Karta Citina: Nove

Capítulo 9


Itabuna, Bahia, 22 de abril de 2024

O antigo dia do descobrimento do Brasil na região de Ilhéus ganhara nova conotação, ainda mais na Bahia, dez anos antes. O então dia da consciência da brasilidade, antes um evento regado a muita cultura regional e mostras de culturas tradicionais de todo o país passavam por ali, desta vez não era tão festivo: a cidade, que parecia um entulho de prédios históricos arrebatados ao chão, dava lugar aos burburinhos das equipes de remoção de corpos da Bahia, que a cada dois dias, pingavam em uma localidade diferente da Bahia, conforme as necessidades de se evitar que os corpos soterrados nas residências tornem-se ambientes propícios à proliferação de pragas urbanas e de endemias que atingiriam os desolados sobreviventes.

Sioue e Ângela, mobilizadas de última hora junto com uma caravana que, mal chegara a São José dos Campos dias antes, e por já haverem equipes mais que suficientes para auxiliar nos serviços necessários, haviam deslocado-se junto com as forças da Aeronáutica através das aeronaves Jazão, modelos novos construídos pela EMBRAER e recentemente disponibilizados a todas as principais forças aéreas do mundo – por sorte, o pólo de engenharia e indústria da EMBRAER, bem como as dependências da Aeronáutica regionais não sofreram danos. Após atravessarem três cidades de médio porte no Recôncavo Baiano (e de se depararem com as realidades cruéis da pressão sofrida pelas equipes de salvamento), chegaram a um dos redutos de concentração da força-tarefa civil e militar feminina – o serviço nacional obrigatório, agora optativo entre o civil e o militar, abrangia as mulheres também. – Tanto trabalho necessário seria empreendido em cerca de seis dias de trabalho, e o cronograma de tarefas estava atrasado. Faltavam mais três dias de trabalhos locais, antes de prosseguir à região metropolitana de Salvador, onde as equipes realizariam o período de estada mais longo: três semanas vasculhando por regiões críticas. Mesmo empreendendo cerca de trinta por cento a mais de recrutas, os horários de revezamento e descanso foram diminuídos, a fim de possibilitar um destino digno aos corpos esmagados pelos escombros.

Equipes de paramédicas, engenheiras civis e logísticas, farmacêuticas e outras funções constituíam o macrossistema da força-tarefa. Nossas personagens, apesar da formação em primeiros socorros que possuíam – ambas eram engenheiras eletrotécnicas –, pela situação dos corpos que eram encontrados, sentiam-se intimidadas ante tantos horrores, e para evitar maiores problemas com elas, ambas foram transferidas para o setor de administração, onde o volume de trabalho era igualmente intenso: fazer o controle dos estoques de medicamentos e de transportes e insumos necessários para o bom desempenho das obras.

– Nunca pensei estar aqui tão cedo de novo – observou Gysph, num raro momento de descanso.

– Eu também não, e numa situação tão inconveniente – assentiu Sioue.

– Espero poder me ausentar o quanto antes for possível. Olho tanta mulher por todos os lados, e sinto a falta de ver alguns gatinhos…

– Eu diria algo parecido, mas convenhamos que nós consentíssemos que fosse necessário estarmos aqui.

– Você ama essas coisas, Si. Eu briguei nos meus tenros dezoito anos para ingressar no serviço civil para fugir do militar. Eu tive de simular uma bursite para ser encaminhada do Quitaúna até o Patriarca. Imagina! De alguma forma, fizeram-me pagar, com outra moeda… Nove meses deslocando-me naquele formigueiro.

Mal se deram conta da entrada de uma supervisora que alertou que havia trabalho a ser feito, trazendo um lote de relatórios das equipes de bombeiras a ser arquivado. Nem é necessário comentar sobre a leve bronca que ambas levaram.

– Chefia raivosa… Acho que nunca viu um homem na vida… Notou aquela latente verruga no queixo – sussurrou Gysph a Sioue, após a saída da supervisora, a saber, uma mulher de seus quarenta anos e cara de poucos amigos.

– Ah, tome juízo, mulher! E eu não quero ter minha ficha suja por insubordinação – respondeu no mesmo tom.


Nova Helsinque, Finlândia

Yüren, Aaron e Epicure, após trabalhos executados quase que em vão pela comissão das Forças Armadas Finlandesas. Estavam reunidos nos acampamentos dos edifícios mais singelos das proximidades do Centro Administrativo da cidade. Os ventos medianos causavam um farfalhar dos arvoredos que ainda mantinham-se em pé depois da tão citada tempestade. No entanto, aqui ela havia tomado proporções grotescas: casas residenciais mais antigas foram tornadas a um amontoado de material entulhado em toda a vizinhança dos bairros residenciais. E eles ainda foram incumbidos do trabalho mais fácil, por permanecerem na força-tarefa da capital. Outros convocados partiram para mais ao norte, sendo que alguns ainda estavam por chegar a regiões inóspitas, com muito sacrifício. Quanto mais distante iam, mais se elucidava a fúria do epicentro das tempestades: os poucos que ali sobreviviam – era princípio de primavera, e outros finlandeses que ali moravam ainda estavam na estadia de outono-inverno em outras localidades do planeta, preparando-se para retornar dentro do fim de maio – antes do dia seis daquele fatídico mês, foram soterrados junto com suas posses. Um ou outro ainda teve a sorte de sobreviver no abrigo subterrâneo de seu lar, e dali conseguirem sair, e estes sortudos prontificavam-se voluntariamente a integrar os serviços de resgate.

Em um dia de descanso completo, após um intenso trabalho de remoção de cadáveres dos dias anteriores, apenas com os descansos essenciais, e muita pressão por causa da situação dos atingidos, atravessada por quase todos os integrantes da equipe, Aaron e Epicure já não contavam muito com aquele espírito das conversas descontraídas e despreocupadas: a situação não lhos permitia.

– Sei o quanto tudo isso seria forte para nós, meu velho, mas nunca pensei o quão forte realmente seria. Já vi corpos soterrados de várias maneiras em vídeos, mas… Assim… Na realidade, eles são muito mais horrendos: membros prensados sob caibros de madeira. Caixas torácicas então, arre! – implicou Epicure.

– Já levou em consideração o cheiro de umidade com o princípio de decomposição? Houve corpos que encontrávamos por causa desse cheiro de bolor fétido… – adicionou Aaron.

– Caro colega, acredito que todo mundo acabe por terminar a missão e não querer saber mais disso por um bom tempo.

– Sublinhe esse “todo mundo”. Parece que nosso gélido amigo também descongelou de sua era glacial. Veja lá – e Aaron apontou para Yüren, que seguia no corredor transversal, portando um copo de chocolate quente. – Nunca vi, em toda a minha vida, tal sujeito portando um andar tão tenso, como que estivesse fragilizado por tanta crueldade da situação. Tenho certeza que ele encarou alguma atrocidade maior do que a nossa, que o sensibilizou dessa maneira.

– Sensibilizar? Para alguém como Yüren, somente uma perfuração de crânio e cérebro exposto pode fazer isso em gente desse tipo!

Epicure mal notara o tom de voz aplicado nessa suposição, que chamou a atenção de Yüren, trazendo seu chocolate quente junto a eles. Ambos pensaram ouvir um tom de voz enérgico, replicante por parte do colega. No entanto, ouviram um tom de voz neutro:

– É uma tentativa de contar piada? Se for, acho que vocês perderam hoje o fio da meada, pois sei que vocês tiveram dias melhores.

E recolheu-se de volta ao seu caminho, mas desta vez, deixando o chocolate quente numa bancada próxima a eles, e seguindo seu percurso no corredor transversal do qual havia se deslocado.

Aaron, que não dispensa um bom chocolate quente, viu-se no direito de tomar um pouco deste.

Não! – interveio Epicure – Há alguma coisa de estranha nesse chocolate quente. Uma bactéria que mexe com nossos sentimentos talvez…

Que tal você ficar quieto, sujeito? Desse jeito, dou até crédito para o Yüren. Você realmente não sabe quando parar…

Arre! Será que o mundo precisa viver sempre tão tenso assim? – e Epicure retirou-se para seu dormitório.

Alguns minutos depois, um oficial do Exército finlandês aproximou-se de Aaron, solicitando informações sobre os seus colegas.

– Senhor. Todos os meus companheiros encontram-se em descanso nos dormitórios.

– Bom então, recruta. Avise-os quando saírem. Diga-lhes que os serviços de vocês aqui terminaram. Recebemos um carta anteontem das Nações Unidas solicitando alguns dos nossos mais excepcionais profissionais e de outras localidades para auxílio na África e América Latina.

– Aviso imediatamente, Senhor. Nós seremos deslocados para qual localidade, se não for um impropério questionar?

– Vocês farão escala nos Estados Unidos primeiro para adquirir roupas quentes. O destino seu e dos seus dois colegas é o Brasil.

– Grato pela informação, senhor. Permissão para retirar-me.

– Dispensado, recruta.

Tão logo o oficial deixou seu campo de vista, Aaron seguiu até o dormitório de Epicure, e após avisá-lo, buscou entrar no quarto onde Yüren estava alojado.

– Yüren? Poderia ceder um minuto seu?

– Já está aqui. Então diga – Yüren mantinha o mesmo tom de voz da admoestação, estando na cama, observando seu celular. Talvez estaria por esperar qualquer resposta a respeito do paradeiro de Bárbara, mas tão logo percebera a presença de Aaron adentrando o dormitório, procurou dissimular uma atitude tão neutra quanto a sua voz.

– Uma informação de relance: sua Svenska, porventura, é brasileira?

– Sim, mas vive lá na Rússia. Por que o interesse?

– Você não disse que perdeu a comunicação com ela, quando estávamos a vir até aqui?

– Sim, mas quê isso te interessa por acaso?

– Bom… Acho que podemos estar mais perto de saber a quantas ela anda.

– Por que diz isso?

– Prepare suas malas – uma interrupção proposital por parte de Aaron. – Nós três estamos a caminho do Brasil a partir de amanhã.


Ouvindo... Paul McCartney: No More Lonely Nights [feat. David Gilmour]

smile_omg Muitos projetos a conduzir na vida física. Novo período de postagens com menos freqüência. Desculpem o transtorno e muito obrigado pelas mais de 6000 visitas!

