Bons discursos: um investimento em declínio

Todo o discurso deve ser construído como uma criatura viva, dotado por assim dizer do seu próprio corpo; não lhe podem faltar nem pés nem cabeça; tem de dispor de um meio e de extremidades compostas de modo tal que sejam compatíveis uns com os outros e com a obra como um todo.

Sócrates, extraído de <http://www.citador.pt/frases/todo-o-discurso-deve-ser-construido-como-uma-cria-socrates-16111>

Se, reproduzindo o discurso alheio, a gente o altera tanto é porque não o compreendeu.

Goethe, extraído de <http://www.citador.pt/frases/se-reproduzindo-o-discurso-alheio-a-gente-o-alt-johann-wolfgang-von-goethe-15553>

É uma grande lástima não ter inteligência suficiente para falar bem, nem discernimento bastante para calar.

La Bruyère, Os Caracteres (in: SELEÇÕES, Viver com sabedoria. Rio de Janeiro: 2004, p. 126)

Eis-me prostrado a vossos peses
que sendo tantos todo plural é pouco.
Deglutindo gratamente vossas fezes
vai-se tornando são quem era louco.
Nem precisa cabeça pois a boca
nasce diretamente do pescoço
e em vosso esplendor de auriquilate
faz sol o que era osso.

Carlos Drummond de Andrade, Ao Deus Kom Unik Assão (in: ______. As Impurezas do Branco. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 11)


RelógioEscola Um aviso de cocheira: apesar de não ter havido um singelo e sério cuidado na redação do texto a seguir,
recomendo aos que aqui chegaram que, embora digo que se sintam livres para comentar o que aqui foi exposto,
favor tomar o máximo de cuidado com o que levarão a público nesse texto: uma leitura atenta mostrará
o porquê desta minha prévia recomendação. Tentei, a título de evitar polêmicas, não citar os fatos que me trouxeram
a essa reflexão, sob pena de desvirtuar a discussão principal, no entanto, para conhecimento de causa, decidi
posteriormente vinculá-los na forma de links em palavras-chave no decorrer do texto
.
De toda forma, prepare seu copo de chá e boa imersão textual!  Smiley piscando


Confesso que este, de longe, não será a melhor das reflexões feitas até hoje por aqui. Creio que, seja por humildade, seja por uma razão logicamente sensata, não posso me imbuir dessa pretensão… A partir do momento em que lidamos com a faceta considerada “espiritual” das palavras e dos gestos, percebemos o quanto estas são capazes de construir ou destruir, dependendo de dois fatores, que podem atuar em separado ou em conjunto: o falante e o co-participante.

Dado então essa premissa, me empreendo nesse percurso discursivo pra construir um semi-desabafo em relação ao próprio discurso. Desembainhando-me de comentários pouco dignos, e também de mencionar as motivações a exercer essa reflexão (basta um exame das notícias dos meses de fevereiro e março sobre política e cotidiano da internet pra saber do que falo), nos últimos tempos ando pensando justamente sobre essa entidade, quasi-irmã da linguagem. Afinal, o próprio Mikhail Bakhtin, que mesmo com suas reflexões voltadas para a literatura russa, foi peça fundamental para se pensar a respeito da comunicação, dotando-a de uma perspectiva, a princípio aterradora – dado que à ela, atribuiu um caráter marxista, o que deixa anti-socialistas ferrenhos com as pulgas nas orelhas – mas que, num exame detido, faz toda a diferença: a linguagem pode ser dotada de um instrumento de poder, a partir do momento que você se apropria dela e a combina de acordo com sua influência na sociedade.

Em síntese, pensemos nessa perspectiva como trama textual dessa reflexão.

Continuando, percebemos que discursos são mais validados que outros… Querendo ou não, influências políticas, sociais e econômicas são fatores fundamentais – mas não absolutos – para que determinadas práticas discursivas surtam o máximo de efeito. Não precisamos ir muito longe pra perceber que a televisão, ainda na nossa sociedade brasileira contemporânea, é a que angaria massivamente a opinião pública: presente na maioria dos lares brasileiros, oferece entretenimento e noticiários, das mais diversas qualidades (adicione aí as duvidosas) àqueles que delas pretendem fazer uso. A internet, apesar de, a passos lentos, estar se consolidando aos poucos nos grandes centros, ainda não tem a plena influência que a televisão construiu nesses últimos anos, dada a familiaridade dos usuários mais velhos e do poder aquisitivo que a base de usuários constitui.

