AntiSOPA e AntiPIPA: A primeira tá pelando, a segunda vai queimando

É muito mais que vetar a possibilidade de encontrar aquele álbum daquela banda que não foi tão influente nos anos 70 no seu país de origem, que você aprendeu a gostar por curiosidade, e quis baixar a discografia.

É muito mais que impedir que você tenha o acesso a um filme noir russo, por não estar disponível em quaisquer serviços de locadora online, ou nunca mais passar num Cine Belas-Artes porque salas de cinema desse naipe já não existem mais aqui pelas bandas do Sul.

É muito mais que proibir o conhecer de uma obra de Dostoievski em russo, de uma Pauline Rèage em francês, ou um conto menos conhecido do Pepetela que não fora publicado antes, porque nossas livrarias e sebos estão atulhadas cada vez mais por literaturas instrumentais.

É muito mais que interromper teu acesso à internet por vincular uma imagem da autoria de outrem, que se encaixa muito bem na postagem de teu blogue, mesmo citando a fonte e endereçando para o original.

É, esse sim, o verdadeiro escravismo social, em impedir que o sujeito desprovido de renda tenha acesso a um mundo de informação e conhecimento do qual há vinte ou trinta anos atrás ele não poderia ter pelo simples fato de não poder pagar por isso. Pura e simplesmente. Um conhecimento que possa permiti-lo ser sujeito de sua própria vida, ver a vida além dos estupros não-reconhecidos ou conhecer narrativas mais interessantes que a volta de uma certa pessoa do Canadá.

Somente a informação e novas ideias, inéditas e sincronizadas com as necessidades globais, fazem a verdadeira revolução global. Não falo aqui da apologia ao comunismo, da derrubada da tecnocracia, ou da deposição contínua e incessante de líderes, por serem líderes ou por merecerem punição social, pouco importa isso. Falo do desenvolvimento pessoal enquanto indivíduo que pode decidir entre a unicidade amnésica da reclamação da situação do seu país, ou pela possibilidade de, dentro da sua área de afinidade, desenvolver ações práticas valiosas para benefício social dos que o cercam.

Sei, muito bem, como escritor-produtor de conteúdo, as mazelas que a classe artística sofre nesse mundo e, sim, ela precisa ser remunerada por esse trabalho. Mas receber uma parcela irrisória da receita das vendas de sua produção intelectual, frente a grandes empresários que abocanham boa fatia dessa receita para enriquecer tão-somente seus cofres???

Não há algo errado por aqui? O que vale mais? O conteúdo lírico perfeito da obra maravilhosa de Marisa Monte em Infinito Particular, ou o selo minúsculo da gravadora estampado na contracapa do álbum?

Teme-se essa nova massa de internautas que estão conhecendo outras culturas por meio da internet, compartilhando, vendo e produzindo conteúdos, originais ou derivativos, seja capaz de instituir uma nova ordem social, em que o simples sujeito é capaz de montar seu nicho de seguidores, discípulos, ou apenas leitores, capazes de dizer: não! Não queremos mais ouvir as mesmas coisas o tempo todo, e não! Não queremos pagar para ouvir algo mais, mas que não é muito diferente daquilo que vocês dão de brinde pra ouvir.

Talvez seja mais necessário para o empresário detentor do selinho na capa do CD de Marisa Monte pensar em patentear o pensamento humano e cobrar por isso. É um ambiente mais rentável. Você pode colocar sensores em cada cabecinha e medir o quanto cada pessoa pensa e faturar com isso, cobrando do bolso dela mesma.

É uma boa… Comigo, inclusive, você vai ter uma imensa fortuna. Eu vou virar escravo dos pagamentos que devo fazer para cobrir as despesas. Quem sabe eu tenha uma epifania cognitiva, deseje parar de pensar e vire ovelhinha do cinzento mundo da mesmice.

Porque uma coisa é certa:

  • Eu posso não ser comunista;
  • Eu posso talvez não ser engajado socialmente;
  • Eu posso provavelmente não ter coragem de subverter o sistema legislativo como forma de protesto;
  • Muito passe longe de ser capaz de convencer outras pessoas a ser uma das coisas listadas acima;

Mas uma coisa você não me tira: o direito de escolher o que desejo ter em minha vida e de escolher o preço que eu queira pagar por isso.