Karta Citina: Oito

Capítulo 8


Hamburgo, Norte da Alemanha, 15 de abril de 2024

Por sinal, ainda Hércules e Yüren percorreriam mais uma semana juntos no mesmo grupo maior de comitivas. Hércules fora designado a participar da comitiva constituída de quatrocentas pessoas para auxiliar as forças locais da Suíça e da Áustria, e nesta cidade, cujas edificações mais modernas foram avariadas e, ironicamente, as de arquitetura mais antiga mantiveram-se no lugar, ambos se separariam em definitivo, cada qual a cumprir sua missão.

Imagina-se que tenha sido um sinal dos tempos que recaiu sobre boa parte dos finlandeses naqueles terríveis dias: Yüren se deparara com outra comitiva, esta das Forças da Finlândia, montada de improviso num campo aberto, o qual se olhava para todas as direções, e se encontrava troncos de árvores cortados. Uma prova sucinta de que o campo também fora alvo das ventanias verticais, por serem nítidos neles galhos finos retorcidos, e em certas espécies de eucalipto, um tapete de folhas forrando o chão. No acampamento, diversos jovens e pessoas de meia-idade, cerca de duzentas pessoas, entre homens e mulheres, e até inclusive alguns colegas de universidade de Yüren de Armeggendya; estes, expressamente abalados. Não muito participativo de lamentações, Yüren dispôs-se a, no burburinho, ocultar-se dos seus conhecidos, mas sem deixar de ouvir os seus lamentos.

– Muito triste, bom Jövo… Minha família toda havia decidido permanecer na cidade para a Festa dos Sobreviventes… – dizia uma mulher a um homem, que era vizinho de quadra de Yüren, robusto, cara apinhada e trajando roupas típicas com suspensórios, o que lhe adicionava mais quinze anos aos seus pouco mais trinta. A tal mulher não conseguia conter suas lágrimas, embora soluçasse pouco de modo que em meio a todo ruído da concentração, seu lamento pudesse ser ouvido sem devaneios.

– Mas minha garota… Você tem que entender: como podemos prever ocasiões assim na nossa vida?

– Eu podia ter evitado!!! – exclamou com furor – Se eu insistisse mais fervorosamente para que eles viessem comigo às Américas nesse dia, jamais teríamos nos separado assim desse modo!

– Por favor! Por favor!!! Valha-me Deus!!! Pensa que só a distância poderia resolver o problema!? Não soube, por acaso, minha jovem, que para todo canto sob o sol, aconteceu algo de extraordinário! Vocês poderiam estar lá em Armeggendya, nos Estados Unidos, na Índia, no Japão, Argentina ou no Fim do Mundo… O resultado foi o mesmo!!! Bem meus pais diziam das profecias do fim do mundo: elas só vieram alguns anos atrasadas.

Yüren deixou-se involuntariamente possuir por um pensamento que exaltou-se a transformar-se em palavras.

– Que raios foi esse fim de mundo?

O que não percebeu foram dois colegas de universidade aproximando-se sorrateiramente por um ângulo distinto do da conversa do casal.

– Ah! Eu não acredito!!!

– Eu também não! Cara! Que mundo pequeno! – disse o segundo.

E ao mesmo tempo que absorvia essas exclamações, Yüren tinha sido surpreendido fisicamente com uma massagem de punho vigorosa sobre o cocoruto do primeiro sujeito.

A reação, como podemos imaginar, não foi das melhores, com direito a uma associação dos nomes dos elementos a palavras de baixo calão que pouco acrescentam a esse relato.

– Que é isso, Yüren? Isso são modos de receber Aaron e eu aqui? – disse Epicure, jovem finlandês de nascença, com traços de mouro. A repulsa, natural de Yüren a ambos, talvez tenha surgido de um trote semelhante sofrido quando do seu ingresso (os “amigos” haviam ingressado no ano anterior), e que, apesar da primeira impressão nada amistosa, passaram a concorrer juntos às mesmas atividades culturais da universidade, numa relação estranha de companheirismo e ódio.

– Deixe estar, Epicure! Sabemos que o rabugento aqui ainda deve estar de cabelos de pé por causa do motor fundido no antepenúltimo semestre dele…

– Ah, lembro-me muito bem… Ligação estrela no lugar da de triângulo… Erro fatal num momento desses do curso.

– Sim, eu sei. Aquele famoso projeto das roldanas motorizadas do prof. Richte, mas quem não se confunde com a sincronia de dez pares de motores?

– Seu anta! Eu falo da energização… Não do comando… Ei! Espera, Dr. Sorriso milionário!

Yüren estava de saída, pois o foco da conversa estava naturalmente o excluindo.

– Vão falar comigo ou vão falar de mim? Não vim aqui perder meu tempo…

– Realmente – indagou Aaron, modificando o tom da conversa. – Ninguém aqui está.

– Que há que reúnem todo o povo aqui? Sei que a coisa é séria, e estou preocupado.

– Velho, relaxe, que se o caso for os seus pais, até onde eu saiba eles estão bem. Dia quatro eu os vi saindo da cidade em direção aos Estados Unidos. Seu pai havia fechado um primoroso negócio com um empresário californiano e aproveitou para levar a família para um passeio – disse Epicure. – Acho que sua mãe estava cansada das festividades da Festa dos que Sobreviveram.

– Sobreviveram – completou sarcasticamente Aaron – para morrer de novo.

Resultado desse comentário maldoso tinha sido uma cutucada de cotovelo no peito dele por parte de Epicure.

– Fala assim só porque quase toda a sua família estava fora também.

– Ah, cara. Metade da Finlândia estava fora. Veja só aqui.

– Mas que cargas d’água houve de tão incrível para nos reunirem aqui hoje? – reivindicou Yüren.

– Você veio de Samara. Estou certo? – disse Epicure.

– Com muita dificuldade, por sinal.

– Em algumas pausas, vocês não conseguiram contatar nenhuma emissora?

– Ninguém se ligou. O que se ouvia mais na comitiva eram rádios de comunicação. E o que se via eram estradas barradas a todo o momento. Por vezes, nós tínhamos que abri-las novamente.

– Iiih! Então veja isso! – e Epicure removeu do bolso um desses computadores portáteis, com uma reportagem de um canal de meteorologia canadense.

Os cinco minutos seguintes foram de estarrecer Yüren. Todas as expectativas acerca das coisas dos dias anteriores eram evidentes. Estragos em escala global eram mostrados sem parar. Até os jornalistas perdiam a compostura para noticiar com a famosa credibilidade jornalística de sempre. Meteorologistas – os que obviamente sobreviveram – relataram uma movimentação anormal de massas de ar seco provenientes do círculo polar ártico, cujo epicentro localizava-se a cerca de cem quilômetros ao norte de Armeggendya, a comunidade mais próxima. A massa de ar seco criara uma corrente circulatória de ar frio que subia e ar quente que descia ao solo – fenômeno por sinal muito incomum nos termos da meteorologia – e que ocorria em cadeia. Nos países mais frios, tormentas e nevascas cruéis; nos mais desérticos, tempestades de areia, algumas ainda persistindo até àqueles dias; nos mais tropicais, chuvas torrenciais que inundaram vilarejos e cidades mais baixas e fizeram deslizar encostas em áreas urbanas.

E os cinco minutos de reportagem eram apenas uma mostra de uma matéria que permanecera no ar durante muitos dias.

– A coisa foi tão complicada assim?

– Só se fala nisso em todas as rodas de conversa que ainda existem. As pessoas estão com muito medo. Aqui no sul da Alemanha, lojas foram saqueadas há alguns dias, com o temor de novas tempestades. – adicionou Aaron.

A conversa fora interrompida, bem como todo o burburinho, ao soar uma sirene e um oficial das Forças Militares e outro das Forças Civis comparecerem com megafones. Eram dadas as instruções para que as pessoas procurassem os sargentos, conforme as listas de chamada, para receberem um código; e como eles dirigir-se-iam à Finlândia, por meio de um avião da Força Aérea que os conduziria a Nova Helsinque – ou o que havia sobrado dela.


Osasco, estado de São Paulo

Henvellen estava fixada na cidade, que em sua maior parte, manteve-se intacta. Na realidade, a localidade havia sido pega por uma chuva que havia durado cerca de três horas, e abarrotado os córregos locais. Houve apenas o prejuízo de algumas casas prejudicadamente mais baixas, seja na região central, no extremo norte, em alguns bairros de várzea no sul, e nada mais. São Paulo, diziam muitos, “fora abençoada por um não-sei-quê que protegeu toda a zona urbana da região da capital”. Geologicamente, e por evidências diversas constatadas por especialistas, as serras que circundavam a região metropolitana ofereceram uma “barreira de ventos” que os elevaram conjuntamente com as nuvens de chuva, esparsando-as. Do contrário, o fluxo de água que ocorreria na região ocasionaria cheias em pontos estratégicos a ponto de conceber inundações históricas, tais como nunca antes foram noticiadas ali.

As emissoras de televisão que ali encontravam-se instaladas nos subterrâneos – herança de anos anteriores, quando os medos de uma ascensão de guerras intercontinentais eram inimentes propiciaram a grandes centros de comunicação a fazerem suas instalações jornalísticas por ali – foram algumas das primeiras em solo brasileiro a retomar suas operações. As antenas de transmissão, concentradas no pico do Jaraguá foram a única instrumentação prejudicada severamente pelos fenômenos, mas consertadas com uma relativa rapidez. Todos, inclusive Henvellen, quando em seus lares, buscavam incessantemente notícias através dos noticiários extraordinários acerca de vítimas, os quais se desenrolavam tarde da noite.

Assistir televisão – ainda mais nos tempos atuais onde havia a internet consolidada entre os jovens paulistanos e paulistas – era uma tarefa estressante. O assunto tornara-se pauta unânime dos noticiários, e desconhecia-se, por televisão, outros fatos isolados derivados, como a formação de gangues de saque de grandes centros que agiam esporadicamente em grandes centros comerciais, inclusive os de Osasco. Como medida cautelar, o prefeito local solicitou auxílio governamental urgente para disponibilizar as forças armadas a serviço do comércio municipal. Por pouco, não era decretado o estado de sítio na região.

