Bons discursos: um investimento em declínio

Todo o discurso deve ser construído como uma criatura viva, dotado por assim dizer do seu próprio corpo; não lhe podem faltar nem pés nem cabeça; tem de dispor de um meio e de extremidades compostas de modo tal que sejam compatíveis uns com os outros e com a obra como um todo.

Sócrates, extraído de <http://www.citador.pt/frases/todo-o-discurso-deve-ser-construido-como-uma-cria-socrates-16111>

Se, reproduzindo o discurso alheio, a gente o altera tanto é porque não o compreendeu.

Goethe, extraído de <http://www.citador.pt/frases/se-reproduzindo-o-discurso-alheio-a-gente-o-alt-johann-wolfgang-von-goethe-15553>

É uma grande lástima não ter inteligência suficiente para falar bem, nem discernimento bastante para calar.

La Bruyère, Os Caracteres (in: SELEÇÕES, Viver com sabedoria. Rio de Janeiro: 2004, p. 126)

Eis-me prostrado a vossos peses
que sendo tantos todo plural é pouco.
Deglutindo gratamente vossas fezes
vai-se tornando são quem era louco.
Nem precisa cabeça pois a boca
nasce diretamente do pescoço
e em vosso esplendor de auriquilate
faz sol o que era osso.

Carlos Drummond de Andrade, Ao Deus Kom Unik Assão (in: ______. As Impurezas do Branco. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 11)


RelógioEscola Um aviso de cocheira: apesar de não ter havido um singelo e sério cuidado na redação do texto a seguir,
recomendo aos que aqui chegaram que, embora digo que se sintam livres para comentar o que aqui foi exposto,
favor tomar o máximo de cuidado com o que levarão a público nesse texto: uma leitura atenta mostrará
o porquê desta minha prévia recomendação. Tentei, a título de evitar polêmicas, não citar os fatos que me trouxeram
a essa reflexão, sob pena de desvirtuar a discussão principal, no entanto, para conhecimento de causa, decidi
posteriormente vinculá-los na forma de links em palavras-chave no decorrer do texto
.
De toda forma, prepare seu copo de chá e boa imersão textual!  Smiley piscando


Confesso que este, de longe, não será a melhor das reflexões feitas até hoje por aqui. Creio que, seja por humildade, seja por uma razão logicamente sensata, não posso me imbuir dessa pretensão… A partir do momento em que lidamos com a faceta considerada “espiritual” das palavras e dos gestos, percebemos o quanto estas são capazes de construir ou destruir, dependendo de dois fatores, que podem atuar em separado ou em conjunto: o falante e o co-participante.

Dado então essa premissa, me empreendo nesse percurso discursivo pra construir um semi-desabafo em relação ao próprio discurso. Desembainhando-me de comentários pouco dignos, e também de mencionar as motivações a exercer essa reflexão (basta um exame das notícias dos meses de fevereiro e março sobre política e cotidiano da internet pra saber do que falo), nos últimos tempos ando pensando justamente sobre essa entidade, quasi-irmã da linguagem. Afinal, o próprio Mikhail Bakhtin, que mesmo com suas reflexões voltadas para a literatura russa, foi peça fundamental para se pensar a respeito da comunicação, dotando-a de uma perspectiva, a princípio aterradora – dado que à ela, atribuiu um caráter marxista, o que deixa anti-socialistas ferrenhos com as pulgas nas orelhas – mas que, num exame detido, faz toda a diferença: a linguagem pode ser dotada de um instrumento de poder, a partir do momento que você se apropria dela e a combina de acordo com sua influência na sociedade.

Em síntese, pensemos nessa perspectiva como trama textual dessa reflexão.

Continuando, percebemos que discursos são mais validados que outros… Querendo ou não, influências políticas, sociais e econômicas são fatores fundamentais – mas não absolutos – para que determinadas práticas discursivas surtam o máximo de efeito. Não precisamos ir muito longe pra perceber que a televisão, ainda na nossa sociedade brasileira contemporânea, é a que angaria massivamente a opinião pública: presente na maioria dos lares brasileiros, oferece entretenimento e noticiários, das mais diversas qualidades (adicione aí as duvidosas) àqueles que delas pretendem fazer uso. A internet, apesar de, a passos lentos, estar se consolidando aos poucos nos grandes centros, ainda não tem a plena influência que a televisão construiu nesses últimos anos, dada a familiaridade dos usuários mais velhos e do poder aquisitivo que a base de usuários constitui.