Se quiser que eu pague o que é de direito, dê-me as contas dos compositores, intérpretes, autores, diretores e descendentes, que eu resolvo as pendências direto com eles. Sem intermediários.

Ouvindo... Elvis Costello and The Attractions: Man Out of Time

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Violência Mútua

Por anos não foi do meu feitio postar aqui um artigo que não envolvesse o mundo das artes, mas fatos recentes me inquietam e não permitem que meu silêncio também se aquiete com o que vou lhes apresentar sobre o que pretendo chamar de violência mútua.


Em primeiro lugar, quero chamar a atenção para uma charge, cuidadosamente produzida sobre minha autoria, especialmente para esse artigo.

A um bom entendedor, uma charge bem desenhada basta. Mas para evitar qualquer deturpação do sentido original do que quis expressar, quero conduzi-los à interpretação pessoal do que propus aqui. Vemos duas figuras em embate violento num ringue de luta, que aqui estão brigando por algum motivo e estão sendo contempladas por câmeras e flashes de máquina. Vamos trabalhar alguns dos detalhes, de uma maneira que não se possa desviar de fatos nem endossarmos estereótipos. Se você se interessou sobre tal assunto, convido-o a aventurar-se pelas próximas linhas…

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As Aventuras de Tom Sawyer

Escrito por Mark Twain


Precursor da literatura autenticamente americana, Mark Twain (pseudônimo de Samuel Langhorne Clemens) não se deixou influenciar pela entonação européia e escreveu no linguajar e na gíria de seu país. Os principais personagens que criou saíram das pessoas simples e rudes do interior, cuja vida, até então, nunca tinha entrado nos livros.

Um de seus livros mais populares e mais lidos no mundo inteiro é As Aventuras de Tom Sawyer (1876). A obra além de ser uma reconstituição da infância do autor é também uma resposta aos livros moralistas e açucarados da época. Tornou-se um clássico da literatura juvenil mundial.

Fonte: Divulgação | Ed. Martin Claret


Numa época – a nossa – em que se desconstroem fábulas cheias de elementos fantasiosos para se descobrir significados ocultos e libidinosos em contos como os dos Irmãos Grimm, ou Lewis Carroll, dentre outros diversos, este de Mark Twain permanece incólume a tantas possibilidades apresentadas para buscar significados ocultos em si. Tal pressuposta beleza em não retratar a infância como algo inflado de carícias do mundo com o ser é quebrado neste livro, que fala de pessoas comuns, em lugares e situações comuns, fazendo atos comuns. As meninas são discretas, os meninos são intransigentes ou são muito aprumados, e os adultos… Bom… Estes são como são: zelosos e dotados de autoridade.

O único elo que liga toda a história do livro é os objetos arrendados por Tom no episódio da cerca, os quais vão aparecendo em histórias soltas que se distribuem em todo o texto, e que auxiliam Tom a atingir seus mais diversos objetivos em cada destas mini-histórias. No entanto, dado um certo momento, as histórias isoladas dão lugar a um acontecimento de maior seriedade e proporção, que passa a integrar os acontecimentos, o qual, de praxe, recomendo a leitura do livro. Isso, claro, sem que Tom e seu amigo próximo, Huck, percam a ingenuidade infantil.

Qual o diferencial?

Quem busca um livro que não verse sobre moral, e se atenha aos fatos tão em si próprios, eis aí o diferencial que este livro oferece. Tom não é julgado como bom ou mau no decorrer da história, apesar de ainda ter a possibilidade de ser um herói num dado momento… E se você quer lembrar das suas peraltices de infância – claro, se você viveu no mais rústico interior, longe da luz elétrica, principalmente – esse é um guia de todas as aspirações da simples infância.

Avaliação

Pessoalmente, a falta de uma unidade narrativa no princípio do livro garantiu uma avaliação baixa:

EstrelaEstrelaEstrela e 1/2



Ouvindo... Baby Rasta & Gringo Ft. Farruco: Lo de Ella Es Fichurear

O Fardo do Escolado e do Jogador

Em Ibiúna, a aprovação de um projeto de lei que regulamenta a doação de uniformes escolares a crianças de baixa renda cria polêmica e permite-nos repensar qual é o papel do ser humano em nossa sociedade.