Obviamente, as ferramentas de difusão de informação contam com uma faceta construtiva e uma outra absurdamente desedificante. É no vislumbrar dessas últimas dos últimos anos que tento me empenhar em projetar um despertar aqui.

Temos ciências da linguagem suficientes pra explicar, sob as mais diversas perspectivas, os discursos não-literários presentes no nosso cotidiano: Semânticas Lexicais, Formais, Argumentativas, (…); Pragmática; Análise do Discurso – francesas e anglo-saxônicas; Semiótica discursiva (…) Sabemos que toda Ciência, em uma natureza epistemológica, verifica as ocorrências no mundo, sem ditá-las como elas devem funcionar. Nas humanidades, e sobretudo nas linguagens, de um modo mais detalhado, estudamos fenômenos que as pessoas não precisam pensar pra realizar… Em tese, as pessoas o fazem de modo natural.

Em tese… E aí chegamos no ponto crucial, que sob um termo leigo, invalida a hipótese de que as pessoas, na sua totalidade e em todos os momentos, são exímios usuários do bom discurso. Esse termo se define por “falta de bom senso”. Nas ciências da linguagem, se define por “ruídos” na teoria da comunicação; violações de “cortesia” e quebra segmentada das “máximas conversacionais”, na Análise do Discurso; condições de performance de atos de fala “infelizes” na Pragmática. Os nomes são vários, mas sob diversos pontos de vista, envolvem discrepâncias acerca dos conjuntos de modelos de pensar entre os envolvidos, e da ausência de empatia pelo co-participante.

Resultados disso? A constatação (que precisa ser devidamente verificada, quantitativamente e qualitativamente) de que as pessoas estão “desaprendendo” a usar das várias virtudes que o discurso proporciona, na economia do argumento monolítico e categórico, para serem absolutas em suas posições. Não é que isso seja uma prática condenável, mas pensemos que o mundo não é composto pelas individualidades. Querendo ou não, estamos sujeitos a algo que pode muito bem ser descrito pelo contrato social de Hobbes, e por extensão e interdisciplinaridade, a linguagem social também é submissa a esse contrato, fiável ou não pelos indivíduos.

Retomando a comunicação socioideológica bakhtiniana, a partir do momento em que um ator discursivo é munido de quaisquer fatores que privilegiem que seu discurso se interponha aos demais, é uma questão de bom senso que ditará a validade de seu discurso, segundo parâmetros de ética discursiva, estes num contínuo processo de releituras. A coisa começa a ficar um tanto quanto inaceitável quando a empatia é ignorada e esbarra em pressupostos que, numa última análise, existem nos indivíduos de maneira intrínseca, mas que ali, no recôndito do particular, deveriam se manter, em função da preservação do dito contrato social. Em termos mais práticos, discursos de cunho preconceituosos e/ou segregatórios, que deveriam ser resguardados para o particular ou, no máximo (e duvidável defender isso) serem proferidos apenas nos meios a eles empáticos e dali não saírem para a sociedade como um todo, estão ganhando uma amplitude social assustadora (opinião pessoal) e, o que é pior, são inspiradores para a perpetuação de conceitos, muitas das vezes, retrógrados.

O que torna a situação ainda mais deplorável é perceber que pouco se faz pela preservação da cortesia e da elaboração do argumento policromático, que perpassa todas as possibilidades argumentativas possíveis, mesmo que a princípio elas pareçam contraditórias. Isso não quer implicar num tolhimento das perspectivas particulares das pessoas: muito pelo contrário! Apenas devemos prestar atenção para que as pessoas que aí estão, e as que estão por vir, não necessitem de cartilhas que ensinem como elas devem se portar nos mais diversos ambientes e sob quais situações devem expor suas opiniões. Pensar que as pessoas precisarão de aulas pra aprender quando devem usar “todos”, “alguns”, “nenhum”, “a maioria dos (das)”, “a minoria dos (das)” e considerarem as possibilidades de uso de um “mas”, “entretanto”, “porém”, “ademais”, de forma que não achem que seus discursos sejam contraditórios, mas que possuam coesão a partir do ponto em que considerem a perspectiva do outro, e um apagamento do próprio narcisismo, sob o ponto de vista do público?

