O pseudoepitáfio poético

[dos sobrevividos arquivos de fevereiro de 2015; não ler se sensível ao poético]


Meu caro diletante
apreciador de poesia,
ouça o que vou lhe contar:
nesses tempos de apatia
em que tudo é tecnológico
cinematográfico e interativo
trazer às penas as minhas penas
é mera idiotaria

Não compensa, de todo modo
cantar os louvores da adolescência
ou fazer didatismos gramáticos
afetados de atrasada emoção
os tempos são outros, são perturbados
a água escasseia e as baterias no fim
e qualquer ato de poesia
não mereceria mais que O Pasquim

Bestificante é o intuito
pré-adolescente de cantar hinos à amada
tão lisonjeira e fútil como quem escreve
Romeus e Julietas afetados por selfies
duckfaces e likes de Facebook
vivendo uma esquizofrenia social
de inventariar uma epopeia estúpida
de pessoas-esterco, que Hesíodo
por respeito n’Os Trabalhos e Dias
talvez preferiu não comentar
e talvez mais bestificante
é que nessa profusão
deveras coelhonesca de infinitivos
escolher qualquer um ao acaso
sem sequer corrigir
e, para o efeito poético arcaico não perder
escolho o mais autoexplicativo: rimar

Parei de cantar as languidezas
e os ensejos psicanaliticamente reprimidos
de mal comido jovem dos seus trinta –
parei de orgulhar-me de exibir
a todos que não querem saber de poesia
os meus acreditados exercícios de composição –
parei de me imaginar comentado
por uma crítica de Candido ou Bosi ou Carpeaux,
algum destes já se foi, o outro, em vias de ir
e o terceiro, onde parou na nossa brasilidade
literatura eu não sei. Certo é que
patético seja o indivíduo que assim
agir, sua megalomania de trans-
cender seus versos em disposições visuais várias
serão bestiais, nada há que tenha sido feito antes
funciona do jeito desejável como surpresa num
mundo em que as redondilhas maiores estão
a serviço de evocar a

Pooo-pozuda
pooo-pozuda
você é feia de cara
mas é gostosa de bunda

entre outros indizíveis ensejos tão mal-arrumados
que aqui sequer ouso pernosticar…

Depois de Auschwitz
não há mais poesia

Com razão dizia o sociológico, porém talvez errou a data
que devia ser “depois do neobrasileirismo
e sorte dele não ver a vida aos olhos que vaticino
em dispersos pensamentos pouco elaborados
faltosos à caneta do “instante-já do desperdício”

Então, meu caro diletante apreciador de poesia
te revelo o segredo do fazer poético
a ti pode correr o ensejo de jogar estes escritos fora
tamanho o choque que venha a lhe correr…
O poeta, homem, talvez virgem
ou não transcendido da relação-a-dois
canta e imortaliza em versos uma mulher
no seu limitado ensejo de ser com ela
que talvez uma mulher ou até mesmo
um homoafetivo sabe, em experiências mais terrenas
conseguir melhor expor pelo afeto
que esse infeliz coitado-
sem-coito-aprumado que, antes na imensidão
primitiva dos seus pensamentos
preferiria uma jornada regada a Viagra
e a um bom Cabernet-Sauvignon
rega-bofe para transitar num prostíbulo
e orgiasticar sem dó nem piedade
um catálogo de concumbinas, putas e outros
nomes tabuísticos numa suruba
e fodas várias, reinterpretando
os diversos movimentos de Kama Sutra
na vazia busca do ter, que
salvo seja o alfabeto, o ésse
venha antes do tê
o que faz com seja primordial
antes ser que ter,
coisa que um dito homem
na poesia costuma
ser incapaz de fazer

Em resumo, meu caro leitor de poesia
o homem poetiza porque muito punhetiza
e como o Tom outrora dizia

Cada canção que escrevi
é uma mulher que não comi

e resta, nesta não-tão-inédita descoberta
encontrar na poesia universal
o lugar do homem:
Tratado da Punheta?
Catálogo das minhas fodas?
Ser o Marylin Manson dos versos no papel
e atrocizar a ponto da poesia ser um espaço de censura
e ensinar aos nossos filhos
(se o poeta vier a ter alguns)
que melhor mesmo é ser um empreendedor
vender um produto, ganhar dinheiro, gerar capital?

Poesia, meus caros, virou negócio de criança
ou de nerds querendo ser descolados
ou de empresários cansados da vida executiva da Paulista?

Poesia, meus caros, é apenas
uma disposição neurológica espacial
de se apresentar uma tese
sobre a carência mal resolvida do poeta?

Poesia, multidão, é massagear o ego
num mundo onde o indivíduo é APENAS MAIS UM
a serviço das corporações, que catalisam
tal intento para comercializar seus produtos?

Poesia, minhas amigas e meus amigos,
é o manifesto mais criativo de se combater
as misérias que assolaram secularmente
a nossa sociedade
e cantar os nossos feitos
de povo valente e batalhador
que “não foge à luta”?

Poesia, brasileiros e brasileiras,
é um instrumento de transformação social?


