Radar Musical: Sessenta e Oito

Coldplay - A Rush of Blood to the HeadColdplay

A Rush of Blood to the Head

[Parlophone/Estúdio]

Por Douglas L. Melo


As últimas aquisições que pretendi tinham algum foco. Já percebia, então há tempo, que minha assiduidade musical seria insuficiente para adquirir todos os álbuns que me fossem desejados. Resolvi, diante dos fatos financeiros que me acometeriam, fazer foco em algumas aquisições específicas.

Anteriormente sabem vocês que completei, até então, a discografia de estúdio do Oasis, e decidi fazer o mesmo em razão de mais duas outras bandas de gosto: Coldplay e Pearl Jam. Destas que, possivelmente, se depararão as últimas resenhas.

Este, do Coldplay, mostra-se mais significativo da época que foi lançado do que da que foi adquirido, dez anos depois. À época do lançamento, ainda sonhava em ter meu primeiro álbum de rock, e me valia de alguns apetrechos caseiros para ter música à gosto – internet ainda era então um artigo de luxo – . Era uma época em que abria os portões para meu pai em retorno ao lar. Uma época em que talvez a maior preocupação fosse cumprir com as mínimas preocupações do ensino básico – uma época que já chamei de áurea, mas na qual acho, hoje, que superestimo demais, mas didaticamente teve lá sua importância. A hoje renascida 89 FM surgiu para mim, evidentemente, com algumas das faixas que aqui se apresentam.

Os dez anos depois do álbum físico? Nada além de uma pretensão de obter diplomas. Algumas coisas já não pareciam tão novas sob o sol. A cidade dos dez anos anteriores já não parecia a mesma e tinha se descaracterizado culturalmente para mim, se tornando apenas um entreposto de compras. Os livros de Stephanie Meyer eram a leitura curiosa dos tempos posteriores, e algumas concepções de autoestima, tão postergadas, seriam resolvidas em épocas próximas.

O descritivo afetivo já fora feito, falta apenas se concentrar no álbum…


Setlist

  1. Politik: grandiosidade e potência instrumental contrastando com o aspecto intimista dos vocais de Martin. Destaque para o piano. A falta aqui é a densidade de extensão da faixa que aparenta não terminar rápido.
  2. In My Place: a tétrade radiofônica começa aqui; em seu estágio um, algo nos conformes da maioria das rádios comuns. Começo bom para se esperar coisas melhores deixadas para o fim.
  3. God Put a Smile upon Your Face: estágio dois; menos conhecida e, por razão pessoal, mais preferida, pelo aspecto trovador e acústico, entremeado de riffs.
  4. The Scientist: estágio três; para os entendidos, algo entre a balada e o comercialmente conhecido pelo Radiohead.
  5. Clocks: estágio último da tétrade radiofônica; algo aqui pode ser lido na linha do álbum posterior, o tão-meu aclamado X&Y. Deve ser a atmosfera do eco contínuo. Ou o sempre-presente piano de melodia.
  6. Daylight: agora é onde um verdadeiro amante de música explora, e a surpresa aparenta boa ainda, com uma cadência interessante. Mais pela regularidade instrumental que propriamente pelos vocais do Chris, que não alcançam as oitavas da tétrade.
  7. Green Eye: ah… outra dessas excepcionalidades acústicas… e que experiência vocal! Um bom acerto.
  8. Warning Sign: aos que conhecem, começa com um bom dedo de Suede, vocaliza ao jeito da banda mesmo, e após uma longuidão encerra sem grandes surpresas.
  9. A Whisper: certamente o Radiohead inspira muito a banda, pelo contínuo clamejar do início. Mas ainda é o Coldplay, de todo jeito; d’outrora, ainda é muito regular – será que se espera o futuro imediato do Coldplay no que foi seu passado?
  10. A Rush of Blood to the Head: a música título conduz-se na balada, instrumentada à clássica no início. Espera-se um explodir musical que custa a chegar. Vale a pena ser auscultada.
  11. Faixa de destaque Amsterdan: chegamos à última faixa com uma expectativa de Grand finale, que se apresenta num solo de piano e vocal e um feeling particular. Com atenção se percebe uma discretíssima segunda voz… Lá pelos quatro minutos, quando esperamos pelo fim do álbum, temos uma magnífica surpresa digna daqueles grandes álbuns, somando estrelinhas lá adiante!