Nesse ambiente pouco convidativo na cidade, onde as pessoas, sobretudo jovens de moda descolada tinham que constantemente estar munidos de documentação para trafegar entre as várias barreiras do exército para freqüentar as lojas, surgiam grupos de protesto silencioso, meio hippies, meio headbangers, que desenvolviam rodas cancioneiras, revivendo grandes clássicos dos anos noventa e dois mil, os quais os seus pais, osasquenses natos, curtiam em sua época, quando jovens. Havia até um certo patrono para esses grupos: um sujeito que se autodenominava Simpatia – uma alusão ao profeta Gentileza do Rio de Janeiro – e que carregava envolto em uma coberta branca e retalhada com bandanas das bandas dessa ilustre época, inclusive – e principalmente – as de Laíte. Dizem os boatos que Simpatia era um influente empresário de uma das empresas instaladas na cidade no princípio dos anos dez que largou a carreira profissional e caiu na graça dos jovens após testemunhar a chocante chacina que havia executado sua esposa grávida e todos os seus quatro filhos, e quase surtou por causa disso. Encontrando auxílio com alguns conhecidos, que eram envolvidos com as artes na cidade, converteu-se ao budismo e passou a dedicar-se a uma vida de semi-abstinência ao que ele chamava de “corporalidades”. Incentivador do teatro desde que se conheceu como cidadão, fora acolhido como zelador do Centro Teatral de Santo Antônio pelos incentivadores da arte, e assim tornou-se, por convenção, patrimônio imaterial de Osasco.

Henvellen era deste bairro em Osasco, e sempre que as facilidades tecnológicas e de entretenimento a saturavam, buscava no Centro Teatral uma fuga dessa vida de pós-modernidade, através do contato físico com o ser humano pela arte. Como os meios de comunicação estavam pouco atraentes por se tratar exclusivamente do mesmo assunto – “a hecatombe climática” – a freqüência de Henvellen ao Centro era maior. Ali, encontrava todos os seus amigos, também todos os dias. Não era para menos: o estado de urgência decretado na cidade paralisou muitas atividades não-essenciais no município, e outras estavam operando normalmente com pessoal reduzido.

Num desses diversos encontros propostos entre os freqüentadores, o desse dia em específico gerou uma reflexão grande com respeito ao ocorrido.

– Sabe, Hen… Meu pai dizia das profecias do Simpatia, e hoje vejo que ele não deve ser um simples sujeito excêntrico – afirmou um dos colegas.

– É? O que comprova essa sua tese (para você, pois que para mim, Simpatia sempre teve razão)? – replicou.

– De tudo o que Simpatia dizia pelas ruas do centro da cidade, a única coisa com negatividade era a seguinte: “Queridos amigos jovens! Aproveitem a vida em todos os seus prazeres, sejam hedonistas! Não ouçam o papa, pois que ele, que pregou a si o voto da clausura e descontente com isso, quer levar à finitude com ele todos os seus rebanhados! Eis que o congresso da santidade muito bem o sabe, mas não o deseja revelar ao mundo, com medo de que o mundo deixe de obedece-lo… Dois mil e doze passou, mas o colapso ainda está por vir. Das terras longínquas, os deuses vikings armarão as guerras finais e trarão com ela uma torrente que varrerá pela água e pelo vento todos os mirantes e suntuosidades humanas construídas sob o Sol. Escutem, meus pequenos, os avisos de um amigo que outrora confiava no poder do dinheiro e das formalidades, e se querem ser realmente felizes, vão ser! Pois que o dia chegará, poucos serão avisados, e desses, os poucos que sobreviverem serão pessoas puras de alma, que saberão replantar as árvores da sabedoria e cultivar as flores da simpatia. Da simpatia que vos fala.” Entrei em contato com meus pais em Americana ontem, e eles estão estarrecidos com a onda de mortes que presenciam na cidade. Não há outra: eles estarão vindo para Osasco, já que não há muito o que fazer em um lugar de risco.

– Com certeza, acho que eles deram-se conta do simbólico valor dessa mensagem, não é?

– Acertou em cheio, Hen. E outro dia, conversei com um amigo de meu pai que também fez teatro, o Sr. Lucas. Ele enviou a mim e a meu pai um e-mail contendo uma mensagem da Sociedade Européia de Valorização dos Sentimentos.

– O que é isso?

– Uma espécie de rede social de valorização do elemento humano fundado por um húngaro em 2017. Você escreve uma carta motivacional para um grupo de até mil pessoas, de preferência manuscrita, e quem as recebe (espera-se) responde da mesma forma. O Sr. Lucas, filósofo conceituado de nossa cidade, recebeu uma de Portugal tratando-se justamente da hecatombe, e manifestou seu desejo em incluir a comunidade artística osasquense nesse movimento.

– Nossa! Acho incrível. Você manda para mim.

– Eu já até repassei para ti hoje. Não viu seu e-mail?

– Nem tenho coragem de ligar mais aparelhos eletrônicos em casa. A hecatombe climática virou até contato de mensagens instantâneas: está sempre de olho no ato em que você entra para ali se apresentar.

– Já sei. São as newsletters que você assina. Fique fria! Depois das atividades, vou na sua casa e te ensino como filtrá-las e até cancelá-las.


Ouvindo... Calle 13: Pal Norte (Reggaeton Channel)

Capítulo 10 em construção [longa construção]: em breve, mais um de Karta Citina.

Karta Citina: Sete


Norte de Samara

Assim que Yüren e Hércules chegaram ao quartel-general da instituição, o jovem finlandês tomou imediatamente a iniciativa de informar-se sobre as pessoas que naquela região haviam sofrido com as tempestades. Descrevendo detalhadamente, e fazendo-se valer de uma foto em um de seus aparelhos de navegação global da Bárbara, obteve dos bancos de dados modernos da instituição, que agora tinha atuação global para atuar em desastres naturais com uma eficácia assaz incrível, colaborando com forças locais de resgate e auxílio, nenhuma informação.

O atendente dispôs-se a auxiliar na busca a partir de algum instrumento que ela pudesse possuir que respondesse a um sinal de satélite, como um celular pessoal, um navegador global ou outro semelhante. Repassando as informações ao atendente, verificou-se – e nós sabemos muito bem de antemão – que Bárbara Svenska se encontrava (ou pelo menos o aparelho de navegação dela) na região costeira da Bélgica.

Yüren estranhou a informação que lhe foi dada: Bárbara Svenska nunca teve necessidade de estar por lá. E lhe veio à mente a possibilidade de o vôo que a conduzia tivesse estacionado pelas ocasiões das últimas horas. E sugeriu que fosse tentado um contato com ela que – como também o sabemos – não foi possível ser executado.

Uma leve aflição havia tomado conta do pouco ortodoxo coração do jovem Schuzkennott. E, já possuído por um sentimento irracional, exigiu, de modo um pouco mais intempestivo, detalhes sobre o roteiro que ela havia percorrido nas últimas horas. O atendente, intimidado, procurou responder com a maior calma:

– Preciso então que você preencha esse formulário, com seus dados de contato. Você terá que entender que o processo pode demorar até mesmo dias, pois envolve obter permissões de operadoras, casar dados de agendas, para comprovarmos e justificarmos essa invasão de privacidade…

– Como assim, justificar? Veja as coisas lá fora! E não me engane que sei que a Europa toda estava assim! Numa hora dessas, não existe o porquê em privacidade!

– Desculpe, senhor, mas são procedimentos. A instituição preza pela sua idoneidade e não deve entender que ela é um meio de traçar o que o indivíduo fez ou deixou de fazer…

– Sinto muito digo eu! – exasperou Yüren, de forma que os presentes ouviram com claridade – Então a instituição é mais importante que as vidas que ela diz salvar? Ora!!! Faça-me o favor…

Hércules interveio a fim de evitar que uma discussão maior se aglutinasse no recinto.

– Yüren, por favor. Não é a hora nem o momento para ocasionar dissidências assim – e voltando para o atendente. – Desculpe-me o jovem. Ele passou por uma experiência desagradável na floresta.

E conduziu Yüren até a uma área externa, solicitando-o generosamente que cumprisse os procedimentos, avisando-o do almoço que a instituição estava cedendo aos presentes, e pedindo-lhe que ali comparecesse. Mesmo a contragosto, Yüren assentiu com as recomendações do companheiro, e ambos foram almoçar após o preenchimento do formulário.

E, enquanto o almoço ocorria, um coordenador da instituição dirigiu-se aos presentes, solicitando que após a refeição, fossem estes ao auditório, para uma reunião emergencial.

E, organizadamente, após o almoço, assim foi feito. E em língua local e em inglês, os coordenadores locais convocaram os membros para comporem o quadro de voluntários para a missão de auxílio em localidades remotas na Europa central, assoladas pelos temporais ocorridos.

Yüren ficou pensando sobre a possibilidade de Bárbara ainda estar em viagem, e esta ter sido interrompida da forma mais bruta imaginável pelo mesmo temporal. Mas suas suspeitas só seriam confirmadas após resposta da instituição, uma vez que Yüren se permitiu a aprender a confiar somente em fatos confirmados e evidenciados. E, imerso nesse pensamento, não percebeu que a reunião havia cessado, e Hércules o cutucava insistentemente.

– Yüren. O rapaz ali deseja falar com você.

E indicou os guichês em que os membros recebiam as atribuições e identificações, às quais designavam seus postos de trabalho. Estes se dirigiam ao pátio da entidade em grupos pré-estabelecidos, onde caminhões do exército russo se mobilizavam para recolhê-los para as regiões que necessitavam, e para as zonas de fronteira, àqueles que tinham como destino outras nações.

A princípio, Yüren estranhou a convocação:

– Hércules. Não sou associado a Médicos, e você sabe disso.

– Sim, mas tomei a liberdade de comentar sobre você para eles, pois aqui entre nós você é um estranho, e eles estão te chamando para uma conversa – respondeu Hércules.

E, buscando um dos coordenadores ali presentes, apresentou-se.

– Sr. Yüren Schuzkennott. Você é finlandês, ao que me consta nas informações do seu amigo? – indagou este ao nosso jovem.

– Sim. Mas o que tenho a ver com a entidade? Não sou membro.

– Sim, sabemos. Mas você terá que vir conosco na delegação que se dirige à Escandinávia. As forças armadas finlandesas estão convocando todos os cidadãos para uma força-tarefa, pela ONU, em caráter emergencial, e você está nesse perfil de admissão.


No Brasil, o trio de amigas, conduzido por um veículo pesado do exército, estava indo em direção a São Paulo. Mas apesar da prestatividade do exército em levar os moradores de outras localidades o mais depressa possível, diversos empecilhos ao longo das diversas estradas que estes ingressavam, como barrancos desmoronando, troncos de árvores lançados sobre as vias, poças de água intransitáveis…

A movimentação frenética de veículos diversos, nas duas direções de muitas vias rodoviárias denotava que havia tanto preocupações com parentes quanto pessoas com medo de permanecer nos locais de origem, refugiando-se em outras localidades.

