Melissa: A Dupla [3]

Dia dez… Me parece que, apesar da manhã nebulosa que faz aqui em São Paulo, eu e a minha – estranhamente atraente – irmã Daph seguimos nosso caminho pela linha que passa ao lado do Eldorado, em meio-ligeiros cinco minutos até a padaria da Estrela, onde vamos desembarcar e caminhar até a Cidade Universitária. De lá, pegamos os Circulares: ela, no lado daquelas casinhas máximas (ainda quero morar numa delas e ser a rainha do próprio espaço) em direção ao IME, pro seu curso especial; e eu, eu, bem, à minha amada-enquanto-grego FFLCH, assim porque eu vou encarar uma aula com aquele professor gente-fina…

Gente-fina? É como se houvesse uma criatura de bar imersa dentro do meu subconsciente, falando que o tal professor de morfologia seria pessoa confiável pra empreender uma conversa informal. Mas peralá, como é que posso dar crédito a alguém que fala que foi considerado superdotado no Japão? Sim, gosto de baixezas, mas gosto das baixezas clássicas, das escatologias priápicas, Aristófanes, o Falo no Jardim… Ah, o Falo no Jardim, qual digna obra do latim, eu a quero de presente da Beatriz… ooops, não! Rubens!

Engraçado… De repente, eu passei a admirar a minha grande colega do inglês Beatriz, não sei por quê motivo. Tudo bem, gosto de moças, não nego isso, negar eu sei que é ruim… Mas da Bia eu gosto pelo que ela faz, não pelo que ela é… Sobretudo porque me veio à mente aquele corpo de bailarina-de-dança-ventre em performance…

Uma imagem tipicamente de gosto masculino…

– Me-el! Acorda! Deu de dormir em pé? Veja: canteiro de obras. Chegamos.

Realmente… Deu de querer pensar mais que o normal por hoje… Como se mais uma consciência povoasse minha cabeça, e bem que estava me sentindo como que pensando fora de mim.


Tinha um sujeito falando bobagens no busão hoje… Ele falava no fim dos tempos, falava do que eu bem conheço pela Máquina do Mundo, Imbecil, Diz que faz matemática, mas não faz no IME, está com um jornal nas mãos, lendo a coluna de Cultura, Aquelas novelas da Globo, bem eu sabia santo Chomsky que não fazem bem, Viu Fantástico, anda cumprimentando todo mundo com uma cara de bunda, O pai dele não faz nada!!? Alguém, por favor, dê um atestado de demência pra ele? Bem, não posso me preocupar com estranhos, sobretudo com estranhos que andam anunciando o fim dos tempos… 1999, 2000, 2012… onde vamos parar? Máximas de Grice, vocês são o meu mantra em horas assim. Ele olha pra mim com uma cara de quem viu um assombro, como se lembrará disso por décadas e décadas, santíssimos! Se parar pra pensar, ele tem aquela cara de alien, feito uma lembrança remota e tão recente que me absorve a cabeça.

Detesto essas pessoas que ficam esquadrinhando sua alma, com a face mais descarada possível e inimaginável. Apesar dele se denominar matemático, eu bem vejo – pela pouca psicanálise que conheço – que ele será daqueles grandes observadores do mundo, daqueles seres que querem descobrir a palavra perfeita, o verso sublime, o objetivo gigante. Há algo naquela alma muito grandioso. Isso é uma afirmação que faço em mente, Faço e assento, basta aqueles olhos esbugalhados pararem de ver o evidente, e passarem a ver o profundo das coisas, Saber esquadrinhar o universo interno dos outros, Saber ver sem ver com as vistas, Bem sei o que é ver o que não é visto, Vide o morfema vazio, vide as estruturas invisíveis das línguas, vide tudo, meu jovem. Te dou um augúrio: você sairá dessa certeza de exatas, meu caro, Sairá dessa certeza e perceberá como o mundo das incertezas das humanas é muito mais interessante, Não virará os olhos para os lados, diante desse ente mais completo e intrínseco da existência: a língua.

Pronto! Ele desceu na UNIFIEO, e eu sigo com os ventos que levantam as folhas no decorrer do caminho em direção à portaria três, O dia nublado na capital paulista será muito produtivo, Algo há, Theo, Algo há de divisor de águas a partir de hoje, O matemático, ah o matemático, Foi só uma infeliz coincidência, Coincidência de quem vislumbrará algo novo provindo do Destino…

E pensar no Destino assim em maiúsculo, me lembra invariavelmente na chata da Melissa aaah!, eu vou ter que encarar ela no meu encalço mais uma vez.


“Pensei no Destino, Bia”

O quanto eu agradeço pela minha habilitação… Não há palavras pra isso.

– Imagina, querida! Eu é que tenho que dizer o quanto o Destino é importante pra mim. Pra mim, pra você, pra todos… Eu juro que quando entrei aqui, não entendia dessas coisas… Achava o mundo grego uma coisa de sete cabeças…

– Sete cabeças só a Hidra, querida Bia!!!

– Enfim enfim… Deu até vontade de fazer matérias do grego contigo.

– Eu sei. E quem não fica com vontade quando ouve falar da mitologia?

Se bem que eu acredito piamente que não há uma simples mitologia. Acredito no mito do Andrógino, acredito em tudo que Platão disse – e a Elaine contesta, mas mesmo assim a considero modelo de influência – e bem imagino o quanto seria menos conturbada a época se voltássemos aos preceitos da grécia clássica.

– Ah, Mel! Você é um gancho na habilitação, sabe? Anote minhas palavras: acho que dentro de cinco anos não haverá outra como você. Sabia que o Theo até está se prestando a fazer uma matéria clássica também.

Pronto… Meu dia se inicia muito bem… “Valeu, senhorita Beatriz.”

– Ele? Bia… Bia… Ele é um pobre coitado que só foi parar na Linguística por medo de aprender uma língua. É sempre assim… Esses linguistas estão ali porque não querem literatura ou não conseguem adquirir léxico. E vale aquela máxima: se não aprende bem um algo, se aprende muitos algos não muito bem.

– Ah, Mel… Querida! Não acha que é implicância sua alfinetar desse jeito o pobre coitado do linguista?

– Nãoooo, Bia… Não é a questão dele ser um pobre coitado. Coitado um coisa nenhuma. Ele bem entende do que ele sabe, sabe de muito, sim, eu sei, mas sabe. Deve ser uma daquelas pessoas que queriam se realizar na engenharia, sei lá.

Volto a tomar um gole do meu suco, enquanto a Bia me olha com uma face tão paralisada.

– Que foi?

– Fiquei te estranhando… É você mesma?

Por que estou sendo posta em dúvida?

– Hum… Por que você diz isso, Bia?

– Numa hora dessas, você se divertiria fazendo do Theo seu saco de pancadas.

– Queee… Quem disse que me faço de saco de panca-a-a-a…

Nem me dei conta se tomei todo o suco da Lanchonete. Só me vi indo pro banheiro num lance de escadas como que o raio de Zeus que consumirá os ossos do boi.

– Mel… Me-el! – a Bia está batendo na porta do meu banheiro. Mas não sei se abro pra ela.

Fala!

– Tá passando mal?

Será que só eu percebi o clítico erroneamente utilizado no contexto? Ou será que a Bia estava pensando em inglês e esperava por um enclítico? Eu ando me perguntando o porquê da primeira pessoa se manifestar dessa maneira tão absurda hoje, como se houvesse outro ser dentro de mim.

E, principalmente, ando me perguntando o porquê acho conhecer tanta linguística quanto o Theo… Será que os deuses estão de brincadeira comigo? Gosto de acreditar no joguete do Destino, mas acho que hoje está um pouco demais…


Eis, Prédio de Letras, Lar de Camões, de Pessoa, de Machado, de Clarice – embora eu concorde com o professor metaleiro que ela seja uma escritora-cozinheira-de-fogão – de Drummond e agora de Saramago, São quase quinze pras oito, e há um monte de gente na área externa, uns descansando na mureta, alguns outros puxando um beque, Não que eu vá contra eles, mas eles por eles e nós por nós, Ah, olha lá o Caio, grande bixo, Diz que vai fazer linguística, Bom caminho o dele, a Vanessa colega de bons tempos de ano básico, foi pro espanhol, Dizia que me seguiria no árduo caminho das pedras da Linguística, que fraquejo! Olha só, o Luiz, como vai meu camarada? É assim, muitos gestos, poucas palavras, hoje decido investir no extralinguístico.

Fome… Não fosse a Corifeu, hoje iria bandejar no café, com a Elisa e a Sara, gente incrivelmente especial, Eu falo, elas vão derreter corações algum dia, Fazer o quê, meu caminho mesmo é ir naquela lanchonete que a cada gestão do Centro, vai inflacionando os preços, mas fazer o que…

Olha só, a Bia está lá, com dois sucos de laranja na mão. Ela não é dessas coisas. Olá, Theo, ela me chama, saudades dela, digo, Tem promoção de fidelidade de clientela, brinco com ela, Ah, o suco? Nada demais, alguém deixou aqui, mas acho que não aguento tanta laranja. Tuuuudo bem, não sou de rejeitar suco, já peguei. Hum, sem açúcar, como bem gosto, e gelado! Ei! Quem pediu esse aqui? Aaah, aquela minha colega, a Mel.

