Crônicas busionais #1

[dos arquivos manuscritos do autor de idos de 2013; adições e afetamentos de juízo retificados, entre colchetes]


O folclore busional – ou folclore de busão, para os mais desacostumados, como os solitários motoristas – é uma realidade presente, sobretudo, na ida e volta de grandes distâncias. Uma fórmula matemática verifica que a diversidade cultural (hã?) é mais latente à medida que a distância percorrida aumenta.

Continuar lendo

Anúncios

Em homenagem a B.V. (ou sobre as Baleias Azuis)

Na baleia azul – a portentosa musculus
vigora a gigante pulsão da vida:
em teu masculino ato copulatório,
as aqua-sementes, quando não germinam
em uterino blau-grande-balinácea prosperar
de provento a outras vidas, coralíneas,
pequenos písceos e outros demais
no ecossistema a vida suportais
em comunhão com seu triste assaz soar.

Fazemos mênção a esse pequeno epitáfio ao nosso estimado e finado colega Bartholomeu Vinardi, nascido cá no nosso glorioso estado da Bahia há coisa de 30 anos, como princípio de nosso discurso de homenagem post-mortem a esse que dedicou seus estudos em biologia, sobretudo ao ecossistema onde conferiu grande relevância aos ditos grandes cetáceos.

Bartholomeu – ou, para os mais íntimos, Bart, o que imaginamos que tenha vindo daquele personagem do Simpson tanto seu batismo como a lei da economia de fala – que, outrora, era troçado por Ju-Barte, já que em nossas saídas do Ensino Básico, lá nas lindas costas da Bahia, não raro, este nosso então pequeno se debruçava, nas praias, a ouvir os longínquos cantos balináceos (Abrolhos não estava tão longe de nós). Nosso Bart, a despeito dessas troças, decidiu desde muito jovem: seria biólogo. Assim o fez. Dedicou seus últimos anos para ingressar no curso de biologia da Federal de cá. Ingressou, de fato, e sua dedicação e identificação com o curso foi intensa: atravessou a graduação com louvor, fez mestrado e doutorado em uma única tacada.´

Para as defesas, debruçou-se num tema controverso, do qual a epígrafe, de autoria dele nos seus últimos tempos redigiu: os resíduos esparmotozoidais do ato sexual entre baleias constituía uma dieta-base para organismos de micro- e pequeno porte no ecossistema local onde subsistem as baleias, sobretudo as Jubarte e as Azuis. Embora os bastidores troçavam dessa hipótese, sua mesa de arguição tratou de recebê-la com devida atenção, conferindo-lhe os títulos. Mas o ceticismo vigorante o impeliu a desenvolver suas propostas em outras bandas.

Assim, seus últimos três anos em vida foram um intercâmbio para o Extremo Oriente, em busca de respostas assemelhadas, e corroboração de sua hipótese.

Cá entre os presentes nessa cerimônia, fazemo-nos notar que esse período fora decisivo para o que temos diante de nós: nosso estimado Bart jazendo entre nós.

Déssemos atenção aos últimos meses e aos relatos que ele nos contava em reuniões informais, talvez o tivéssemos ainda vivo entre nós. De muitos, tentarei vos citar, mais ou menos, à memória, os seguintes:

Não foi somente a pesquisa que me impeliu a circular Tailândia, Japão, costa da China e Coréia, buscando as minhas desejadas respostas de pesquisa, mas também a militância e o ativismo ambiental, a conscientização de outros jovens biólogos nesses lugares. Foram bons tempos lecionando em cursos rápidos nesses lugares… Mas foram piores os tempos entre o fim dos trabalhos e a detenção que sofri por conta dos impropérios de ordem política que, acreditava, estar divulgando do modo certo. Falava com convicção sobre a situação que eu, supostamente, acreditava que eles sofressem – não sei se os tailandeses ou os coreanos, não sei mesmo te dizer, cara – enquanto civis, diante de seus governos. Creio que meu falso testemunho, com base do que ouvia aqui no ocidente, me levou aos serviços de detenção do Estado…

Eu costumava estar sempre acompanhado por dois sujeitos que pouco se comunicavam comigo em inglês – apenas o essencial, “quer comer?”, “quer beber?”, e assim vai – e mais na sua própria língua, tão melodiosa aos meus ouvidos. Eu até me esforçei pra compreender, afinal, o que eles falavam… Vezes ou outra, procurava imitar sua fala, com a devida atenção minha, mas eles troçavam entre si acerca de meu despreparo. Final das contas, aprendi quase nada do que eles falavam. Não me importei muito com isso.

Tinha um terceiro deles, um chefão. Muito aprumado, esse era durão. Recostava horas ao pé do ouvio, com um inglês absolutamente limpo, de dar inveja a qualquer britânico padrão… Me mostrou como somos enganados por muito que vem da Europa e sobretudo dos ianques… Como eles montam teatros de imagens a respeito de fatos históricos… Ninguém chegou a Lua, ele me mostrou provas disso!!! E os estudos de Astronomia são uma balela. O universo mais se parece com aquele esquema de Aristóleles e Santo Tomás, tem um limite, maior do que se imagina, mas nada tão imensamente grande quanto se divulga aqui. E me deu provas cabais disso: apontem uma lanterna no céu! apontem uma lanterna no céu!!!

Percebíamos, da parte do nosso colega, alguns comportamentos estranhos, como imitar baleias em ato de cortejo, logo após a sua volta. Ele falava pra gente não se fiar nisso, que eram bobagens da parte dele. A gente, entre essas e outras declarações de sua detenção pr’aqueles lados da Ásia, ao questioná-lo sobre mais detalhes, nos fiávamos nas contradições da parte dele. Ora, a detenção era por falso-testemunho, ora, por alguma despesa não ajustada. Não raro, tratava de desviar o assunto, dizia que não tínhamos que nos ver com isso.

De terceiros, soubemos que o mais coerente foi da intervenção ativista de um grupo que ele participava no mar do Japão, onde figurava uma empresa sino-tailandesa que capturava baleias para fins culinários – pra quem não sabe, ainda a baleia é considerada uma iguaria, tal como o salmão do sashimi, a despeito dos tratados internacionais de cooperação pela preservação das baleias. Temos as fotos da detenção, mas ele assegurava, em vida, que não fosse ele ali. Estava em outro evento, não sabia onde…

Seu semblante, nos pouquíssimos últimos meses de seu retorno a nós, era apático. Não podia se debruçar em ouvir intercambistas dessas regiões longínquas de nós, ficava estático – dizia que era pra aprender a língua que nunca aprendera ali – e, caso eles viessem a olhar nossa mesa, notávamos sua apreensão ao virar a face para outra direção…

Talvez se nos déssemos conta das suas conjecturas de cunho historiográfico pró-sinico e pró-sionístico (desse último, favorável à história da Tailândia, não que ele outrora fosse pró-estadunidense). Ele, considerado muito inteligente, debruçava-se no argumento que nossa história ocidental constrói uma culpabilidade existente aos estados daquela região, tão somente por conta da derrota na Guerra do Vietnã, atribuindo-se um vitimismo infantil de quem não aceitaria a derrota. Daí, justificar que a questão que ele sempre nos pedira ser inonimada da Praça da Paz fora um teatro forjado de história viva, só pra não nos determos em outros exemplos, menos conhecidos e só interessantes aos nossos colegas que realmente se debruçam na história.