Muito preocupadas com as situações enfrentadas, consultaram um dos cabos as condições de São Paulo. Este, para alívio do trio, lhes respondeu:

– São Paulo, incrivelmente, só sofreu com as chuvas um pouco fortes, mas as ventanias que atingiram o país forram barradas por uma cortina natural chamada serra da Cantareira.

– Um segundo, senhor: você disse… O país? – questionou Henvellen.

– É… Algo incrível e ao mesmo tempo terrível. Já ouvi falar de desastres assim em minha infância, quando morava no sul do Brasil, provenientes de massas de ar frio. Mas o serviço meteorológico brasileiro constatou um fenômeno estranho, proveniente do norte.

– Como assim, do norte?

– Eu não tenho melhores informações, mas ao que me consta, uma cortina de temporais veio do Atlântico Norte e varreu as Américas como se fosse uma bomba nuclear de grandes proporções. Tempestades de areia, granizo, chuva forte e ventanias, como já foi dito, foram eventos observados só aqui no Brasil, conforme o que podemos constatar via rádio com as forças armadas diversas.

As preocupações se multiplicaram. Além de Janeny na Amazônia, havia familiares que não moravam na região de São Paulo. Alguns dos tios e primos de Henvellen viviam no Rio de Janeiro e em Minas Gerais. Muitos dos parentes de Sioue viviam no interior do estado paulista. Somente Ângela pôde assegurar que não só os seus pais e parentes próximos, mas toda a sua comunidade de imigrantes da Haamuskhalia vivia na região da capital, e, provavelmente, a sorte da natureza parecia ter sorrido para a megalópole mais dinâmica da América do Sul.

E, vencendo os obstáculos, um por um, com auxílio de diversas máquinas veiculares, e um pouco de espírito aventureiro, os moradores paulistanos, embrenhando-se pelo principal tronco viário que liga São Paulo a Paraná, levaram cerca de dois dias a atravessar todo o caminho até a região metropolitana, onde cada um pôde assumir sua própria vida.

Mas, condolizados pelos fatos ocorridos, muitos dos paulistas daquela região e paulistanos empenharam-se em serem voluntários de instituições diversas e da força civil especial, sempre acionada em casos de gravidade alta. No entanto, mesmo a alta disponibilidade de voluntários, o número era insuficiente para formar equipes de apoio que pudessem complementar forças locais de resgate e apoio nos incontáveis locais onde os prejuízos foram evidentes. O quadro era sério: a situação enfrentada pelas forças de apoio tinha gravidade altíssima. Na verdade, estava num nível nunca antes imaginado.

Henvellen, das três, foi a única que não se encorajou a tornar-se voluntária nas forças-tarefa Brasil afora, preferindo permanecer em Osasco, a esperar notícias dos seus familiares. Sioue e Ângela não hesitaram em se voluntariar para os trabalhos, e em três dias após a chegada em São Paulo, estavam partindo para as missões na região do Vale do Parnaíba, junto com o exército.


Ouvindo... Judas Priest: Hell Patrol

Karta Citina: Seis


Norte de Samara, manhã de 7 de abril de 2024

Após assegurarem sua proteção nos redutos de emergência pela noite anterior, e após um árduo trabalho por parte dos monitores em obter contato com qualquer serviço de meteorologia, seja ele pelos meios ditos corriqueiros – o que foi em vão – e por métodos mais tradicionais, como a radiodifusão analógica. Neste, perceberam uma predisposição assaz enorme doutros operadores desses equipamentos, por certo antigos, dado os fatos que ocorreriam nas últimas horas.

Primeiro, fez-se da necessidade de assegurar que outras tempestades não seriam mais evidenciadas, o que foi elucidado como fato positivo: serviços de meteorologia remanescentes comprovaram que não surgiriam mais quaisquer intempéries naquela região durante um longo período de tempo, ao alcance dos próximos quatro dias.

Em seguida, fez-se a questão de verificar o fato ocorrido. Surpreenderam-se com as informações obtidas: apesar das dissensões entre os diversos operadores, uma coisa observava-se constantemente quanto ao dia passado. Tempestades fortes assolaram toda a Europa e a Ásia Central, como que se uma bomba fosse “lançada” em um determinado lugar, e seus efeitos fossem irradiados em uma amplitude inimaginável.

Fazendo questão de saber o epicentro desse fenômeno, descobririam que ele ocorrera na região de Armeggendya na Finlândia, e dali se espalhara fortemente por toda a extensão da Escandinávia, alcançando primeiro a Europa ocidental e seguindo por toda a extensão daqueles que, sobrevivendo, colocaram seus velhos comunicadores à disposição.

E, conforme as comunicações ocorriam, percebiam-se novos contatos ingressando nas mesmas faixas de freqüência da África e do Oriente Médio. Foram observadas fortes tempestades de areia misturadas com umidade. Cidades pequenas foram quase soterradas, e em Dubai por pouco não se observou tragédias envolvendo os epopéicos edifícios quilométricos.

A reação dos monitores, entre si próprios, era de pasmo:

– Que pandemônio de fim de mundo foi este!?

– Fico pensando no Yüren. Ele era dessa localidade. Talvez não tenha sobrado nada por lá. Acho que temos que tomar cuidado ao dar essas notícias a ele – respondeu um outro.

– Principalmente porque o rapaz presenciou uma morte durante a confusão. Áquil foi encontrado pela equipe de emergência, prensado pelo tronco de um pinus sobre o pescoço. Mesmo que sobrevivesse, ficaria irreversivelmente tetraplégico – respondeu um terceiro.

– Houveram outras mortes, a saber? – indagou o segundo.

– Só mais uma, em outro grupo. O coitado foi arrastado pela forte ventania ao rio, ficou preso entre pedras no seu fundo e morreu afogado – respondeu o primeiro.

– Evitemos então de entrar em detalhes sobre o assunto. Acredito que será melhor retirarmos os campistas daqui e levá-los a uma localidade mais segura – concluiu o segundo.

Nos alojamentos de emergência dos campistas, havia a expectativa de saber qual a procedência do resto do programa que mal havia começado, embora todos tivessem a certeza que não seria mais seguro continuar a acampar naquele local.

E Yüren encontrava-se pasmo ante o acontecimento do dia anterior. Nunca, em toda a sua vida, teria presenciado um acidente tão grave quanto aquele, principalmente pela agonia manifesta do então finado rapaz. E embora nossa personagem em questão não tenha desenvolvido em seus poucos anos de vida uma moral puramente altruísta a ponto de condená-lo pelo fato, a ocasião forneceu este sentimento de impotência ao jovem, por se tratar de uma relação, mesmo que não manifesta, de civilidade ante o próximo.

Essa ocasião ainda tinha o reforço dos boatos maldosos que circulavam entre os outros campistas, cada qual, de preferência, comentando em sua língua nativa em despeito às mazelas involuntárias do jovem. Yüren pôde perceber a fervilhança das panelinhas com respeito a ele, conforme o papo discorria e o sentimento de repulsa tomava conta dos presentes.

Pelo lado daqueles que pouco presenciaram os fatos tais como ocorreram, surgiam maldosos comentários acerca da incompetência organizacional de Yüren. Segundo a opinião deles, foi uma irresponsabilidade austera o rapaz não auxiliar a condução dos acompanhantes aos abrigos, bem como não estar de prontidão para qualquer procedimento emergencial de forma a garantir, a todo custo, a sobrevivência de quem quer que fosse. Soma-se a esse fato que o terceiro ao qual estava tentando auxiliar Yüren e Áquil ter posto sua vida em risco eminente, podendo ocasionar uma tragédia maior. Para eles, “uma incompetência dita com todas as letras”.

Entretanto, Yüren procurou, na medida do possível, apesar do seu titubeio com respeito ao resgate, ser prestativo, como nunca fora em sua vida. Haviam, é claro, mais razões do que emoções que fossem capazes de justificar tal atitude, mas é inegável que o resultado negativo tenha tido caráter emocional para causar um impacto em sua vida. Mas, ao invés de resignar-se diante das ocorrências, parece que nossa personagem procurou uma justificativa racional para si de ter evitado presenciar aquela cena: melhor lhe seria, pensou consigo próprio ter dado ouvidos às orientações dos monitores minutos antes e ter tomado as providências para evitar qualquer constrangimento, e jamais permitir ter se envolvido na morte de Áquil.

No entanto, a título de defesa moral, somente o terceiro campista não se deixou envolver pelas picuinhas que sorrateiramente eram formadas, evitando-as. Buscou oferecer apoio moral ao colega, combalido racionalmente.

– Eu podia ter sido mais prestativo, mais ágil, menos desorganizado – desabafou Yüren. – Jamais irei permitir-me que algo assim aconteça de novo… Nunca pude ter cometido uma falha dessas!

Enquanto o jovem finlandês se recolhia aos seus próprios pensamentos, virando sua face longe de toda a panelinha e discursos tempestivos, daqueles que notamos somente pela entonação, o experiente campista, de nacionalidade francesa, procura acalmá-lo e confortá-lo, da melhor e mais cabida maneira.

– Tranqüilize-se. Eu sei que você teve a melhor a das intenções, mas não podemos ser super-heróis bem sucedidos, sempre…

Foi então que uma terceira pessoa, dirigindo-se a ele em alemão, comentou:

– Nós sabemos que você estava com ele. Quer se reponsabilizar também pela tragédia? Sabe que durante toda a estadia esse sujeitinho manteve-se aquém de todos, como se vivesse em outro mundo? Faça-me o favor…

– Você, vá para o inferno com suas pragas! – respondeu o campista que salvou a vida de Yüren, em um tom áspero na língua alemã.

Após o sujeito dissidente ter se afastado da presença de ambos, estes dois voltaram a se conversar em inglês:

– Ele falava de mim, eu pude perceber – disse Yüren.

– Deixe estar! Ele mal sabe o risco que passaria se estivesse em situação semelhante. Eu já verifiquei situações mais sensíveis em outros lugares. Sou um membro-auxiliar dos Médicos Sem Fronteiras.

E, no que o campista deixaria se permitir contar sua história, vieram alguns dos monitores, os quais deixaram expostos em público sua decisão sobre o que fazer dali em diante, bem como o ocorrido sobre toda a Europa.

A princípio, Yüren ficou estarrecido com o que ocorreu, por causa de sua namorada, e a ansiedade tomou conta dele, pois as informações eram dadas com muito cuidado e aos poucos, mas também teriam que ser curtas e diretas, de forma a não permitir atitudes desprevenidas entre os presentes. Estes foram poupados de detalhes sobre as mortes dos dois campistas, embora houvessem muitas especulações sólidas a respeito do paradeiro destes.