Sentimento vintage

A impressão que temos na organização do álbum é de se tratar de uma preparação digna de Long Play, com lado A e lado B, este último pouco digestivo para os menos preparados, por muitas das canções serem densas em extensão. Mas o Grand finale é justíssimo na cotação.

EstrelaEstrelaEstrelaEstrela e 1/2


Não fui eu que escolhi, soltei um livre shuffle e ele me deu este presente para finalizar a edição…

 Rindo

Ouvindo... Coldplay: Amsterdam

Entremeado nesta temporada, a próxima resenha vai ser do álbum do Pearl Jam.

Radar Musical: Sessenta e Sete

POD - Payable on DeathP.O.D.

Payable on Death

[Atlantic, estúdio]

Resenha por Douglas L. Melo


A lembrança das condições de aquisição deste álbum não foram muito precisas, embora tenha a certeza de que este foi um dos últimos álbuns até então adquiridos em território osasquense. Evoca a curiosidade de época que tive por ler a saga Crepúsculo, outros livros de literatura comercial como a ainda não dita saga Fallen, paralelamente ao início de um interesse maior pela literatura consagrada como leitura livre, e talvez o início dos tempos em que meu deslocamento universidade-lar passou a ser, predominantemente, responsabilidade minha. Este é o cenário mais geral do que a rotina diária prescrevia: nada muito fenomenal evoca a lembrança dessa aquisição.

O que tenho de parâmetro aqui é a vivência da banda que tive em tempos áureos do primeiro ano de intensa audição de rock, e o fato dessa banda me despertar o interesse por uma música que cria, aqui, encontrar – motivação para, não por muito tempo depois, ter adquirido o outro álbum, lembrança clara dos tempos em que, nós, enqunto jovens estudantes do Ensino Básico, namorávamos os CDs nas lojas – um passado muito nublado em tempos de torrents ou musicas sob demanda…

Uma informação que se deve ter em mente é que a banda tem uma vertente muito cristã, o que parece destoar de nosso imaginário quando vemos o grande guarda-chuva de bandas de metal, onde imaginamos o ocultismo como traço inerente. Veremos o que a audição tem a nos oferecer aqui.

Setlist

  1. Mildfire: um prenúncio bom do que será todo o álbum: uma convergência de metal, rap e um identificável atmosfera cristianizada até para quem não compreende muito bem inglês.
  2. Mill You: para metal, está padrão e pouco inovador; vale pela mensagem, contudo.
  3. Change the World: consolida-se a impressão que se tinha desde o princípio de um álbum cristão… Ainda a tímida musicalidade buscando ousar… Ainda a mensagem upbeat fazendo modesta diferença.
  4. Execute the Sounds: certas musicalidades evocando o Oriente são a única distinção desta música para a média até aqui.
  5. Find my Way: a tensão de musicalidade do metal contemporâneo entre o suavizado e o refrão pesado soa padrão. A mensagem ainda é um peso importante.
  6. Revolution: ah… o típico engajamento pessoal e cristão… modesto demais para a musicalidade que uma música exige com esse título.
  7. The Reasons: aqui o limite do que se conhece por metal é superado pelo seu contraste musical alegre. Soa balada, mas soa algo muito ímpar para ser classificado como qualquer coisa muito inovadora… Talvez haja um estado de afetação do resenhista impedindo que se encontre um ponto distintivo para o álbum? Certo é o fim da faixa mostra uma sustentação até desnecessária.
  8. Freedom Fighters: um novo investimento no tratamento vocal. Torna-se uma interessante leitura para a narrativa evocada. Agrada bem para a média do que encontramos aqui, sobretudo os intervalos instrumentais e algo de ska se anuncia.
  9. Waiting on Today: a musicalidade discretamente evoluiu para a disposição do álbum, embora ortodoxa ainda… E, de repente, o timbre vocal passou a se tornar enfadonho por não se desafiar há muito…
  10. I and Identify: muito mais próximo do que imaginamos do universo metal, mas agora o vocal está parecendo destoar da temática instrumental. Muito pausada e reflexiva no corpo da música, e talvez nem nos sintamos preocupados em compreender os líricos mais…
  11. Asthma: a musicalidade melhorou consideravelmente, lembrando muito do System of a Down, com exceção da potência vocal, que não se supera como a musicalide exige. Talvez percebamos, neste momento, que ou seja a limitação tonal do sujeito ou é, por fim, a identidade musical proposta… A ideia de desconforto fica mesmo pela mensagem. É ela que, no fim das contas, dá bastante sustentação ao álbum.
  12. Faixa de destaque Eternal: minha eterna prerrogativa de que acabo comprando um álbum com faixa acústica – a expectativa por algo dito fica sempre em suspensão, mas o exercício estritamente instrumental nos faz perguntar se o investimento de banda deveria voltar-se para a experimentação sem voz. Uma densidade de extensão que não se prejudica e nos permite curtir as ondulações do que já não soa como metal, mas se aproxima do hard rock.
  13. Sleeping Awake: a tentativa frustrada brasileira de hit de rádio – condensa todo o esforço do álbum, muito dentro de uma zona de conforto, agradando com algumas atmosferas musicais, com uma mensagem poderosa, mas realizada de um modo pouco sedutor, em termos do que todo o universo do rock fornece. Ficaria de bom tom se a faixa anterior encerasse o conjunto do álbum…