Tive que me lembrar de Grice para evitar de cometer uma gafe diante da minha amiga Bia. Compartilhar da mesma garrafa da Melissa, benza! Não é por nojo meu… Poderia ser do dela, Ela volta pra buscar? Não, não creio, tava falando com ela, de repente ela seguiu caminho pro banheiro. Nossa! Nunca ouvi falar da Melissa passar mal, o que foi que houve? Ahn, eeh… Bem, acho que deve ser uma rinite, sabe né, esse tempo nublado, fumaça da Rebouças.

Bem alguma coisa me chamava a atenção, Tudo me parecia misterioso, Um aroma de cerrado tomava conta de minhas narinas, Era a chapada, era a noite me chamando à lembrança, Experimento, Experimento.

Me sentia impelido a caminhar em direção ao espaço aberto da Letras com a Sociais, haviam cerca de vinte pessoas por lá, talvez mais, Não sei, Era algo além de mim, Vi ela, o mistério de desde os meus tempos de início de curso, aquela beldade que por algum motivo desconhecido sempre entrava em pequenos atritos comigo, Pequenos, eu digo, pois no que a vi, um espírito complacente me impeliu a Está tudo bem com você Melissa? A Bia me falou que você passou mal, quer uma ajuda?

Não entendo o que tá havendo… Só consegui processar agora o que presenciei, quase que como espectador, quando ela me olhou com as pupilas mais que contraídas, com um tom de voz totalmente diferente do já costumeiro. Que é que você está fazendo aí!!! Por que você não vem pra cá ocupar o seu devido lugar!!! Eu devia estar aí!!! Maus agouros pra você, seu monstro!!!

E se recolheu num passo desconcertante, quase que no choro, com todos os presentes, desde a escadaria até o acesso da biblioteca, nos olhando, Sinceramente Melissa, quanto mais tento te entender menos te entendo, Não há Semiótica capaz de te explicar.


Ouvindo... Sophie Ellis-Bextor: Bittersweet

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Melissa: A Dupla [2]

A terça de manhã me soa surreal… Do nada, já me desperto dum desperto muito inócuo, lembro-me dos ruídos incessantes tomando posse de meus ouvidos, Cara, como eles zunem até agora, Lembro-me dum sonho tão palpável mas tão palpável, uma narrativa tão acessível, Será que foi verdade? Não, não pode ser, Eu não acredito nessas coisas de aliens, Mas meu sonho – se é que foi assim – me trouxe dois personagens, esguios, magrelos, com contornos suaves, com olhos avermelhados e evidentes, Uma palavra que me soa constante no inconsciente – experimento – experimento – fica ecoando na minha cabeça, Não é porque o ouvi nesse fato, sequer me lembro de alguma língua humana naquele momento, Mas é como se fosse tão familiar, Tão familiar aquela ruidera, Meu Chomsky que me salve! É ele, Sim, é ele, Tem certeza, Óbvio, procuramos tanto tempo por isso, É nossa chance de descobrir o potencial desses seres, O que raios acontecia nesse sonho, não sei bem dizer, Uma dor me persegue até agora na nuca, um calor bem intenso. E se nos enganarmos, Não sei, O que pode haver é um aniquilamento de consciência, E se ocorrer, Que não ocorra em público, Por quê, Silêncio, ele pode estar entendendo, Estou vendo, Estado de suspensão, rápido, Espero que ele tenha períodos de descanso fácil, Essa raça é previsível, entrega-se à loucura e ao desvario com algumas dezenas de horas despertas, Jamais vai achar que isso é real, Asseguro.

Gelo possuindo minha alma, a imagem de toda a minha vida sendo repassada na minha frente. Meu primeiro brinquedo, minha primeira palavra, detalhes que me tomaram a consciência aleatórios, misturados. Chomsky! Me dou conta, e me encontro estarrecido diante do Sol da manhã, refletindo sobre como seria eu se não fosse eu, Por que você faz isso, Sei lá, lidando a noite toda em aceso, em apagado, não sei o quê qual motivo, penso em mim fora de mim, Foi como se eu tivesse sido arrebatado de mim e posto noutro corpo, Ficava vasculhando minha cabeça tentando lembrar de alguma coisa que algum grego lá dos tempos dos grandes discursos filosóficos comentava, Mas ah cara, Sem crises, Sua vida é a ciência lógico-discursiva na linguagem, o Gerativismo é tua pátria, gregos? Ah, vá a merda, os gregos ficaram pro passado, nem língua viva eles têm, O que há de herança hoje? Um país submisso à União Europeia, Onde está o passado glorioso, Quem sabe, Quem sabe é apenas aquela tua colega Melissa! Ah não, a Mel…

E fato é que devo estar farto de Diamantina, Fofocas, focas estranhas tomam meu imaginário, algo que veio como que um automático, Como pode isso, Não sei estou cheio de perguntas e poucas respostas, Só me lembro do desejo da noite de segunda, e que amanhã, começo meu quarto semestre, Quatro sempre foi meu número de sorte, Um quadrado, os ângulos retos, A retidão, O positivismo e a certeza de que o Gerativismo resolve tudo. Que vão à merda os Estruturalistas, os Cognitivistas, os estudiosos classicistas, importa a minha Linguística, importa que basta um simples método acústico, Eu sei, A lógica distintiva, E pronto, Basta decidir quais itens da linguagem promover para verificar o quanto o método é infalível.

Infalível, É ele, Não há outro, Não fosse essa cabeça cheia de ruídos, teria eu plena consciência de ver ele em sua totalidade, Mas essas fofoquinhas tão estranhas que me absorvem à cabeça, Não sei, deve ser a noite mal dormida, e eu tenho uma necessidade urgente de tombar à cama, Mas o café me está aí, Meu jovem, algum problema, Não não, estou bem, Certeza, seu rosto se encontra pálido, Pálido, Palidérrimo, Fosse eu dizer pra você, menino, tu teve de ter uma experiência ufanística, Mesmo, Verdade, dizem que aquele paredão que você fez o repouso na última noite, por vezes, é visitado por etês, Etês! Verdade meu jovem, ontem mesmo, tava lá com meu caboclo, ele dizia, Mulé, vem vê o que tá ali vagando no céu. Ai, João Caipora, respondi, deixa se aprumar, não percebe que são aqueles tais de vião que o povo da cidade fala tanto, vai ver um pouso de mergência. Deixamos o assunto morrer, e fomos cuidar do nosso forninho. Mas descanse, Não, não posso, a viagem será longuíssima e eu tenho que partir o quanto antes, Certeza, Absoluta, Eis a conta, jovem, dinheiro ou cartão?


Nunca tive a sensação tão magnificente de me banhar e sentir a pele tão lisa quanto antes… Eu, Melissa, meia-irmã da Daph e invejada por muitas na Faculdade, como não me dei nisso antes, e refletia, numa fração de segundo, o quão bom era ter, depois de tanto tempo, ter me olhado detidamente no espelho. Saí de uma noite terrível, era como se não tivesse dormido há dias… Estava cansada! Sim!! Estava cansada, e renovada, e bem não sabia, por que, ao mentalizar essas coisas, me soava tão estranho me qualificar com o feminino. Afinal, eu era uma mulher, e estava espetacular. Apesar do tempo nublado que fazia por aquela hora, tinha certeza de que poderia sair pra desforra me valendo do arsenal que me esperava do lado de fora.

– Ó sua doida! Vem cá, vai me deixar tomar o banho ou fazer uma super-produção? Arranjou namorado, enfim, Mel?

… ó Zeus! Lançai um raio de oblívio nessa ignorante. E o rogo foi tão intenso em mim, como que se a instância de um homem tomasse meu ser. E essa sensação me acompanhava desde a hora que acordei…


Nove, um número que sempre me incomodou, terrível martírio, E quando vou dormir, Não sei, Cansado, Só quero me esbaldar na cadeira do rodoviário a caminho de São Paulo, e começar a me preocupar com a Linguística meu amor, e português o meu terror. As paisagens se sucedem, desde a manhã e até a noite, Uma melancolia me toma seriamente, como que se abandonasse uma parte de mim lá, na Chapada, como se uma vida fosse lá, Deixada, Experimento, Experimento.


A Daph estava lá, esperando na porta, com o seu pijaminha verde-piscina, com sua face corada, parecendo uma bonequinha.

– Vamos, Mel… Eu sei que tu demora uma eternidade pra tomar esse banho, mas eu tenho que ir pro IME logooo!

