorante o impeliu a desenvolver suas propostas em outras bandas.

Assim, seus últimos três anos em vida foram um intercâmbio para o Extremo Oriente, em busca de respostas assemelhadas, e corroboração de sua hipótese.

Cá entre os presentes nessa cerimônia, fazemo-nos notar que esse período fora decisivo para o que temos diante de nós: nosso estimado Bart jazendo entre nós.

Déssemos atenção aos últimos meses e aos relatos que ele nos contava em reuniões informais, talvez o tivéssemos ainda vivo entre nós. De muitos, tentarei vos citar, mais ou menos, à memória, os seguintes:

Não foi somente a pesquisa que me impeliu a circular Tailândia, Japão, costa da China e Coréia, buscando as minhas desejadas respostas de pesquisa, mas também a militância e o ativismo ambiental, a conscientização de outros jovens biólogos nesses lugares. Foram bons tempos lecionando em cursos rápidos nesses lugares… Mas foram piores os tempos entre o fim dos trabalhos e a detenção que sofri por conta dos impropérios de ordem política que, acreditava, estar divulgando do modo certo. Falava com convicção sobre a situação que eu, supostamente, acreditava que eles sofressem – não sei se os tailandeses ou os coreanos, não sei mesmo te dizer, cara – enquanto civis, diante de seus governos. Creio que meu falso testemunho, com base do que ouvia aqui no ocidente, me levou aos serviços de detenção do Estado…

Eu costumava estar sempre acompanhado por dois sujeitos que pouco se comunicavam comigo em inglês – apenas o essencial, “quer comer?”, “quer beber?”, e assim vai – e mais na sua própria língua, tão melodiosa aos meus ouvidos. Eu até me esforçei pra compreender, afinal, o que eles falavam… Vezes ou outra, procurava imitar sua fala, com a devida atenção minha, mas eles troçavam entre si acerca de meu despreparo. Final das contas, aprendi quase nada do que eles falavam. Não me importei muito com isso.

Tinha um terceiro deles, um chefão. Muito aprumado, esse era durão. Recostava horas ao pé do ouvio, com um inglês absolutamente limpo, de dar inveja a qualquer britânico padrão… Me mostrou como somos enganados por muito que vem da Europa e sobretudo dos ianques… Como eles montam teatros de imagens a respeito de fatos históricos… Ninguém chegou a Lua, ele me mostrou provas disso!!! E os estudos de Astronomia são uma balela. O universo mais se parece com aquele esquema de Aristóleles e Santo Tomás, tem um limite, maior do que se imagina, mas nada tão imensamente grande quanto se divulga aqui. E me deu provas cabais disso: apontem uma lanterna no céu! apontem uma lanterna no céu!!!

Percebíamos, da parte do nosso colega, alguns comportamentos estranhos, como imitar baleias em ato de cortejo, logo após a sua volta. Ele falava pra gente não se fiar nisso, que eram bobagens da parte dele. A gente, entre essas e outras declarações de sua detenção pr’aqueles lados da Ásia, ao questioná-lo sobre mais detalhes, nos fiávamos nas contradições da parte dele. Ora, a detenção era por falso-testemunho, ora, por alguma despesa não ajustada. Não raro, tratava de desviar o assunto, dizia que não tínhamos que nos ver com isso.

De terceiros, soubemos que o mais coerente foi da intervenção ativista de um grupo que ele participava no mar do Japão, onde figurava uma empresa sino-tailandesa que capturava baleias para fins culinários – pra quem não sabe, ainda a baleia é considerada uma iguaria, tal como o salmão do sashimi, a despeito dos tratados internacionais de cooperação pela preservação das baleias. Temos as fotos da detenção, mas ele assegurava, em vida, que não fosse ele ali. Estava em outro evento, não sabia onde…

Seu semblante, nos pouquíssimos últimos meses de seu retorno a nós, era apático. Não podia se debruçar em ouvir intercambistas dessas regiões longínquas de nós, ficava estático – dizia que era pra aprender a língua que nunca aprendera ali – e, caso eles viessem a olhar nossa mesa, notávamos sua apreensão ao virar a face para outra direção…

Talvez se nos déssemos conta das suas conjecturas de cunho historiográfico pró-sinico e pró-sionístico (desse último, favorável à história da Tailândia, não que ele outrora fosse pró-estadunidense). Ele, considerado muito inteligente, debruçava-se no argumento que nossa história ocidental constrói uma culpabilidade existente aos estados daquela região, tão somente por conta da derrota na Guerra do Vietnã, atribuindo-se um vitimismo infantil de quem não aceitaria a derrota. Daí, justificar que a questão que ele sempre nos pedira ser inonimada da Praça da Paz fora um teatro forjado de história viva, só pra não nos determos em outros exemplos, menos conhecidos e só interessantes aos nossos colegas que realmente se debruçam na história.

Julgamos – os seus próximos e a família – que ele viesse a ter sofrido com traumas diversos nesse meio tempo, então recorremos à Psiquiatria. Ele, já prescrito a ansiolíticos e calmantes, contudo, não fora o suficiente. Se isolava socialmente, debruçava-se mais em redes virtuais, a coisa ficava séria. Mesmo cá nós, morando num estado quente, ele fazia muita questão de roupas longas, para dias de frio…

Se nos acalentássemos em ajuizar com mais carinho a respeito dele, talvez não o encontrássemos sob condição de overdose, o que o levou a este óbito repentino. Talvez não estaríamos aqui, recitando essa homenagem. Talvez não estaríamos testemunhando a hipótese criminológica da única Baleia Azul que deveria, sim, ser exterminada, não só por conta desta vida que nos foi tragada, no barco da existência, como de muitas outras, fragilizadas por motivos, que muitas vezes consideramos picuinhas, embora menores que as testemunhadas pelo nosso querido Bart, Ju-Barte, malgrado esse pequeno bullying que, desejamos, não tenha sido um dos estopins nesse decurso…

Cá encerramos, predispostos a levar em nossos corações, com esta perda, uma lição: se não estiver afim de acreditar em testemunhos – mesmo de teor paranoico – ao menos, não desacredite. Isso pode fazer uma enorme diferença na vida de alguém…

E, ao soar das trombetas, que imaginemos do nosso Bart, para quem em Deus creia, um lugar no Paraíso… Para quem em crenças de reencarnação, que ele tenha um karma menos pesado em vida vindoura. Se, do desejo ulterior dele, ouçamos as baleias… Quem sabe ele virá a ser uma, em breve? Como finda o epitáfio do Bart, e aqui findo minha homenagem:

Sejamos felizes, amigos,
saibamos que, um dia, experimentaremos
ou experimentamos
ser baleias azuis
e comungaremos
nas águas da nossa existência,
senão o privilégio de recitar
a linda-triste canção de amor,
a tão simples existência
de haver um germe de baleia
dentro de cada um de nós
a cada dádiva que mãe-d’água
nos entregar em nossas
redes ribeirinhas…


Essa história tem teor estritamente litarário. Bem como propósitos de alerta a adesão a práticas que envolvam automutilação ou cessação da própria vida; e o devido acolhimento a pessoas que, por seus testemunhos pessoais, denotam comportamentos de ideação suicida. Acolhamo-as, pois não sabemos o universo de experiências que elas vivenciaram e vivenciam. Qualquer semelhança com fatos reais, trata-se de uma casual coincidência.

Ouvindo... Mr. Mister: Broken Wings (from the album “Welcome to the Real World”)