Obviamente, as ferramentas de difusão de informação contam com uma faceta construtiva e uma outra absurdamente desedificante. É no vislumbrar dessas últimas dos últimos anos que tento me empenhar em projetar um despertar aqui.

Temos ciências da linguagem suficientes pra explicar, sob as mais diversas perspectivas, os discursos não-literários presentes no nosso cotidiano: Semânticas Lexicais, Formais, Argumentativas, (…); Pragmática; Análise do Discurso – francesas e anglo-saxônicas; Semiótica discursiva (…) Sabemos que toda Ciência, em uma natureza epistemológica, verifica as ocorrências no mundo, sem ditá-las como elas devem funcionar. Nas humanidades, e sobretudo nas linguagens, de um modo mais detalhado, estudamos fenômenos que as pessoas não precisam pensar pra realizar… Em tese, as pessoas o fazem de modo natural.

Em tese… E aí chegamos no ponto crucial, que sob um termo leigo, invalida a hipótese de que as pessoas, na sua totalidade e em todos os momentos, são exímios usuários do bom discurso. Esse termo se define por “falta de bom senso”. Nas ciências da linguagem, se define por “ruídos” na teoria da comunicação; violações de “cortesia” e quebra segmentada das “máximas conversacionais”, na Análise do Discurso; condições de performance de atos de fala “infelizes” na Pragmática. Os nomes são vários, mas sob diversos pontos de vista, envolvem discrepâncias acerca dos conjuntos de modelos de pensar entre os envolvidos, e da ausência de empatia pelo co-participante.

Resultados disso? A constatação (que precisa ser devidamente verificada, quantitativamente e qualitativamente) de que as pessoas estão “desaprendendo” a usar das várias virtudes que o discurso proporciona, na economia do argumento monolítico e categórico, para serem absolutas em suas posições. Não é que isso seja uma prática condenável, mas pensemos que o mundo não é composto pelas individualidades. Querendo ou não, estamos sujeitos a algo que pode muito bem ser descrito pelo contrato social de Hobbes, e por extensão e interdisciplinaridade, a linguagem social também é submissa a esse contrato, fiável ou não pelos indivíduos.

Retomando a comunicação socioideológica bakhtiniana, a partir do momento em que um ator discursivo é munido de quaisquer fatores que privilegiem que seu discurso se interponha aos demais, é uma questão de bom senso que ditará a validade de seu discurso, segundo parâmetros de ética discursiva, estes num contínuo processo de releituras. A coisa começa a ficar um tanto quanto inaceitável quando a empatia é ignorada e esbarra em pressupostos que, numa última análise, existem nos indivíduos de maneira intrínseca, mas que ali, no recôndito do particular, deveriam se manter, em função da preservação do dito contrato social. Em termos mais práticos, discursos de cunho preconceituosos e/ou segregatórios, que deveriam ser resguardados para o particular ou, no máximo (e duvidável defender isso) serem proferidos apenas nos meios a eles empáticos e dali não saírem para a sociedade como um todo, estão ganhando uma amplitude social assustadora (opinião pessoal) e, o que é pior, são inspiradores para a perpetuação de conceitos, muitas das vezes, retrógrados.

O que torna a situação ainda mais deplorável é perceber que pouco se faz pela preservação da cortesia e da elaboração do argumento policromático, que perpassa todas as possibilidades argumentativas possíveis, mesmo que a princípio elas pareçam contraditórias. Isso não quer implicar num tolhimento das perspectivas particulares das pessoas: muito pelo contrário! Apenas devemos prestar atenção para que as pessoas que aí estão, e as que estão por vir, não necessitem de cartilhas que ensinem como elas devem se portar nos mais diversos ambientes e sob quais situações devem expor suas opiniões. Pensar que as pessoas precisarão de aulas pra aprender quando devem usar “todos”, “alguns”, “nenhum”, “a maioria dos (das)”, “a minoria dos (das)” e considerarem as possibilidades de uso de um “mas”, “entretanto”, “porém”, “ademais”, de forma que não achem que seus discursos sejam contraditórios, mas que possuam coesão a partir do ponto em que considerem a perspectiva do outro, e um apagamento do próprio narcisismo, sob o ponto de vista do público?