E, como decisão conjunta por parte dos monitores, decidiu-se por não continuar as atividades de acampamento na região, sendo que, de alguma forma, teriam que manter os campistas na zona urbana de Samara, visto que as rotas de saída da cidade estavam também prejudicadas pelos temporais, como também algumas edificações que não suportaram os mesmos temporais.

A preocupação de Yüren era justamente se o distrito onde morava Bárbara havia sido atingido, fato comprovado duas horas após a saída da área de acampamento, ao dirigir-se à região dos apartamentos. A área fora isolada pela Defesa Civil, pois quase todos os edifícios, que mesmo não possuindo mais que cinco andares, eram assaz antigos, haviam cedido. Contabilizou-se muitas mortes, mas nenhuma que correspondesse à Bárbara.

O jovem finlandês fez-se agradecido pelo fato de lembrar que o vôo dela poderia estar em atraso, mas será que ainda não teria partido da origem, ou pela hora, teria sido atingido já em território europeu?

O outro campista – o que salvou nosso jovem – que o acompanhara até ali, pois tinha se hospedado num hotel modesto, ali naquele mesmo distrito, observou-o preocupado. Não hesitou em questioná-lo.

– Espero que a pessoa que você procure não esteja por aí… E desculpe não me apresentar: sou Hércules, francês e engenheiro civil. De toda forma, acho inseguro tentarmos permanecer por aqui. Fiquei sabendo de outro lugar que talvez tenhamos melhor sorte em permanecer. São as instalações subterrâneas da Médicos Sem Fronteiras, logo ao sul da cidade. Quanto à confirmação da pessoa que você procura, acredito que você tenha que esperar pelas notícias da Defesa Civil.

E, no que ambos se dirigiam ao posto da entidade, outro membro, este médico, identificando Hércules pela pequena insígnia que sempre carregava na camisa, convocou-o imediatamente para uma reunião extra-oficial no local.

Respondendo oportunamente, convidou Yüren a participar dela, justificando haver possíveis informações sobre os sobreviventes do distrito de residência da Bárbara.


Iporanga, estado de São Paulo

O amanhecer da região de Registro revelou os evidentes estragos na região de Registro, onde se localizava a caverna do Diabo, e onde se encontravam as três amigas da Bárbara. O rio Ribeira havia inundado alguns bairros ribeirinhos e mais adiante, diziam os radioamadores, a região entre Sete Barras e Registro tinha rompido um dique recém construído. Muitas das saídas da região estavam prejudicadas pela água que invadiu consideravelmente as estradas.

Somente o Exército conseguiu mobilizar-se com algum prazo de urgência, pois a Defesa Civil teve dificuldades para obter contingente o suficiente para prestar assistência, uma vez que muitos dos membros do quadro não haviam dado resposta, e a entidade fora acionada para buscar a si própria.

O quadro de destruição na cidade de Iporanga, no seu ponto mais alto, era desolador. As casas de alvenaria mais antigas não haviam resistido, ou por causa da sua localização, ou por causa das tempestades propriamente ditas. Mas, ao que parece, a geografia local permitiu que os da região mediana fossem protegidos pelos vales locais, não sofrendo muitos estragos. As vilas mais baixas, como já foi dito, foram atingidos pelas águas do Ribeira.

Assim que o grupo de visitantes das cavernas alcançou as regiões menos atingidas da cidade, tentaram obter contato com familiares, amigos, ou informar-se sobre as condições do tempo com os noticiários. A surpresa de muitos foi perceber que os meios de comunicação ainda estavam inoperantes, e até as retransmissoras de televisão estavam sem cobertura local.

E Sioue, Henvellen e Ângela ficaram todo o dia tentando entrar em contato com a família e, em especial, com Bárbara, buscando, peripateticamente e em vão, sinais com seus celulares.

Uma outra pessoa, no entanto, dispunha de um telecomunicador especial via satélite, o qual estava plenamente operante. Ao constatar a busca das três moças, a pessoa prestou-se a fornecer auxílio.

– Com licença, posso ajudar?

– Sim, por favor – respondeu Gysph. – Estamos tentando entrar em contato com uma amiga nossa em viagem, mas não conseguimos.

– Ela pode ser contatada via satélite?

– Acho que ela pode, sim – interferiu Henvellen. – Mas não temos essa tecnologia.

– Eu tenho. Poderiam fornecer-me o número?

E após fornecer o número de celular da Svenska, as três esperaram apreensivamente uma resposta positiva que demorava a ser obtida.

– O sinal de GPS dela não consta aqui no Brasil. Ela porventura viajou para outra localidade?

– Sim. Ela mora na Rússia. Talvez já esteja por lá – disse Sioue.

E, ajustando o alcance do comunicador, após alguns minutos de busca, conseguiu identificar o sinal do celular da Bábi, que apontava estaticamente numa região litorânea da Bélgica – a que, como sabemos, o avião foi forçado a aterrissar.

O operador do aparelho questionou as moças:

– Por acaso ela havia feito uma parada na Bélgica? Se ela esteve em alguma viagem de avião, garanto que ela está parada.

– Estranho – comentou Sioue. – Ela nunca teria nada com a Bélgica.

– Ela não comentou nada comigo a respeito de uma passagem por lá – complementou Ângela. – Tente entrar em contato com ela.

Mas, apesar do celular estar chamando perfeitamente, ninguém atendia do outro lado da linha.


Ouvindo... Elton John: Tiny Dancer

Karta Citina: Cinco


Norte de Samara

O grupo ao qual Yüren estava presente havia sido imprudente, ao se dispersar floresta adentro. As recomendações dadas eram para que os grupos permanecessem unidos, para cooperação mútua. Um ou outro se arriscava a auxiliar os presentes a se dirigir aos postos de emergência, ao qual nosso amigo churrasqueiro e precavido se encontrava. Este, muito solidário, apesar da pouca experiência, desejava correr de encontro aos outros presentes para auxiliá-los, mas foi impedido pelos monitores de plantão, tamanho o perigo que sair estava se apresentando.

Os ventos eram preocupantes e estranhos, já que empurravam as coisas para o chão, algo que nunca antes fora presenciado por ninguém. Mas não havia tempo para se estudar o comportamento daquelas ventanias. Fato é que árvores mais robustas estavam sucumbindo ao chão aos poucos, o que tornou as atitudes do grupo desesperadoras.

A quem permaneceu com o detentor do mapa, mais uma desagradável surpresa: o vento remove da mão do aventureiro o mapa. E estes estavam em uma direção contrária a qualquer acampamento ou posto emergencial. Quedas eram constantes entre os membros da equipe, mas o espírito solidário em horas assim fala mais forte com a consciência, demonstrando afeição com o próximo. Após enfrentar os riscos por inesgotáveis vinte minutos, parte dessa equipe consegue alcançar outro posto subterrâneo para ali abrigar-se com segurança.

O mesmo não poderia ser dito ao outro grupo, onde Yüren se encontrava, embora um pouco à parte, no mais mesquinho estilo egoístico. Apesar de encontrar, na base da intuição de sobrevivência, daquelas que obtemos em momentos desesperados, um caminho aberto em direção a um posto, ainda que mais distante, árvores já se encontravam caídas, obstruindo as passagens e retardando a chegada dessas pessoas a algum local seguro.

Em tempo: Samara outrora enfrentou tempestades diversas, mas nunca algo de tamanha estirpe que pudesse descaracterizar o ambiente daquela forma. As árvores que não caíam, definitivamente estavam envergando de forma surpreendente, todas em direção ao chão, fazendo chover muitas de suas mais vigorosas folhas, às quais enfrentaram adversidades dos tempos frios com a maior naturalidade. Agora, elas eram protagonistas numa tenebrosa novela em que almas à procura de diversão campestre agora se viam cara a cara com um desastre pessoal.

Uma dessas almas que fora interrompido pela chuva de folhas em sua perseguição pela sobrevida era Áquil, o qual havia sido interrompido por uma pedra à qual não havia notado. Dando de joelhos direto ao chão, a colisão, certeiramente havia rompido ligamentos da sua rótula, deixando-o incapacitado para continuar sozinho. Necessitava, certamente, da ajuda de alguém.

Yüren era o último da comitiva que ali passava. Um dos poucos que ainda arriscava a carregar seu robusto equipamento, o qual ainda não havia descarregado. Atravessando o ambiente cuidadosamente, embora exasperado por sua vida, estava a um ritmo menor que os outros, tomando o devido cuidado com os tropeços diversos pelo caminho.

Deparando-se com a presença de Yüren, Áquil fez esforço para que seu clamor de ajuda fosse mais evidente que o coro do vento que ali soprava.

– Aqui, rapaz! Ajude-me!!! Quebrei o joelho, não consigo mais andar, por favor!!!

Yüren viu um corpo lançado ao chão e uma mão erguendo-se a pedir ajuda, entre a dança de folhas que permeava o local. Não imaginamos o porquê, mas Yüren percebeu que precisaria fazer algo ali, pois uma vida ficara solícita aos seus cuidados até o ponto mais seguro que pudesse achar. Mas mesmo assim, pelo fato de aliviar a carga, Yüren não desejou abrir mão do seu caro equipamento para auxiliar melhor o novato.

Outro mais experiente da equipe vinha de encontro aos dois. Este havia percebido que uma cadeia de árvores grandes estava em queda, como um dominó, em direção a eles.

Yüren fazia esforço em demasia para arrastar pelos braços o jovem rapaz até dar de encontro com uma pedra, que o faz tropeçar de costas, com equipamento e tudo. O terceiro campista não hesitou em auxiliá-lo a sair dali.

Uma árvore estava com iminente risco de queda exatamente ali.

Yüren, já sendo arrastado pelo campista experiente, reclamou efusivamente pelo companheiro.

– Eu não preciso de ajuda! Posso me erguer!!! Aquele sujeito caído ali é quem precisa.

– Não vai ser possível ajudá-lo! Preciso arrancar você daqui ou senão seremos três amassados por um tronco!

E Áquil, lançado ao chão, implorava com uma voz fraca e trêmula, ouvida apenas por Yüren em meio à ventania:

– Por favor! Eu te perdôo das críticas minhas, mas preciso de ajuda.

E, antes que qualquer um dos presentes ali pudesse tomar uma iniciativa em favor de Áquil, o tronco sujeito a cair despenca sobre o jovem. Uma terrível cena que apenas Yüren pôde assistir. O grito pavoroso que se sucedeu depois, das duas ocasiões, uma: ou causara uma lesão maior no jovem ou definitivamente o mataria.