Julgamos – os seus próximos e a família – que ele viesse a ter sofrido com traumas diversos nesse meio tempo, então recorremos à Psiquiatria. Ele, já prescrito a ansiolíticos e calmantes, contudo, não fora o suficiente. Se isolava socialmente, debruçava-se mais em redes virtuais, a coisa ficava séria. Mesmo cá nós, morando num estado quente, ele fazia muita questão de roupas longas, para dias de frio…

Se nos acalentássemos em ajuizar com mais carinho a respeito dele, talvez não o encontrássemos sob condição de overdose, o que o levou a este óbito repentino. Talvez não estaríamos aqui, recitando essa homenagem. Talvez não estaríamos testemunhando a hipótese criminológica da única Baleia Azul que deveria, sim, ser exterminada, não só por conta desta vida que nos foi tragada, no barco da existência, como de muitas outras, fragilizadas por motivos, que muitas vezes consideramos picuinhas, embora menores que as testemunhadas pelo nosso querido Bart, Ju-Barte, malgrado esse pequeno bullying que, desejamos, não tenha sido um dos estopins nesse decurso…

Cá encerramos, predispostos a levar em nossos corações, com esta perda, uma lição: se não estiver afim de acreditar em testemunhos – mesmo de teor paranoico – ao menos, não desacredite. Isso pode fazer uma enorme diferença na vida de alguém…

E, ao soar das trombetas, que imaginemos do nosso Bart, para quem em Deus creia, um lugar no Paraíso… Para quem em crenças de reencarnação, que ele tenha um karma menos pesado em vida vindoura. Se, do desejo ulterior dele, ouçamos as baleias… Quem sabe ele virá a ser uma, em breve? Como finda o epitáfio do Bart, e aqui findo minha homenagem:

Sejamos felizes, amigos,
saibamos que, um dia, experimentaremos
ou experimentamos
ser baleias azuis
e comungaremos
nas águas da nossa existência,
senão o privilégio de recitar
a linda-triste canção de amor,
a tão simples existência
de haver um germe de baleia
dentro de cada um de nós
a cada dádiva que mãe-d’água
nos entregar em nossas
redes ribeirinhas…


Essa história tem teor estritamente litarário. Bem como propósitos de alerta a adesão a práticas que envolvam automutilação ou cessação da própria vida; e o devido acolhimento a pessoas que, por seus testemunhos pessoais, denotam comportamentos de ideação suicida. Acolhamo-as, pois não sabemos o universo de experiências que elas vivenciaram e vivenciam. Qualquer semelhança com fatos reais, trata-se de uma casual coincidência.

Ouvindo... Mr. Mister: Broken Wings (from the album “Welcome to the Real World”)

Humanidade: 11.9 Richter

Smiley indecisoO conto começou com uma mera coincidência com alguns dos fatos, mas foi elaborado posteriormente em algum ponto após os ocorridos recentes.


Num determinado dia, a casa de José, humilde morador do bairro dos Rodrigues, foi aterrada por um berro uníssono familiar: anunciava no Bom Dia Brasil a suspensão definitiva do Bolsa Família, sob decisão do reascendente governo federal tucano.

A mulher de José, que fervia o leite – o último da parcela anterior do programa, – rogou uma praga imensa: pro mundo, pra José e pra si mesma. Jogou uma panela pela janela, atingindo em cheio o telhado dos vizinhos de baixo.

– Que merda é essa??

– Vá para a puta que pariu, sua branquela nojenta!!! Você, seu marido falastrão e o demônio do seu filho que estuda naquela buceta maldita chamada USP, seus tucanos cagões!!!


No bar Nossa Senhora do Carmo, entre uma e outra leva de chope à mesa, os homens discutiam, não sobre o Corinthians que ganhou a Copa do brasil, mas, quem ainda recebia o benefício:

– Então, Mirizola?

– Pois é, também não recebi.

– Culpa do José que convenceu a nós todos para votar no zé-tucano.

– Culpa real é daquela família de estranhos, brigões, mãozinhas-de-cirurgião; cheios de não-me-toques, com filho metido a universitário e que fica parasitando as mesinhas daqui, quando o Manezilo tem que fechar o bar.

– Pra esperar o caduco do paizinho dele… se bem que… tadinho daquele senhor, quando o nojentinho podia perfeitamente pisar no barro. Ah… essas pessoas da cidade.

– Então Mirizola? Quéque fazemos?

– Colar lá no Professor da Prefeitura. Quem sabe ele dá um jeito.


Caucaia estava um pinel. Além dos habituais alunos do fundamental, havia uma celeridade de pais de família, impedindo os ônibus de saírem. Resquícios daquele momento histórico em que os jovens saíram a protesto pelas tarifas. Pena que, agora, quanto mais se aproximavam do Ensino Médio, menos eram vistos como pessoas amigáveis.

– Agora eles não pagam nada, e aquele aumento tão recusado voltou. Adianta? Adianta???

– Deixa eles, Ernestina. Lutaram por um monte de outras coisas. Temos saúde melhor… tá, não tanto assim melhor…

– Ferre-se Juvenal! Há dois anos ainda perco o meu banco de rainha prum pentelho de sei-lá-onde do barrão, que insiste em colocar a mochila, justo onde devo colocar meus pés. Ele não para de estudar nunca!!! Nunca! E eu, droga, tenho que ficar me matando pra trabalhar o mesmo tanto pra comprar menos. Culpa desses universitários que saíram no treze pra mexer no que tava bom.

O coro em uníssono era amedrontador:

– Estudantes! Vocês vão ver! A copa foi e vamos matar vocês!!!

Dez universitários olhavam a multidão com uma cara resignada. Nenhum susto: saberiam, infelizmente, que a nova tropa de choque de Cotia iria atuar ali, pois outros três ônibus e alguns carros novos viraram alvo de destruição.

– Uma pena, Eleonora, uma pena…


Dois dias depois, a Globo, finalmente, não teve novelas por três dias, em todos os horários. A exemplo do V de Vinagre, o plantão noticiava, de forma perniciosa, focalizando os protestos mais agressivos, e alguns arruaceiros, tatuados com CV e PCC, como se fossem os mandantes da coisa toda. À revelia do manifesto do Gigante, o elogio à proposição, enfim tomada pela presidência, nada mais fazia que inflamar os ânimos do primeiro protesto de classes populares.


As grandes universidades, enquanto faziam seus primeiros debates, foram surpreendidas por hordas de pessoas que, desorganizadamente, gritavam violência, violência! Causando prejuízos inestimáveis, dez vezes maior que o trezão.

A audiência de canais alternativos cresceu, e os menos corajosos em sair às ruas empreendiam seu tempo livre em assistir às sessões do Senado, um hábito que passou a ficar muito comum…

A ex-presidente criticou veementemente o partido da situação, dizendo que acabou por minar a economia brasileira, já falida pelo recuo dos grandes eventos e da presença de políticas antiassistencialistas.

Na casa do Rodrigues abaixo da de José, não se ouvia os sons do filho universitário, comentando ponderadamente sobre o ocorrido. Dizem as línguas justas que havia cartazes no interior oferecendo recompensas por estudantes mortos. Acusação: terem mexido com um Brasil que tava dando certo.


Estado de sítio na Semana da Pátria decretado.