É uma perspectiva de crença muito imensa, minha, pessoalmente falando, de que as pessoas não necessitem das teorias da linguagem para aprender a própria linguagem no seu uso. Do contrário – e isso me valendo de um expediente deveras controverso – quem necessita destas lições estará assinando seu próprio atestado de anencefalia sócio-discursiva – um estado de vivência social deveras perverso, dado que, quanto mais pessoas residam nessa possibilidade pérfida, mais próxima da parasitagem a humanidade se encontrará…

E aí, se valendo do senso comum, não haverá adjetivo “digno” e inefável o suficiente para designar as pessoas que executem, sob os mais diversos tipos de intencionalidade, tal postura que evidencia a crise do discurso das últimas décadas.

Obviamente, não há o que dizer de forma categórica sobre a situação. Mas, para quem a executa, o bom senso invariavelmente nos dita sermos categóricos e tentarmos iluminar seus mundos… Não porque, como Analistas do Discurso, Pragmatistas, ou outros estudiosos das humanidades, intelectuais e/ou estudantes do ensino superior somos melhores! Muito pelo contrário!!! A partir do momento em que uma pessoa pretende ser dona da verdade e dos ditames da sociedade, ela tolhe o discurso e, aí sim, participa do mesmo terrível jogo do mau uso da linguagem.

Como disse Sócrates, o discurso é algo vivo e orgânico, e tal como um organismo, os diferentes pressupostos, isolados, desempenham funções distintas, mas em conjunto, devem operar de forma integrada, na expectativa de desempenhar um efeito eficazmente benéfico para a alma… E sem esse artifício, adquirido com o bom convívio e a sábia experiência, melhor ficar com o La Bruyère e se calar.

Até porque é muito difícil, dia após dia, dar razão às palavras da Madame de Staël, que, em uma das muitas paráfrases que encontramos, quanto mais conhecemos os homens, mais gostamos dos animais. Mas diante dos impropérios que encontramos na nossa sociedade – e em termos práticos, na televisão e internet brasileira – é difícil nós, que constantemente procuramos tomar o máximo cuidado com o que proferimos (e, ainda assim, falhamos de modo crasso) dar crédito a sujeitos da nossa sociedade que perpetuam as visões unilaterais e de cunho anti-empático para com o outro. E que são venerados pelas formas oficiosas que tornam seus discursos relvantes…


Adições podem ser propostas após a publicação. A título de filologia, manterei possíveis exclusões futuras sob tachados, e modificações serão devidamente assinaladas. Caso seja necessário, sinta-se à vontade para reproduzir esse texto (marquei-o sob a égide de uma tag que assumo como Creative Commons), desde que dados os devidos créditos e referenciado o original.

Enquanto o texto esteve sendo publicado, o shuffle do computador tocava:

Ouvindo... Joe Satriani: Crystal Planet

Violência Mútua

Por anos não foi do meu feitio postar aqui um artigo que não envolvesse o mundo das artes, mas fatos recentes me inquietam e não permitem que meu silêncio também se aquiete com o que vou lhes apresentar sobre o que pretendo chamar de violência mútua.


Em primeiro lugar, quero chamar a atenção para uma charge, cuidadosamente produzida sobre minha autoria, especialmente para esse artigo.

A um bom entendedor, uma charge bem desenhada basta. Mas para evitar qualquer deturpação do sentido original do que quis expressar, quero conduzi-los à interpretação pessoal do que propus aqui. Vemos duas figuras em embate violento num ringue de luta, que aqui estão brigando por algum motivo e estão sendo contempladas por câmeras e flashes de máquina. Vamos trabalhar alguns dos detalhes, de uma maneira que não se possa desviar de fatos nem endossarmos estereótipos. Se você se interessou sobre tal assunto, convido-o a aventurar-se pelas próximas linhas…

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Reflexões do Nosso Cotidiano

Amizade: um artigo de nobre luxo?