Nenhum dos dois procurou saber do ocorrido. Poucos minutos depois, estariam em segurança no posto subterrâneo mais próximo, a esperar o dia amanhecer e o tempo acalmar-se.

Mas, aquela noite, a imagem da queda da árvore sobre o jovem ficaria tão latente na cabeça de Yüren, que o sono tardaria e muito para chegar aos seus olhos.


Caverna do Diabo, estado de São Paulo, algumas horas depois

Ângela, Sioue e Henvellen, já após uma balanceada refeição nos restaurantes locais, mantenedores das tradições do século anterior, encontravam-se em seu destino-alvo. As grutas que compunham o enigmático complexo de cavernas, que em questão de anos, tornaram-se atrações turísticas badaladas da região, por mais que nunca se modificassem – em termos, já que, por certas vezes, algum desavisado e ecologicamente inconsciente busca guardar para si um “pingente” de lembrança do local – sempre deixavam o trio maravilhado. Bárbara seria uma quarta que tiraria proveito daquela vista, mas não o faria por motivos de viagem, dos quais nós já estamos muito bem informados.

A badalação pelo local era tamanha que, por pouco, o trio não conseguiria participar da expedição por causa da capacidade máxima de visita por guia, que foi atingida por não muitos turistas após elas.

As águas cristalinas que escorriam pelas fendas eram constantemente iluminadas pelas luminárias utilizadas pelos guias e turistas que ali atravessavam. Os desenhos naturais pela parede enigmáticos que faziam jus ao nome do ponto turístico instigavam desde os mais religiosos aos mais pagãos. O ruído dos morcegos guinchando era a trilha sonora do ambiente, junto com o discreto bater de asas dos animais, incomodados constantemente pelas luzes andarilhas que trafegavam caverna adentro e caverna afora. Além de tudo isso, alguns aracnídeos e insetos compunham toda a fauna terrestre, entre as diversas estalactites e estalagmites milenares presentes, além de alguns peixes nos lagos de água potável.

Ali era um dos poucos, mas privilegiados lugares do mundo em que a tecnologia dos tempos pós-comtemporâneos era deixada de lado. Na melhor das hipóteses, ouviam-se ruídos dos rádios-comunicadores das equipes de expedição. Máquinas fotográficas eram proibidas nas mãos dos turistas, no entanto, os guias, esporadicamente, fotografavam os ambientes das cavernas em dias fechados ao público, e caso fosse do desejo do turista ter uma recordação do local, informava-se ao guia sua pretensão, e este lhe presenteava com um cartão postal do local mais próximo e parecido com o desejado. Nada dos novos anos vinte: somente a vida simples do século anterior.

Sioue era uma das que mais ficavam atemorizadas com tal cenário, mas esse era daqueles temores oportunos, os quais você se sujeitava plenamente a passar. O famoso não-querer querendo.

Bem vinha o grupo encerrar sua expedição pelo local, dirigindo-se às saídas, quando se depararam com outros guias, da expedição do turno anterior, retornando com quase todos os turistas. Todos tinham impressos na face o susto convicto.

Nem bem as explicações começaram a ser dadas entre os guias e turistas, perceberam-se barulhos de galhos robustos de árvores de porte grande chocar-se com a entrada das cavernas. Ao passo que as pessoas deixaram-se perceber, uma chuva deveras grosseira caía ao lado de fora do local, mas a força dessa chuva era de surpreender até mesmo os guias mais experientes que ali estavam. Ventanias urravam caverna adentro, amedrontando as pessoas que ali estavam.

Os que ali se abrigaram informavam que nuvens cinzentas e espessas vinham do nordeste, com uma rapidez incrível. Uma cortina de chuva era notável a quilômetros de distância, e junto com esses fenômenos, via-se, pouco a pouco, moradias mais rústicas e precárias sendo desfeitas pelos ventos que ali sopravam, na forma de diversos mini-furacões que descendiam das nuvens em direção à terra. Algo nunca visto antes naquela região.

E, por cerca de duas horas e meia, apreensividade e pânico generalizavam-se entre os presentes dentro das grutas e cavernas. A comunicação de rádio e outras se tornaram indisponíveis. Por diversas vezes, acreditava-se que o teto das cavernas sucumbiria ante os choques de diversos materiais que por ali voavam. Acuados no mais profundo antro das cavernas, pois as entradas entulhavam-se de galhos, troncos velhos e até algumas árvores inteiras, pedregulhos e, por vezes, granizos de tamanho considerável.

Após a decisão de esperar a passagem dos fenômenos por uma hora após a garantia de sua cessão, montou-se uma força tarefa com o intuito de desobstruir as passagens de saída, após um eficiente trabalho cooperativo, toda a equipe pôde enfim deixar o local. Era fim de tarde, o céu estava incrivelmente limpo de nuvens e o sol apontava o seu ocaso no horizonte. Nem aparentava uma tempestade ter atravessado a região.

No entanto, as surpresas foram evidentes e estarrecedoras quando as comitivas de turistas chegaram aos postos de controle e aos centros das cidades mais próximas. Alagadiços nas partes baixas e as suspeitas dos surpreendidos pelas tempestades confirmadas: árvores arrancadas dos solos, casas destruídas, debandadas dos comércios e, dos poucos que encorajaram-se a enfrentar as adversidades, soterrados. Um ou outro se salvara, e sua aparência denotava pura e simplesmente um contato com uma experiência cuja descrição com propriedade e equivalência assemelharia ao Juízo Final.

A preocupação havia tomado conta do trio de meninas, assim que os guias que as acompanhavam, bem como outros turistas da capital paulista, tentavam contato com parentes em outros lugares ou conectavam suas televisões portáteis. As poucas emissoras que ainda tinham sinais de retransmissão anunciavam tormentas parecidas em muitas outras regiões de capitais brasileiras. Janeny estaria a essas alturas no Rio de Janeiro, ou em curso à região amazônica. Independentemente da sua localização, comprovou-se, via rádio amador, a passagem de uma corrente de ar forte, por vezes seguida de granizo, de chuva ou até de grupos de ciclones de pequena proporção.

Mas as tentativas de contatar Janeny eram em vão. O alcance da telefonia móvel era horrível por todos os lados. Os turistas e guias, que somavam cerca de quatrocentas pessoas, estavam isoladas de todas as formas e assim permaneceriam por aquele dia.


Ouvindo... Prodigy: Smack My Bitch Up

Karta Citina: Quatro


Norte de Samara, início da noite

Já instalado na concentração, junto com outros doze turistas, Schuzkennott recebe as instruções, nas línguas inglesa e russa, sobre procedimentos de resgate e proteção pessoal contra intempéries, já que os monitores saberiam de uma tempestade fora de época se aproximando. Procedimentos de melhor fixação das barracas, de cuidados com manuseio de ferramentas perigosas à saúde humana, do uso de filtros de carvão ativado para fazer uso dos recursos hídricos locais, os locais bom para se permanecer no caso de fortes ventos, os abrigos subterrâneos para casos de maior incidência de granizo, entre outros detalhes imprescindíveis em um local como aquele. Yüren ouvia atentamente as informações, com um pouco mais de atenção que seus companheiros, os quais acreditavam aquilo serem instruções de praxe.

Não obstante, Yüren pré-julgou os outros onze companheiros como intransigentes, pois sempre considerou que instruções desse tipo eram vitais para a manutenção da própria vida. É, não por demais falar, que muitos desses outros aventureiros não eram simples campistas. E, sim, pessoas que enfrentaram destinos mais tortuosos, como as cadeias de montanhas do Himalaia. Talvez estes imaginassem que as instruções eram muito exageradas para a situação.

E então, os grupos seguiram caminho floresta adentro com os monitores. Eram oito grupos, distribuídos inicialmente nos sete postos de concentração na entrada da floresta, cujo nome na língua local significava “o local onde se revelam surpresas”.

Já alumiados por suas lanternas, os campistas ergueram rapidamente suas barracas. Um ou outro teve dificuldades em montar seus apetrechos. Certeiramente iniciantes. Um destes, de nome Áquil, solicitou um mão por parte de Yüren. Mas este, observando o relógio e verificando que se aproximava o horário estimado da cortina de luz, negou auxílio.

O jovem respondeu duramente sua decisão:

– Bem estar assim. Espero que Deus te pague o quanto você deve… Nunca ouviu falar de solidarismo entre campistas? Ei! Volte aqui!

Yüren nunca se importaria com solidarismo, quando qualquer assunto que não envolvesse pessoas estivesse à mesa. Ele, simplesmente, ignorou parte da resposta e, já no final desta, encontrava-se procurando o melhor local no topo da floresta, onde se transfigurava um vale à direção norte da Rússia. Havia uma visão de alcance extremamente grande no horizonte, seja para o céu que se estrelava, seja para os médios e pequenos centros que se estendiam naquela direção.

No ponto de vista de Yüren, foi melhor negócio deixar de ser cooperativo com um colega de acampamento em favor do fenômeno natural. No céu estrelado, porém nitidamente nublado no horizonte, viam-se faixas multicoloridas de feixes de luz começando a dançar, partindo do horizonte.

O relógio local marcava próximo das oito da noite.

A cortina de luz se apresentava lentamente, dançando conforme uma música que o vento parecia sussurrar. Nos momentos em que os ventos que ali refrescavam o rosto da nossa personagem pareciam menos fortes, a cortina intimidava-se a retrair de volta ao norte. Quando os mesmos ganhavam novo fôlego, a luminosidade parecia os acompanhar, como pequenos animais da terra que se retorcem como minhocas quando arrancados abruptamente dos seus dutos subterrâneos. E a cadência dos ventos e da dança das luzes era que, conforme o vento chegava, as luzes avançavam, num ritmo quase que constante.

Os outros campistas, que faziam suas rodas de música, fizeram-se lembrar do fenômeno que ali estava por ocorrer. A música, que na maioria do seu tempo, era pouco ritmada e digna de amador ou até mesmo principiante, dava lugar a sussurros nas proximidades do local onde Yüren se encontrava. Não foi demorar muito, os doze estavam apreciando a cortina de luz, que se mostrava latente.

Os relógios, ajustados, denotavam oito e meia da noite.

Foi quando se ouviu um chamado de apito e voz de megafone vindo da região das barracas. Eram os monitores, confirmando as notícias que receberam via rádio e foram anunciadas no noticiário, durante à tarde.

– Atenção campistas! Dentro de duas horas, será previsto uma tempestade de gelo média e inesperada. Granizos do tamanho de bolas de pingue-pongue. Recomendamos que tomem as providências de segurança nos próximos minutos.