É uma perspectiva de crença muito imensa, minha, pessoalmente falando, de que as pessoas não necessitem das teorias da linguagem para aprender a própria linguagem no seu uso. Do contrário – e isso me valendo de um expediente deveras controverso – quem necessita destas lições estará assinando seu próprio atestado de anencefalia sócio-discursiva – um estado de vivência social deveras perverso, dado que, quanto mais pessoas residam nessa possibilidade pérfida, mais próxima da parasitagem a humanidade se encontrará…

E aí, se valendo do senso comum, não haverá adjetivo “digno” e inefável o suficiente para designar as pessoas que executem, sob os mais diversos tipos de intencionalidade, tal postura que evidencia a crise do discurso das últimas décadas.

Obviamente, não há o que dizer de forma categórica sobre a situação. Mas, para quem a executa, o bom senso invariavelmente nos dita sermos categóricos e tentarmos iluminar seus mundos… Não porque, como Analistas do Discurso, Pragmatistas, ou outros estudiosos das humanidades, intelectuais e/ou estudantes do ensino superior somos melhores! Muito pelo contrário!!! A partir do momento em que uma pessoa pretende ser dona da verdade e dos ditames da sociedade, ela tolhe o discurso e, aí sim, participa do mesmo terrível jogo do mau uso da linguagem.

Como disse Sócrates, o discurso é algo vivo e orgânico, e tal como um organismo, os diferentes pressupostos, isolados, desempenham funções distintas, mas em conjunto, devem operar de forma integrada, na expectativa de desempenhar um efeito eficazmente benéfico para a alma… E sem esse artifício, adquirido com o bom convívio e a sábia experiência, melhor ficar com o La Bruyère e se calar.

Até porque é muito difícil, dia após dia, dar razão às palavras da Madame de Staël, que, em uma das muitas paráfrases que encontramos, quanto mais conhecemos os homens, mais gostamos dos animais. Mas diante dos impropérios que encontramos na nossa sociedade – e em termos práticos, na televisão e internet brasileira – é difícil nós, que constantemente procuramos tomar o máximo cuidado com o que proferimos (e, ainda assim, falhamos de modo crasso) dar crédito a sujeitos da nossa sociedade que perpetuam as visões unilaterais e de cunho anti-empático para com o outro. E que são venerados pelas formas oficiosas que tornam seus discursos relvantes…


Adições podem ser propostas após a publicação. A título de filologia, manterei possíveis exclusões futuras sob tachados, e modificações serão devidamente assinaladas. Caso seja necessário, sinta-se à vontade para reproduzir esse texto (marquei-o sob a égide de uma tag que assumo como Creative Commons), desde que dados os devidos créditos e referenciado o original.

Enquanto o texto esteve sendo publicado, o shuffle do computador tocava:

Ouvindo... Joe Satriani: Crystal Planet

AntiSOPA e AntiPIPA: A primeira tá pelando, a segunda vai queimando

É muito mais que vetar a possibilidade de encontrar aquele álbum daquela banda que não foi tão influente nos anos 70 no seu país de origem, que você aprendeu a gostar por curiosidade, e quis baixar a discografia.

É muito mais que impedir que você tenha o acesso a um filme noir russo, por não estar disponível em quaisquer serviços de locadora online, ou nunca mais passar num Cine Belas-Artes porque salas de cinema desse naipe já não existem mais aqui pelas bandas do Sul.

É muito mais que proibir o conhecer de uma obra de Dostoievski em russo, de uma Pauline Rèage em francês, ou um conto menos conhecido do Pepetela que não fora publicado antes, porque nossas livrarias e sebos estão atulhadas cada vez mais por literaturas instrumentais.

É muito mais que interromper teu acesso à internet por vincular uma imagem da autoria de outrem, que se encaixa muito bem na postagem de teu blogue, mesmo citando a fonte e endereçando para o original.

É, esse sim, o verdadeiro escravismo social, em impedir que o sujeito desprovido de renda tenha acesso a um mundo de informação e conhecimento do qual há vinte ou trinta anos atrás ele não poderia ter pelo simples fato de não poder pagar por isso. Pura e simplesmente. Um conhecimento que possa permiti-lo ser sujeito de sua própria vida, ver a vida além dos estupros não-reconhecidos ou conhecer narrativas mais interessantes que a volta de uma certa pessoa do Canadá.