Ou um pobre pretexto para barganhas?


Viver de acordo com as diretrizes da sociedade exige que você disponha de certas concessões em sua vida para obter algumas regalias. Diga-se disso nossos jovens que deixam os visuais pouco ortodoxos de liberdade que calças rasgadas e cabelos ouriçados ou tingidos, camisas ditas subversivas, piercings e tatuagens feitas em momentos de fúria comportamental – ou de passionalidade embrionária – para ingressar no mercado de trabalho, em funções deveras burocráticas, que solicitam discrição e uma postura menos chamativa para conduzir sua vida em acordo com os provimentos necessários para suprir as necessidades básicas da vida: comer, vestir-se, possuir moradia e repassar parte dos provimentos próprios ao governo. Com raras exceções de alguns privilegiados, os quais dispõem de reservas capazes de suster algum ferramental de curso para conduzir a vida de forma distinta das pessoas ditas “normais”, todos tem por sina seguir o caminho da padronização. É o chamado amadurecimento social.

Nessa etapa decisiva da vida, na qual o jovem procura, em seu espírito de busca idealista, amadurecer uma opinião complexa; ou conformar-se e resignar-se ante sua impotência individualitária na capacidade de transformar o meio onde vive, um fator determinante em sua vida torna-se crucial para que o então outro dia jovem sonhador torne-se um adulto realizado – ou não – e este atende pelo nome de Amizade. Constitui amizade qualquer relacionamento interpessoal que proporcione cumplicidade, bem-estar, ou apoio moral, de forma unilateral ou bilateral, conforme o comprometimento de ambos com o dito relacionamento. Há, obviamente, níveis de amizade que a torne mais ou menos autêntica ante a descrição aqui apresentada: vão desde as amizades que proporcionam bem-estar num único sentido (cultivar amigos apenas para obter influência, para frequentar eventos de alta estima social, ou um desconhecido desejo de submeter os votos de confiança sem proporcionar resposta à altura) a aquelas dignas de se tornarem romances (um amigo conceder a outro uma oportunidade que, mesmo sendo-lhe digna, satisfaça um sentimento altruísta seu, como abdicar de uma pretendente em favor deste seu amigo, ou indicar o amigo a uma promoção que ele mereça em seu ambiente de trabalho). Saber mensurar cada uma delas demanda esforço e uma análise de diversos fatores, como histórico de vida dos envolvidos, realizações anteriores, expectativas futuras e necessidades do momento. Mas isso, em regra social, é um empreendimento que cabe somente às pessoas diretamente envolvidas com a situação, e a outras autorizadas a tal investigação, quando se fizer necessário.

Uma coisa é certa: ninguém mata pela amizade, nem hoje, nem ontem, nunca amanhã. Do contrário, não expressa amizade. E sim um contrato social. Uma pouco nobre troca de favores. Outra coisa também pode ser observada em amizades que são sinceras: conceder certas ações implica em determinado amadurecimento de vida, obtido naquele momento, ou n’outra etapa anterior da vida. Coisa que pode ser obtida naquela fase dita desregrada, quando o indivíduo, disposto a diferenciar sua atitude dos demais – obviamente, sem ferir as regras do bom senso – verifica nelas uma satisfação pessoal. Assim dito, um rapaz que experimentou as mais diversas estripulias sexuais na mocidade, terá mais facilidade em desprender-se de parceiras (os) em virtude de outras pessoas que visam a mesma “pessoa-alvo”, ao passo que aquele que não se permitiu – ou não quis – realizar-se sexualmente sentir-se-á mais inseguro em desvencilhar-se de pretensões sentimentais, aparentando um egoísmo que possa permitir dizerem a seu respeito: “Ele não permite que nenhuma outra pessoa, senão a ele próprio, possa cobiçar as pessoas que ele deseja.” A amizade sincera é, portanto, fruto de bem-sucedidas realizações que o indivíduo acumula no decorrer da vida.