Sabemos que o homo sapiens distingue-se dos demais animais por ser um ser social, e sabemos que esse ser social, psicologicamente, para identificar-se com um grupo, abre concessões para munir-se de ideologias e, nos tempos atuais, de marcas – ou para diferenciar-se do tendencioso.

Nesse contexto, basta ao ser humano criar um valor para ser capaz de distinguir todas as implicações que tais adoções ocasionam. Do contrário, o ser não adota a marca: é possuído por ela; passa a ser sua propriedade. Criar um valor exige treino e discernimento, algo que varia muito de pessoa para pessoa, e ocorre normalmente na idade adulta.

A Cultura da Marca cria uma identidade que deve ser observada com extrema cautela. Falamos com Fulano ou Cicrano ou falamos com um Garoto Propaganda de um posto de combustível, empresa de software, fábrica alimentícia ou de uma padaria da esquina? Acredito que os vereadores de Ibiúna não pensaram nisso ao permitir que os estudantes do Fundamental I, de baixa renda, possam ter um uniforme escolar doado, contanto que concedam ser um estandarte propagandístico, mesmo que disfarçados sob o nome de “responsabilidade social”. Crianças estas que, já não basta estarem em contato com um mundo onde impera a política econômica de mercado aberto e o consumismo começa a moldar irrestritamente seus desejos.

A Escola, cujo papel social é desenvolver – não necessariamente de uma maneira aprofundada nas séries iniciais – o senso crítico sobre toda informação que se recebe, percebe e assimila, acaba por ser introduzida nesse mundo cujo valor tem por finalidade discutir: devemos conceder nosso corpo físico como um outdoor ambulante? Nossos uniformes escolares devem assemelhar-se a camisas de time de futebol? As famílias dessas crianças serão pagas para ostentarem uma logomarca, uma vez que acabam por fazer propaganda gratuita?

Crianças ibiunenses: alunos ou propagandeiros?

Tal projeto aprovado [e, infelizmente, não pude reivindicar minha opinião acerca dele em tempo hábil], apesar de restringir que empresas relacionadas à produção de bebidas alcóolicas, cigarros, e partidos políticos apropriem-se de um espaço que está nas costas dos alunos, ainda assim vislumbramos que a Educação em nosso país está cada dia mais subserviente a interesses institucionais e corporativos, e que tal imposição está sendo aceita resignativamente num ambiente onde a consciência cidadã deveria ser prezada.

Em contrapartida, tal projeto se justifica pela impossibilidade socioeconômica de considerável parcela da população – sobretudo a rural – para a aquisição de tais uniformes. Tal fato não descaracteriza a sugestão da iniciativa privada realizar doações, como também torna-se de direito recompensar tal subsídio. No entanto, ao invés de ser sugerido o abatimento tributário, precisava sugerir algo tão gritante? Certamente, acima da “responsabilidade social”, há um conluio implícito de estampar, ideologicamente, através de uma marca, no aluno, nos seus colegas, na família e em todos em seu convívio, toda uma filosofia mercadológica implícita no consumir bens.

Há ainda um agravante: famílias que podem comprar os uniformes de seus filhos achariam desagradável levar de brinde um estandarte propagandístico, e certamente, desejarão levar uma camisa limpa. E, ao ibiunense esclarecido, será fácil perceber, ao olhar para cada aluno das séries iniciais, quem foi o que teve o uniforme comprado ou doado. Implicitamente, uma segregação social surge em foco.

A quem se deparar com esse extenso artigo, um pedido essencial: repasse-o. Tal idéia, propagando-se em outros municípios e estados, irá descaracterizar o já descaracterizado Ensino Público, que, sob o nome de “responsabilidade social”, será minada do objetivo reducionista no qual vemos nossos alunos serem infundidos: treinados para servir ao corporativismo. E, à população de Ibiúna, resta-me desejar boa sorte para que tais estampinhas nesses uniformes-camisas de time não passem de estampinhas.


Terra Preta Piemontense é aluno de Letras da FFLCH da USP e acredita que deve-se agregar ao mundo consumível valores mais humanistas.

CAOS

Comportamentos Aceitacionais Obsessivos

Numa era em que construímos nossas relações à distância, afinidades, disparidades, ou uma simples questão de estatística constituem nossa rede de “amizades”.