Somente a informação e novas ideias, inéditas e sincronizadas com as necessidades globais, fazem a verdadeira revolução global. Não falo aqui da apologia ao comunismo, da derrubada da tecnocracia, ou da deposição contínua e incessante de líderes, por serem líderes ou por merecerem punição social, pouco importa isso. Falo do desenvolvimento pessoal enquanto indivíduo que pode decidir entre a unicidade amnésica da reclamação da situação do seu país, ou pela possibilidade de, dentro da sua área de afinidade, desenvolver ações práticas valiosas para benefício social dos que o cercam.

Sei, muito bem, como escritor-produtor de conteúdo, as mazelas que a classe artística sofre nesse mundo e, sim, ela precisa ser remunerada por esse trabalho. Mas receber uma parcela irrisória da receita das vendas de sua produção intelectual, frente a grandes empresários que abocanham boa fatia dessa receita para enriquecer tão-somente seus cofres???

Não há algo errado por aqui? O que vale mais? O conteúdo lírico perfeito da obra maravilhosa de Marisa Monte em Infinito Particular, ou o selo minúsculo da gravadora estampado na contracapa do álbum?

Teme-se essa nova massa de internautas que estão conhecendo outras culturas por meio da internet, compartilhando, vendo e produzindo conteúdos, originais ou derivativos, seja capaz de instituir uma nova ordem social, em que o simples sujeito é capaz de montar seu nicho de seguidores, discípulos, ou apenas leitores, capazes de dizer: não! Não queremos mais ouvir as mesmas coisas o tempo todo, e não! Não queremos pagar para ouvir algo mais, mas que não é muito diferente daquilo que vocês dão de brinde pra ouvir.

Talvez seja mais necessário para o empresário detentor do selinho na capa do CD de Marisa Monte pensar em patentear o pensamento humano e cobrar por isso. É um ambiente mais rentável. Você pode colocar sensores em cada cabecinha e medir o quanto cada pessoa pensa e faturar com isso, cobrando do bolso dela mesma.

É uma boa… Comigo, inclusive, você vai ter uma imensa fortuna. Eu vou virar escravo dos pagamentos que devo fazer para cobrir as despesas. Quem sabe eu tenha uma epifania cognitiva, deseje parar de pensar e vire ovelhinha do cinzento mundo da mesmice.

Porque uma coisa é certa:

  • Eu posso não ser comunista;
  • Eu posso talvez não ser engajado socialmente;
  • Eu posso provavelmente não ter coragem de subverter o sistema legislativo como forma de protesto;
  • Muito passe longe de ser capaz de convencer outras pessoas a ser uma das coisas listadas acima;

Mas uma coisa você não me tira: o direito de escolher o que desejo ter em minha vida e de escolher o preço que eu queira pagar por isso.


Se quiser que eu pague o que é de direito, dê-me as contas dos compositores, intérpretes, autores, diretores e descendentes, que eu resolvo as pendências direto com eles. Sem intermediários.

Ouvindo... Elvis Costello and The Attractions: Man Out of Time

Violência Mútua

Por anos não foi do meu feitio postar aqui um artigo que não envolvesse o mundo das artes, mas fatos recentes me inquietam e não permitem que meu silêncio também se aquiete com o que vou lhes apresentar sobre o que pretendo chamar de violência mútua.


Em primeiro lugar, quero chamar a atenção para uma charge, cuidadosamente produzida sobre minha autoria, especialmente para esse artigo.

A um bom entendedor, uma charge bem desenhada basta. Mas para evitar qualquer deturpação do sentido original do que quis expressar, quero conduzi-los à interpretação pessoal do que propus aqui. Vemos duas figuras em embate violento num ringue de luta, que aqui estão brigando por algum motivo e estão sendo contempladas por câmeras e flashes de máquina. Vamos trabalhar alguns dos detalhes, de uma maneira que não se possa desviar de fatos nem endossarmos estereótipos. Se você se interessou sobre tal assunto, convido-o a aventurar-se pelas próximas linhas…