Tal fato pode ser comprovado em sociedades onde a imagem do eu são demasiado valorizadas, como os Estados Unidos. Pessoas resolvidas com seus monstros de infância, mesmo aparentando ser hostis, são circundadas de pessoas ao seu redor, são requisitadas, inspiram confiança e conseguem cultivar, se não todas, algumas amizades que superem os círculos de determinado ambiente ou distância. Com mais ou menos intensidade, todos no mundo possuem essa característica. Mas isso, contudo, não deve significar jamais que as pessoas atormentadas por qualquer espécie de intempérie social deva ser privado de tão nobre direito. É preciso, acima de tudo, ser amigo – e não cúmplice, como certos costumam acreditar que amizade é acobertamento – na hora em que, aquele que não o merece, possa fortalecer-se para buscar soluções aos seus monstros da maneira menos prejudicial possível a si e a outrem. Como diz o célebre jornalista brasileiro Tuta em sua obra literária, “ninguém faz sucesso sozinho”. Privar-se da amizade é, acima de tudo, proporcionar um meio a menos de visualizar problemas por uma ótica distinta daquela a qual você está acostumado.

Toda amizade implica, logicamente, numa troca. Igual ou desigual, nobre ou falsa: seja uma promessa por uma confissão, uma decisão por uma atitude… Não há calculadora de amizades. Amizade duradoura que se preze não se compra, nem se vende. Do contrário, desfalece conforme o valor é quitado, ou quando não o é. Embora a situação financeira denote uma etapa bem-sucedida na vida da pessoa – seu aspecto financeiro – as máscaras da amizade conveniente caem com o tempo, se a pessoa não sabe, além de expressar sua fortuna, outras características de benvolência e generosidade para com o mundo que lhe proveu tamanho benefício. Gratidão e generosidade tornam-se suportes indispensáveis de uma amizade duradoura.

E, por fim, cabe dizer que amizade não se restringe ao seu semelhante: ela pode ser estendida a qualquer coisa de valor imaterial que há em nossa existência física. O mundo animal e vegetal que nos cerca, os ideais que nos cercam… Há diversos meios de expressar a amizade, e um dos mais importantes é aquele no qual você possa expressar a si mesmo. Embora seja impossível alguém não possuir absolutamente qualquer amizade, se houver, ela pode mudar esta situação passando a ser amiga de si própria. E evitará os maiores problemas da vida com bom senso.


Ouvindo... Oasis: Lyla

Reflexões Acerca do Nosso Lado Crítico

A Existência do Representativo Em Nossos Sangues Latinos


Redapple Por que se entregar aos luxos anglo-saxões dos acordes musicais rifados, se o calor imenso das latinas cada dia a mais invade nossas veias? Seria este o fim dos conceitos neste ser, acerca dos representativos de liberdade, em função de nossa individualidade?

Ainda digo que não, mas passamos cada dia a mais nos engessando em profundos laços de intimidade conosco mesmo. Com o que possamos chamar de instintos. Acima da razão? Acima da própria compreensão?

O animal prevalece sobre o humano, e isso é prejudicial? [faço desta a afirmação e a pergunta, ao mesmo tempo]

Mas o que conta é o expressivo pessoal em função da própria personalidade. Fazer o próprio Reggaetock ou o Rockaeton, juntar dos dois mundos. Nada mais de vender a própria imagem ao exacerbado american way massificado. Sejamos críticos! Assim o sejamos.

Até porque, compreensivamente, as misturas pouco estão convencionadas. Podemos pegar o nosso berimbau, o theremim, a conga, a guitarra portuguesa, e fazer nossa música do mundo. Verdade! Até eles quiseram fazer…

Mas o que mais desejam que se faça? Precisamos decompor a água nos seus elementos originais, para ingerirmos gases para cá dentro do duodeno se formem água novamente. Não. Tomamos água, mesmo sabendo de suas perdas quanto à exposição ao sol. E então, o frappé de coco com chocolate seria apreciável se ambas as camadas da receita não fossem fundir entre si?