Professores de todas as categorias, estudantes e ativistas, sobretudo os que não estavam empregados, foram refugiados nos quartéis. Um paradoxo: tudo aquilo que historicamente fora combatido pelos movimentos estudantis, agora abriga àquela classe. Falava-se, entre os populares, num pacto entre a inteligência brasileira e os militares.

– Mirizola, aquele pentelho da casa alta não voltou mais faz semanas.

– Bom mesmo. Tô preparando minha carabina pra estourar os miolos dele. Quem mandou ele liderar um protesto aqui, em Ibiúna, destituindo o grande Bello, em razão do familiar do Coronel?

– José, que acha?

– Complicado… Os pais dele fecharam o acesso que tinham por cima, muraram a casa toda, colocaram câmeras e sei-lá-mais que alarmes. Riquinhos… Deixe estar eles derem mole lá, o uspiano bucetudo vai ficar sem papai…


O jovem do Rodrigues veio com escolta, provida pela Universidade. Tinha que pegar toda a sua biblioteca, ameaçada de virar fogueira e charuto de palha pelo bairro. Ao sair da casa, deu duas batucadas marciais e ergueu uma bandeira branca de paz, enquanto se ouvia as sirenes da região apontando para uma incursão de gás sonífero no bairro do Verava, residência do prefeito instituído.

– Realmente, pai. Fonseca tinha razão… Mas, agora, pelo bem desta biblioteca e deste pessoal, você não vai poder lê-la. Por favor, se cuide, você e a mãe, e por favor, não escute a Plim-plim elogiando, mais uma vez, o fim do Bolsa Família… Não por eles, mas pelo nosso passado recente.

E quase que ele esqueceu a histórica primeira página de 23 de junho de 2013 da Folha, acreditando que aquilo era um sinal dos tempos de Apocalipse.


Ouvindo... Sophie Ellis-Bextor: Revolution

Bons discursos: um investimento em declínio

Todo o discurso deve ser construído como uma criatura viva, dotado por assim dizer do seu próprio corpo; não lhe podem faltar nem pés nem cabeça; tem de dispor de um meio e de extremidades compostas de modo tal que sejam compatíveis uns com os outros e com a obra como um todo.

Sócrates, extraído de <http://www.citador.pt/frases/todo-o-discurso-deve-ser-construido-como-uma-cria-socrates-16111>

Se, reproduzindo o discurso alheio, a gente o altera tanto é porque não o compreendeu.

Goethe, extraído de <http://www.citador.pt/frases/se-reproduzindo-o-discurso-alheio-a-gente-o-alt-johann-wolfgang-von-goethe-15553>

É uma grande lástima não ter inteligência suficiente para falar bem, nem discernimento bastante para calar.

La Bruyère, Os Caracteres (in: SELEÇÕES, Viver com sabedoria. Rio de Janeiro: 2004, p. 126)

Eis-me prostrado a vossos peses
que sendo tantos todo plural é pouco.
Deglutindo gratamente vossas fezes
vai-se tornando são quem era louco.
Nem precisa cabeça pois a boca
nasce diretamente do pescoço
e em vosso esplendor de auriquilate
faz sol o que era osso.

Carlos Drummond de Andrade, Ao Deus Kom Unik Assão (in: ______. As Impurezas do Branco. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 11)


RelógioEscola Um aviso de cocheira: apesar de não ter havido um singelo e sério cuidado na redação do texto a seguir,
recomendo aos que aqui chegaram que, embora digo que se sintam livres para comentar o que aqui foi exposto,
favor tomar o máximo de cuidado com o que levarão a público nesse texto: uma leitura atenta mostrará
o porquê desta minha prévia recomendação. Tentei, a título de evitar polêmicas, não citar os fatos que me trouxeram
a essa reflexão, sob pena de desvirtuar a discussão principal, no entanto, para conhecimento de causa, decidi
posteriormente vinculá-los na forma de links em palavras-chave no decorrer do texto
.
De toda forma, prepare seu copo de chá e boa imersão textual!  Smiley piscando


Confesso que este, de longe, não será a melhor das reflexões feitas até hoje por aqui. Creio que, seja por humildade, seja por uma razão logicamente sensata, não posso me imbuir dessa pretensão… A partir do momento em que lidamos com a faceta considerada “espiritual” das palavras e dos gestos, percebemos o quanto estas são capazes de construir ou destruir, dependendo de dois fatores, que podem atuar em separado ou em conjunto: o falante e o co-participante.

Dado então essa premissa, me empreendo nesse percurso discursivo pra construir um semi-desabafo em relação ao próprio discurso. Desembainhando-me de comentários pouco dignos, e também de mencionar as motivações a exercer essa reflexão (basta um exame das notícias dos meses de fevereiro e março sobre política e cotidiano da internet pra saber do que falo), nos últimos tempos ando pensando justamente sobre essa entidade, quasi-irmã da linguagem. Afinal, o próprio Mikhail Bakhtin, que mesmo com suas reflexões voltadas para a literatura russa, foi peça fundamental para se pensar a respeito da comunicação, dotando-a de uma perspectiva, a princípio aterradora – dado que à ela, atribuiu um caráter marxista, o que deixa anti-socialistas ferrenhos com as pulgas nas orelhas – mas que, num exame detido, faz toda a diferença: a linguagem pode ser dotada de um instrumento de poder, a partir do momento que você se apropria dela e a combina de acordo com sua influência na sociedade.

Em síntese, pensemos nessa perspectiva como trama textual dessa reflexão.

Continuando, percebemos que discursos são mais validados que outros… Querendo ou não, influências políticas, sociais e econômicas são fatores fundamentais – mas não absolutos – para que determinadas práticas discursivas surtam o máximo de efeito. Não precisamos ir muito longe pra perceber que a televisão, ainda na nossa sociedade brasileira contemporânea, é a que angaria massivamente a opinião pública: presente na maioria dos lares brasileiros, oferece entretenimento e noticiários, das mais diversas qualidades (adicione aí as duvidosas) àqueles que delas pretendem fazer uso. A internet, apesar de, a passos lentos, estar se consolidando aos poucos nos grandes centros, ainda não tem a plena influência que a televisão construiu nesses últimos anos, dada a familiaridade dos usuários mais velhos e do poder aquisitivo que a base de usuários constitui.

Obviamente, as ferramentas de difusão de informação contam com uma faceta construtiva e uma outra absurdamente desedificante. É no vislumbrar dessas últimas dos últimos anos que tento me empenhar em projetar um despertar aqui.

Temos ciências da linguagem suficientes pra explicar, sob as mais diversas perspectivas, os discursos não-literários presentes no nosso cotidiano: Semânticas Lexicais, Formais, Argumentativas, (…); Pragmática; Análise do Discurso – francesas e anglo-saxônicas; Semiótica discursiva (…) Sabemos que toda Ciência, em uma natureza epistemológica, verifica as ocorrências no mundo, sem ditá-las como elas devem funcionar. Nas humanidades, e sobretudo nas linguagens, de um modo mais detalhado, estudamos fenômenos que as pessoas não precisam pensar pra realizar… Em tese, as pessoas o fazem de modo natural.

Em tese… E aí chegamos no ponto crucial, que sob um termo leigo, invalida a hipótese de que as pessoas, na sua totalidade e em todos os momentos, são exímios usuários do bom discurso. Esse termo se define por “falta de bom senso”. Nas ciências da linguagem, se define por “ruídos” na teoria da comunicação; violações de “cortesia” e quebra segmentada das “máximas conversacionais”, na Análise do Discurso; condições de performance de atos de fala “infelizes” na Pragmática. Os nomes são vários, mas sob diversos pontos de vista, envolvem discrepâncias acerca dos conjuntos de modelos de pensar entre os envolvidos, e da ausência de empatia pelo co-participante.