E depois de tentar lembrar a (diga-se de passagem longa) noite de sono que vim a ter, percebi que havia algo de diferente naquela manhã. Perguntei a mim mesma se possuía quarenta anos, dado que sentia ter uma longa experiência de vida, como se tivesse vivido duas vidas, e muito distintas: como se, a cada sonho que tive, vivesse uma era, uma experiência de outra vida. Fazia sentido pra minha imaginação pensar que o panteão olímpico queria testar minha honra e glória, me atribuindo uma segunda vida. E eu sabia! Sabia muito bem o que fazer, os sonhos não eram disformes, ilógicos ou sem nexos. Talvez um surto de consciências no plano mais profundo das ideias me perturbava. Uma experiência exata, strictu sensu, a lógica, o estruturalismo, o gerativismo… Lembro da Linguística básica do ano anterior, e ela passou a fazer melhor sentido em certos aspectos. Pensei na FonFon do semestre anterior e como todas aquelas explicações tão rápidas do Viaro faziam sentido agora, e de um modo surpreendente. Lógica na fonologia, lógica na sintaxe… Uma segunda leitura de literatura se apossou de mim, um modo diferente de vida…

– Orra, Mel! Parece que você tava travada na privada. Não sei o que demora mais: um homem no envio do barroso vaso adentro ou a gente.

Daph está afiada hoje. Percebia muito rápido que algo me possuía a cabeça. Algo que pesava junto com tudo aquilo que aprendi de casos morfologicamente marcados, desinências e contratos… No grego, eu repetia pra mim mesma, no grego.

E, ao levar as roupas para minha cama, me encarei uma segunda vez no espelho, agora nua: não percebia antes o meu próprio corpo. No começo, tive uma sensação de prazer inexplicável, um segundo espírito me chamando a me jogar na frente daquela imagem. Eu estava vivendo plenamente o mito de Narciso, tive medo de estar apaixonada por mim mesma, mas com alguns minutinhos a mais, convenci-me de que apenas não me encarava há tanto no espelho… Percebi uma marquinha de nascença no meu braço esquerdo, debaixo do pulso, e ela era misteriosamente geométrica: havia ali como que uma estrela de seis pontas, vazada num hexágono ao centro, do tamanho de uma unha do dedo mindinho.


O sono vinha e não vinha, O peso das pálpebras aumentava conforme eu seguia caminho pra capital, bem como minha cisma com relação àquela noite, A luz que me tragava deixava um vácuo dentro de mim, Passei a sentir como se tivesse vivido metade de minha vida, e a outra estivesse perdida, Mas os meus quase vinte anos estavam ali, intactos, Nenhuma das lembranças de infância foram apagadas, E por que seriam, Estava pensando demais, devia ser um choque de temperatura, É, é um choque de temperatura, Uma água, um café, A paisagem se avoluma, luzes de Belo Horizonte se aproximam, São Paulo estará aí, e terei um sonho melhor esta noite Se teria Medo da luz Medo do experimento Medo do vazio Medo do medo do desconhecido, Quantas vezes não tive medo, Sei lá, você teve medo muitas vezes e, Opa! O que é isso? Uma marca debaixo do meu braço esquerdo, na altura do pulso, mostra uma estrela de seis pontas vazada por um hexágono, Nunca te notei aí estrelinha, Não é uma tatuagem, Não é uma queimadura, O que seria, e o Sol, aquela luz amarela do dia que revela tudo, parece me reservar uma quarta-feira incrível, como se eu nunca a vivesse antes!


Nunca fiquei tão satisfeita em compor meu visual pra aquela manhã… Percebia o frescor do vento: como me sopram bons augúrios o Zéfiro que ressoa impetuoso janela do quarto adentro. Daph está preparada pra sua aula de Estatística – ela é ouvinte em condição especial na turma; se ela desejar e ingressar lá, pode aproveitar os créditos – e eu ainda estou decidindo se visto o All-Star clássico ou o marca-texto cor-de-abóbora.

– Arrasa, mana! Pega esse chamativo All-Star e desce pro mundo e mostre a Safo que existe em você!!!

E eu já via, no mirante do Sol que vinha do Leste, a luz que me traria, na Maria Carolina, a manhã que me trazia presságios de mistérios a serem descobertos.

Já eram quase sete e meia: duas horas quase que de reflexão sobre mim, algo que desde que decidi pelo grego em minha vida, nunca pude fazer. Havia uma séria impressão de que uma única imagem me deixaria aturdida pelo resto do dia, da semana, e, quem sabe, da vida. E a imagem – pasme! – inconscientemente me soava como se fosse estranho… Estranhamente particular.


Narciso Sturlini, Minha última parada e bastava alguns passos rua acima pra casa Como dói Não dormi nadinha, pensando na marca que ali cada vez mais não parecia estar, Me lembrava do que houve, Sono, sono, experimento, não aguento mais, Minha mãe, zelosa, viu minha face absurdamente pálida, Filho, Quié mãe, Que cara de morto, Vai… Tome um cházinho, não vá pra aula hoje, Não, tem aula dum tal de Araújo, dizem que ele é genioso, não quero arriscar, perdi quase dez dias. Vá! Toma! Não manhê, Eu tranco a porta à chave e daqui você não sai até tirar esse sorriso de frouxo, Tudo bem, Aaah, as mães: a instância ditadora do feminino, Como seria bom que todos os pais fossem pais, varões, mulher combina com paixão, com amor fogoso; homens com respeito, com ordem e com rigor.

A caneca me vêm às minhas mãos, um vapor sopra e ganha cor diante do vento uivoso que me bate do Leste, Engraçado, vejo um vapor colorido, Ao ingerir a primeira dose, uma série de vozes toma minha cabeça, Vozes femininas, Vozes de criança, Confissões acerca dos rapazes, Meu Deus! Jesus apaga a luz, migaaa! Que é aquele rapaz gatoso da Penha, todo garimpado no ouro, Ah, ele é Beltrano, ele tem um Porsche, a família dele é muito aprumada, é da vizinhança da Mel na Maria Carolina, ei! querida, o que tem a dizer deles? Eu, eu não tenho nada a dizer, só vejo ali um homem, um homem muito cheio de si, Sinto minhas pernas flutuarem, encontro o encosto do meu sofá e admirando o Sol que começa a ensaiar a saída das frestas do (acho que era) meu quarto, meus braços adormecem, e a última luz que vejo por um não-sei-quanto-tempo é um translúcido verde, partindo do meu pulso esquerdo, junto com uma indescritível sensação de atravessar uma película eletricamente forte, e a luz do despertador apontando o início da manhã do dez de agosto.


Ouvindo... PSY: Year of 77 (77? ??) [feat. LeeSSang & Kim JinPyo]

Melissa: A Dupla [1]

Cinco e meia: o meu despertador toca, e é engraçado! Eu sempre costumo despertar do lado esquerdo da cama, e agora estou despertando do lado direito, e o que é mais interessante é que sequer dei de cara com a parede, mesmo sabendo que na noite anterior, tava lá ela do meu lado direito, portanto tinha que acordar pelo esquerdo… Também não tinha um espelho tão grande assim no meu quarto (um pequeno fio de luz adentrando o quarto que me fez percebê-lo). Mas, como é de costume, sentia necessidade de ir ao banheiro… Não estava me preocupando com a disposição das coisas, que ao mesmo tempo soava tão estranha e tão familiar. E fui. Peguei minha toalha de rosto – que a propósito estava bem mais macia – e segui pro banheiro. Inclusive o caminho do banheiro era o inverso, como que se eu tivesse entrado no mundo dos espelhos…

De repente, meio que a um acesso de inconsciente profundo, me vi num embaraço porque, quando arriei a calça, meio que no aperto da urina, vim a borrar meu pijama… Meu belo pijama rosa de bolinhas vermelhas…

Espera um pouco… Por que borrar? Não tinha deste costume até a última noite… Era certo que se fizesse a necessidade urinária de pé, nada aconteceria… Talvez um pouco de derramamento nas bordas do vaso, um pouco de urina a limpar durante à tarde…

Mas isso foi o exame detido de consciência… Estava, no banheiro, a roupa pra usar no dia que se iniciava. Após lavar a remela dos olhos que me deixavam em alvoroço, me veio o grande susto.

A roupa constava num conjunto de blusinha cor violeta, e um shortinho jeans daqueles bem adornados de peças metálicas.

O banheiro tinha ares de banheiro de uma jovem de dezesseis anos. Azulejos e revestimentos em tons que variam do rosa ao vinho.

E, dentro do boxe, havia uma calcinha.

Deuses gregos que me salvem! O que está havendo aqui! E de repente, me dei conta de que a região frontal do meu corpo pesava em volume, bem como a região da linha dos quadris. Uma sensação fisiológica bem diferente, porém muito familiar. E então, aconteceu uma coisa inexplicável quando me encarei no espelho.