E onde fica o latino – e até os guianenses – nessa questão? Aí é que ele se apresenta como fraterno sem compromisso. O cavalheiro do coloquialismo, que abraça aos seus semelhantes, se compadece dos menos privilegiados e que aspira os mais homogêneos em seus conceitos, embora isso se faça mais raramente, entre aqueles que não reconhecem o verdadeiro poder comunicativo dentro de si.

E ainda há latinos que reclamam de ser a si próprios. Principalmente quando estes se vêem menos entre os seus.

Deixemos a dins boca-de-sino aos saudosistas. Vistamos os tecidos da nova geração que ainda canta os desditos do mestre dos pianos e freneticamente dancemos ao tom dos panamenhos e porto-riquenhos, mesmo que estes sejam politicamente pertencentes ao nosso alvo dos dias-após-dias.

Política pode ser um detalhe. Nunca desprezível, mas nunca essencial para julgarmos, integralmente qualquer ser, por mais asqueroso que venha a ser. Há outras ferramentas a isso. E ainda outros que o façam melhor que nós.


Ouvindo... Jowell Y Randy Feat. De La Ghetto: Un Poco Loca

A Função Analítica do Teatro

O Teatro Como Instrumento De Modificação Social

[Sugestão de Suzane Gonçalez]


Maçã VermelhaInterpretar? Seria apenas uma questão em que nos colocamos à situação de quem não somos e falamos textos que não necessariamente refletem nossa opinião?

Eu, em minha personalidade puramente artística [vedo que isto não é uma dissertação] contesto com a questão da superficialidade no teatro, como muitos que o fazem, sejam eles os que fazem a diferença no meio em que trabalham ou aqueles que buscam ter o "algo a mais" em seu trabalho.

Falo por "aqueles que buscam ter" pelas pessoas que iniciam teatro, assim como o vosso estimado escritor que vos fala. Isso porque, a primeiro momento, quando ingressamos nessa esfera da interpretação, pouco sabemos do papel transformador que nos é incumbido. Bom… Assim como outras carreiras, em específico relativas às Humanas, o que não faz da arte de interpretar fonte exclusiva desse instrumento.

Uma coisa, sim, é argumentar tudo o que aqui deixamos explícito. Outra é estarmos a meio metro sobre a primeira fileira, para amplitude visual a cem metros do palco; e reverberar a voz para esclarecimento auditivo do espectador desprovido de boa audição, arredio, lá na última – e desprivilegiada – fileira. Jogo de respiração, elucidação da interpretação e do diálogo, tensão corporal, velocidade, expressão facial, domínio do personagem, compõem todo o arcabouço para se montar o personagem propriamente dito. Mas muitos dos profissionais buscam o "algo mais" sobre tantos conceitos empíricos. Algo que supere expectativas do leigo e da crítica. Uma equiparativo a nomes de anos passados e vindouros. Uma impressão na história. Uma promoção da obra do dramaturgo. Promoção financeira…

Diante de tantos fatores evidentes, pró-arte, ou a favor do produto de consumo, fica o ator, principal intermédio entre todo esse culturoespaço, hesitante em seu verdadeiro valor.

Sim, não podemos cobrar de um ator que ele saiba discutir as minúcias de projetos constitucionais da União Africana em um drama de Nelson Rodrigues, se não há referências cruzadas a serem exploradas [consideremos que há também atores-mirins em espetáculos de grande envergadura. É desumano submetê-lo a um golpe de informação que ele não possa deglutir com senso crítico], nem a questão do Biodiesel numa tragédia Shakespeariana… Tudo bem, pode-se sim fazer tudo isso, mas para isso serve as adaptações, mas a primeiro ver, é empresa difícil conciliar assuntos tão díspares.

Mas que acréscimo um personagem fará ao ator para que ele se situe em cena em sua função de transformador? Aí que encontra-se o ponto-chave… Diga-se de passagem que há ene casos para tal detalhe. Uma peça que versa sobre drogas, como garantir que em uma mostra da realidade tal como ela seja, não criemos propensos grandes traficantes que se sentem encorajados por encenações que versam a ascensão de maus seletos pelo declínio da saúde e vida de centenas? Eis aí que mora a ética das peças de teatro [e em uma outra oportunidade, já havia dito sobre essa ética no teatro].