Resultados disso? A constatação (que precisa ser devidamente verificada, quantitativamente e qualitativamente) de que as pessoas estão “desaprendendo” a usar das várias virtudes que o discurso proporciona, na economia do argumento monolítico e categórico, para serem absolutas em suas posições. Não é que isso seja uma prática condenável, mas pensemos que o mundo não é composto pelas individualidades. Querendo ou não, estamos sujeitos a algo que pode muito bem ser descrito pelo contrato social de Hobbes, e por extensão e interdisciplinaridade, a linguagem social também é submissa a esse contrato, fiável ou não pelos indivíduos.

Retomando a comunicação socioideológica bakhtiniana, a partir do momento em que um ator discursivo é munido de quaisquer fatores que privilegiem que seu discurso se interponha aos demais, é uma questão de bom senso que ditará a validade de seu discurso, segundo parâmetros de ética discursiva, estes num contínuo processo de releituras. A coisa começa a ficar um tanto quanto inaceitável quando a empatia é ignorada e esbarra em pressupostos que, numa última análise, existem nos indivíduos de maneira intrínseca, mas que ali, no recôndito do particular, deveriam se manter, em função da preservação do dito contrato social. Em termos mais práticos, discursos de cunho preconceituosos e/ou segregatórios, que deveriam ser resguardados para o particular ou, no máximo (e duvidável defender isso) serem proferidos apenas nos meios a eles empáticos e dali não saírem para a sociedade como um todo, estão ganhando uma amplitude social assustadora (opinião pessoal) e, o que é pior, são inspiradores para a perpetuação de conceitos, muitas das vezes, retrógrados.

O que torna a situação ainda mais deplorável é perceber que pouco se faz pela preservação da cortesia e da elaboração do argumento policromático, que perpassa todas as possibilidades argumentativas possíveis, mesmo que a princípio elas pareçam contraditórias. Isso não quer implicar num tolhimento das perspectivas particulares das pessoas: muito pelo contrário! Apenas devemos prestar atenção para que as pessoas que aí estão, e as que estão por vir, não necessitem de cartilhas que ensinem como elas devem se portar nos mais diversos ambientes e sob quais situações devem expor suas opiniões. Pensar que as pessoas precisarão de aulas pra aprender quando devem usar “todos”, “alguns”, “nenhum”, “a maioria dos (das)”, “a minoria dos (das)” e considerarem as possibilidades de uso de um “mas”, “entretanto”, “porém”, “ademais”, de forma que não achem que seus discursos sejam contraditórios, mas que possuam coesão a partir do ponto em que considerem a perspectiva do outro, e um apagamento do próprio narcisismo, sob o ponto de vista do público?

É uma perspectiva de crença muito imensa, minha, pessoalmente falando, de que as pessoas não necessitem das teorias da linguagem para aprender a própria linguagem no seu uso. Do contrário – e isso me valendo de um expediente deveras controverso – quem necessita destas lições estará assinando seu próprio atestado de anencefalia sócio-discursiva – um estado de vivência social deveras perverso, dado que, quanto mais pessoas residam nessa possibilidade pérfida, mais próxima da parasitagem a humanidade se encontrará…

E aí, se valendo do senso comum, não haverá adjetivo “digno” e inefável o suficiente para designar as pessoas que executem, sob os mais diversos tipos de intencionalidade, tal postura que evidencia a crise do discurso das últimas décadas.

Obviamente, não há o que dizer de forma categórica sobre a situação. Mas, para quem a executa, o bom senso invariavelmente nos dita sermos categóricos e tentarmos iluminar seus mundos… Não porque, como Analistas do Discurso, Pragmatistas, ou outros estudiosos das humanidades, intelectuais e/ou estudantes do ensino superior somos melhores! Muito pelo contrário!!! A partir do momento em que uma pessoa pretende ser dona da verdade e dos ditames da sociedade, ela tolhe o discurso e, aí sim, participa do mesmo terrível jogo do mau uso da linguagem.

Como disse Sócrates, o discurso é algo vivo e orgânico, e tal como um organismo, os diferentes pressupostos, isolados, desempenham funções distintas, mas em conjunto, devem operar de forma integrada, na expectativa de desempenhar um efeito eficazmente benéfico para a alma… E sem esse artifício, adquirido com o bom convívio e a sábia experiência, melhor ficar com o La Bruyère e se calar.

Até porque é muito difícil, dia após dia, dar razão às palavras da Madame de Staël, que, em uma das muitas paráfrases que encontramos, quanto mais conhecemos os homens, mais gostamos dos animais. Mas diante dos impropérios que encontramos na nossa sociedade – e em termos práticos, na televisão e internet brasileira – é difícil nós, que constantemente procuramos tomar o máximo cuidado com o que proferimos (e, ainda assim, falhamos de modo crasso) dar crédito a sujeitos da nossa sociedade que perpetuam as visões unilaterais e de cunho anti-empático para com o outro. E que são venerados pelas formas oficiosas que tornam seus discursos relvantes…


Adições podem ser propostas após a publicação. A título de filologia, manterei possíveis exclusões futuras sob tachados, e modificações serão devidamente assinaladas. Caso seja necessário, sinta-se à vontade para reproduzir esse texto (marquei-o sob a égide de uma tag que assumo como Creative Commons), desde que dados os devidos créditos e referenciado o original.

Enquanto o texto esteve sendo publicado, o shuffle do computador tocava:

Ouvindo... Joe Satriani: Crystal Planet

Melissa: A Dupla [3]

Dia dez… Me parece que, apesar da manhã nebulosa que faz aqui em São Paulo, eu e a minha – estranhamente atraente – irmã Daph seguimos nosso caminho pela linha que passa ao lado do Eldorado, em meio-ligeiros cinco minutos até a padaria da Estrela, onde vamos desembarcar e caminhar até a Cidade Universitária. De lá, pegamos os Circulares: ela, no lado daquelas casinhas máximas (ainda quero morar numa delas e ser a rainha do próprio espaço) em direção ao IME, pro seu curso especial; e eu, eu, bem, à minha amada-enquanto-grego FFLCH, assim porque eu vou encarar uma aula com aquele professor gente-fina…

Gente-fina? É como se houvesse uma criatura de bar imersa dentro do meu subconsciente, falando que o tal professor de morfologia seria pessoa confiável pra empreender uma conversa informal. Mas peralá, como é que posso dar crédito a alguém que fala que foi considerado superdotado no Japão? Sim, gosto de baixezas, mas gosto das baixezas clássicas, das escatologias priápicas, Aristófanes, o Falo no Jardim… Ah, o Falo no Jardim, qual digna obra do latim, eu a quero de presente da Beatriz… ooops, não! Rubens!

Engraçado… De repente, eu passei a admirar a minha grande colega do inglês Beatriz, não sei por quê motivo. Tudo bem, gosto de moças, não nego isso, negar eu sei que é ruim… Mas da Bia eu gosto pelo que ela faz, não pelo que ela é… Sobretudo porque me veio à mente aquele corpo de bailarina-de-dança-ventre em performance…

Uma imagem tipicamente de gosto masculino…

– Me-el! Acorda! Deu de dormir em pé? Veja: canteiro de obras. Chegamos.