Um conglomerado de intersecções de tons, mensagens e cores musicais

Pesa-se com muito cuidado cada conjunto de linguagens evocados aqui. O contexto de produção – uma banda cristã – e o que se pretendeu dizer estão dentro das expectativas, mas a ousadia vocal (ou a sua ausência) não nos permite destacar o álbum nos nossos catálogos…

EstrelaEstrelaEstrela e 1/2


Ouvindo... P.O.D.: I and Identify

Há um outro álbum da mesma banda a ser analisado. Mas creio que o contexto de aquisição trouxe outra banda da qual tenho muito gosto e que tenho em vista resenhar mais um álbum na próxima publicação da seção.

Radar Musical: Sessenta e Seis

Marisa Monte

Universo ao Meu Redor

[EMI, Phonomotor; estúdio]

Resenha por Douglas L. Melo

Marisa Monte - Universo ao Meu Redor

Continuando a dobradinha conveniente de Marisa Monte, a curiosidade posterior por essa dita contraparte se fez por canções como “O bonde do Dom” e pela curiosidade que me impelia, já não tanto quanto antes, das idas a estes e aqueles lugares, em busca de novas coisas… O tempo, por mais dizer, era da pesquisa, chave-motor de meu curso… Um colorido que, na ocasião de escrever estas notas presentes, se me revelou recomeçar, dependendo do meu esforço em conduzir minhas obrigações mínimas, e uma revelação, fantasiosa, de um sonho, das melhoras sobre os empecilhos da rotina.

Num ritmo frenético da vida, parar e prestar atenção, no anterior e neste álbum, é uma dádiva que uma solene pessoa deveria se dar em algum momento da vida…


Setlist

  1. Universo ao meu redor: há um clima intimista, sim, a exemplo do anterior… Mas o retoque do samba – ah… esse – faz um início de toada bastante interessante.
  2. O bonde do Dom: a toada da Lapa, uma lembrança de Noel Rosa, e uma voz feminina… A carro-chefe é muito eficaz.
  3. Faixa de destaque Meu canário: a tristeza cantada de uma forma tão linda pelo cantar do passarinho.
  4. Três letrinhas: uma baladinha afirmativa, gostosinha de se ouvir…
  5. Quatro paredes: toda uma orquestração bem trabalhada, um gosto musical bem referendado para se compor. Tranquilo, sim; inovador, não tanto… mas que importa isso? É tão bom.
  6. Perdoa, meu amor: a gente reconhece, de cara, um bom chorinho para se ouvir – pessoais à parte, me representa nestes dias.
  7. Cantinho escondido: o apelo intimista de MM, cantado em razão do companheirismo afetivo… Soa discreto, diminuto. Vale destacar o experimentalismo musical de fundo – isto é uma garrafa batucada por uma pequena barra de metal?
  8. Statue of Liberty: um leve cantar globalizado… ligeiro como a NY.
  9. A alma e a matéria: soa cristalino, como o tema… E ainda não bastasse, me lembra os tempos de 2005 – uma profecia sinestésica?
  10. Lágrimas e tormentos: o efeito musical de caixinha de música no início mostra um ímpeto experimental procurando permear toda a musicalidade do álbum. Falar das letras já é ser crítico excessivamente inóspito: tudo conspira perfeitamente a favor de se sentimentalizar com o álbum.
  11. Satisfeito: algo aqui soa a Chico Buarque – atire a pedra pro samba quem discorde.
  12. Para mais ninguém: nada que enjoe. No entanto, pensar em algo inovador a este momento seria superestimar a simplicidade do samba, colocá-lo no patamar de outros gêneros que são pressionados a se reinventar dentro de um mesmo álbum… Vamos seguindo, então, na mesma toada com carinho.
  13. Vai saber?: o refrêgo do combalimento soa aqui tão sereno, com uma estrutura de samba de fim de noite… O barzinho do morro está fechando, já é noite, e me parece que o futuro musical aqui soará tão saudoso.
  14. Pétalas esquecidas: os tercetos tão bem dispostos nos dispõem a pensar o quão belamente regular foi todo este álbum… Lindo e inesquecível.