Poesia,
minha cara pessoa,
meu sincero e paciente amigo,
minha apaixonada e amável amiga,
é o exercício criativo
apenas-criativo
nada-mais-que-criativo
de pessoas que muito querem dizer
muito querem fazer
muito querem transformar
mas que nada conseguem
porque, gente
Homeros não são mais necessários
nem Hesíodos, nem Agostinhos, nem Shakespeares,
nem Maupassant, Keats, Gonçalves Dias, Baudelaires,
Apollinaires, Drummonds, Chacais, ou quaisquer outros
citáveis

São necessárias as Coca-Colas
as Nissins, as Chevrolets, as Pepsicos,
a Time-Warner-Company,
a Glaxo-Klein-Smite,
The Microsoft Network,
Mercedes-Benz, AT&Ts,
The Rockfeller Foundation,
Fundação Neymar,
ABNTs e ISOs,
KlingKlang Musik,
os remixes das pistas,
a necessidade de equanimizar gastos com procrastinação
pensar o problema da superpopulação
evitar nas mulheres a concepção
e outros -ões que vierem a ser necessários;
é necessário acabar com o fascismo
é necessário evitar o nazismo
é necessário exterminar o comunismo
é necessário aprimorar o capitalismo
é necessário ensinar o evolucionismo
é necessário repensar o catolicismo
e outros –ismos devem ser reimaginados

O emprego, gente, produz dinheiro,
a vergonha alheia, gente, produz dinheiro,
uma ideia repaginada, gente, produz dinheiro,
uma história de vida pela superação, gente, produz dinheiro,
mas a poesia,
salvo casos descomunais
não produz dinheiro

Infelizmente é assim:
pessoas (maioria homens) escrevem poesia
(ou parecem que escrevem)
para pessoas lerem
(ou fingirem que leram)
por mera apreciação estética
(ou simplesmente para aparecer bem fotografado na próxima Piauí)…
Certamente uma mulher, pessoa homoafetiva, transgêneros,
programadores em C++, Pascal, Analistas de TI,
autistas, surdo-mudos, Downsindrômicos,
sejam melhores capazes
de injetar ânimo na Poesia

Eu, no meu ínfimo lugar de um qualquer
decreto, após a próxima estrofe
o (pretenso) fim da minha genuína Artepoética
que comecei a cantar pelos frutos do carvalhal
em espaços mais cor-de-rosa
e juventude descompromissada mais ingênua
pensando que, pela Lírica,
seria mais que qualquer um

Poesia minha,
mermão,
findou.

Morte da Poesia ;D


Ouvindo... New Order: Elegia [Full Version]

O sepulcro de Rousseau

Os jornais ficam loucos na passagem do dia 24 para 25 de dezembro daquele fatídico ano inonimável. Tudo porque, na vila Progresso Iluminada, um menino de apenas cinco anos portava uma arma de fogo nas mãos – uma Glock 9mm com silenciador – e assassinou os pais, militantes de esquerda, “acidentalmente”, salientou o periódico, que incluiu a notícia tão tardiamente a ponto de mandar as gráficas pararem o processo que corria no especial de Natal.

Os assinantes da Grande São Paulo ficaram tão putos por receberem seus jornais com três horas de atraso – a maioria deles, trabalhadores de serviços essenciais que não paravam no Santo Dia – as reclamações foram diversas de exemplares afanados, os SACs se entupiram de reclamações, chamou-se o contigente extra de funcionários que estavam em descanso com suas famílias. Houve, nos dias seguintes, um divórcio, três mortes por estafa e um caso de violência relatado na Delegacia da Mulher. Prenderam os médicos e o marido violento. O hospital tinha como provar que a morte dos funcionários nada teve a ver com a incompetência dos médicos, e eles entraram em protesto. A comunidade odiou e foi protestar diante do edifício da CRM. Apesar do trânsito do dia ser diminuto, houve confronto; chamaram a polícia e teve muitos feridos e mais alguns mortos, dos quais um deles era chefe do tráfico de alto naipe na Zona Leste.

Foi a semana mais terrível, pois o PCC montou uma força-tarefa capaz de criar um cenário de terror por conta da pretendida retaliação. Queimou dezenas de postos policiais, explodiu centenas de outros no Estado e ameaçou matar o governador. Este, diante da opinião pública fervilhante, arredou mão de pedir à União para colocar o Exército e a Força Nacional nas ruas. Prenderam quem devia e quem não devia. O caldo ficou absurdamente grosso e a presidente precisou decretar estado de sítio no sudeste, pois a encrenca tomou proporções calamitosas. ONU, os EUA e diversas entidades digladiaram-se para entender o que realmente havia acontecido naquele Natal. Os megaeventos foram cancelados e a economia brasileira foi para o brejo, carregando o mundo para uma interminável crise capitalista… Nada novo.

As famílias, já no desespero epifânico, ao assistir o Fantástico, recheado destas e de diversas outras horripilantes notícias, presenciaram a entrevista que sondou todo o histórico da família do menino que havia morto os pais na virada do ano. Tentaram, a todo custo, explicar algum motivo para o fato dele ter feito aquilo: irresponsabilidade paterna, conduta familiar inadequada pela escolha ideológica dos pais, bullying na escola…

Dias depois, a sociedade estava pedindo o fim do Estatuto da Criança e do Adolescente, bem como decretando o fim da infância tal como a conhecemos. Tudo porque, reiteradas vezes e com uma incomum postura, o menino olhava a câmera e a repórter e dizia “matei por que eu desejava, do fundo da minha alma, que eles morressem!”, com uma voz intumescida de ódio primitivo. Não houve o Angelus do ano novo porque o Papa passou muito mal, vindo a falecer poucos dias depois, ao saber que grupos de extremismo ultraconservadores e fanáticos ao redor do mundo estavam, por si sós, rechaçando violentamente crianças, “potenciais agentes de Satanás no mundo”.

A imagem do fim da infância deu-se, iconicamente, quando um homem vestido de branco e um simulacro de asas de anjo arremessou uma cruz numa estátua de gesso de um menino Jesus na manjedoura, na Picardia, no início do novo ano…


Para ouvir ao som de New Order: Elegia