Crônicas busionais #1

[dos arquivos manuscritos do autor de idos de 2013; adições e afetamentos de juízo retificados, entre colchetes]


O folclore busional – ou folclore de busão, para os mais desacostumados, como os solitários motoristas – é uma realidade presente, sobretudo, na ida e volta de grandes distâncias. Uma fórmula matemática verifica que a diversidade cultural (hã?) é mais latente à medida que a distância percorrida aumenta.

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Crônicas paulistanas

Transporte: um rito de passagem… De passagem mesmo! A passagem que você pega nos bolsos e passa na catraca à espera do busão ou do “lagarto de ferro”, como outrora vi o poeta falar. Mundos? Os mais variados possíveis: universos particulares que se manifestam encapsulados em fones de ouvido. Alguns, a propósito, se expandem de maneira um pouco mais indiscreta, no universo do arquiantisubúrbio… O concorrente Rio de Janeiro.

Eu bem sei… Vivo esse mundo do “eu sozinho” quando me apraz… Quando não há uma voz melíflua, um contraargumento dialético ou o que mais haja de tão sublime da força-motriz dos dias úteis, é esse o universo que evita o meu abismo nas correntes das queixas laicas do dia-a-dia… Ah! Esse metrô que nunca chega! Ô motorista pé-de-frango! Parece que tem cabresto esse maquinista! Eu preciso ir pra casa logo: moro em Mogi, mas prefiro pegar os ônibus… Aquele Expresso Leste tá mais prum Funesto Peste de pestilança de sovacos!

Se irritar pra quê?? Tudo bem, estou numa melhor situação que muitos de vocês, meus caros. Confesso que não tenho que atravessar a cidade para bater o ponto no horário certo… longe disso! Atravesso a cidade pra ver o que ela tem de curioso, de espantoso… e por vezes ou outras, se não ela, pelo menos as circunvizinhas. Cidade d’Itália, esse Unhiemlich paulistano, essa Carapicuíba eurocêntrica. Daí parte meu destino noturno de regresso ao cafofo – um caminho que poderia ser menos tortuoso.

Mas é bom que se dispor à tortura permite a amplitude de novos caminhos… O horário? Bem, esse por si não foi nada tortuoso: a hora do rush findou, apenas os mais aventureiros em postergar o seu descanso noturno saem em direção à Osasco de onde vim, até o Grajaú que uma vez passei.

Demos nomes aos bois: Pinheiros foi o meu ponto de convergência. Na dinamicidade do passo largo, de fazer a descida ao subterrâneo mais rápida caminhando a escada-caminhante-automática e descendo um golpe de seis, sete metros em menos de vinte segundos – após subi-los de modo pernal horas antes, num imenso caracol de enterrar-ascender – e fazê-lo isso por quatro, cinco, sei-lá-quantas-vezes – aquele buraco é mesmo um buraco, quase um esôfago ciclópico, daqueles retratados por Zola – me deparo, no sentido do Instituto, com uma moça.

Tá, diz você leitor, encaramos moças e rapazes na maior naturalidade, e como você diz, alguns nos aprazem mais, outros nos repugnam. Hipocrisia é recusar que o princípio da beleza estética impera em situações assim. Olhamos moças e rapazes (como rapazes e moças ou, respectivamente, na ordem contrária… Sabemos bem nosso mundo) com interesses diversos. Uma vestimenta que destoa do momento, um penteado diferente… O caso peculiar que me demoro a introduzir cede vez a uma particularidade de beleza que nada tem de especial: ela vestia-se e muito bem.

Como você, leitor, não é um padre – e confesso que mesmo que fosse, não lhe seria interessante se apoiar nisso, a menos que você tivesse interesses espúrios – não vou desvelar toda a graça que ali havia. Mas, segundo a tradição do evitar-se o “ela”, pretendo chamá-la de Melissa (nem todas as razões que essa aleatória escolha deixarei exposto aqui. Mas, de antemão, já vos adianto que a letra capital é a mesma). A Melissa tomou-me a atenção na plataforma em direção ao dito Instituto. Vestia-se com charme, e que não seja meu engodo a você, meu caro leitor: charme me chama muitíssimo a atenção… Talvez mil vezes mais que a vestimenta piriguete do momento (pode ser um estado de espírito, pergunte-me em outras ocasiões).

Enfim, temos a Melissa, belamente vestida. Conto-vos em confissão, mesmo tu não sendo padre, ó leitor, que há um interessante fetiche por pés da minha parte. Talvez isso seja possível pelo fato de que os pés são a parte do corpo admirável em regiões onde a calçada seja irregular. Tentar elevar um pouco o olhar – e em movimento, torcer o pescoço – pode ter como resultado uma nuca inchada e cheia de escoriações. E as botas dela, com um toque vintage, eram o máximo de fetiche desejável nos meus últimos anos.