Eu era uma moça de vinte anos, bela, pele lisa sem espinhas, cabelos ondulados levemente tingidos com um tom de vermelho arroxeado, e por mais que me revire durante o sono, basta uma escova de oito minutos e voilá, inveja das amigas sobre mim! Tinha seios bastante volumosos, com um caimento impecável, uma proporção de cintura e quadris de causar acidentes de trânsito e todo esse conjunto, da cabeça aos pés, era algo fantástico de se ver, sou linda, perfeita e gostosa! Eu me amo, minhas amigas me invejam e os rapazes me desejam! E nesse último exame de consciência, me detive amargamente, com uma inexplicável repugnância… Foram segundos de um fluxo de informações que me tomavam a alma e a mente.

O atordoamento culminou quando vasculhei nos inócuos pensamentos meu nome: Melissa Franz Selkie, tenho uma meio-irmã um pouco mais nova, mas nem tanto… Dafne, filha do mesmo pai. Sou uma aluna do curso de Letras da histórica Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, faço grego e português, e ingressei no ano de dois mil e quatro no curso. Havia algo de estranho em tudo isso, não cansava de repetir a mim mesma: eu tinha uma história, tinha uma infância, tive meus problemas de mulher… minha primeira menstruação aos onze anos, os incentivos particulares de prazer no escondido do meu quarto, minha primeira vez com um rapaz que pouco valia com treze anos – algo que profundamente me enojava – e minha experiência quase secreta aos dezesseis com minha melhor amiga, fazendo sexo – que me excitava toda vez que pensava nisso, e não hoje, mas como que se fosse desde sempre – que quase me deixou atordoada, quando durante um ano, minha querida mana Daph – assim me referia carinhosamente – cogitou me denunciar aos meus pais o fato, e assim conseguiu uma série de vantagens no nosso colégio… Mas, de todo, foi até bom… Não olhava pra minha meia-maninha como ela mereceria. Ajudei ela a ganhar auto-estima ao incentivá-la a namorar um amigo de confiança que tinha… Uma moça discreta, que quase não se fazia invejar, hoje, via, uma moça feita, robusta, tão bela quanto eu… O estranho que persistia é que, lembrando o quanto ela é hoje por causa disso, um instinto de desejo possuiu meu corpo, o que não acontecia antes. Era minha irmã… Meio… que seja, mas jamais a havia olhado com olhos assim.

O fato, é que me perguntava o porquê de me estranhar naquela manhã de dez de agosto de dois mil e cinco. Fazia um tempo fechado, mas certeza que não choveria… Ouvia o vento como que se me contasse uma poesia, uma sublime canção, como que se já a tivesse escutado de outros tempos. Segui pra minha ducha quente, e desatei a imaginar o quão divertido seria meu dia com a matéria de Língua Grega II e de Morfologia do Português.

Mas aí, me veio outro surto de consciência… Me lembro de um sonho tão tátil e sensível que tinha um toque de realidade que comecei a pensar se ele seria verdadeiro. Fato é que se eu escrevesse no meu diário, e viesse a guardá-lo e lê-lo daqui a um ano, me surpreenderia com os resultados.


Oito de agosto de dois mil e cinco. Que bela noite observo na chapada Diamantina, as estrelas se detêm em meu olhar de astrônomo apurado… Aquela matéria de Astronomia que fiz no IAG valeu-me enfim de muita coisa. As estrelas nunca foram assim tão vistosas como na capital… Pena que amanhã vou seguir caminho de volta à minha faculdade… A Linguística me espera na quarta-feira… E aquela aula maçante de Morfologia, onde tenho que aguentar aquela esnobe da Melissa…

Esnobe, porém esplêndida e desejável Melissa, entusiasta do grego!

Mas tenho a terça-feira de uma manhã com um café-da-manhã, à moda do sertão…

Uma estrela-cadente perpassa o céu… Fazer um desejo, diz a tradição… Tolices… Tolices… Mas nos rendamos a ela num contexto de tamanha calmaria. Quero ter um ano incrível, disse a mim mesmo, já num decorrer de ano que foi cheio de altos e baixos até então… Mesmo perdendo bons dias de aula, foi feliz ter me dado o direito de fazer esse retiro social.

Mas me foi muito interessante ver a curvatura da estrela que se tornava cada vez mais evidente. E quando me dei conta, assombrei-me com o clarão que dois minutos depois tomava o ambiente. Não tinha pra onde fugir. Um ruído de alta frequência tomava conta de meus ouvidos enquanto no clarão insuportável detia meu olhar nas duas figuras sinistras que se aproximavam na contra-luz.

E então desmaiei.


Ouvindo... Elton John: Understanding Women

A Máquina do Mundo

Gênese

(…) O amor existe,
mas não num ser vivo que se move.
O inesperado insinua-se no que parece definitivo
e ninguém se conhece antes de morrer. Ámen.

Gonçalo M. Tavares, “Uma Viagem à Índia”, canto IX, 89


– Sr. Orson…

Orson estava aos delírios… Tinha pedido a décima xícara de café só aquela tarde… Estava aflito tentando resolver o problema dos discos rígidos da unidade JPTR40887-13… As unidades F: e G: estavam corrompidas. Haviam notas importantes a serem descritas no relatório EAX do mês. Custava caro solicitar os backups em Seattle. O orçamento estava em baixa… Maldita crise econômica!

– Porra! Já te disse: estou fazendo o melhor que posso!

– É melhor você ler isso.

Horror ter que ser o técnico de informática sênior da equipe. Mesmo se utilizando da tecnologia mais avançada de cabeamento de dispositivos de armazenamento possíveis, demoraria uma eternidade fazer a reconstituição do disco todo. Processo arriscado e sujeito a insucessos. Culpa daquele estagiário novo que utilizou o terminal pra acessar o Facebook dele, justo no momento em que havia ordens expressas de desligamento do subcircuito para manutenção nos geradores. 10V a mais fazem a maior diferença nos processadores, placas-mãe e sabe-se lá o quê.

E cai nas mãos do Orson o periódico do Governo, publicação fechada e mais que protegida nos bastidores. Está marcado: um envenenamento de cache nos servidores onde estão justamente os dados em cópia. O prazo? Vinte e quatro horas.

– Eu precisaria de três unidades vasculhando os dados e fazendo cópias também… Dá pra dispôr a unidade JN171089-11 e ATHN180192-8 como salvaguarda? Tem muito espaço nelas, sobretudo a última…

– Nanana… Ambas possuem a mesma capacidade… A Atena – como era popularmente conhecida – é muito produtiva pra nós… Não dá pra ficar dispondo assim, à toa. Prioridade A1++.

– Não passa longe desta que é A1+. Tem dados interessantes aqui que você nem imagina.

– Vire-se! Você tem que arranjar uma forma de resolver seu problema como pode.

“Mas estou fazendo o que posso, não percebe seu mercenário aponta-tarefas, trouxa…”

Orson mordeu o lábio, ao ver o seu superior-administrativo dando uma triunfal meia-volta deixando, sabe-se-lá-como, a revista cair aos seus pés, enquanto ele, suando vergonhosamente, religava os cabos das unidades X:, Y: e Z:. Era a última manobra capaz de fazer pra não perder mais os inputs

Mas ele sabia que não os perderia mais do que já perdeu. E bem sabia que se isso vazasse de alguma forma pro Magnânimo, seria deixado ao olvido. Já ouviu falar do olvido, e pensar que era aterrador era pouco… Seria inefável pensar…!


 

Dionísio Crístina morava nos subúrbios de uma cidade pacata, próximo à capital. Vivia uma vida bastante interessante até então… Tinha seu violão e seu teclado, mas faziam meses que não os pegava pra tocar: era a época das aterradoras provas de Semiótica. Ô ciência mais pela-saco, pensou consigo enquanto tentava entender como se definia o Sujeito e o Anti-Sujeito.

Estava às voltas ao ler a saga Fallen… Por questão de economia, pegou essa série, pensando que, por ser destinado à pessoas muito jovens, depreenderia de modo mais fácil quem seria quem, no tocante aos actantes ali dispostos. Condenou seu professor de curso, que veio lhe surpreender nas prévias da avaliação que ele havia se precipitado em fazer a atribuição dos actantes.

– Meu jovem, talvez sua perspectiva de estabelecer esse ponto de vista pra quem seja o Sujeito e o Anti-Sujeito esteja certa, mas tem certeza que não quer pegar algo estabelecido na literatura há mais tempo? Nem tenho certeza se a saga já foi finalizada no original… Não acha que se precipita julgando que Daniel é o Sujeito e Cam o Anti-Sujeito, assim, terminantemente? Leu com atenção o Epílogo do primeiro livro?

– Tudo bem, parece meio nebuloso aquele acordo, mas Cam é virado pro tinhoso, pro capeta… Isso não tá preto-no-branco?

– Depende do ponto de vista enunciativo que está tomando… E você é cristão, certo?

– Sim, óbvio. E que tem de mal nisso?