Realmente… Deu de querer pensar mais que o normal por hoje… Como se mais uma consciência povoasse minha cabeça, e bem que estava me sentindo como que pensando fora de mim.


Tinha um sujeito falando bobagens no busão hoje… Ele falava no fim dos tempos, falava do que eu bem conheço pela Máquina do Mundo, Imbecil, Diz que faz matemática, mas não faz no IME, está com um jornal nas mãos, lendo a coluna de Cultura, Aquelas novelas da Globo, bem eu sabia santo Chomsky que não fazem bem, Viu Fantástico, anda cumprimentando todo mundo com uma cara de bunda, O pai dele não faz nada!!? Alguém, por favor, dê um atestado de demência pra ele? Bem, não posso me preocupar com estranhos, sobretudo com estranhos que andam anunciando o fim dos tempos… 1999, 2000, 2012… onde vamos parar? Máximas de Grice, vocês são o meu mantra em horas assim. Ele olha pra mim com uma cara de quem viu um assombro, como se lembrará disso por décadas e décadas, santíssimos! Se parar pra pensar, ele tem aquela cara de alien, feito uma lembrança remota e tão recente que me absorve a cabeça.

Detesto essas pessoas que ficam esquadrinhando sua alma, com a face mais descarada possível e inimaginável. Apesar dele se denominar matemático, eu bem vejo – pela pouca psicanálise que conheço – que ele será daqueles grandes observadores do mundo, daqueles seres que querem descobrir a palavra perfeita, o verso sublime, o objetivo gigante. Há algo naquela alma muito grandioso. Isso é uma afirmação que faço em mente, Faço e assento, basta aqueles olhos esbugalhados pararem de ver o evidente, e passarem a ver o profundo das coisas, Saber esquadrinhar o universo interno dos outros, Saber ver sem ver com as vistas, Bem sei o que é ver o que não é visto, Vide o morfema vazio, vide as estruturas invisíveis das línguas, vide tudo, meu jovem. Te dou um augúrio: você sairá dessa certeza de exatas, meu caro, Sairá dessa certeza e perceberá como o mundo das incertezas das humanas é muito mais interessante, Não virará os olhos para os lados, diante desse ente mais completo e intrínseco da existência: a língua.

Pronto! Ele desceu na UNIFIEO, e eu sigo com os ventos que levantam as folhas no decorrer do caminho em direção à portaria três, O dia nublado na capital paulista será muito produtivo, Algo há, Theo, Algo há de divisor de águas a partir de hoje, O matemático, ah o matemático, Foi só uma infeliz coincidência, Coincidência de quem vislumbrará algo novo provindo do Destino…

E pensar no Destino assim em maiúsculo, me lembra invariavelmente na chata da Melissa aaah!, eu vou ter que encarar ela no meu encalço mais uma vez.


“Pensei no Destino, Bia”

O quanto eu agradeço pela minha habilitação… Não há palavras pra isso.

– Imagina, querida! Eu é que tenho que dizer o quanto o Destino é importante pra mim. Pra mim, pra você, pra todos… Eu juro que quando entrei aqui, não entendia dessas coisas… Achava o mundo grego uma coisa de sete cabeças…

– Sete cabeças só a Hidra, querida Bia!!!

– Enfim enfim… Deu até vontade de fazer matérias do grego contigo.

– Eu sei. E quem não fica com vontade quando ouve falar da mitologia?

Se bem que eu acredito piamente que não há uma simples mitologia. Acredito no mito do Andrógino, acredito em tudo que Platão disse – e a Elaine contesta, mas mesmo assim a considero modelo de influência – e bem imagino o quanto seria menos conturbada a época se voltássemos aos preceitos da grécia clássica.

– Ah, Mel! Você é um gancho na habilitação, sabe? Anote minhas palavras: acho que dentro de cinco anos não haverá outra como você. Sabia que o Theo até está se prestando a fazer uma matéria clássica também.

Pronto… Meu dia se inicia muito bem… “Valeu, senhorita Beatriz.”

– Ele? Bia… Bia… Ele é um pobre coitado que só foi parar na Linguística por medo de aprender uma língua. É sempre assim… Esses linguistas estão ali porque não querem literatura ou não conseguem adquirir léxico. E vale aquela máxima: se não aprende bem um algo, se aprende muitos algos não muito bem.

– Ah, Mel… Querida! Não acha que é implicância sua alfinetar desse jeito o pobre coitado do linguista?

– Nãoooo, Bia… Não é a questão dele ser um pobre coitado. Coitado um coisa nenhuma. Ele bem entende do que ele sabe, sabe de muito, sim, eu sei, mas sabe. Deve ser uma daquelas pessoas que queriam se realizar na engenharia, sei lá.

Volto a tomar um gole do meu suco, enquanto a Bia me olha com uma face tão paralisada.

– Que foi?

– Fiquei te estranhando… É você mesma?

Por que estou sendo posta em dúvida?

– Hum… Por que você diz isso, Bia?

– Numa hora dessas, você se divertiria fazendo do Theo seu saco de pancadas.

– Queee… Quem disse que me faço de saco de panca-a-a-a…

Nem me dei conta se tomei todo o suco da Lanchonete. Só me vi indo pro banheiro num lance de escadas como que o raio de Zeus que consumirá os ossos do boi.

– Mel… Me-el! – a Bia está batendo na porta do meu banheiro. Mas não sei se abro pra ela.

Fala!

– Tá passando mal?

Será que só eu percebi o clítico erroneamente utilizado no contexto? Ou será que a Bia estava pensando em inglês e esperava por um enclítico? Eu ando me perguntando o porquê da primeira pessoa se manifestar dessa maneira tão absurda hoje, como se houvesse outro ser dentro de mim.

E, principalmente, ando me perguntando o porquê acho conhecer tanta linguística quanto o Theo… Será que os deuses estão de brincadeira comigo? Gosto de acreditar no joguete do Destino, mas acho que hoje está um pouco demais…


Eis, Prédio de Letras, Lar de Camões, de Pessoa, de Machado, de Clarice – embora eu concorde com o professor metaleiro que ela seja uma escritora-cozinheira-de-fogão – de Drummond e agora de Saramago, São quase quinze pras oito, e há um monte de gente na área externa, uns descansando na mureta, alguns outros puxando um beque, Não que eu vá contra eles, mas eles por eles e nós por nós, Ah, olha lá o Caio, grande bixo, Diz que vai fazer linguística, Bom caminho o dele, a Vanessa colega de bons tempos de ano básico, foi pro espanhol, Dizia que me seguiria no árduo caminho das pedras da Linguística, que fraquejo! Olha só, o Luiz, como vai meu camarada? É assim, muitos gestos, poucas palavras, hoje decido investir no extralinguístico.

Fome… Não fosse a Corifeu, hoje iria bandejar no café, com a Elisa e a Sara, gente incrivelmente especial, Eu falo, elas vão derreter corações algum dia, Fazer o quê, meu caminho mesmo é ir naquela lanchonete que a cada gestão do Centro, vai inflacionando os preços, mas fazer o que…

Olha só, a Bia está lá, com dois sucos de laranja na mão. Ela não é dessas coisas. Olá, Theo, ela me chama, saudades dela, digo, Tem promoção de fidelidade de clientela, brinco com ela, Ah, o suco? Nada demais, alguém deixou aqui, mas acho que não aguento tanta laranja. Tuuuudo bem, não sou de rejeitar suco, já peguei. Hum, sem açúcar, como bem gosto, e gelado! Ei! Quem pediu esse aqui? Aaah, aquela minha colega, a Mel.