[Fonte: Hokahey.org]Basta olharmos os twitters e orkuts de nossa nação tupiniquim, em especial os de jovens com até dezesseis ou dezessete anos, em diversas localidades do nosso país, que estudam em escolas públicas consideradas referência em sua comunidade ou em escolas particulares pertencentes a redes de ensino renomadas para notarmos um comportamento muito comum naqueles que, por invirtudes diversas, não se destacam em alguma área do conhecimento ou da existência em particular: pedidos incessantes de promover seu espaço a desconhecidos, exibição pública da própria imagem – assunto tratado com propriedade por meio deste pensador – e uma cópia pouco original do desejo do “ser popular” americano são as características mais evidentes nestes perfis.

No universo da produção intelectual, cultural, acadêmica e social, costumamos tratar com desdém tais espaços, considerados “lixo informacional”. Eles demonstram, entretanto, o que pouco podemos conceber em inclusão digital em nosso país: o ferramental não é utilizado como ferramenta, e sim como acessório.

Nós, geração pré-consolidação internética, que víamos os computadores como máquinas ferramentais, não soubemos disseminar o real potencial destas últimas à geração de jovens que, ao passo que encontram, por desventuras do sistema educacional, dificuldades em assimilar os processos de alfabetização, são induzidos, pelo utópico sonho da fixação de personalidade e individualidade perante a um mundo – o mundo dos providos de uma máquina de mesa, de colo, ou de um celular esperto do momento – a desenvolver uma linguagem própria, bem como suas próprias visões acerca do que são certos comportamentos sociais do homem contemporâneo, e entre eles inclui-se a amizade.

Se outrora nos víamos infelizes por possuirmos contáveis pessoas do nosso convívio que possamos confiar em toda a nossa vida e à qual chamamos amigos, os jovens podem deparar-se com um sonho ruir, por depararem-se com a adesão ou a deserção de seus seguidores – nota-se que, no âmbito de certas redes sociais, não se fala mais em amigos – de acordo com o que você diz (ou não), o que faz (ou não) ou o que mostra (ou deixa de mostrar). Tal comportamento natural de experimentação, não bem administrado pelos atingidos, leva a um condicionamento comportamental que os conduzem a uma situação desagrável: falar, fazer ou mostrar o que as massas queiram apreciar. Algo muito perigoso, quando se fala em aderir a comportamentos que são contrários às suas ideologias pessoais na vida real, ou que preenchem lacunas pela falta de uma opinião formada a respeito de determinado fator de nossa existência.

Pela busca – que somente certas ciências humanas são capazes de decifrar – da aceitação do “quanto mais, melhor”, pessoas deixam de buscar as afinidades, as disparidades, e numa espécie de sorteio, recrutam numa propaganda viral, assemelhada aos vendedores insistentes de traquitanas porta-a-porta, seguidores nos quais posteriormente não irão envidar esforço nenhum para constituir comunicabilidade. Assim como um artista que congrega fãs, o indivíduo tuiteiro nada mais faz que congregar no seu convívio pessoas que igualmente têm a mesma aspiração: dignas de seu próprio objetivo fútil e pessoal*.

Ser capaz de expressar sinceridade, sem condicionar agradabilidade a todos ou a construir uma identidade díspare à real é uma tarefa deveras difícil a se ensinar a esta nova geração que se constrói diante de uma máquina de mesa, de colo ou um celular esperto do momento, e que faz de tudo para se impor, por meio de escores numéricos cada vez mais altos. Mas tal virose social pode ser consertada no convívio de um meio profissional – real – ou no ingresso num recinto universitário – ou, pior, tal virose pode consolidar-se, dependendo do grau de exposição do indivíduo a convívios populistas e da seriedade acadêmica do ambiente em questão. – E, principalmente, perceber que a transformação pela internet deve ser ferramental, e não acessória, como os jovens de até dezessete anos de escolas públicas reconhecidas ou de instituições particulares ”fazem”.


* Terra Preta Piemontense é bixo de Letras pela USP e conhece a internet desde seu advento comercial no Brasil. Relutou possuir orkut, blógue e tuíter, mas no final acabou por aderir a tudo isso. Possui mais de 4000 seguidores no tuíter, contradizendo todo o seu argumento moralmente a princípio; mas diferentemente das Tessálias da vida, não fica de cada dez pitacos do tuíter, onze clamando por seguidores. Utilizou, sim, algumas vezes, scripts de seguidores, e se arrependeu de todos, por trazerem seguidores amplamente indesejáveis e apelões, como os que tratam de Big Brothers e da Globo Indústria do Mal Organizações.