Os alertas foram ouvidos ecoando-se em outras vozes, ao decorrer da faixa de floresta às margens do rio. Eram outros monitores alertando outros grupos a realizarem os mesmos procedimentos.

Um dos ali presentes, notadamente um dos iniciantes – não o Áquil – respondeu de prontidão o chamado. Havia deixado um conjunto de preparo de carnes ao relento. Sacrificou a vista daquele maravilhoso evento em favor da segurança da turma.

Os outros, no entanto, permitiram-se ver mais um pouco daquele espetáculo. Acreditariam que não faria mal eles alargarem um pouco em favor da cortina de luz os procedimentos de segurança. Outra voz foi ouvida no interior da floresta:

– Em caso de tempestade forte, pedimos aos presentes que se alojem no subterrâneo ao leste do nosso acampamento, conforme os mapas. Estaremos lá para oferecer o apoio necessário!

Nem mesmo Yüren estava atento, naquele momento, às recomendações.

O espetáculo seguiu harmonioso durante os próximos quinze minutos, quando as cortinas de luz de tornaram retas. O entusiasmo dos dez campistas foi espantosa. Yüren se regozijava diante de uma coreografia tão perfeita.

Mas as luzes permaneciam imóveis à uma direção, tornando-se focadas na direção do acampamento. Num momento, os ventos cessaram abruptamente e se ouviu um silêncio por alguns pouquíssimos minutos.

Os presentes ali se perguntavam se seria o fim do evento. Nosso jovem finlandês simplesmente olhava o fenômeno. E, repousando seus olhos no horizonte, percebe um movimento de nuvens bastante densas, aproximando-se com uma velocidade absurda do local onde eles se encontravam. Os povoados aos poucos deixavam de se iluminar. Os ventos começavam leves, mas iam gradualmente tornando-se mais potentes. Yüren havia notado a gravidade da situação, mas quando se ergueu do local para comunicar aos companheiros sua opinião que estavam a uma senhora distância deles, percebeu que a tempestade aproximava-se assustadoramente. Foi então que, correndo e com uma voz fora de seu tom normal, anunciou em desespero:

– Vamos nos deslocar para os abrigos! A tempestade vem ao nosso encontro mais cedo e mais forte!!!

E, quando se deram conta do assunto, assustaram-se com algumas nuvens deslocando-se direto ao chão a alguns quilômetros dali. Os ventos começaram a ficar fortes demais e a soprar em direção ao chão. A dificuldade de se erguer para correr ao abrigo era latente, e as tempestades se aproximavam cada vez mais fortes.


Norte da França, no mesmo momento

Após uma exaustiva transferência de vôo a partir de Portugal, Bárbara encontra-se a caminho, finalmente, do aconchego do seu lar. Portando uma discreta bagagem de mão num compartimento abaixo do seu banco, com itens essenciais para uma mulher, e um aparato tocador de músicas digital dos antigos. Bárbara se entretinha em canções celtas e vanguardistas dos fins dos anos dois mil, européias, brasileiras, americanas… Enfim, tudo aquilo que fosse de bom gosto naquela época, embora a maioria dessas canções seguiam na contramão dos modismos da época. Eram músicas de conteúdo, que tinham influência significativa na vida de Svenska. E ela não era a única a possuir tais bugigangas em mãos. Grotesca maioria dos passageiros que seguiam para a capital russa portavam também outros aparelhos, mas, seguindo a tendência mais moderna que havia em aparelhos tocadores: não era necessário acumular pilhas e pilhas de arquivos sonoros. Podia-se fazer isso alocando suas pérolas nos computadores caseiros, que bastava uma parruda conexão sem fio para fazer dos aparelhos verdadeiros periféricos remotos do que possuíam em mãos. E não eram simples áudios: videoclipes de alta definição, com dois, três, até algumas vezes contando com quatro ângulos diferentes de captação…

Nos dias atuais, a maioria dos grandes artistas que se prezem, fazem seus videoclipes imediatamente após produzirem suas canções. E trabalham demais: nos últimos anos, notou-se a tendência de se produzir um material anual contendo cerca de quarenta a cinqüenta canções – os mais influentes e competentes arriscavam sessenta -, quase todas possuindo seus videoclipes. Não se soube quem fez esta iniciativa, mas para emplacar uma música de sucesso seja lá qual fosse, era via sacra de regra produzir material visual, não por dizer menos, uma superprodução. Há anos, a juventude não se contenta mais em “apenas” ouvir. Quer “ver” aquilo que ouve. Fazer música e viver disso implicava no artista querer aprender noções de filmagem. E os ritmos variavam: tinha o Soup Jungle, o Glingbeat, o Stomp’a’Desks, a nova escola do Reggaeton e variantes como o Rockaeton e o Capoerreo, além do grande gênero Láite na América; o Freeairhall, o Verdismaracha e o Controlspace Electronic na Europa; o Tamaleruo, Flautirium e Almusika na África e Ásia; e o Reover Rock vindo dos povos desterrados das ilhas submersas da Oceania, presentes hoje nos territórios da Austrália e Nova Zelândia.

Bárbara, no entanto, corria na contramão de toda essa tendência juvenil de ter tudo aos olhos. Ela ainda preferia ouvir música do jeito antigo, imaginar uma imagem imaterial para a canção, algo que não representasse uma cena corriqueira, pessoas, coisas, animais ou plantas, ou qualquer coisa concreta que se possa imaginar. Canções de amor inéditas dificilmente brotavam no mundo, não por falta de vontade, mas por se esgotar a amplitude lingüística musical para se falar dele. O que se via, ou eram regravações, ou eram suítes compridas, muitas vezes maçantes, de um relato monográfico de amor. Dessas canções, Bárbara não sentia saudades, pois eram as que mais eram dedicadas a ela por Benny, seu ex-namorado meloso ao extremo.

Anunciando nos painéis que eles passavam pelo norte da França naquele momento, e que as condições climáticas pareciam favoráveis à chegada em Moscou dentro do prazo estipulado, Bábi se permitiu ligar o rádio numa estação de rádio – nos moldes tradicionais de antigamente, mas digital obviamente – da sua cidade de morada. Àquela altura, o sinal da rádio em questão estaria forte o suficiente para ser captado, e Bárbara poderia sentir-se mais próxima de casa, ouvindo músicas do cenário local, as “antiguidades” do milênio passado, gêneros históricos da música global…

Mas ao localizar a faixa de freqüência da sua rádio preferida de Samara, notou nenhum sinal. “Talvez sejam as condições climáticas”, pensou ela. E decidiu ajustar o ganho de sinal do sintonizador de FM. Grave erro! Mesmo com várias tentativas, além de não obter nenhum resultado, ainda prejudicou a instrumentação do avião. Sinais visuais atrás das poltronas dos bancos, no corredor, e sinais sonoros foram acionados. Um voz computadorizada padrão, em inglês, emite a seguinte mensagem:

– Atenção passageiros portadores de sintonizadores de rádio com ganho de sinal: desliguem a recepção de seus rádios ou desliguem o ganho de sinal. Os instrumentos de vôo estão sujeitos a interferências eletromagnéticas e a navegação pode ser prejudicada. Ressaltamos, porém, não entrarem em pânico, pois sistemas auxiliares de navegação foram acionados. O vôo prosseguirá normalmente. Repetimos:…

Antes que a repetição pudesse ser realizada, Bárbara percebeu o lapso de sua conduta, desligando seu portátil imediatamente. Muitos pelo avião sentiram preocupação por estarem usando seus aparelhos com tecnologia sem fio, achando serem os responsáveis pelo ocorrido. Bábi se exaspera consigo mesmo, sem elucidar ser ela quem ocasionou todo o prejuízo.

Alguns minutos após, a voz do comandante surge no sistema sonoro do avião:

– Senhores passageiros. Recomendamos que, numa eventual necessidade de uso de aparelhos portáteis para acesso a serviços remotos, utilizem a tecnologia sem fio oferecida pelo nosso avião. Recomendamos evitar o uso de quaisquer aparelhos de radiofreqüência de alto alcance. Celulares com tecnologias anteriores a 2015, rádios analógicos e digitais de primeira geração devem ser desligados durante o percurso da viagem. Na impossibilidade de uso destes aparelhos, favor utilizarem os serviços de internet móveis, o qual podem ser solicitados para as comissárias de bordo. Nossa viagem poderá estar sujeita a atrasos devido a necessidade de recompor os sistemas de navegação principais, no entanto, o vôo não será prejudicado. Obrigado pela atenção…

“Anos se passaram, e ainda não desenvolveram tecnologias para se ouvir um rádio sossegado dentro de um avião?”, pensou Bárbara consigo mesmo.

Mas Bárbara deveria saber que, para os novos sistemas de navegação aérea, capazes de evitar colisões entre aviões, salvo o crescimento de aviões supersônicos nos espaços aéreos, necessita-se da menor interferência possível de freqüências estranhas às utilizadas pelo avião. O vôo em questão contaria com sistemas de navegação um pouco mais arcaicos, o que seria um risco para a viagem, mas, por sorte, naquele espaço aéreo não trafegavam aviões muito velozes, o que afirmava a segurança do vôo.

Houve uma demora de cerca de trinta minutos até que os instrumentos pudessem ser resetados para operação plena novamente. A essas alturas, o vôo localizava-se nas regiões alagadiças dos países baixos, próximos à Alemanha.

Tudo parecia correr bem. Alguns passageiros encorajaram-se a utilizar seus aparelhos de música novamente dentro da maior regularidade possível. Bárbara permitiu-se ver um vídeo antigo na internet sem fio, enquanto consultava notícias do Brasil e da Europa. O vídeo em questão era uma linda canção interpretada por Marylenne Goethe Sândalo, e a música, Amargo Vento, o qual era mais ou menos assim:

Vejo nos sopros dos meus cabelos
Um amor rebelde, lobo em cordeiros
Que carrega meu amado ao penhasco
E que junto, em meu coração arrasto

Amargo vento que me fez
Ruir de uma só vez
Carregando todo meu sentimento
Riso sarcástico, mal contento

E nada mais em vida minha resta
Nem um convite faz mais boa festa
Diante de momento inesperado
Faz de mim brinquedo mal amado

Amargo vento que me fez…

Desolação, perjúrio à minha vida
Sem rumo, nem caminho, vinda e ida
Trazendo uma única solução
Minha ida à terra, dentro de um caixão

Aah… Eu não entendo!
Porque a raiva desse vento
Não jogou minha paixão ao mar,
Mas sim eu mesma, meu som, meu ar

Bastaria um só momento…
Carinho e entendimento
Para cessar a boca furiosa
Que dialoga toda ruidosa…

E, antes que o êxtase do refrão desse finitude a um clipe maravilhoso feito em locais litorâneos brasileiros, o sítio que hospedava o vídeo parou de responder. Outros conteúdos que a Bárbara também acessava deixaram de responder. Ao observar, a conexão sem fio estava péssima.