Tive que me lembrar de Grice para evitar de cometer uma gafe diante da minha amiga Bia. Compartilhar da mesma garrafa da Melissa, benza! Não é por nojo meu… Poderia ser do dela, Ela volta pra buscar? Não, não creio, tava falando com ela, de repente ela seguiu caminho pro banheiro. Nossa! Nunca ouvi falar da Melissa passar mal, o que foi que houve? Ahn, eeh… Bem, acho que deve ser uma rinite, sabe né, esse tempo nublado, fumaça da Rebouças.

Bem alguma coisa me chamava a atenção, Tudo me parecia misterioso, Um aroma de cerrado tomava conta de minhas narinas, Era a chapada, era a noite me chamando à lembrança, Experimento, Experimento.

Me sentia impelido a caminhar em direção ao espaço aberto da Letras com a Sociais, haviam cerca de vinte pessoas por lá, talvez mais, Não sei, Era algo além de mim, Vi ela, o mistério de desde os meus tempos de início de curso, aquela beldade que por algum motivo desconhecido sempre entrava em pequenos atritos comigo, Pequenos, eu digo, pois no que a vi, um espírito complacente me impeliu a Está tudo bem com você Melissa? A Bia me falou que você passou mal, quer uma ajuda?

Não entendo o que tá havendo… Só consegui processar agora o que presenciei, quase que como espectador, quando ela me olhou com as pupilas mais que contraídas, com um tom de voz totalmente diferente do já costumeiro. Que é que você está fazendo aí!!! Por que você não vem pra cá ocupar o seu devido lugar!!! Eu devia estar aí!!! Maus agouros pra você, seu monstro!!!

E se recolheu num passo desconcertante, quase que no choro, com todos os presentes, desde a escadaria até o acesso da biblioteca, nos olhando, Sinceramente Melissa, quanto mais tento te entender menos te entendo, Não há Semiótica capaz de te explicar.


Ouvindo... Sophie Ellis-Bextor: Bittersweet

Melissa: A Dupla [2]

A terça de manhã me soa surreal… Do nada, já me desperto dum desperto muito inócuo, lembro-me dos ruídos incessantes tomando posse de meus ouvidos, Cara, como eles zunem até agora, Lembro-me dum sonho tão palpável mas tão palpável, uma narrativa tão acessível, Será que foi verdade? Não, não pode ser, Eu não acredito nessas coisas de aliens, Mas meu sonho – se é que foi assim – me trouxe dois personagens, esguios, magrelos, com contornos suaves, com olhos avermelhados e evidentes, Uma palavra que me soa constante no inconsciente – experimento – experimento – fica ecoando na minha cabeça, Não é porque o ouvi nesse fato, sequer me lembro de alguma língua humana naquele momento, Mas é como se fosse tão familiar, Tão familiar aquela ruidera, Meu Chomsky que me salve! É ele, Sim, é ele, Tem certeza, Óbvio, procuramos tanto tempo por isso, É nossa chance de descobrir o potencial desses seres, O que raios acontecia nesse sonho, não sei bem dizer, Uma dor me persegue até agora na nuca, um calor bem intenso. E se nos enganarmos, Não sei, O que pode haver é um aniquilamento de consciência, E se ocorrer, Que não ocorra em público, Por quê, Silêncio, ele pode estar entendendo, Estou vendo, Estado de suspensão, rápido, Espero que ele tenha períodos de descanso fácil, Essa raça é previsível, entrega-se à loucura e ao desvario com algumas dezenas de horas despertas, Jamais vai achar que isso é real, Asseguro.

Gelo possuindo minha alma, a imagem de toda a minha vida sendo repassada na minha frente. Meu primeiro brinquedo, minha primeira palavra, detalhes que me tomaram a consciência aleatórios, misturados. Chomsky! Me dou conta, e me encontro estarrecido diante do Sol da manhã, refletindo sobre como seria eu se não fosse eu, Por que você faz isso, Sei lá, lidando a noite toda em aceso, em apagado, não sei o quê qual motivo, penso em mim fora de mim, Foi como se eu tivesse sido arrebatado de mim e posto noutro corpo, Ficava vasculhando minha cabeça tentando lembrar de alguma coisa que algum grego lá dos tempos dos grandes discursos filosóficos comentava, Mas ah cara, Sem crises, Sua vida é a ciência lógico-discursiva na linguagem, o Gerativismo é tua pátria, gregos? Ah, vá a merda, os gregos ficaram pro passado, nem língua viva eles têm, O que há de herança hoje? Um país submisso à União Europeia, Onde está o passado glorioso, Quem sabe, Quem sabe é apenas aquela tua colega Melissa! Ah não, a Mel…

E fato é que devo estar farto de Diamantina, Fofocas, focas estranhas tomam meu imaginário, algo que veio como que um automático, Como pode isso, Não sei estou cheio de perguntas e poucas respostas, Só me lembro do desejo da noite de segunda, e que amanhã, começo meu quarto semestre, Quatro sempre foi meu número de sorte, Um quadrado, os ângulos retos, A retidão, O positivismo e a certeza de que o Gerativismo resolve tudo. Que vão à merda os Estruturalistas, os Cognitivistas, os estudiosos classicistas, importa a minha Linguística, importa que basta um simples método acústico, Eu sei, A lógica distintiva, E pronto, Basta decidir quais itens da linguagem promover para verificar o quanto o método é infalível.

Infalível, É ele, Não há outro, Não fosse essa cabeça cheia de ruídos, teria eu plena consciência de ver ele em sua totalidade, Mas essas fofoquinhas tão estranhas que me absorvem à cabeça, Não sei, deve ser a noite mal dormida, e eu tenho uma necessidade urgente de tombar à cama, Mas o café me está aí, Meu jovem, algum problema, Não não, estou bem, Certeza, seu rosto se encontra pálido, Pálido, Palidérrimo, Fosse eu dizer pra você, menino, tu teve de ter uma experiência ufanística, Mesmo, Verdade, dizem que aquele paredão que você fez o repouso na última noite, por vezes, é visitado por etês, Etês! Verdade meu jovem, ontem mesmo, tava lá com meu caboclo, ele dizia, Mulé, vem vê o que tá ali vagando no céu. Ai, João Caipora, respondi, deixa se aprumar, não percebe que são aqueles tais de vião que o povo da cidade fala tanto, vai ver um pouso de mergência. Deixamos o assunto morrer, e fomos cuidar do nosso forninho. Mas descanse, Não, não posso, a viagem será longuíssima e eu tenho que partir o quanto antes, Certeza, Absoluta, Eis a conta, jovem, dinheiro ou cartão?


Nunca tive a sensação tão magnificente de me banhar e sentir a pele tão lisa quanto antes… Eu, Melissa, meia-irmã da Daph e invejada por muitas na Faculdade, como não me dei nisso antes, e refletia, numa fração de segundo, o quão bom era ter, depois de tanto tempo, ter me olhado detidamente no espelho. Saí de uma noite terrível, era como se não tivesse dormido há dias… Estava cansada! Sim!! Estava cansada, e renovada, e bem não sabia, por que, ao mentalizar essas coisas, me soava tão estranho me qualificar com o feminino. Afinal, eu era uma mulher, e estava espetacular. Apesar do tempo nublado que fazia por aquela hora, tinha certeza de que poderia sair pra desforra me valendo do arsenal que me esperava do lado de fora.