Abrandando tais efusividades, como designamos o formato de interpretação que vemos em veículos transmissores audiovisuais como televisão e internet, que muitas vezes possam não prezar a verdadeira essência da mensagem, por não atribuir uma marca diferencial em um papel em específico numa novela, ou pelo mesmo versar por um padrão totalmente disforme do real? Atores interpretando a si mesmo, o tempo todo? Rebaixar seu talento pela imposição do meio midiático, ou engrandecer seu ego por total identificação com proposta do papel?

O ator, como sujeito de sua participação, ou no estilo "faço apenas o que o diretor manda"? A diferença é tênue, e somando-se as lendas urbanas que ser um ator gera represas de dinheiro, faz da arte cênica um campo místico e mítico no mundo das manifestações artísticas.

Só poderemos saber que os nossos atuais e futuros atores amadores e aspirantes a profissionais estarão no caminho certo quando seu foco não for receber papel de destaque na novela de maior audiência, e disso não desejar superar. Os atores mais bem-sucedidos, mostra a experiência, sempre tem o contato constante com o teatro, onde toda a sua essência pode ser posta à prova, sem cortes, edições ou truques.


Obrigado, Su, pela sugestão.

Ouvindo... Coldplay: Your Love Means Everything

 

A Hipótese da Maçã

São os trinta do segundo tempo: hora de tirar as crianças da frente do PC!


Macieira, s. f. (bras.) Árvore da família das rosáceas, cujo fruto é a maçã.


"Aqui serão esclarecidas, de uma vez por todas, o porquê da minha coluna filosófica levar o nome de Maçãs! O papo é sério!!! Propensos a hiperafetivosfrenia aguda devem ser mobilizados para longe deste artigo: causa choques de idéias que são capazes de causar uma temporã insanidade mental frente à dinâmica de se visualizar o mundo (sei muito bem porque passei por isso, mas já superei).

Desde o princípio, quando o homem revolucionou-se materialmente, com a descoberta do domínio do fogo e da comunicação, começou, sistematicamente, a desenvolver simbologias para se comunicar em seu grupo e dar amplitude a aquilo que (acreditava) sentir e pensar (embora no princípio ainda imperavam os instintos animalescos, os quais não desapareceram em tamanha totalidade nos dias atuais, e a realidade é uma mostra disso). Conforme as necessidades humanas cresciam, o código de comunicação tornava-se mais complexo.

Diferentemente dos animais, que faziam dos seus códigos naturais de comunicação tornarem-se abertos ao menos entre sua espécie, os humanos se retraíam no subjetivismo individual, já que a amplitude do pensamento e a sociabilização que reprimia os comportamentos instintivos começaram a dar margem a polialismos extremados, de tal forma que um simples gesto ganharia diferentes significações entre pessoas de idades diferentes, origens diferentes, e até mesmo entre pessoas que vivem cotidianamente juntas.

Numa busca de sobrepôr-se ao pensamento individual e coletivizá-lo para imposição de doutrinas e dogmas pertencentes a classes dominantes, e isso ocorrera não em um momento mas sim através de uma longa trajetória, buscou-se símbolos universais para expressar-se sentimentos, pensamentos e características peculiares ao mundo humano. A isso dá-se o nome de arquétipos em certas circunstâncias: em outras o conjunto de uma imagem visual ou auditiva (e, em exceção, através de outros sentidos) constitui um símbolo fálico cuja memorização é facilmente assimilada pela pessoa.

Como exemplo, podemos dizer que, mundialmente falando, possa simbolizar ‘amo tal pessoa’; e que tal adição de um elemento possa discriminar um resultado, tipo ‘amo mas não sou correspondido’.