A voz do comandante faz-se presente nos sistemas sonoros do avião:

– Atenção Passageiros, acomodem-se em seus lugares. Nossos instrumentos estão detectando uma tempestade à nossa frente. Podemos estar sujeitos a algumas turbulências. Retornem aos seus assentos e coloquem seus cintos.

E os passageiros obedeceram imediatamente as ordens do piloto.

E então, sucedeu-se gradualmente uma chuva de granizo potente do lado de fora do avião, algo realmente assombroso para uma viagem aérea. Ouviam-se pedaços de granizo do tamanho de bolas de vôlei atingindo as latarias do avião. Os de mais idade voltavam-se às suas orações, zelando pelo bem do vôo. Os mais novos e, sobretudo, os que moravam na Rússia, estavam acostumados a situações até mais desfavorecidas.

Mas a preocupação tomou conta, de forma geral, quando se ouviu um estrondo na asa direita do avião, e começou a ocorrer uma turbulência atroz no avião. Iniciou-se um desconforto entre os presentes, não por psicológico somente: o avião havia despressurizado e as máscaras já estavam à disposição de todos. A turbina havia deixado de funcionar na asa direita, e era nítida a perda de altitude. O capitão retorna a contatar os passageiros do avião, procurando discursar de modo a não colocar os presentes em pânico.

– Passageiros. Procuremos manter a calma. Seremos obrigados a realizar um pouso forçado em breve.

E muitos se abaixavam, procurando ficar de cócoras no banco, ou em posição similar para proteção pessoal.

– É o fim do mundo!!! – clamejava do fundo um senhor, notadamente um ortodoxo cristão.

Bárbara sequer pôde perceber o quanto possuída pelo medo estava. Talvez ela tivesse tido uma reação ao saber, ainda com o sinal às derivas do serviço de internet, que poucos minutos antes, a região de Samara fora acometida por outro evento meteorológico cruel. Essa reação talvez seria a que ocasionara um sentimento de desespero pelo seu companheiro Yüren, que a essa altura estaria chegando na cidade, segundo o que ela supunha. Será que ele estaria a salvo num abrigo? Ou estaria à sua espera ainda, em algum lugar mais sujeito às intempéries?

Antes que Bábi pudesse esboçar qualquer reação a respeito de si, um horrendo coro de desespero toma conta do avião, que espatifa a pensa asa esquerda com violência ao chão, por alguns segundos antes de parar.

Futuramente, os relatos dariam conta da queda de um avião na região serrana, de um campo aberto na região da Bélgica, sendo que por pouco o avião não aterrissa no chamado Mar de Nova Atlântida, aquele que invadiu os Países Baixos com a elevação do nível dos oceanos.

Quem testemunhou os fatos, com certeza não viu o ocorrido: também procuravam salvar-se de um estranho fenômeno. Um feixe de ventanias e tempestade fortes, soprando as nuvens dos céus até o chão e derrubando construções antigas para todos os lados. Os sobreviventes relatam que se safaram por se abrigarem nos subsolos de suas casas.

Quanto aos passageiros do vôo de Moscou, todos ficaram desacordados.


Ouvindo... Red Hot Chili Peppers: Fortune Faded

Karta Citina: Três

Para acompanhar a seqüência da história, clique nos links abaixo:

Prólogo Capítulo Um Capítulo Dois

Capítulo 3


São Paulo, 6 de abril de 2024

O sol amanheceu, como diria Sioue, "anoitecido" na região da capital paulistana. Disfarçado em vermelho com um céu carregado de azul, não se sabia se pela densa cortina de poluição costumeira dos automóveis mais antigos, ou se por um fenômeno chuvoso que costumava ocorrer ali naquelas épocas. Importante é que o trio de patricinhas aventureiras ainda fariam mais uma escala antes do término de suas férias: três dias na Caverna do Diabo, mais ao sul do estado.

Ângela, como sempre, mostrava-se interessada em cada palavra trocada entre suas duas amigas. Comentavam sobre as aventuras da Janeny, que voltava ao seu trabalho de pós-graduação em campo na Área de Proteção Vigiada da Amazônia, entre Brasil e Peru; das atividades que Bárbara promovia na Samarasoul, como coordenadora de um projeto de resgate musical do folclore russo. Já citando sobre a Bábi, Ângela traz à tona todo o seu apreço por Yüren, numa postura explicitamente parcial e defensora de um caráter frio que ela nem conhecia.

Sobre isso, Henvellen foi amplamente concisa e categórica:

– Ah, Ângela, minha pequena… Perdoe-me a Bárbara, perdoe-me você… Acho que vocês vêem uma vantagem inexistente nesse sujeito nórdico. Posso estar enganada, mas isso que vocês duas praticam é um clichê bem famoso. Chama-se "amor platônico". Ambas alimentam tanto sentimento de confiança cega no tal do Yüren, que acho que uma energia invisível liga esse mérito ao rapaz. Espera! Eu disse mérito? Perdoe-me: de-mérito! Porque acho que ele percebe isso e fica alimentando seu ego de individualista. Fica se achando o tal, e que é poderoso, é incorruptível. Enfim. Fica criando muitas falsas qualidades para si e se acha perfeito, tamanho tanto mimo que se acumula. Eu conheço a Bárbara há mais tempo e melhor que você. Já vi o sujeito. Ele é um poço de amarga indiferença, mais do que qualquer europeu, e mais do que qualquer um possa suportar. Você deveria imaginar os beijos dele…

– Sim… Beijos de galã de cinema, na certa!

– Que nada! Ou talvez sim, no sentido de serem técnicos. Ele os fazia com a Bábi por compromisso, nunca por sentimento.

– Eu acredito no potencial emotivo das pessoas aflorando, nem que seja após um longo tempo.

– Olha, Gysph – interveio Sioue por Henvellen. – Minha querida morena. Aquilo, eu bem vi. Não é uma pessoa. É um robô. E um robô que mal sabe ser cortês, até mesmo com o dinheiro que ele ganha.

– Mas eu ainda acredito! – disse Ângela, trazendo as mãos ao peito – E, se a Bárbara não consegue desdobrar tal coração de pedra, desculpe-me minha falsa sinceridade: queria eu ter esta chance para fazer isso.

As outras duas amigas segredaram discretamente um sorriso. Fato que deixou Ângela muito curiosa.

– Ei! Por que esse conluio entre as duas?

Sioue tomou a iniciativa de compartilhar o momento hilário com a curiosa em questão.

– Se você conhecesse a Bábi como nós conhecemos, saberia que não se pode cobiçar nada de posse dela. Para ter o que ela tem, você teria que matá-la!

Henvellen acrescentou imediatamente:

– Não! Isso você não consegue! É mais fácil orar para que ela morra! E vamos logo… Não podemos perder esse ônibus para Curitiba, ou senão chegaremos atrasadas ao destino.


Após uma extensa viagem, e num tempo absolutamente frio, com ventanias em excesso, Yüren percebe os freios do trem-bala em funcionamento. Duas vozes, anunciando em inglês e em russo o próximo destino. No lado externo, percebe-se um grande centro urbano se aproximando. As placas não negam: as inscrições em cirílico indicam a chegada à estação central de Samara do Expresso Transiberiano.

Desembarcando com sua bagagem, uma mochila robusta e uma valise com ferramentas, nosso seco e mecanizado personagem toma as informações necessárias para chegar ao posto de acampamento. Ali, ele receberia os roteiros de aventuras que poderia fazer na floresta ao norte da cidade, bem como a programação dos fenômenos naturais que ocorreriam aquele mês. E, segundo os especialistas em fenomenologia espacial, haveria uma cortina de luz noturna cortando os céus por aquelas noites. Uma espécie de Aurora Boreal que ocorre em menor escala de tempo. Fenômeno que passara a ocorrer há cerca de dez anos e não se soube o porquê. Especialistas acreditavam na existência de um fluxo maior de ventos solares direcionados à Terra, ou de efeitos retardados do fim dos buracos da camada de ozônio. Apesar da beleza proporcionada pelo espetáculo quase que natural, este prenunciava um período de clima absolutamente instável, ora seco, ora com pancadas de granizo.

Certo era que este espetáculo de cortina de luz chamava a atenção de Yüren todo ano desde que ele começou, sendo este o motivo principal de suas idas à aquela região. E talvez em menor motivação, pela Bárbara. Muitos ficariam pasmos em saber que, mesmo diante de tão estimada pessoa, Yüren ainda prefira a solidão…

Faltava comprar os mantimentos para os dias que se seguiriam na floresta ao norte da cidade, próximo ao rio. E nosso jovem decide passar pelo Gerialska, loja de tradição. Recente, mas de tradição.

Lá, fazendo suas compras, notou o noticiário local fazendo a previsão do tempo. Nas imagens, percebia-se o surgimento de possíveis frentes frias, deslocando-se da região da Lapônia ao sul.

Dois jovens, que pelas vestes e apetrechos, poderia deduzir-se que faziam o mesmo programa, saíram correndo, abandonando as sacolas ao presenciarem o evento da meteorologia. Algumas frutas que ali estavam nas sacolas se perderam ao chão, sendo pisoteadas pelos clientes. O dono da loja esbravejou num incompreensivo russo.

Sentindo a curiosidade atravessar seu pensamento, Yüren decide consultar outro comprador, que também presenciara o noticiário. Perguntando-lhe em inglês, este fez-lhe um sinal gestual pedindo para que repetisse a questão pausadamente.

Elucidada a pergunta, o jovem custou a esperar a resposta do senhor, que procurava falar o melhor inglês possível, mas não conseguia. O homem, já idoso, deslocou-se de volta ao balcão de frutas e foi respondendo como podia:

– Previsão… Clima… Chuva de gelo… Dificuldades… Esportes ao ar livre… Sugestão… Procurar locais seguros.

Mas, quando o senhor idoso julgou ser o suficiente sua resposta, e foi expectar uma contra-resposta do jovem, percebeu que este havia já pago suas compras e seguia com uma caravana até a região de florestas.


Ouvindo... Aerosmith: Back in the Saddle