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Reinfanciando-nos

Outrora a infância foi um bem precioso, não dado pelos deuses, mas entregue aos homens pelos homens – o século das luzes teve participação nisso. – Agora, saber quando ela acaba na vida de alguém é uma tarefa bastante difícil de se especificar. Se tomamos como ponto de partida – ou melhor, sua finitude – a autodescoberta sexual, podemos dizer que a infância dura nos últimos doze anos bem menos que antigamente, dada a exposição das nossas crianças a conteúdos eróticos cada vez mais precocemente. Se tomamos como ponto a perda de hábitos eminentemente infantis, podemos dizer que há pessoas que se comportam como eternas crianças, dado que não carregam para si responsabilidades que são comuns à vida adulta; ou até a antecipam, por gestarem seu precioso tempo em compromissos eminentemente pertencentes ao mundo dos adultos – tome como exemplo prático as crianças que aparecem nos programas de televisão e poderá ter uma ideia do que falo então.

Não é refletir sobre o caráter dessa infância primeira que vou tratar aqui… Outros podem fazer melhor esse trabalho, gostaria apenas de citar uma infância moral que acho que muitos de nós perdemos quando decidimos deixar de ter estas primeiras infâncias: a infância readquirida.

Não falo de readquirida no sentido estrito de agirmos feito crianças, solicitarmos os cuidados de alguém – mesmo porque, à guisa da nossa idade, pode ser que tomemos como prováveis tutores nossos pessoas mais novas que nós – ou de agirmos infantilmente em meio à sociedade. Falo daquele espírito esportivo de considerarmos apenas o presente, não deixar o passado sangrando indefinidamente, tais como brigas infantis, que no novo raiar do sol se dissipam; sabermos nos relacionar mais amigavelmente com os animais de estimação que temos em casa, levando-os a readquirir sua infância também; contar aquelas piadas que são os mais infames trocadilhos como a manga (da camisa ou a fruta?) o que seria um leme (ou onde fica Leme?); e, principalmente, se deixar conduzir pela sessão desenho que há em canais especializados mundo afora (aquela infância que te identificou, mais lúdica, por vezes psicodélica, e que beira o absurdo, com o fator-sangue reduzido, o que não vemos muito hoje).

Falo isso porque quando não nos permitimos pelo menos algum desses elementos fazer parte, ao menos uma vez por semana na vida, percebemos o quanto de triste olhamos para o mundo. Já não basta o que o mundo adulto impinge sobre nós, intensificarmos isso em nossa vida pode nos tornar mais rancorosos, duros e até insensíveis. E o nosso íntimo convívio bem percebe isso em nós. Um pouco de criança não faz mal em certos momentos – bem dosados, óbvio – de nossa cinzenta realidade.


Ouvindo... Opi Ft Farruko, Ñengo Flow & Julio Voltio: LoveMachine (Radio Actitud)

O Fluído Salgado

EmailComputador Relato encontrado num data-center aos 10 de agosto de 2011, na cidade de Osasco, sob prontuário número 7.243.561-95.234.338, registrado em PDF sob o codinome Anchovas.

O arquivo foi resgatado após uma tentativa frustrada de queima de arquivo, na operação Deus Ex-Machina.


Tenho medo do futuro, ainda mais porque o contabilizo.

Tenho medo destes controles remotos que apontam para todo o lado… Estas antenas que estão nas mais diversas frequências, esses transponders emitindo sinais constantes no meu receptor eletromagnético.

Tenho certeza que ainda haverá uma frequência de ressonância capaz de me desmantelar fisicamente. Eu sinto! Ela está corroendo minhas ideias.

Ideias? Minhas??? Não… Não acho que sejam… Elas foram fragmentos de algo que vi por observação entre outros… Não há nada meu ali.

Eu não estou ali. Eu percebi isso após ter entrado em choque quando decidi buscar auxílio. Precisava meditar sobre o assunto.

Nada era o que havia sido. Tudo o que acreditava se esvaía diante dos meus olhos, flashes e filmes químicos registrando cada imagem-após-imagem. Uma captura de instantâneos que se registravam em minha memória de forma segmentada. Cada vídeo era reanalisado, um após o outro: os melhores eram descartados na lixeira, os mais interessantes permaneciam.

Mas fizeram a audácia de registrar um obscuro momento como um arquivo vital de sistema: um vídeo que jamais será apagado.

O medo infantil – diga-se: de pouco uso – persiste em momentos de recarga das baterias. O sistema de processamento central tem que muitas vezes recorrer a esse arquivo central.