Sambinha bom

Fico pensando o quão reducionista é categorizar com estrelinhas…

EstrelaEstrelaEstrelaEstrela e 1/2


Ouvindo... Marisa Monte: Satisfeito

Por ora, os poucos que ainda hão de ser feitos serão álbuns internacionais… estamos chegando ao fim de mais uma temporada.

Radar Musical: Sessenta e Cinco

Marisa Monte

Infinito Particular

[EMI/Phonomotor, estúdio]

Resenha por Douglas L. Melo

Marisa Monte - Infinito Particular

O momento era das já minhas saudosas idas frequentes a Osasco, estando em ambiente, ainda suburbano de Ibiúna, indo e vindo em razão do meu curso. O que tenho desta época, em termos de lembranças, são as melhores possíveis… Os tempos dos colegas que, assim como eu, podiam dispor do tempo de não-aulas para passear, visitar lugares e ver eventos culturais. O carinho que tenho, refugado, por Osasco à essa época, remete aos cuidados com a música que tive pelas épocas de longa pausa entre faculdades.

Marisa Monte é uma voz terna que me embalou a finesse musical que cultivava pelo período da TV por assinatura e a ávida assistência pela MTV e VH1. Ela, futuramente, seria representativa de uma colega que tenho por muitíssima estima, quase que como por irmã. A suavidade nestes termos, que abaixo se descrevem, se tornam tão bucólicos, capazes de destrinchar o meu, hoje, tão calejado coração, pelos eventos recentes que me fizeram ser descrentes de um futuro mais colorido. Um tom, embora mais pálido, de cor nas músicas desta Musa de cuidado vocal tão esplêndido, espero que sejam o cuidado que necessito pelas ordens do meu dia, tão fatigado pelo já vivido…


Setlist

  1. Infinito particular: a estrutura ambientável da melodia e o contraste poético do lírico revelam “o melhor e o pior” de MM… O aspecto intimista da canção é, deveras, o mais casuístico do que ela se propõe a fazer.
  2. Vilarejo: uma canção para se ouvir na solidão da noite e pensar – por que o futuro não poderia voltar a ter o colorido de tempos passados?
  3. Faixa de destaque Pra ser sincero: a balada romântica… Ah… Essa necessidade tão ternamente melancólica para se falar das coisas do coração. Destaca-se a toada violeira e todo o batuque carinhoso.
  4. Levante: destaque pros metais de sopro, devidamente harmonizados com os vocais, leves e bem cristalinos…
  5. Aquela: um cadin’ cuidadosa com o arranjo… cadin’ bom… E bastante preocupada com uma ludicidade do cancioneiro, a meu ver, confessadamente nordestino.
  6. A primeira pedra: a lição bíblica colocada a foco para  as coisas do coração. Destaque para a estrutura musical, quase que com atmosfera marcial.
  7. O rio: uma música de efeito onomatopeico, um acalanto e uma lírica exemplar – nos sentidos que se possa promover. Bom pra se ler Mia Couto… Combina e muito!
  8. Gerânio: o tema floral, que exige o mais colorido dos nossos pensamentos para a vivência do mundo. O exotismo é o belo pano de fundo entregue nesse pequeno epitalâmio para o cotidiano.
  9. Quem foi: o paradoxo do cotidiano, que remete ao cancioneiro da MPB mais antigo – e estranhamente saudoso.
  10. Pernambucobucolismo: uma surpresa para a sequência do álbum… A estrutura ocultista e futurista melódica cria um ambiente ímpar, digno de se ouvir com mais cautela, antes de se nominar.
  11. Aconteceu: o princípio lembra um clássico Noel Rosa… A cadência misteriosa da música deixa um tema tão melancólico mais suportável, mais tão-comum, numa letra com ares de minimalista.
  12. Até parece: o sucesso intimista de música-dor-de-coração tem essa cara…
  13. Pelo tempo que durar: pianinho para uma música com cara de fim-de-noite… Está acabando os quase quarenta minutos de uma leitura muito pessoal do modus operandi de se fazer música… Parece ser uma profunda pena a coisa encerrar assim, humanamente sublime.