– Nada, Dionísio. Mas lembre-se que eu posso pedir na prova uma contra-perspectiva. Quero ver se você lida com uma posição contrária…

– Tá certo… Tá certo… – ateuzinho.

E Dionísio deixou a sala de aula, seguindo caminho para o refeitório de sua faculdade. No caminho, deparou-se com um helicóptero negro de passagem. Tivera um rápido desmaio, mas se compensou de novo.

– Que foi? Tudo bem? – perguntou Mara Helena, sua grande amiga desde os primórdios de seu curso.

– Nada, nada… Só aquela impressão de ter ouvido um “SMA” em morse na cabeça de novo agora… Não sei porque.

Mara Helena não conseguia disfarçar a preocupação que tinha com o amigo. O semblante dele expirava preocupação: “Tadinho… Deve ser a Semiótica… É muito pr’uma cabeça literária feita a dele.”

E buscou distraí-lo com um gracejo enquanto ingressavam fila adentro.


Ouvindo... Sophie Ellis-Bextor: I Won’t Dance With You

Karta Citina: Nove

Capítulo 9


Itabuna, Bahia, 22 de abril de 2024

O antigo dia do descobrimento do Brasil na região de Ilhéus ganhara nova conotação, ainda mais na Bahia, dez anos antes. O então dia da consciência da brasilidade, antes um evento regado a muita cultura regional e mostras de culturas tradicionais de todo o país passavam por ali, desta vez não era tão festivo: a cidade, que parecia um entulho de prédios históricos arrebatados ao chão, dava lugar aos burburinhos das equipes de remoção de corpos da Bahia, que a cada dois dias, pingavam em uma localidade diferente da Bahia, conforme as necessidades de se evitar que os corpos soterrados nas residências tornem-se ambientes propícios à proliferação de pragas urbanas e de endemias que atingiriam os desolados sobreviventes.

Sioue e Ângela, mobilizadas de última hora junto com uma caravana que, mal chegara a São José dos Campos dias antes, e por já haverem equipes mais que suficientes para auxiliar nos serviços necessários, haviam deslocado-se junto com as forças da Aeronáutica através das aeronaves Jazão, modelos novos construídos pela EMBRAER e recentemente disponibilizados a todas as principais forças aéreas do mundo – por sorte, o pólo de engenharia e indústria da EMBRAER, bem como as dependências da Aeronáutica regionais não sofreram danos. Após atravessarem três cidades de médio porte no Recôncavo Baiano (e de se depararem com as realidades cruéis da pressão sofrida pelas equipes de salvamento), chegaram a um dos redutos de concentração da força-tarefa civil e militar feminina – o serviço nacional obrigatório, agora optativo entre o civil e o militar, abrangia as mulheres também. – Tanto trabalho necessário seria empreendido em cerca de seis dias de trabalho, e o cronograma de tarefas estava atrasado. Faltavam mais três dias de trabalhos locais, antes de prosseguir à região metropolitana de Salvador, onde as equipes realizariam o período de estada mais longo: três semanas vasculhando por regiões críticas. Mesmo empreendendo cerca de trinta por cento a mais de recrutas, os horários de revezamento e descanso foram diminuídos, a fim de possibilitar um destino digno aos corpos esmagados pelos escombros.

Equipes de paramédicas, engenheiras civis e logísticas, farmacêuticas e outras funções constituíam o macrossistema da força-tarefa. Nossas personagens, apesar da formação em primeiros socorros que possuíam – ambas eram engenheiras eletrotécnicas –, pela situação dos corpos que eram encontrados, sentiam-se intimidadas ante tantos horrores, e para evitar maiores problemas com elas, ambas foram transferidas para o setor de administração, onde o volume de trabalho era igualmente intenso: fazer o controle dos estoques de medicamentos e de transportes e insumos necessários para o bom desempenho das obras.

– Nunca pensei estar aqui tão cedo de novo – observou Gysph, num raro momento de descanso.

– Eu também não, e numa situação tão inconveniente – assentiu Sioue.

– Espero poder me ausentar o quanto antes for possível. Olho tanta mulher por todos os lados, e sinto a falta de ver alguns gatinhos…

– Eu diria algo parecido, mas convenhamos que nós consentíssemos que fosse necessário estarmos aqui.

– Você ama essas coisas, Si. Eu briguei nos meus tenros dezoito anos para ingressar no serviço civil para fugir do militar. Eu tive de simular uma bursite para ser encaminhada do Quitaúna até o Patriarca. Imagina! De alguma forma, fizeram-me pagar, com outra moeda… Nove meses deslocando-me naquele formigueiro.

Mal se deram conta da entrada de uma supervisora que alertou que havia trabalho a ser feito, trazendo um lote de relatórios das equipes de bombeiras a ser arquivado. Nem é necessário comentar sobre a leve bronca que ambas levaram.

– Chefia raivosa… Acho que nunca viu um homem na vida… Notou aquela latente verruga no queixo – sussurrou Gysph a Sioue, após a saída da supervisora, a saber, uma mulher de seus quarenta anos e cara de poucos amigos.

– Ah, tome juízo, mulher! E eu não quero ter minha ficha suja por insubordinação – respondeu no mesmo tom.


Nova Helsinque, Finlândia

Yüren, Aaron e Epicure, após trabalhos executados quase que em vão pela comissão das Forças Armadas Finlandesas. Estavam reunidos nos acampamentos dos edifícios mais singelos das proximidades do Centro Administrativo da cidade. Os ventos medianos causavam um farfalhar dos arvoredos que ainda mantinham-se em pé depois da tão citada tempestade. No entanto, aqui ela havia tomado proporções grotescas: casas residenciais mais antigas foram tornadas a um amontoado de material entulhado em toda a vizinhança dos bairros residenciais. E eles ainda foram incumbidos do trabalho mais fácil, por permanecerem na força-tarefa da capital. Outros convocados partiram para mais ao norte, sendo que alguns ainda estavam por chegar a regiões inóspitas, com muito sacrifício. Quanto mais distante iam, mais se elucidava a fúria do epicentro das tempestades: os poucos que ali sobreviviam – era princípio de primavera, e outros finlandeses que ali moravam ainda estavam na estadia de outono-inverno em outras localidades do planeta, preparando-se para retornar dentro do fim de maio – antes do dia seis daquele fatídico mês, foram soterrados junto com suas posses. Um ou outro ainda teve a sorte de sobreviver no abrigo subterrâneo de seu lar, e dali conseguirem sair, e estes sortudos prontificavam-se voluntariamente a integrar os serviços de resgate.

Em um dia de descanso completo, após um intenso trabalho de remoção de cadáveres dos dias anteriores, apenas com os descansos essenciais, e muita pressão por causa da situação dos atingidos, atravessada por quase todos os integrantes da equipe, Aaron e Epicure já não contavam muito com aquele espírito das conversas descontraídas e despreocupadas: a situação não lhos permitia.

– Sei o quanto tudo isso seria forte para nós, meu velho, mas nunca pensei o quão forte realmente seria. Já vi corpos soterrados de várias maneiras em vídeos, mas… Assim… Na realidade, eles são muito mais horrendos: membros prensados sob caibros de madeira. Caixas torácicas então, arre! – implicou Epicure.

– Já levou em consideração o cheiro de umidade com o princípio de decomposição? Houve corpos que encontrávamos por causa desse cheiro de bolor fétido… – adicionou Aaron.

– Caro colega, acredito que todo mundo acabe por terminar a missão e não querer saber mais disso por um bom tempo.

– Sublinhe esse “todo mundo”. Parece que nosso gélido amigo também descongelou de sua era glacial. Veja lá – e Aaron apontou para Yüren, que seguia no corredor transversal, portando um copo de chocolate quente. – Nunca vi, em toda a minha vida, tal sujeito portando um andar tão tenso, como que estivesse fragilizado por tanta crueldade da situação. Tenho certeza que ele encarou alguma atrocidade maior do que a nossa, que o sensibilizou dessa maneira.

– Sensibilizar? Para alguém como Yüren, somente uma perfuração de crânio e cérebro exposto pode fazer isso em gente desse tipo!

Epicure mal notara o tom de voz aplicado nessa suposição, que chamou a atenção de Yüren, trazendo seu chocolate quente junto a eles. Ambos pensaram ouvir um tom de voz enérgico, replicante por parte do colega. No entanto, ouviram um tom de voz neutro:

– É uma tentativa de contar piada? Se for, acho que vocês perderam hoje o fio da meada, pois sei que vocês tiveram dias melhores.

E recolheu-se de volta ao seu caminho, mas desta vez, deixando o chocolate quente numa bancada próxima a eles, e seguindo seu percurso no corredor transversal do qual havia se deslocado.

Aaron, que não dispensa um bom chocolate quente, viu-se no direito de tomar um pouco deste.