– Ó sua doida! Vem cá, vai me deixar tomar o banho ou fazer uma super-produção? Arranjou namorado, enfim, Mel?

… ó Zeus! Lançai um raio de oblívio nessa ignorante. E o rogo foi tão intenso em mim, como que se a instância de um homem tomasse meu ser. E essa sensação me acompanhava desde a hora que acordei…


Nove, um número que sempre me incomodou, terrível martírio, E quando vou dormir, Não sei, Cansado, Só quero me esbaldar na cadeira do rodoviário a caminho de São Paulo, e começar a me preocupar com a Linguística meu amor, e português o meu terror. As paisagens se sucedem, desde a manhã e até a noite, Uma melancolia me toma seriamente, como que se abandonasse uma parte de mim lá, na Chapada, como se uma vida fosse lá, Deixada, Experimento, Experimento.


A Daph estava lá, esperando na porta, com o seu pijaminha verde-piscina, com sua face corada, parecendo uma bonequinha.

– Vamos, Mel… Eu sei que tu demora uma eternidade pra tomar esse banho, mas eu tenho que ir pro IME logooo!

E depois de tentar lembrar a (diga-se de passagem longa) noite de sono que vim a ter, percebi que havia algo de diferente naquela manhã. Perguntei a mim mesma se possuía quarenta anos, dado que sentia ter uma longa experiência de vida, como se tivesse vivido duas vidas, e muito distintas: como se, a cada sonho que tive, vivesse uma era, uma experiência de outra vida. Fazia sentido pra minha imaginação pensar que o panteão olímpico queria testar minha honra e glória, me atribuindo uma segunda vida. E eu sabia! Sabia muito bem o que fazer, os sonhos não eram disformes, ilógicos ou sem nexos. Talvez um surto de consciências no plano mais profundo das ideias me perturbava. Uma experiência exata, strictu sensu, a lógica, o estruturalismo, o gerativismo… Lembro da Linguística básica do ano anterior, e ela passou a fazer melhor sentido em certos aspectos. Pensei na FonFon do semestre anterior e como todas aquelas explicações tão rápidas do Viaro faziam sentido agora, e de um modo surpreendente. Lógica na fonologia, lógica na sintaxe… Uma segunda leitura de literatura se apossou de mim, um modo diferente de vida…

– Orra, Mel! Parece que você tava travada na privada. Não sei o que demora mais: um homem no envio do barroso vaso adentro ou a gente.

Daph está afiada hoje. Percebia muito rápido que algo me possuía a cabeça. Algo que pesava junto com tudo aquilo que aprendi de casos morfologicamente marcados, desinências e contratos… No grego, eu repetia pra mim mesma, no grego.

E, ao levar as roupas para minha cama, me encarei uma segunda vez no espelho, agora nua: não percebia antes o meu próprio corpo. No começo, tive uma sensação de prazer inexplicável, um segundo espírito me chamando a me jogar na frente daquela imagem. Eu estava vivendo plenamente o mito de Narciso, tive medo de estar apaixonada por mim mesma, mas com alguns minutinhos a mais, convenci-me de que apenas não me encarava há tanto no espelho… Percebi uma marquinha de nascença no meu braço esquerdo, debaixo do pulso, e ela era misteriosamente geométrica: havia ali como que uma estrela de seis pontas, vazada num hexágono ao centro, do tamanho de uma unha do dedo mindinho.


O sono vinha e não vinha, O peso das pálpebras aumentava conforme eu seguia caminho pra capital, bem como minha cisma com relação àquela noite, A luz que me tragava deixava um vácuo dentro de mim, Passei a sentir como se tivesse vivido metade de minha vida, e a outra estivesse perdida, Mas os meus quase vinte anos estavam ali, intactos, Nenhuma das lembranças de infância foram apagadas, E por que seriam, Estava pensando demais, devia ser um choque de temperatura, É, é um choque de temperatura, Uma água, um café, A paisagem se avoluma, luzes de Belo Horizonte se aproximam, São Paulo estará aí, e terei um sonho melhor esta noite Se teria Medo da luz Medo do experimento Medo do vazio Medo do medo do desconhecido, Quantas vezes não tive medo, Sei lá, você teve medo muitas vezes e, Opa! O que é isso? Uma marca debaixo do meu braço esquerdo, na altura do pulso, mostra uma estrela de seis pontas vazada por um hexágono, Nunca te notei aí estrelinha, Não é uma tatuagem, Não é uma queimadura, O que seria, e o Sol, aquela luz amarela do dia que revela tudo, parece me reservar uma quarta-feira incrível, como se eu nunca a vivesse antes!


Nunca fiquei tão satisfeita em compor meu visual pra aquela manhã… Percebia o frescor do vento: como me sopram bons augúrios o Zéfiro que ressoa impetuoso janela do quarto adentro. Daph está preparada pra sua aula de Estatística – ela é ouvinte em condição especial na turma; se ela desejar e ingressar lá, pode aproveitar os créditos – e eu ainda estou decidindo se visto o All-Star clássico ou o marca-texto cor-de-abóbora.

– Arrasa, mana! Pega esse chamativo All-Star e desce pro mundo e mostre a Safo que existe em você!!!

E eu já via, no mirante do Sol que vinha do Leste, a luz que me traria, na Maria Carolina, a manhã que me trazia presságios de mistérios a serem descobertos.

Já eram quase sete e meia: duas horas quase que de reflexão sobre mim, algo que desde que decidi pelo grego em minha vida, nunca pude fazer. Havia uma séria impressão de que uma única imagem me deixaria aturdida pelo resto do dia, da semana, e, quem sabe, da vida. E a imagem – pasme! – inconscientemente me soava como se fosse estranho… Estranhamente particular.


Narciso Sturlini, Minha última parada e bastava alguns passos rua acima pra casa Como dói Não dormi nadinha, pensando na marca que ali cada vez mais não parecia estar, Me lembrava do que houve, Sono, sono, experimento, não aguento mais, Minha mãe, zelosa, viu minha face absurdamente pálida, Filho, Quié mãe, Que cara de morto, Vai… Tome um cházinho, não vá pra aula hoje, Não, tem aula dum tal de Araújo, dizem que ele é genioso, não quero arriscar, perdi quase dez dias. Vá! Toma! Não manhê, Eu tranco a porta à chave e daqui você não sai até tirar esse sorriso de frouxo, Tudo bem, Aaah, as mães: a instância ditadora do feminino, Como seria bom que todos os pais fossem pais, varões, mulher combina com paixão, com amor fogoso; homens com respeito, com ordem e com rigor.

A caneca me vêm às minhas mãos, um vapor sopra e ganha cor diante do vento uivoso que me bate do Leste, Engraçado, vejo um vapor colorido, Ao ingerir a primeira dose, uma série de vozes toma minha cabeça, Vozes femininas, Vozes de criança, Confissões acerca dos rapazes, Meu Deus! Jesus apaga a luz, migaaa! Que é aquele rapaz gatoso da Penha, todo garimpado no ouro, Ah, ele é Beltrano, ele tem um Porsche, a família dele é muito aprumada, é da vizinhança da Mel na Maria Carolina, ei! querida, o que tem a dizer deles? Eu, eu não tenho nada a dizer, só vejo ali um homem, um homem muito cheio de si, Sinto minhas pernas flutuarem, encontro o encosto do meu sofá e admirando o Sol que começa a ensaiar a saída das frestas do (acho que era) meu quarto, meus braços adormecem, e a última luz que vejo por um não-sei-quanto-tempo é um translúcido verde, partindo do meu pulso esquerdo, junto com uma indescritível sensação de atravessar uma película eletricamente forte, e a luz do despertador apontando o início da manhã do dez de agosto.