Acalanto bem terno…

Aquele momento que você exige se reestruturar para o futuro pede, dentre o universo de canções próprias para o tema, esta obra-prima.

EstrelaEstrelaEstrelaEstrelaEstrela


Ouvindo... Marisa Monte: Aquela

Na próxima oportunidade, a dobradinha de MM com o anteparo complementar musical dela…

Radar Musical: Sessenta e Quatro

Pearl Jam

Vs.

[Epic / Sony BMG, estúdio]


Lembranças um pouco mais definidas vêm a seguir, noutra daquelas aquisições pechinchas, que realizei em tempos em que estava envolvido em leituras de vampiros – fato mais notável à época, e não por extremo voluntarismo, mas apenas sugestionado para tal – imagens que me vêm à época são os inícios de tarde que empreendia então na USP, os mais tardares em Osasco, sempre espreitando por algum consumisminho a ser feito, sobretudo na tríade CD – DVD – Livros. Aqui não foi diferente.

Numa época em que voltar pra casa sempre pedia um pão de queijo num shopping e um retorno no início de noite, sempre com música no carro e livro na mão para leitura – é bem de se notar que as leituras de curso não afetavam em nada as livres, misteriosamente não sabia dizer como, – me veio este, o qual fiz audição em carro, como de costume à época com quase todos os que assim foram. E pensar na banda que me consagrou nesse grande estilo é rememorar passados felizes, dinâmicos, e por vezes bizarros, que mais um álbum dessa banda – então grungeira – não poderia passar batida.

Pois bem, de comentários extras, posso me referir às capas e encartes sempre dignos que encontramos em obra – o famoso olho de peixe que aparece em alguma arte – e os vários arranjos dos líricos que encontramos neste.


Setlist

  1. Go: uma tendência ao hard se observa, mas que, pela época, não deixa de perder o teor punk de cadência rápida… Em suma, o grunge em boa forma. E, claro, Eddie Vedder…
  2. Animal: não ligue tanto para o cantado… perceba melhor a desenvoltura instrumental por aqui.
  3. Daughter: o sucesso radiofônico – e acusticizado – que faz com que não nos sintamos em estranhamento com todo o trabalho aqui desenvolvido. Mas, não nos esqueçamos, temos nossos quinhões de riffs nos entremeios.
  4. Glorified G: A arte do encarte esconde uma letras cheia de potência, bem encaixada nos devidos lugares em sua disposição do álbum. O instrumental também não deixa a desejar, e mantém a cadência do álbum lá em cima com bastante propriedade.
  5. Faixa de destaque Dissident: o semi-hit radiofônico e as boas lembranças de Even Flow, Black, Better Man e I Am Mine [anacrônicas], por todo o feelin’ ainda em vigor de Vedder nesta sublime canção. Nota para o esboço em encarte, como uma letra composta em processo-moto-contínuo na guitarra e no lápis. 
  6. W.M.A.: batidas tribais – baixo marcante – canção-ritual – uma quase-jam de um teor bastante complexo, com singelos riscos de se derrapar.
  7. Blood: o tapa-na-cara com toada punk do álbum. Simplesmente pesada , a ponto de deixar a garganta de Vedder em pinel – coisa que hoje não seria mais possível.
  8. Rearviewmirror: a cirandeira-melodiosa do álbum, dosadamente – e marcadamente – gostosa de ouvir…
  9. Rats: a leve sacada blues do álbum com um vocal absolutamente repugnante – como o título da canção.
  10. Elderly Woman Behind the Counter in a Small Town: ah… A legitimamente acústica na sua linha principal… Faltava algo assim para consagrar um álbum que corre gostoso de se ouvir…
  11. Leash: as distorções e os riffs de guitarras emplacam mais uma fase do álbum, revigorada com um quebra-gelo, mas que começa a pecar por algum ineditismo em falta. 
  12. Indifference: uma levada dark nos lyrics nos dá um singelo e devidamente interessante fim de álbum… A pegada dos teclados, a atmosfera elegíaca, o clássico feelin’ vedderiano…