Não fosse ser apenas o fato contemplativo acima descrito, seria apenas mais um remendar de tempo de escrita, mas foi além. Eu bem conheço, do universo particular que bem conheço, que quando saio da bolha e abro mão de um dos canais auditivos – ou até mesmo ambos – em razão dos outros, me permito desdobramentos entre veredas das mais variadas possibilidades e tenho, decididamente, as mais variadas intenções. Diga-se da Melissa, que na ânsia de tomar um refri’, veio a designar um princípio de conversa comigo. E eu – bobo nem nada – aceitei o jogo do discurso.

“As máquinas não aceitam notas graúdas… que coisa”

“É, pois é, também tô com um vintão aqui também”

Um silêncio estratégico presume ou o fim da conversa ou uma nova investida discursiva. Decidi pela segunda:

“Cansada, deve estar… Indo pra casa?”

“Sim.”

“Onde mora?”

“Hum… é difícil dizer. Vamos lá: moro aqui, mas vou pra acolá, tô vindo de algures e passei por alhures.” (favor me corrijam os eruditismos)

“Hum… Sério? Conheço todos esses lugares… Sacumé: tive um pai ferroviário, nasci sobre os trilhos (…)”

E assim vai.

É possível que um investimento discursivo no transporte seja um fiasco ou ou sucesso tremendo (já experimentei ambos). Pensar que você pode gastar o seu latim, todo o seu charme, todo o seu jogo corporal para conhecer e desvendar um universo particular, sem a recíproca não se manifestar é o ulterior drama do mundo em que as pessoas estão menos dispostas a ouvir um “não”.

No entanto, fui feliz com a Melissa. Uma graça de pessoa… Parecia que éramos velhos amigos (o maior defeito que há em mim é tornar pessoas recém-conhecidas investidas de uma confiança que se pode tornar perigosa). O sorriso dela era outro atributo tão mais sublime quanto as vintage que ela usava. E antes que me esperançasse além do que previa – um boêmio e romântico tem muito dessas paixões de esquina, do olhar trespassado – busquei sinais evidentes da existência de um universo particular desconhecido: o terceiro, o ele, mas que era o primeiro, o dela.

E sim, estava ali o portal circular para este primeiro-terceirizado… Bom, antes percebê-lo do que deixar essa traiçoeira solitária afetiva… Mas ali havia um afago discursivo, uma admiração egóica… Uma disposição de se enamorar, sem estar enamorado. “Te amo, Melissa, te amo porque você é um amor de pessoa, e você não precisa jamais saber que deverá corresponder a isso.”

O mito do amor platônico se realiza por diversas e diversas vezes entre os menos corajosos de serem capazes de romper com a cultura do agrado… Mas o intencionalmente perceptível e que me surpreendeu era que, no momento em que a Melissa seguiria invariavelmente seu longo caminho, optei pela materialização mais possível dessa conjunção pluriuniversal: um abraço.

(por sinal, fiquei analisando com minha amiga Mnemosine que então esteve acompanhando o processo de produção dessa crônica-testemunho e percebemos que nada aí rendeu demais… Mas aproveitando o ensejo poético…)

Não sei o quanto há de Pragmática envolvida num abraço. Decerto, ela prescindiu de votos que sequer foram comentados na empreitada. “Sucesso na vida, na carreira e eu tenho a plena certeza que você achará um Amor pra aquecer teu coração”. Em nenhum momento investi, notando pelos sinais evidenciais e o comprometimento dito nessa pequena jornada, alguma conversa nessa linha. Foi o olhar? Foi o molejo de corpo… Foi o dito abraço, um impulso de agonizante carência a ser suprida? É quase certo que nunca mais a verei pra rescindir da pergunta.

Não. Não mais será em razão de a querer, nunca foi. Pelo menos o timing afetivo jamais se efetivou em tempo. Soube reconhecer todos os sinais antes que qualquer luziminescente lampejo de racionalidade afetiva o fizesse cair em meu desvario. Mas, pensemos: se fui capaz de reconhecer um amor foto-fátuo de ônibus, causa de muito pensar se minha lucidez ainda era válida; ou a reminescência quase embotada da porta-voz lilítica, babilônica e luminescente, me impelir a achá-la de novo, ibidem e num ímpeto de notas latinas (lembro-me o encrypton imbuído em territórios Reboucinos)… Quem sabe as histórias algum dia se repetem. Quem sabe elas forneçam roteiros dos mais diversos? A escada musicedente da Catenárica Cidade, essa Cidade D’Itália me espera novamente, o caminho pro pólo-direcionador também. Um pouco de vontade e uma dose de música indie, os sapatos vintage, uma roupa de alma florida e outro sorriso me esperam naquela Pinheiros, Tatuapé, Paulista-Consolação, territórios ainda inexplorados e incansáveis. Ou o mesmo. Enchanté!