O referido autor deste blog tem um discreto desejo de conhecer pessoalmente todos os seus mais de 4000 seguidores que valem a pena, nem que leve a vida inteira ou duas encarnações…



Ouvindo... Mudhoney: Mudride

Fatos da Realidade

Uma Cidade no Descaso da Política Magnata

Nota de cocheira: este artigo não tem, necessariamente, valor jornalístico. Mas nem por isso deve ser desconsiderado por ausência de tal valor.


Dizem certas Filosofias de Vida que um Princípio Maior designa missões a nós, em forma de desafios, como uma maneira de percebermos nossa utilidade nesta nossa passagem terrena.

Quando adentrei este chão mágico, a famosa terra de Una, assumidamente um forasteiro, perguntava-me: “por que pombas vim parar numa localidade dessas?”, visto que na terra de Agú, do cartão-postal da ponte catenarista, possuiria maior e melhor infra-estrutura para o meu desenvolvimento profissional e acadêmico. Mas o convívio diário com as dificuldades estruturais deste local mostrou-me que a necessidade faz a evolução.

Antes, vivia num ambiente onde tudo era bem encaminhado. E num ambiente assim, acomodamo-nos a ter tudo em nossas mãos e a não nos sentirmos obrigados a buscar coisa alguma em benefício da sociedade, por duas razões bem distintas:

  1. Pelo costume brasileiro de não envolver-se com política após eleições; e
  2. Por todo o básico estar aparentemente bem provido na localidade onde moramos.

Quando há falta de uma destas razões listadas, certos setores da sociedade mobilizam-se frente aos poderes em busca das condições mais favoráveis nas quais o município faz jus. Aqui, neste cantinho de chão, claramente se vê a necessidade disto.

Acompanhando de perto

Recentemente, estive presente na Câmara Municipal de Ibiúna, acompanhando, como entusiasta dos profissionais da Educação, certas necessidades organizacionais das quais o setor reivindica, e que necessitam do aval da maioria – creio eu, absoluta – dos vereadores.

Mas, se a Câmara é um representativo da vontade popular, muito bem colocada seria um momento em que um cidadão ou o representante de uma classe possuísse, aqui, um momento, dentro da sessão, para manifestar uma posição, frente às decisões do legislativo, acerca dos atos destes. No entanto, a possibilidade de uma tribuna popular em horário de sessão não existe. E, segundo o regimento – ou o que costumamos lembrar dele:

  • A assistência deve estar trajada decentemente – bem, é de costume, ou então seria a casa da mãe Joana;
  • A assistência não deve se manifestar, contrária ou favoravelmente, às decisões da bancada, ou a discursos dos vereadores – até que interrupções são chatas, mas os vereadores aqui utilizam-se desta “cortina de ferro” para evitar constrangimentos sobre eles próprios. Decerto, é a mesma coisa que não haver assistência nas sessões…
  • Não se pode interpelar os vereadores – e podem eles interpelar a assistência?
  • Exaltações e incongruências são passíveis de processo criminal – um amparo a já dita “cortina de ferro”…

Pois bem, e mesmo providos destas informações, em decurso das sessões, os vereadores aqui amam deixar a assistência em descrédito, baseando-se no regimento e nestas premissas dantes apresentadas. Pois bem, e como fica a resposta popular, então? Afanada por regimentos? E o direito de resposta e contestação, digno daquilo que chamamos de democracia?

Deixando de lado as questões estruturais da câmara, vamos aos atos do dia (quarta-feira, após o feriado municipal).