Dotado de tensão?

O álbum sabe muito bem explorar as nuances do grunge. Mesmo não contando com uma boa distribuição dos hits radiofônicos, sabe manter com plenitude o álbum. No entanto, não sei se é estado de espírito, mas ainda não posso declará-lo como O Álbum daqueles…

EstrelaEstrelaEstrelaEstrela e 1/2


Ouvindo... Pearl Jam: Blood

Radar Musical: Sessenta e Três

Bruce Springsteen

Born in the U.S.A.

[Columbia, Sony BMG; estúdio]


Conjuntamente com a aquisição do SSs, teve também esta, fruto das boas épocas em que atualmente vivo em São Paulo. Em meio a uma imersão musical tremendamente gigantesca nos últimos tempos, diga-se de passagem que este álbum andou passando um pouco batido, embora o intérprete não. Lembro-me veementemente das tentativas de ver um filme chamado “Philadelphia”, em que uma bela canção dele figurava.

Em se tratando de gêneros, costumam encaixá-lo na categoria do Folk (Rock), uma seção que muito tem da minha admiração, a começar por Bob Dylan, aliás um dos mentores desse, de modo confesso [acredito]. Embora, a partir da visualidade da capa evocar o American Dream, bem imagino o caráter de protesto [ao menos me parecem as audições dele], contido nele… Nada que uma visadinha nos lyrics não resolva…

Setlist

  1. Born in the U.S.A.: tem um feelin’  bastante envolvente – bem, todo mundo que se preze a conhece, e por isso, temo que o álbum passe a ser nivelado por cima…
  2. Faixa de destaque Cover Me: o solo introdutório de guitarra mostra que o álbum tem muito mais a fornecer do que um hit – presença do bom e velho teclado – e os permeios nos refrões!!!
  3. Darlington County: a sacada country até aqui… Um trocadilho com o condado? E uma semelhança tímbrica com Bob Dylan mais-que-presente. Sem falar nos sha-la-la-la’s e o caráter festivo…
  4. Working on the Highway: uma força bem raiz do trovadorismo moderno, quase beirando o… New Wave?
  5. Downbound Train: agora, no cardápio do “American Dream”, a presença duma pegada blues mas ainda com lampejos country e melódicos… será este álbum uma ode aos estilos nascentes em solo ianque?
  6. I’m on Fire: a breve toada com lampejos de acústico e percussão rudimentar… Mas devidamente elaborada para um quebra-gelo digno de poder alavancar o álbum pra segunda metade?
  7. No Surrender: o resgate da pegada mais hard do álbum, mas ainda com aquela cara de New Wave… o letrado na onda trovadora que já parece um lugar-comum quase monotom… Me parece necessário inovar pra não exaurir daqui pra frente.
  8. Bobby Jean: uma tentativa de organizar com base num arranjo, decerto, espacial, com teclados? Já se sente um cansaço na disposição da ordem do álbum… Por sorte, esta não parece estender-se até mais que o necessário.
  9. I’m Goin’ Down: algo de teor distinto, uma bateria marcada, e um tom ligeiramente diferente… mas nada muito Ooooh! até aqui.
  10. Glory Days: enfim, encontramos – e a mnese não me lembrou até então – outro sucesso de rádio. Não sei se o apelo radialístico foi vigente pra digerir melhor essa, mas bem pensado e desvencilhando desse fator, o que torna diferencial aqui é o arranjo do teclado e o basiquez guitarrístico de acompanhamento. Tão-só.
  11. Dancing in the Dark: outro hit de rádio, e outra sugestão de New Wave na carreira do moço…
  12. My Hometown: ah… uma balada… Boa pra conduzir um fim a um álbum de teor dubitável na ordem “inovação”. Mas pra quem tem refinamento – não o meu caso nesse espírito de resenha – pode ser um bom fechar com chave de ouro. Uma toadinha instrumental em fade, enfim…

Protesto ou puro embuste sugestivo do resenhador?