Eu tenho certeza que é um vírus! Mas nenhum antivírus foi capaz de identificar isso. Falaram que foi um erro no patch de instalação, cujo reparo pode ocasionar a danificação do sistema físico de comunicação.

Tive que aprender a conviver com esse arquivo estranho. Joguei-o na quarentena, e ele está lá até hoje.

Se manifesta na omissão da manutenção do meu sistema… Nem sempre, em 100% dos casos, sei qual a melhor solução pro meu problema. Preciso de um técnico, urgente!!! Não estou produzindo o necessário…

Diagnóstico: corrupção do disco rígido.

Prognóstico: formatar…

Formatar NÃOOOOOOOOOOOOOOOOO!!!…

Solução alternativa: escaneamento completo da tabela de alocação de arquivos; marcação e inutilização de setores defeituosos do disco rígido (quem mandou não colocar um segundo disco de espelho, sr. Montador?)

Quantos arquivos foram danificados? Que importa???

Eles reinstalaram o Sistema Operacional, e solicitaram que as correções automáticas periódicas fossem feitas com rigorosidade.


Teve uma vez que se decidiu desconectar da internet pra evitar perda do desempenho. Deu que outro vírus – de menor alcance, mas igualmente prejudicial – entrou no sistema, hibernando… Esperando acontecer na hora certa, pré-programada. Falha do código…

E lá fomos ser levados ao Técnico de novo… Não sei quanto mais de gastança teremos com esse sujeito…

Um desses soube identificar que havia algum fator externo que estava causando tal desempenho incômodo: eu era utilizado por um japonês hacker, que me colocava à toda prova pra saber até onde ia chegar… Fui dado como obsoleto…

Meu medo foi de ser descartado por saber demais da vida desse japonês.

Mas descobri que meus Técnicos foram legais comigo. Deram esse diagnóstico pra me tirar das mãos do usuário tunador pra me levar a um usuário doméstico mais cuidadoso e menos ousado em seus intuitos. Fico contente com isso…

Mas eu raras vezes fui conectado em rede. Somente há pouco conheci uma grande, com outros equipamentos tão parecidos comigo, com históricos, cookies e logs de relatórios tão parecidos com os meus.

Os programadores lá são da mais fina estirpe, todos entendidos na filosofia do código livre! Mas eu prefiro manter como Sistema Operacional, por razões cômodas, uma licença comercial. Dá menos trabalho pra quem gerencia.


Eu ainda quero formar minha VPN de dois-a-dois, mas anda difícil. Ninguém quer conectar e compartilhar com plenos privilégios com meu endereço IP, que, não raro, é muito multiforme. DHCP automático dá nisso. Mas fazer o quê?

Preciso realizar trocas com todos os outros usuários da rede…


Acho melhor não publicar isso. Não tenho direitos de autoria comercial…

– Mas eu não sou uma maquininha!!!

Espero que isso fique esquecido na nuvem… dos pensamentos.

E deixe-me descansar em paz… Esqueci de tomar o fluído, que vazou do meu par de webcams e que preciso repor todo santo dia. Alguma técnica que saiba resolver isso? Eu tento dizer pro utilizador que o serviço é baratinho… Eu falo com o Oráculo das Redes pra isso, mas não contem a ninguém…

Eles devem imaginar que não tenho vida própria… ;D


[Fim do documento. Nome de Rede: //FFLCHUSP-BR/DLM04081987-Rev24 (Utilizando FC-Modernismo RC5 Ano:2011 Última atualização: terça, 9 de agosto de 2011, às 09:45); modelo baseado em: Contos_Modernos.dotx]


Ouvindo... Lone Justice: Wheels [Live]

Um Desvario Confessionável

Queria ter vivido nos anos sessenta

Queria ter visto as cores daquela época.

Queria ter vivido o verão dos sonhos, ter visto Jimi queimar sua guitarra em Monterrey.

Haight – Ashbury, com portal dimensional para a Ipiranga – São João. As kombis coloridas e as experiências com ácidos. O frenesi social!

As luzes do mundo eram candeeiros que iluminavam o caminho dos tortos musicais, daqueles que estavam aterrorizados pela camisa-de-força do serviço militar, da única nota das metralhadoras ecoando pelo sudeste asiático.