Protocolo de praxe

Aqui, percebe-se uma necessidade de se fazer ganhar tempo, perdendo-o. A leitura da ata de sessão anterior se dá muito rapidamente, e pouco clara, para que a assistência mal acompanhe-a. Normalmente, percebemos nas sessões as seguintes sequências: finanças, homenagens, moções e atos de benfeitorias ao município – as necessidades urgentes são estrategicamente decididas no final da sessão, justamente para serem adiadas, ou seja, o prazo máximo à caducagem de votações é cumprido em período máximo mesmo

Em seguida, é lida a pauta da semana, sendo recitadas todas as formalidades ali transcritas – e percebe-se que, dentre os vereadores ali presentes, os mais novatos desenvolvem os talentos menos ativos à causa social: ler atas e pautas. E isso é decidido ao início de todo ano, na escolha do presidente de mesa e dos secretários…

Os atos propriamente ditos

Dentre os mais destacáveis, dos outros dias, percebe-se:

  • Implantação da TV Câmara de Ibiúna via streaming de internet – e se é só ao vivo, como faremos para acessar sessões anteriores, manifestar opinião e comunicarmo-nos com os parlamentares? (a materialização da “cortina de ferro”, por acaso?)
  • Ações de satisfação frente à companhia de água e esgoto para certas localidades isoladas – utilizar-se de tempo e ato legal para cada localidade isolada é perda. Deve-se fazer um conjunto de localidades a serem atendidas, uma única vez, perdendo menos tempo das escassas sessões;
  • Denominação de escolas e logradouros – gasto em publicidade, em emplacamento/tinta, pouco efeito prático em cidades do interior, e um subterfúgio para “imprimir” na cidade as marcas de antepassados da classe política;
  • Moção de apelo, contrária à instalação de usinas hidrelétricas em bacias hidrográficas distantes da cidade – coisa assim deveria ser tratada na assembleia estadual, não acham?
  • Intervenções infraestruturais em terrenos particulares e em locais públicos – trabalho de Secretaria de Obras sendo feito pela câmara. Um meio de dizer que eles fazem o que outros “não fazem”;

No dia presente, fez-se:

  • Prestação de contas do último período: déficit de R$ 6 milhões [Palavras de Jair M.: “Então… Tá difícil.”];
  • Provimento de finanças à ACE Ibiúna de R$ 100 mil, para iluminação natalina – pois bem, os próprios comerciantes não podem desembolsar do próprio para isso. Então, para quê existe associação?

Na tribuna:

  • Discurso “apaziguado” e bajulador de Jamil M., em favor da classe profissional da Educação, solicitando posição da bancada pela aprovação dos projetos envolvendo a pasta de Educação – o do qual “valeu” mais uma leitura do regimento e o descrédito da assistência no dia;
  • Discurso evasivo de Paulo S., que começa tratando de Educação e educador e termina em outras pastas – uma clara falta de foco;
  • Discurso agressivo de Ismael P. [palavras do próprio: “A Saúde anda de mal a pior.”], contra o executivo, e procurando mobilizar os profissionais da Educação para “cobrar” satisfações da saúde – ou seja, designar os outros para fazer o próprio trabalho sujo, e no fim das contas, eximir-se da própria responsabilidade posteriormente;

(…) Mas como a sessão vara até boas horas da noite, o aqui presente não pôde acompanhá-la plenamente. Segundo presentes, o assunto em foco ficou para outra sessão – eles [os vereadores] não sabem que o prazo é máximo, e não mínimo, ou seja, pode ser resolvido no dia até aquela data estipulada.

Modesta opinião

Uma vez que numa sessão pública – veja bem o endosso: pública – há o pleno direito do cidadão – basta ser cidadão envolvido com o município – fazer a opinião pública ser percebida, há o dever dos poderes atribuírem vox populi a aquele que, por buscar se adequar aos horários de uma Câmara – e não o contrário, uma vez que esta só se prontifica a colocar-se em atividade apenas uma vez por semana!? –, às vezes não consegue fazer valer sua opinião por prevalecer a voz do parlamentar?

Então, que dizer das classes sociais públicas, como Educação, Saúde e Cultura, às quais provém resultados mais imediatos à população, possuem opinião mais formada e desenvolvem melhores soluções por conviver com o procedimento final em cada pasta – as classes de aula, as necessidades medicamentosas e terapêuticas e a promoção de uma identidade local, respectivamente – e nos quais, portanto, deveriam receber atenção maior e melhor direcionada do Legislativo, faceta do poderio mais prejudicada no momento nesta gestão?

Mais um motivo para não deixarmos nossos jovens ibiunenses serem cultivados unicamente por idas a baladas e bares e eventos de pouca valia cultural…



Ouvindo... Hoodoo Gurus: Thousand Miles Away

E numa hora dessas, o clube dos Dez está fazendo seu show de peripécias legislativas… Boas ou ruins? Pena não poder acompanhar hoje…