Não! – interveio Epicure – Há alguma coisa de estranha nesse chocolate quente. Uma bactéria que mexe com nossos sentimentos talvez…

Que tal você ficar quieto, sujeito? Desse jeito, dou até crédito para o Yüren. Você realmente não sabe quando parar…

Arre! Será que o mundo precisa viver sempre tão tenso assim? – e Epicure retirou-se para seu dormitório.

Alguns minutos depois, um oficial do Exército finlandês aproximou-se de Aaron, solicitando informações sobre os seus colegas.

– Senhor. Todos os meus companheiros encontram-se em descanso nos dormitórios.

– Bom então, recruta. Avise-os quando saírem. Diga-lhes que os serviços de vocês aqui terminaram. Recebemos um carta anteontem das Nações Unidas solicitando alguns dos nossos mais excepcionais profissionais e de outras localidades para auxílio na África e América Latina.

– Aviso imediatamente, Senhor. Nós seremos deslocados para qual localidade, se não for um impropério questionar?

– Vocês farão escala nos Estados Unidos primeiro para adquirir roupas quentes. O destino seu e dos seus dois colegas é o Brasil.

– Grato pela informação, senhor. Permissão para retirar-me.

– Dispensado, recruta.

Tão logo o oficial deixou seu campo de vista, Aaron seguiu até o dormitório de Epicure, e após avisá-lo, buscou entrar no quarto onde Yüren estava alojado.

– Yüren? Poderia ceder um minuto seu?

– Já está aqui. Então diga – Yüren mantinha o mesmo tom de voz da admoestação, estando na cama, observando seu celular. Talvez estaria por esperar qualquer resposta a respeito do paradeiro de Bárbara, mas tão logo percebera a presença de Aaron adentrando o dormitório, procurou dissimular uma atitude tão neutra quanto a sua voz.

– Uma informação de relance: sua Svenska, porventura, é brasileira?

– Sim, mas vive lá na Rússia. Por que o interesse?

– Você não disse que perdeu a comunicação com ela, quando estávamos a vir até aqui?

– Sim, mas quê isso te interessa por acaso?

– Bom… Acho que podemos estar mais perto de saber a quantas ela anda.

– Por que diz isso?

– Prepare suas malas – uma interrupção proposital por parte de Aaron. – Nós três estamos a caminho do Brasil a partir de amanhã.


Ouvindo... Paul McCartney: No More Lonely Nights [feat. David Gilmour]

smile_omg Muitos projetos a conduzir na vida física. Novo período de postagens com menos freqüência. Desculpem o transtorno e muito obrigado pelas mais de 6000 visitas!

Karta Citina: Oito

Capítulo 8


Hamburgo, Norte da Alemanha, 15 de abril de 2024

Por sinal, ainda Hércules e Yüren percorreriam mais uma semana juntos no mesmo grupo maior de comitivas. Hércules fora designado a participar da comitiva constituída de quatrocentas pessoas para auxiliar as forças locais da Suíça e da Áustria, e nesta cidade, cujas edificações mais modernas foram avariadas e, ironicamente, as de arquitetura mais antiga mantiveram-se no lugar, ambos se separariam em definitivo, cada qual a cumprir sua missão.

Imagina-se que tenha sido um sinal dos tempos que recaiu sobre boa parte dos finlandeses naqueles terríveis dias: Yüren se deparara com outra comitiva, esta das Forças da Finlândia, montada de improviso num campo aberto, o qual se olhava para todas as direções, e se encontrava troncos de árvores cortados. Uma prova sucinta de que o campo também fora alvo das ventanias verticais, por serem nítidos neles galhos finos retorcidos, e em certas espécies de eucalipto, um tapete de folhas forrando o chão. No acampamento, diversos jovens e pessoas de meia-idade, cerca de duzentas pessoas, entre homens e mulheres, e até inclusive alguns colegas de universidade de Yüren de Armeggendya; estes, expressamente abalados. Não muito participativo de lamentações, Yüren dispôs-se a, no burburinho, ocultar-se dos seus conhecidos, mas sem deixar de ouvir os seus lamentos.

– Muito triste, bom Jövo… Minha família toda havia decidido permanecer na cidade para a Festa dos Sobreviventes… – dizia uma mulher a um homem, que era vizinho de quadra de Yüren, robusto, cara apinhada e trajando roupas típicas com suspensórios, o que lhe adicionava mais quinze anos aos seus pouco mais trinta. A tal mulher não conseguia conter suas lágrimas, embora soluçasse pouco de modo que em meio a todo ruído da concentração, seu lamento pudesse ser ouvido sem devaneios.

– Mas minha garota… Você tem que entender: como podemos prever ocasiões assim na nossa vida?

– Eu podia ter evitado!!! – exclamou com furor – Se eu insistisse mais fervorosamente para que eles viessem comigo às Américas nesse dia, jamais teríamos nos separado assim desse modo!

– Por favor! Por favor!!! Valha-me Deus!!! Pensa que só a distância poderia resolver o problema!? Não soube, por acaso, minha jovem, que para todo canto sob o sol, aconteceu algo de extraordinário! Vocês poderiam estar lá em Armeggendya, nos Estados Unidos, na Índia, no Japão, Argentina ou no Fim do Mundo… O resultado foi o mesmo!!! Bem meus pais diziam das profecias do fim do mundo: elas só vieram alguns anos atrasadas.

Yüren deixou-se involuntariamente possuir por um pensamento que exaltou-se a transformar-se em palavras.

– Que raios foi esse fim de mundo?

O que não percebeu foram dois colegas de universidade aproximando-se sorrateiramente por um ângulo distinto do da conversa do casal.

– Ah! Eu não acredito!!!

– Eu também não! Cara! Que mundo pequeno! – disse o segundo.

E ao mesmo tempo que absorvia essas exclamações, Yüren tinha sido surpreendido fisicamente com uma massagem de punho vigorosa sobre o cocoruto do primeiro sujeito.

A reação, como podemos imaginar, não foi das melhores, com direito a uma associação dos nomes dos elementos a palavras de baixo calão que pouco acrescentam a esse relato.

– Que é isso, Yüren? Isso são modos de receber Aaron e eu aqui? – disse Epicure, jovem finlandês de nascença, com traços de mouro. A repulsa, natural de Yüren a ambos, talvez tenha surgido de um trote semelhante sofrido quando do seu ingresso (os “amigos” haviam ingressado no ano anterior), e que, apesar da primeira impressão nada amistosa, passaram a concorrer juntos às mesmas atividades culturais da universidade, numa relação estranha de companheirismo e ódio.

– Deixe estar, Epicure! Sabemos que o rabugento aqui ainda deve estar de cabelos de pé por causa do motor fundido no antepenúltimo semestre dele…

– Ah, lembro-me muito bem… Ligação estrela no lugar da de triângulo… Erro fatal num momento desses do curso.

– Sim, eu sei. Aquele famoso projeto das roldanas motorizadas do prof. Richte, mas quem não se confunde com a sincronia de dez pares de motores?

– Seu anta! Eu falo da energização… Não do comando… Ei! Espera, Dr. Sorriso milionário!

Yüren estava de saída, pois o foco da conversa estava naturalmente o excluindo.

– Vão falar comigo ou vão falar de mim? Não vim aqui perder meu tempo…

– Realmente – indagou Aaron, modificando o tom da conversa. – Ninguém aqui está.

– Que há que reúnem todo o povo aqui? Sei que a coisa é séria, e estou preocupado.

– Velho, relaxe, que se o caso for os seus pais, até onde eu saiba eles estão bem. Dia quatro eu os vi saindo da cidade em direção aos Estados Unidos. Seu pai havia fechado um primoroso negócio com um empresário californiano e aproveitou para levar a família para um passeio – disse Epicure. – Acho que sua mãe estava cansada das festividades da Festa dos que Sobreviveram.

– Sobreviveram – completou sarcasticamente Aaron – para morrer de novo.

Resultado desse comentário maldoso tinha sido uma cutucada de cotovelo no peito dele por parte de Epicure.

– Fala assim só porque quase toda a sua família estava fora também.

– Ah, cara. Metade da Finlândia estava fora. Veja só aqui.

– Mas que cargas d’água houve de tão incrível para nos reunirem aqui hoje? – reivindicou Yüren.

– Você veio de Samara. Estou certo? – disse Epicure.

– Com muita dificuldade, por sinal.

– Em algumas pausas, vocês não conseguiram contatar nenhuma emissora?

– Ninguém se ligou. O que se ouvia mais na comitiva eram rádios de comunicação. E o que se via eram estradas barradas a todo o momento. Por vezes, nós tínhamos que abri-las novamente.

– Iiih! Então veja isso! – e Epicure removeu do bolso um desses computadores portáteis, com uma reportagem de um canal de meteorologia canadense.