Ouvindo... The Charlatans: My Name Is Despair

Crônicas de um interior

O indivisível


 

Muitos rostos passam diante da nossa vida, mesmo sem sair de casa. Alguns passam. Outros permanecem. Alguns poucos persistem e acompanhamos a evolução natural do processo do tempo. Um ou outro se tornam familiares. Contáveis-nos-dedos significarão muito em toda a nossa vida.

Mensurar isso é, ao mesmo tempo, programático e fora-de-regra.

O que o mundo de hoje fez conosco é ampliar a imensidão desse espectro de rostos que perpassam nossa vida. Mas as contas permanecem as mesmas.

É impossível investir da mesma carga sígnica cada um deles. Prometemos contemplá-los devidamente, mesmo sabendo que não o cumpriremos. Às vezes a mensagem facial sincera é sublevada diante de alguns olhos fascinantes, sorrisos esplendorosos.

E o mundo nada daquilo era da sensação de visão. As almas estão protegidas por um firewall humanístico bastante perverso. Deve ser essa tal de modernidade que tanto dizem. Estamos encapsulando nossas almas em redomas que mais parecem vitrines de antiquário. Alguma coisa de maior raridade recebe cotações absurdas, e se quebra no primeiro manuseio.

Pessoas – seres vitrinais.

Foi-se o tempo em que se contava histórias de como aquele momento surgiu. Aquele meeting. As histórias estão ficando muito parecidas. “Na escola”, “no trabalho”… A mais nova: “te conheci no Face”… essa poderia ser diferente – às vezes é – mas como te conheci? Apenas trocando meia dúzia de palavras contigo? As histórias sempre estiveram nos detalhes, e as pessoas andam justo rejeitando esses detalhes e se atendo nos esquemas gerais. Ah… Os esquemas gerais, tão limitados.

Catalogação – de acordo com o ambiente.

Amigos da infância, amigos daqui, amigos de São Tomé das Letras e Ilha do Mel, eles e elas de todas as dêixis possíveis. O tempo passa, o momento inicial finda, uma história maior é construída. Quem não te acompanha por perto, simplesmente a relação se ausenta – nem o eu nem o tu, tão-somente o intercâmbio.

E fica a história do presente sempre em processo de construção. Enlaçar todas essas histórias numa única é a tarefa impossível: há histórias de teores diferentes. Não dá pra misturar leite e cítricos, em temperatura ambiente. Sempre é preciso um processo químico, um aditivo… Mas a reação é apenas transitória. Não é possível ser o mestre da receita amigável. Milagres com amizades, nem as personalidades públicas foram capazes. Cada sabor teu seu peculiar.

E cada fragmento depositado tem de haver uma garantia de um retorno. Nada pode ser cedido sob pena de não retornar, nem que seja com o mínimo de experiência de uso.

Mas esse motor aristotélico passional é indivisível… E essa estranha função matemática divisível-ao-infinito será sempre a profunda incógnita humana incapaz de ter resultado definido. O momento de uma constante, quando a derivada é zero – o sozinho – permite que todos os eixos desordenados dessa função vivaz se permitam reordenar – para empreender um orgânico e saudável crescimento.

Precisamos, sim, desses momentos de função constante. Ser um eterno somador é tarefa difícil. Se viverá muito pra pensar no tão-tão-imediato que se perderá o momento – perca-se o momento sim, mas com o que se já possui, não com o que virá – e apenas o presente, a função infinitesimal, o sentar-se diante da vitrine, a degustação e a discreta pausa são os melhores artíficios pra se enfrentar a pressão ingloriosa do motor-contínuo-em-disparate…

Que a modernidade nos atribuiu diante de indicadores etéreos e camadas de pixels e bits, nos mais diversos bitrates.


Ouvindo... MGMT: Time to Pretend

Confissões [13]

I

… Amiga… quase irmã…

Já adianto que sentirei saudades de você…

Percebo há quanto tempo o mal que unicamente foi feito de nosso convívio… A saudade será tamanha, e já sentirei estas saudades.

Esse processo de irmandade… Foi tão inevitável… Tua voz de veludo, tão melíflua – aprendi essa palavra na prática – foi meu chamariz pessoal para saber que você existe… Amiga! Te tomei como irmã, agora já é tarde. Muito melhor lhe tomasse de outro jeito, mas agora é tarde…

Sentirei saudades de você… Algum dia…

Você foi tão profética… Nem sei se já assumo: irmã, cúmplice amistosa, amicíssima… Sabes muito bem que amiga não pode ser, já que sabes muito o que ser amiga implica para mim. Tudo, menos amiga.