A impressão de algo de teor de protesto só fica pela canção-título. Começa com bastante vigor, mas se fosse redistribuído melhor, a ordem linear do álbum talvez seria mais interessante. Bom para um efeito-surpresa, via shuffle.

EstrelaEstrelaEstrela e 1/2


Por sugestão do meu shuffle pós-resenha:

Ouvindo... Bruce Springsteen: Born in the U.S.A.

Radar Musical: Sessenta e Dois

Scissor Sisters

Scissor Sisters

[Polydor / Universal, estúdio]


Completada a coleção do Oasis e adquirido a preciosidade do Coldplay, pensava que não me empreenderia em outras aquisições. Contudo, nessas épocas, me deparei com preços promocionais neste e no que virá em sequência [resenha 63] que a resistência fora pouca. Naturalmente, essa foi uma daquelas aquisições que fiz no período que muito circulava pela Paulista.

Mas as lembranças que me remetem a esse álbum são muito mais remotas. Elas remontam ao ano de 2004, quando o público brasileiro tomou conhecimento da banda, a partir da cover de Pink Floyd. Nessa época, falando de mim, vigorava minha preferência pela Brasil 2000, rádio que julgo extinta pelo arsenal musical que fora abandonado anos após, e esta era minha companheira das jornadas de fim de tarde rumo ao ensino médio no Campesina. Junto com esta, outra, a The Darkness (que até o presente momento não possuo álbum em CD) recheavam em parcelas, junto com um arsenal de bandas indies, um estilo de ser meu que poderia muito julgar andrógino [tal como refletindo há pouco antes de construir essa nota com uma amiga] e voltado pra efervescente boemia da minha vida, dessa época que estudava pela noite, na então cidade de Osasco.

Latentes esses detalhes, posso me referenciar ao álbum em si, que tem um apelo ambíguo e peculiar, do qual faço notas, no velho estilo leigo que já conhecem de mim, a seguir.

Setlist

  1. Laura: teclados e sintetizadores – atmosfera envolvente – e uma voz que vai se tornar daqui em diante algo comum em todo o álbum. Apelo andrógino? Não… Mais que isso: uma historieta de sex appeal. – guitarra à moda glam;
  2. Faixa de destaque Take Your Mama: nítida lembrança de George Michael no início do álbum com os acordes acústicos (acústicos!!! Ahhhh!) – e o pedido pra levar sua mãe pra farrear fora de casa… Disco???
  3. Comfortably Numb: a cover de Pink Floyd, obscurantemente dançante, e com uma nítida lembrança de Bee Gees. Perfeito Frankenstein. E com muito direito a a-has, e tais.
  4. Mary: o piano, e uma reminiscência aos trabalhos do Pulp. O expurga-males melancólico do álbum até aqui.
  5. Lovers in the Backseat: essencialmente experimental, recitada… um algo voltado ao novo século.
  6. Tits on the Radio: quando o rock está a serviço da Disco… ou seria o contrário?
  7. Filthy / Gorgeous: mais outra que traz lembranças de Bee Gees… porém a temática é bem underground. E o elemento eletrônico se torna mais latente no fim.
  8. Music is the Victim: a big-new-thing do álbum: muita base, um convite ao Dancin’ Days, típico comportamento anos 80. Pena ser curtíssima.
  9. Better Luck: um apelo quase hedonista, com um sample muito familiar.
  10. It Can’t Come Quickly Enough: organística, traz uma nítida lembrança dos trabalhos do Suede.
  11. Return to Oz: e para fechar com chave de ouro, um convite à (des)fantasia numa de densidade sem igual, com direito a fundo acústico, crescente sonoro, descompassando estrategicamente o álbum para uma sequência linear surpreendente.

Atmosfera ímpar

Para quem curte coisas pouco ortodoxas, é uma grande pedida.

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Ouvindo... Scissor Sisters: Music Is The Victim

Na próxima, pela mesmo lote de aquisição, o álbum Born in the USA de Bruce Springsteen.