Onde a luz encontrava resposta dentro de corações jovens, ávidos pelo novo. Pelo dizer a seus penteados engomados e seus fraques: “ei! Eu sou um ser humano…”

O ié-ié-ié dava espaço para que os penteados se fizessem bagunçar. Mas era uma bagunça organizada. Havia uma ordem naquela desordem.

O eixo do mundo havia se movido. O eixo do mundo da música e da contracultura havia se movido. E os tabloides cinzentos e de papel mofado também perceberam isso. Cada qual deles escolheu o que dizer sobre tal impacto cósmico.

Era de aquarius??? O Armaggedon social??? A vinda da tríade maldita???

Quem disse que eles eram maiores que Cristo??? O tinhoso????

Camisas vermelhas pipocavam no terceiro mundo, com ideias consideradas perigosas para uma sociedade que olhava pro seu próprio umbigo.

Paris, maio de sessenta e oito: a vida é feita de som e fúria… E o mundo social virou de cabeça pra baixo.

Os ácidos tornaram-se mais corrosivos. Agora queimavam a fogo. Destruíram tudo aquilo que passou no seu caminho.

Morrison,
Joplin,
Hendrix.

Vozes de uma geração, mensageiros pagãos da modernidade, resquícios da sociedade, postos à beira do muro.

As grandes vozes secas calaram o povo nas ruas… Chamaram os herdeiros da guarda imperial romana.

E o silêncio se fez.

Sobrou apenas feridos pela calçada, alguns dopados, muitos mortos e outros irritados.

A generosidade dos tempos se acabara tão rápida quanto à ignição de um galão de gasolina. O galão que se tornou a chama de louvor dos senhores magnânimos dos ternos de cortes finos, proprietários das refinarias e insensíveis com os demais.

O silêncio? Se fora rompido? Não tão mais intensamente quanto àquela época… Talvez jamais seja.

Ele se internalizou, e o estopim dele fica no psíquico individual, amainado imediatamente pelas forças ocultas da estabilização do eixo global.

O eixo, que irreversivelmente, fora deslocado nos anos sessenta… Ah, como queria ter vivido nos anos sessenta, e viver, não imaginar essa história.


Ouvindo... Buffalo Springfield: Bluebird

Meu Prato de Sopa

Declaradas as férias

Mais uma vez encontro-me disponível, se desejar, ao ócio.

Não sem antes fazer um belo proveito de um prato de sopa


O frio do inverno desaquece, traz nostalgia e causa uma terrível sensação de solidão profunda. Todos foram à praia no Ceará… Todos passaram um tempo a mais em Jordão, normalmente em casais. Outros ainda foram carimbar o passaporte para fora daqui.

E eu estou com meu prato de sopa…


Ir na Paulista? Não é todo dia que se dá pra fazer isso. Leva tempo e, principalmente, dinheiro. Que gostoso tirar proveito duma Livraria. Ficar namorando o CD daquela banda que você não acha em lugar nenhum, e depois descobre que o dito cujo custa o olho da cara: mais do que seu tênis de marca mais caro que já comprou na vida.

Numa hora dessas, o melhor é atravessar a avenida pra tomar um prato de sopa…


Tarefas? Não faltam. Você sabe, amiga prezada… Vida de caseiro é fogo. Acordar, tomar café da manhã, varrer, lavar roupa, lavar louça e passar roupa. Tempo pra novela das oito [ai… Mas que coisa mais démodé essa de assistir novela… Que tal um seriado no original? Você bem que está precisando].

– Ah… Mas antes, querido, teu prato de sopa.


– Dois quilos de batata, um de mandioquinha e cinco pacotes de espaguete.

– Pra quê, dona Nena?

– Solange vai servir sopa pra mais quatro lá em casa.


– Se E=mc², e c é uma constante, o que você me diz da relatividade restrita, Einstein?

– Ah! Isso é sopa. A teoria (…)


Sopa [‘so.pa] s.f. (do germ. suppa) 1. (Cul.) Caldo gordo ou magro com massas, arroz, legumes ou outras substâncias e que é geralmente o primeiro prato que se serve nas duas principais refeições. (Fonte: Michaelis Dicionário Escolar)


Começo minha temporada de férias pensando em como dar uma guinada na minha vida, e quando me dei conta, a sopa esfriou.


Ouvindo... Kraftwerk: The Robots

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Smiley de boca aberta