Sinto saudades de você… quase irmã.

Agora, falta menos tempo do que eu imagino. Cada um segue seu caminho, você, irmã, o teu; eu sigo o meu. Ei-me lembrar que perguntara a mim: estará sempre presente em minha vida? Eu digo, Claro que sim, se acaso você o quiser.

E que queira, e muito, quase-irmã, estar presente em minha vida, pois eu sentirei saudades de você, algum dia.


II

E você, amiga, que mal te conheço direito, por que me fazes sofrer? Que terrível intuito o teu… Por que justo naquela tarde de chuva? Por que tua face me instigou? Por que tua indumentária? Por que nossas coincidências geográficas? Por que todo esse conjunto, sua… sua… Helena de Tróia! Pandora dos tempos míticos! Não há explicação! Pões à prova minha constância, constância augustina, feito aquela descrita por Macedo… Mas você não é meu amor de infância… Dentre todas as amigas, não-irmãs que tenho, você é a que conheci amanhã… Amanhã…! Nem agora, nem ontem… Você é a amiga do futuro! Nada há que te iguale! Droga!!! Mil vezes droga!!! Não fazes a mim usar verbos na perfeita segunda conjugação, não faças com que me sinta um escravo diante de ti, estou pasmo, vicioso e terrivelmente açoitado por tua singularidade, amiga! Agora é tarde! Agora é tarde… Construí tantos cartões de visita em minha mente, já bem conhecidos, e de último minuto apresenta o teu!

Agora que faço?! Muitos amores estão ofuscados diante de teu efêmero brilho… Um brilho efêmero que posso tornar permanente em minha órbita celestial. Beldade etérea! Algo sem igual… Não faças isso mais comigo amiga… Esconda estas janelas da alma no recôndito de tua intimidade… Pelo menos diante deste sôfrego cantador de virtudes estéticas e essenciais.

Não faças, do meu louvor, hinos de sofrimento! Não, não, não, favor, amiga!…


Ouvindo... Alanis Morissette: Flinch

Crônicas Atrás do Motorista [2]

Diante do fluxo de pensamento incontrolável, eu penso: o que é um busão? Um enlatado sardinhesco terrestre por excelência? Um caminhão de gado? A busca do ponto terminal pelo privilégio do lugar sentado de nada vale quando você tem um ônibus sem freio que pode ceifar tua vida, sem a mínima misericórdia…

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Crônicas Atrás do Motorista

Meu dia termina, naquele emaranhado cinzento, mais rápido que o rotineiro. Pego minhas coisas, inclusive me esqueço de deixar de prontidão a carga de meu celular, o que iria, certamente, gerar a abstinência de canções de distração nesse odisseico caminho… E eis que, quando submetido a tal situação, muito do que planejo fazer da minha viagem muda completamente.

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Confissões [8]

Enfim, amiga… Eu sinceramente não sei de mim! Reconheço na minha pessoa um ser duplo, triplo, múltiplo, pois que ao mesmo tempo que juramento a mim mesmo que te respeito, eu te traio em pensamento por uma pele macia, por um olhar penetrante, por um sorriso meticuloso. Como pode isso? Realmente eu não sei… Saia de mim, ultrajes!

Ajude-me amiga! Dê-me teu ultimato, pro bem ou pro mal. Eu preciso dele pra saber se compensa assumir essa torpe faceta cafajeste, haja vista que não me queira como eu te quero; ou se abdico dessas superficialidade, e faço de ti meu monumento a ser esculpido pelos próximos anos…

Por favor amiga… Faça alguma coisa, urgente! Não sabes, estimada, o quanto sofro diante desse impasse. Ao passo que eu amo a ti, eu desejo as outras. Isso é provação divina, bem imagino – torpe nesses quesitos que sou – e não sei por quantas mais devo passar pra te merecer. Eu sei que não corro atrás de ti, você precisa respirar, você precisa do seu tempo, mas…

Mas por favor, eu te suplico, com todos os endossos: faça uma resolução, porque seu tempo de pensar me parece uma eternidade, e não sei por quanto tempo vou ter de sobrevida antes de uma severa epifania. Sim! Eu estou sujeito às epifanias, muito mais que no passado. Não consigo esconder mais nada de ninguém…

Nada, exceto o que realmente sinto por você.

Por favor, considere isso em seu ultimato! Pela minha epifania.


Ouvindo... Maria McKee: No Other Way To Love You