Ouvindo... PSY: Year of 77 (77? ??) [feat. LeeSSang & Kim JinPyo]

Melissa: A Dupla [1]

Cinco e meia: o meu despertador toca, e é engraçado! Eu sempre costumo despertar do lado esquerdo da cama, e agora estou despertando do lado direito, e o que é mais interessante é que sequer dei de cara com a parede, mesmo sabendo que na noite anterior, tava lá ela do meu lado direito, portanto tinha que acordar pelo esquerdo… Também não tinha um espelho tão grande assim no meu quarto (um pequeno fio de luz adentrando o quarto que me fez percebê-lo). Mas, como é de costume, sentia necessidade de ir ao banheiro… Não estava me preocupando com a disposição das coisas, que ao mesmo tempo soava tão estranha e tão familiar. E fui. Peguei minha toalha de rosto – que a propósito estava bem mais macia – e segui pro banheiro. Inclusive o caminho do banheiro era o inverso, como que se eu tivesse entrado no mundo dos espelhos…

De repente, meio que a um acesso de inconsciente profundo, me vi num embaraço porque, quando arriei a calça, meio que no aperto da urina, vim a borrar meu pijama… Meu belo pijama rosa de bolinhas vermelhas…

Espera um pouco… Por que borrar? Não tinha deste costume até a última noite… Era certo que se fizesse a necessidade urinária de pé, nada aconteceria… Talvez um pouco de derramamento nas bordas do vaso, um pouco de urina a limpar durante à tarde…

Mas isso foi o exame detido de consciência… Estava, no banheiro, a roupa pra usar no dia que se iniciava. Após lavar a remela dos olhos que me deixavam em alvoroço, me veio o grande susto.

A roupa constava num conjunto de blusinha cor violeta, e um shortinho jeans daqueles bem adornados de peças metálicas.

O banheiro tinha ares de banheiro de uma jovem de dezesseis anos. Azulejos e revestimentos em tons que variam do rosa ao vinho.

E, dentro do boxe, havia uma calcinha.

Deuses gregos que me salvem! O que está havendo aqui! E de repente, me dei conta de que a região frontal do meu corpo pesava em volume, bem como a região da linha dos quadris. Uma sensação fisiológica bem diferente, porém muito familiar. E então, aconteceu uma coisa inexplicável quando me encarei no espelho.

Eu era uma moça de vinte anos, bela, pele lisa sem espinhas, cabelos ondulados levemente tingidos com um tom de vermelho arroxeado, e por mais que me revire durante o sono, basta uma escova de oito minutos e voilá, inveja das amigas sobre mim! Tinha seios bastante volumosos, com um caimento impecável, uma proporção de cintura e quadris de causar acidentes de trânsito e todo esse conjunto, da cabeça aos pés, era algo fantástico de se ver, sou linda, perfeita e gostosa! Eu me amo, minhas amigas me invejam e os rapazes me desejam! E nesse último exame de consciência, me detive amargamente, com uma inexplicável repugnância… Foram segundos de um fluxo de informações que me tomavam a alma e a mente.

O atordoamento culminou quando vasculhei nos inócuos pensamentos meu nome: Melissa Franz Selkie, tenho uma meio-irmã um pouco mais nova, mas nem tanto… Dafne, filha do mesmo pai. Sou uma aluna do curso de Letras da histórica Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, faço grego e português, e ingressei no ano de dois mil e quatro no curso. Havia algo de estranho em tudo isso, não cansava de repetir a mim mesma: eu tinha uma história, tinha uma infância, tive meus problemas de mulher… minha primeira menstruação aos onze anos, os incentivos particulares de prazer no escondido do meu quarto, minha primeira vez com um rapaz que pouco valia com treze anos – algo que profundamente me enojava – e minha experiência quase secreta aos dezesseis com minha melhor amiga, fazendo sexo – que me excitava toda vez que pensava nisso, e não hoje, mas como que se fosse desde sempre – que quase me deixou atordoada, quando durante um ano, minha querida mana Daph – assim me referia carinhosamente – cogitou me denunciar aos meus pais o fato, e assim conseguiu uma série de vantagens no nosso colégio… Mas, de todo, foi até bom… Não olhava pra minha meia-maninha como ela mereceria. Ajudei ela a ganhar auto-estima ao incentivá-la a namorar um amigo de confiança que tinha… Uma moça discreta, que quase não se fazia invejar, hoje, via, uma moça feita, robusta, tão bela quanto eu… O estranho que persistia é que, lembrando o quanto ela é hoje por causa disso, um instinto de desejo possuiu meu corpo, o que não acontecia antes. Era minha irmã… Meio… que seja, mas jamais a havia olhado com olhos assim.

O fato, é que me perguntava o porquê de me estranhar naquela manhã de dez de agosto de dois mil e cinco. Fazia um tempo fechado, mas certeza que não choveria… Ouvia o vento como que se me contasse uma poesia, uma sublime canção, como que se já a tivesse escutado de outros tempos. Segui pra minha ducha quente, e desatei a imaginar o quão divertido seria meu dia com a matéria de Língua Grega II e de Morfologia do Português.

Mas aí, me veio outro surto de consciência… Me lembro de um sonho tão tátil e sensível que tinha um toque de realidade que comecei a pensar se ele seria verdadeiro. Fato é que se eu escrevesse no meu diário, e viesse a guardá-lo e lê-lo daqui a um ano, me surpreenderia com os resultados.


Oito de agosto de dois mil e cinco. Que bela noite observo na chapada Diamantina, as estrelas se detêm em meu olhar de astrônomo apurado… Aquela matéria de Astronomia que fiz no IAG valeu-me enfim de muita coisa. As estrelas nunca foram assim tão vistosas como na capital… Pena que amanhã vou seguir caminho de volta à minha faculdade… A Linguística me espera na quarta-feira… E aquela aula maçante de Morfologia, onde tenho que aguentar aquela esnobe da Melissa…

Esnobe, porém esplêndida e desejável Melissa, entusiasta do grego!

Mas tenho a terça-feira de uma manhã com um café-da-manhã, à moda do sertão…

Uma estrela-cadente perpassa o céu… Fazer um desejo, diz a tradição… Tolices… Tolices… Mas nos rendamos a ela num contexto de tamanha calmaria. Quero ter um ano incrível, disse a mim mesmo, já num decorrer de ano que foi cheio de altos e baixos até então… Mesmo perdendo bons dias de aula, foi feliz ter me dado o direito de fazer esse retiro social.

Mas me foi muito interessante ver a curvatura da estrela que se tornava cada vez mais evidente. E quando me dei conta, assombrei-me com o clarão que dois minutos depois tomava o ambiente. Não tinha pra onde fugir. Um ruído de alta frequência tomava conta de meus ouvidos enquanto no clarão insuportável detia meu olhar nas duas figuras sinistras que se aproximavam na contra-luz.

E então desmaiei.


Ouvindo... Elton John: Understanding Women