A Máquina do Mundo

Gênese

(…) O amor existe,
mas não num ser vivo que se move.
O inesperado insinua-se no que parece definitivo
e ninguém se conhece antes de morrer. Ámen.

Gonçalo M. Tavares, “Uma Viagem à Índia”, canto IX, 89


– Sr. Orson…

Orson estava aos delírios… Tinha pedido a décima xícara de café só aquela tarde… Estava aflito tentando resolver o problema dos discos rígidos da unidade JPTR40887-13… As unidades F: e G: estavam corrompidas. Haviam notas importantes a serem descritas no relatório EAX do mês. Custava caro solicitar os backups em Seattle. O orçamento estava em baixa… Maldita crise econômica!

– Porra! Já te disse: estou fazendo o melhor que posso!

– É melhor você ler isso.

Horror ter que ser o técnico de informática sênior da equipe. Mesmo se utilizando da tecnologia mais avançada de cabeamento de dispositivos de armazenamento possíveis, demoraria uma eternidade fazer a reconstituição do disco todo. Processo arriscado e sujeito a insucessos. Culpa daquele estagiário novo que utilizou o terminal pra acessar o Facebook dele, justo no momento em que havia ordens expressas de desligamento do subcircuito para manutenção nos geradores. 10V a mais fazem a maior diferença nos processadores, placas-mãe e sabe-se lá o quê.

E cai nas mãos do Orson o periódico do Governo, publicação fechada e mais que protegida nos bastidores. Está marcado: um envenenamento de cache nos servidores onde estão justamente os dados em cópia. O prazo? Vinte e quatro horas.

– Eu precisaria de três unidades vasculhando os dados e fazendo cópias também… Dá pra dispôr a unidade JN171089-11 e ATHN180192-8 como salvaguarda? Tem muito espaço nelas, sobretudo a última…

– Nanana… Ambas possuem a mesma capacidade… A Atena – como era popularmente conhecida – é muito produtiva pra nós… Não dá pra ficar dispondo assim, à toa. Prioridade A1++.

– Não passa longe desta que é A1+. Tem dados interessantes aqui que você nem imagina.

– Vire-se! Você tem que arranjar uma forma de resolver seu problema como pode.

“Mas estou fazendo o que posso, não percebe seu mercenário aponta-tarefas, trouxa…”

Orson mordeu o lábio, ao ver o seu superior-administrativo dando uma triunfal meia-volta deixando, sabe-se-lá-como, a revista cair aos seus pés, enquanto ele, suando vergonhosamente, religava os cabos das unidades X:, Y: e Z:. Era a última manobra capaz de fazer pra não perder mais os inputs

Mas ele sabia que não os perderia mais do que já perdeu. E bem sabia que se isso vazasse de alguma forma pro Magnânimo, seria deixado ao olvido. Já ouviu falar do olvido, e pensar que era aterrador era pouco… Seria inefável pensar…!


 

Dionísio Crístina morava nos subúrbios de uma cidade pacata, próximo à capital. Vivia uma vida bastante interessante até então… Tinha seu violão e seu teclado, mas faziam meses que não os pegava pra tocar: era a época das aterradoras provas de Semiótica. Ô ciência mais pela-saco, pensou consigo enquanto tentava entender como se definia o Sujeito e o Anti-Sujeito.

Estava às voltas ao ler a saga Fallen… Por questão de economia, pegou essa série, pensando que, por ser destinado à pessoas muito jovens, depreenderia de modo mais fácil quem seria quem, no tocante aos actantes ali dispostos. Condenou seu professor de curso, que veio lhe surpreender nas prévias da avaliação que ele havia se precipitado em fazer a atribuição dos actantes.

– Meu jovem, talvez sua perspectiva de estabelecer esse ponto de vista pra quem seja o Sujeito e o Anti-Sujeito esteja certa, mas tem certeza que não quer pegar algo estabelecido na literatura há mais tempo? Nem tenho certeza se a saga já foi finalizada no original… Não acha que se precipita julgando que Daniel é o Sujeito e Cam o Anti-Sujeito, assim, terminantemente? Leu com atenção o Epílogo do primeiro livro?

– Tudo bem, parece meio nebuloso aquele acordo, mas Cam é virado pro tinhoso, pro capeta… Isso não tá preto-no-branco?

– Depende do ponto de vista enunciativo que está tomando… E você é cristão, certo?

– Sim, óbvio. E que tem de mal nisso?

– Nada, Dionísio. Mas lembre-se que eu posso pedir na prova uma contra-perspectiva. Quero ver se você lida com uma posição contrária…

– Tá certo… Tá certo… – ateuzinho.

E Dionísio deixou a sala de aula, seguindo caminho para o refeitório de sua faculdade. No caminho, deparou-se com um helicóptero negro de passagem. Tivera um rápido desmaio, mas se compensou de novo.

– Que foi? Tudo bem? – perguntou Mara Helena, sua grande amiga desde os primórdios de seu curso.

– Nada, nada… Só aquela impressão de ter ouvido um “SMA” em morse na cabeça de novo agora… Não sei porque.

Mara Helena não conseguia disfarçar a preocupação que tinha com o amigo. O semblante dele expirava preocupação: “Tadinho… Deve ser a Semiótica… É muito pr’uma cabeça literária feita a dele.”

E buscou distraí-lo com um gracejo enquanto ingressavam fila adentro.


Ouvindo... Sophie Ellis-Bextor: I Won’t Dance With You