Os cinco minutos seguintes foram de estarrecer Yüren. Todas as expectativas acerca das coisas dos dias anteriores eram evidentes. Estragos em escala global eram mostrados sem parar. Até os jornalistas perdiam a compostura para noticiar com a famosa credibilidade jornalística de sempre. Meteorologistas – os que obviamente sobreviveram – relataram uma movimentação anormal de massas de ar seco provenientes do círculo polar ártico, cujo epicentro localizava-se a cerca de cem quilômetros ao norte de Armeggendya, a comunidade mais próxima. A massa de ar seco criara uma corrente circulatória de ar frio que subia e ar quente que descia ao solo – fenômeno por sinal muito incomum nos termos da meteorologia – e que ocorria em cadeia. Nos países mais frios, tormentas e nevascas cruéis; nos mais desérticos, tempestades de areia, algumas ainda persistindo até àqueles dias; nos mais tropicais, chuvas torrenciais que inundaram vilarejos e cidades mais baixas e fizeram deslizar encostas em áreas urbanas.

E os cinco minutos de reportagem eram apenas uma mostra de uma matéria que permanecera no ar durante muitos dias.

– A coisa foi tão complicada assim?

– Só se fala nisso em todas as rodas de conversa que ainda existem. As pessoas estão com muito medo. Aqui no sul da Alemanha, lojas foram saqueadas há alguns dias, com o temor de novas tempestades. – adicionou Aaron.

A conversa fora interrompida, bem como todo o burburinho, ao soar uma sirene e um oficial das Forças Militares e outro das Forças Civis comparecerem com megafones. Eram dadas as instruções para que as pessoas procurassem os sargentos, conforme as listas de chamada, para receberem um código; e como eles dirigir-se-iam à Finlândia, por meio de um avião da Força Aérea que os conduziria a Nova Helsinque – ou o que havia sobrado dela.


Osasco, estado de São Paulo

Henvellen estava fixada na cidade, que em sua maior parte, manteve-se intacta. Na realidade, a localidade havia sido pega por uma chuva que havia durado cerca de três horas, e abarrotado os córregos locais. Houve apenas o prejuízo de algumas casas prejudicadamente mais baixas, seja na região central, no extremo norte, em alguns bairros de várzea no sul, e nada mais. São Paulo, diziam muitos, “fora abençoada por um não-sei-quê que protegeu toda a zona urbana da região da capital”. Geologicamente, e por evidências diversas constatadas por especialistas, as serras que circundavam a região metropolitana ofereceram uma “barreira de ventos” que os elevaram conjuntamente com as nuvens de chuva, esparsando-as. Do contrário, o fluxo de água que ocorreria na região ocasionaria cheias em pontos estratégicos a ponto de conceber inundações históricas, tais como nunca antes foram noticiadas ali.

As emissoras de televisão que ali encontravam-se instaladas nos subterrâneos – herança de anos anteriores, quando os medos de uma ascensão de guerras intercontinentais eram inimentes propiciaram a grandes centros de comunicação a fazerem suas instalações jornalísticas por ali – foram algumas das primeiras em solo brasileiro a retomar suas operações. As antenas de transmissão, concentradas no pico do Jaraguá foram a única instrumentação prejudicada severamente pelos fenômenos, mas consertadas com uma relativa rapidez. Todos, inclusive Henvellen, quando em seus lares, buscavam incessantemente notícias através dos noticiários extraordinários acerca de vítimas, os quais se desenrolavam tarde da noite.

Assistir televisão – ainda mais nos tempos atuais onde havia a internet consolidada entre os jovens paulistanos e paulistas – era uma tarefa estressante. O assunto tornara-se pauta unânime dos noticiários, e desconhecia-se, por televisão, outros fatos isolados derivados, como a formação de gangues de saque de grandes centros que agiam esporadicamente em grandes centros comerciais, inclusive os de Osasco. Como medida cautelar, o prefeito local solicitou auxílio governamental urgente para disponibilizar as forças armadas a serviço do comércio municipal. Por pouco, não era decretado o estado de sítio na região.

Nesse ambiente pouco convidativo na cidade, onde as pessoas, sobretudo jovens de moda descolada tinham que constantemente estar munidos de documentação para trafegar entre as várias barreiras do exército para freqüentar as lojas, surgiam grupos de protesto silencioso, meio hippies, meio headbangers, que desenvolviam rodas cancioneiras, revivendo grandes clássicos dos anos noventa e dois mil, os quais os seus pais, osasquenses natos, curtiam em sua época, quando jovens. Havia até um certo patrono para esses grupos: um sujeito que se autodenominava Simpatia – uma alusão ao profeta Gentileza do Rio de Janeiro – e que carregava envolto em uma coberta branca e retalhada com bandanas das bandas dessa ilustre época, inclusive – e principalmente – as de Laíte. Dizem os boatos que Simpatia era um influente empresário de uma das empresas instaladas na cidade no princípio dos anos dez que largou a carreira profissional e caiu na graça dos jovens após testemunhar a chocante chacina que havia executado sua esposa grávida e todos os seus quatro filhos, e quase surtou por causa disso. Encontrando auxílio com alguns conhecidos, que eram envolvidos com as artes na cidade, converteu-se ao budismo e passou a dedicar-se a uma vida de semi-abstinência ao que ele chamava de “corporalidades”. Incentivador do teatro desde que se conheceu como cidadão, fora acolhido como zelador do Centro Teatral de Santo Antônio pelos incentivadores da arte, e assim tornou-se, por convenção, patrimônio imaterial de Osasco.

Henvellen era deste bairro em Osasco, e sempre que as facilidades tecnológicas e de entretenimento a saturavam, buscava no Centro Teatral uma fuga dessa vida de pós-modernidade, através do contato físico com o ser humano pela arte. Como os meios de comunicação estavam pouco atraentes por se tratar exclusivamente do mesmo assunto – “a hecatombe climática” – a freqüência de Henvellen ao Centro era maior. Ali, encontrava todos os seus amigos, também todos os dias. Não era para menos: o estado de urgência decretado na cidade paralisou muitas atividades não-essenciais no município, e outras estavam operando normalmente com pessoal reduzido.

Num desses diversos encontros propostos entre os freqüentadores, o desse dia em específico gerou uma reflexão grande com respeito ao ocorrido.

– Sabe, Hen… Meu pai dizia das profecias do Simpatia, e hoje vejo que ele não deve ser um simples sujeito excêntrico – afirmou um dos colegas.

– É? O que comprova essa sua tese (para você, pois que para mim, Simpatia sempre teve razão)? – replicou.

– De tudo o que Simpatia dizia pelas ruas do centro da cidade, a única coisa com negatividade era a seguinte: “Queridos amigos jovens! Aproveitem a vida em todos os seus prazeres, sejam hedonistas! Não ouçam o papa, pois que ele, que pregou a si o voto da clausura e descontente com isso, quer levar à finitude com ele todos os seus rebanhados! Eis que o congresso da santidade muito bem o sabe, mas não o deseja revelar ao mundo, com medo de que o mundo deixe de obedece-lo… Dois mil e doze passou, mas o colapso ainda está por vir. Das terras longínquas, os deuses vikings armarão as guerras finais e trarão com ela uma torrente que varrerá pela água e pelo vento todos os mirantes e suntuosidades humanas construídas sob o Sol. Escutem, meus pequenos, os avisos de um amigo que outrora confiava no poder do dinheiro e das formalidades, e se querem ser realmente felizes, vão ser! Pois que o dia chegará, poucos serão avisados, e desses, os poucos que sobreviverem serão pessoas puras de alma, que saberão replantar as árvores da sabedoria e cultivar as flores da simpatia. Da simpatia que vos fala.” Entrei em contato com meus pais em Americana ontem, e eles estão estarrecidos com a onda de mortes que presenciam na cidade. Não há outra: eles estarão vindo para Osasco, já que não há muito o que fazer em um lugar de risco.

– Com certeza, acho que eles deram-se conta do simbólico valor dessa mensagem, não é?

– Acertou em cheio, Hen. E outro dia, conversei com um amigo de meu pai que também fez teatro, o Sr. Lucas. Ele enviou a mim e a meu pai um e-mail contendo uma mensagem da Sociedade Européia de Valorização dos Sentimentos.

– O que é isso?

– Uma espécie de rede social de valorização do elemento humano fundado por um húngaro em 2017. Você escreve uma carta motivacional para um grupo de até mil pessoas, de preferência manuscrita, e quem as recebe (espera-se) responde da mesma forma. O Sr. Lucas, filósofo conceituado de nossa cidade, recebeu uma de Portugal tratando-se justamente da hecatombe, e manifestou seu desejo em incluir a comunidade artística osasquense nesse movimento.

– Nossa! Acho incrível. Você manda para mim.

– Eu já até repassei para ti hoje. Não viu seu e-mail?

– Nem tenho coragem de ligar mais aparelhos eletrônicos em casa. A hecatombe climática virou até contato de mensagens instantâneas: está sempre de olho no ato em que você entra para ali se apresentar.

– Já sei. São as newsletters que você assina. Fique fria! Depois das atividades, vou na sua casa e te ensino como filtrá-las e até cancelá-las.