Uma vez que já reconhecemos um arquétipo ou símbolo fálico, podemos falar da maçã propriamente dita. A maçã, presente no mundo inteiro (Pyrus Mallus L.) tem um significado didático mais específico no mundo judaico-cristão, dito como ‘fruto proibido’, sendo que em especial esse atributo é direcionado a crianças. Botanicamente falando, a maçã possui propriedades medicinais, afirmadas pelo cotidiano popular, além de um teor aperitivo quase unânime entre as pessoas.

O fato de ser dita ‘proibida’, mas apreciada pela sua vistosidade e preferância palativa constitui o arquétipo referente à maçã. Embora para alguns a maçã seja uma caricatura malandra e se reduza a um único termo, para outros ela se desdobra em uma corrente de idéias que originam as mais diversas teses. Aí reside (pessoalmente falando) o fator da maçã constituir um tabu em seu significado mais profundo, embora a fábula de fruto proibido permeia em todas as esferas de interpretação possível a seu respeito.

Mas muito se entende ao visualizar essa hipótese da maçã acerca de um certo ângulo, embora isso não consista numa verdade irretocável. E as lacunas aqui deixadas servem de exemplo para provar que em assuntos filosóficos a busca pela verdade não passa de diversão paliativa e despretensiosa."


 Radiohead: There, There (The Boney King of Nowhere)

E pra você, o que significa a maçã?

O Vigésimo Sétimo Fonema: Nove

Filosofando [como sempre, todo dia, às manhãs e na hora do almoço] sobre as discrepâncias da saúde mental


"Dias desses numa conversa com minha querida amiga Bárbara Svenska contei para ela minha real situação, denominada clinicamente de Chuqueberrismo Pródigo Velvético Revolvírico. É um pequeno distúrbio que ocorre quando se ouve mais de quinhentas horas de qualquer música alternativamente comercial como Rock ou Eletrônico num prazo de quatro anos. Há convulsões espasmódicas da sombrancelha esquerda ao se ouvir elementos musicais como Mc Serginho & Lacraia, Menudos, Rebeldes [sem causa, e ainda por cima descombinando o figurino] e outras latinices do gênero [embora da terra do Rico Mártir surgiu nos últimos tempos uma coisa bacana chamada Reggaeton] e contrações semi-voluntárias da língua entre os dentes quando se ouve alguém falar ‘eu amo os’ tais descritos aí em cima.

Relutei por muito tempo contar sobre esse disturbiozinho para alguém, achando que seria recriminado por apresentar tais cinesias espasmódicas, ainda mais num país onde os não-disturbiados encontram-se num patamar musical em que Deus abusa de seu charme para desenhar alguém e acham que tal ideologia é bonitinha, mas que, com certeza, no fundo, bem no fundo, devem estar se corroendo com tamanha disputa. Mas descobri que a falta de aceitação é o pior remédio, ainda mais numa época em que os grupos de apoio aos Emos estão começando a ficar presentes em nossos centros urbanos. Sorte que tenho uma conveniação com a FM da USP, onde esporadicamente posso ser injetado com doses cavalares clinicamente aprovadas de MPB de qualidade, e não preciso recorrer-me aos tratamentos Emos de alisamento de franjinha e maquilagem ao estilo Bob Smith.

A Bárbara deu-me o maior apoio, e irá até se consultar com especialistas lá na sua cidadezinha de Samara, pois acredita ter os mesmos sintomas, embora ela diz fazer uso imensurável de um bom Pop que recomendei a ela: um CD duplo do Elton John (que, lá na Europa, é triplo). Ela, caso seja diagnosticada com esse engraçadinho distúrbio [ah vá… quinhentas horas em quatro anos são poucas coisas de Rock e Eletrônico pro meu gosto] diz não se sentir reprimida em dizer que é Chuqueberrista bem alto lá naquelas ruas.

E… convenhamos, para fins de papo: lá na Rússia, afora a comunidade luso-brasileira, ninguém irá entender o grito de uma descolada doidinha mesmo. Então, que importa?"

Sou Chuqueberrista, e daí???


 Elton John: I’m Still Standing

E, por favor, Comunidade Internética: olha o juízo, que o meu já foi assim que eu, por exemplo, comecei este meu blógue.