Ouvindo... Calle 13: Pal Norte (Reggaeton Channel)

Capítulo 10 em construção [longa construção]: em breve, mais um de Karta Citina.

Karta Citina: Sete


Norte de Samara

Assim que Yüren e Hércules chegaram ao quartel-general da instituição, o jovem finlandês tomou imediatamente a iniciativa de informar-se sobre as pessoas que naquela região haviam sofrido com as tempestades. Descrevendo detalhadamente, e fazendo-se valer de uma foto em um de seus aparelhos de navegação global da Bárbara, obteve dos bancos de dados modernos da instituição, que agora tinha atuação global para atuar em desastres naturais com uma eficácia assaz incrível, colaborando com forças locais de resgate e auxílio, nenhuma informação.

O atendente dispôs-se a auxiliar na busca a partir de algum instrumento que ela pudesse possuir que respondesse a um sinal de satélite, como um celular pessoal, um navegador global ou outro semelhante. Repassando as informações ao atendente, verificou-se – e nós sabemos muito bem de antemão – que Bárbara Svenska se encontrava (ou pelo menos o aparelho de navegação dela) na região costeira da Bélgica.

Yüren estranhou a informação que lhe foi dada: Bárbara Svenska nunca teve necessidade de estar por lá. E lhe veio à mente a possibilidade de o vôo que a conduzia tivesse estacionado pelas ocasiões das últimas horas. E sugeriu que fosse tentado um contato com ela que – como também o sabemos – não foi possível ser executado.

Uma leve aflição havia tomado conta do pouco ortodoxo coração do jovem Schuzkennott. E, já possuído por um sentimento irracional, exigiu, de modo um pouco mais intempestivo, detalhes sobre o roteiro que ela havia percorrido nas últimas horas. O atendente, intimidado, procurou responder com a maior calma:

– Preciso então que você preencha esse formulário, com seus dados de contato. Você terá que entender que o processo pode demorar até mesmo dias, pois envolve obter permissões de operadoras, casar dados de agendas, para comprovarmos e justificarmos essa invasão de privacidade…

– Como assim, justificar? Veja as coisas lá fora! E não me engane que sei que a Europa toda estava assim! Numa hora dessas, não existe o porquê em privacidade!

– Desculpe, senhor, mas são procedimentos. A instituição preza pela sua idoneidade e não deve entender que ela é um meio de traçar o que o indivíduo fez ou deixou de fazer…

– Sinto muito digo eu! – exasperou Yüren, de forma que os presentes ouviram com claridade – Então a instituição é mais importante que as vidas que ela diz salvar? Ora!!! Faça-me o favor…

Hércules interveio a fim de evitar que uma discussão maior se aglutinasse no recinto.

– Yüren, por favor. Não é a hora nem o momento para ocasionar dissidências assim – e voltando para o atendente. – Desculpe-me o jovem. Ele passou por uma experiência desagradável na floresta.

E conduziu Yüren até a uma área externa, solicitando-o generosamente que cumprisse os procedimentos, avisando-o do almoço que a instituição estava cedendo aos presentes, e pedindo-lhe que ali comparecesse. Mesmo a contragosto, Yüren assentiu com as recomendações do companheiro, e ambos foram almoçar após o preenchimento do formulário.

E, enquanto o almoço ocorria, um coordenador da instituição dirigiu-se aos presentes, solicitando que após a refeição, fossem estes ao auditório, para uma reunião emergencial.

E, organizadamente, após o almoço, assim foi feito. E em língua local e em inglês, os coordenadores locais convocaram os membros para comporem o quadro de voluntários para a missão de auxílio em localidades remotas na Europa central, assoladas pelos temporais ocorridos.

Yüren ficou pensando sobre a possibilidade de Bárbara ainda estar em viagem, e esta ter sido interrompida da forma mais bruta imaginável pelo mesmo temporal. Mas suas suspeitas só seriam confirmadas após resposta da instituição, uma vez que Yüren se permitiu a aprender a confiar somente em fatos confirmados e evidenciados. E, imerso nesse pensamento, não percebeu que a reunião havia cessado, e Hércules o cutucava insistentemente.

– Yüren. O rapaz ali deseja falar com você.

E indicou os guichês em que os membros recebiam as atribuições e identificações, às quais designavam seus postos de trabalho. Estes se dirigiam ao pátio da entidade em grupos pré-estabelecidos, onde caminhões do exército russo se mobilizavam para recolhê-los para as regiões que necessitavam, e para as zonas de fronteira, àqueles que tinham como destino outras nações.

A princípio, Yüren estranhou a convocação:

– Hércules. Não sou associado a Médicos, e você sabe disso.

– Sim, mas tomei a liberdade de comentar sobre você para eles, pois aqui entre nós você é um estranho, e eles estão te chamando para uma conversa – respondeu Hércules.

E, buscando um dos coordenadores ali presentes, apresentou-se.

– Sr. Yüren Schuzkennott. Você é finlandês, ao que me consta nas informações do seu amigo? – indagou este ao nosso jovem.

– Sim. Mas o que tenho a ver com a entidade? Não sou membro.

– Sim, sabemos. Mas você terá que vir conosco na delegação que se dirige à Escandinávia. As forças armadas finlandesas estão convocando todos os cidadãos para uma força-tarefa, pela ONU, em caráter emergencial, e você está nesse perfil de admissão.


No Brasil, o trio de amigas, conduzido por um veículo pesado do exército, estava indo em direção a São Paulo. Mas apesar da prestatividade do exército em levar os moradores de outras localidades o mais depressa possível, diversos empecilhos ao longo das diversas estradas que estes ingressavam, como barrancos desmoronando, troncos de árvores lançados sobre as vias, poças de água intransitáveis…

A movimentação frenética de veículos diversos, nas duas direções de muitas vias rodoviárias denotava que havia tanto preocupações com parentes quanto pessoas com medo de permanecer nos locais de origem, refugiando-se em outras localidades.

Muito preocupadas com as situações enfrentadas, consultaram um dos cabos as condições de São Paulo. Este, para alívio do trio, lhes respondeu:

– São Paulo, incrivelmente, só sofreu com as chuvas um pouco fortes, mas as ventanias que atingiram o país forram barradas por uma cortina natural chamada serra da Cantareira.

– Um segundo, senhor: você disse… O país? – questionou Henvellen.

– É… Algo incrível e ao mesmo tempo terrível. Já ouvi falar de desastres assim em minha infância, quando morava no sul do Brasil, provenientes de massas de ar frio. Mas o serviço meteorológico brasileiro constatou um fenômeno estranho, proveniente do norte.

– Como assim, do norte?

– Eu não tenho melhores informações, mas ao que me consta, uma cortina de temporais veio do Atlântico Norte e varreu as Américas como se fosse uma bomba nuclear de grandes proporções. Tempestades de areia, granizo, chuva forte e ventanias, como já foi dito, foram eventos observados só aqui no Brasil, conforme o que podemos constatar via rádio com as forças armadas diversas.

As preocupações se multiplicaram. Além de Janeny na Amazônia, havia familiares que não moravam na região de São Paulo. Alguns dos tios e primos de Henvellen viviam no Rio de Janeiro e em Minas Gerais. Muitos dos parentes de Sioue viviam no interior do estado paulista. Somente Ângela pôde assegurar que não só os seus pais e parentes próximos, mas toda a sua comunidade de imigrantes da Haamuskhalia vivia na região da capital, e, provavelmente, a sorte da natureza parecia ter sorrido para a megalópole mais dinâmica da América do Sul.

E, vencendo os obstáculos, um por um, com auxílio de diversas máquinas veiculares, e um pouco de espírito aventureiro, os moradores paulistanos, embrenhando-se pelo principal tronco viário que liga São Paulo a Paraná, levaram cerca de dois dias a atravessar todo o caminho até a região metropolitana, onde cada um pôde assumir sua própria vida.

Mas, condolizados pelos fatos ocorridos, muitos dos paulistas daquela região e paulistanos empenharam-se em serem voluntários de instituições diversas e da força civil especial, sempre acionada em casos de gravidade alta. No entanto, mesmo a alta disponibilidade de voluntários, o número era insuficiente para formar equipes de apoio que pudessem complementar forças locais de resgate e apoio nos incontáveis locais onde os prejuízos foram evidentes. O quadro era sério: a situação enfrentada pelas forças de apoio tinha gravidade altíssima. Na verdade, estava num nível nunca antes imaginado.

Henvellen, das três, foi a única que não se encorajou a tornar-se voluntária nas forças-tarefa Brasil afora, preferindo permanecer em Osasco, a esperar notícias dos seus familiares. Sioue e Ângela não hesitaram em se voluntariar para os trabalhos, e em três dias após a chegada em São Paulo, estavam partindo para as missões na região do Vale do Parnaíba, junto com o exército.


Ouvindo... Judas Priest: Hell Patrol