Em homenagem a B.V. (ou sobre as Baleias Azuis)

Na baleia azul – a portentosa musculus
vigora a gigante pulsão da vida:
em teu masculino ato copulatório,
as aqua-sementes, quando não germinam
em uterino blau-grande-balinácea prosperar
de provento a outras vidas, coralíneas,
pequenos písceos e outros demais
no ecossistema a vida suportais
em comunhão com seu triste assaz soar.

Fazemos mênção a esse pequeno epitáfio ao nosso estimado e finado colega Bartholomeu Vinardi, nascido cá no nosso glorioso estado da Bahia há coisa de 30 anos, como princípio de nosso discurso de homenagem post-mortem a esse que dedicou seus estudos em biologia, sobretudo ao ecossistema onde conferiu grande relevância aos ditos grandes cetáceos.

Bartholomeu – ou, para os mais íntimos, Bart, o que imaginamos que tenha vindo daquele personagem do Simpson tanto seu batismo como a lei da economia de fala – que, outrora, era troçado por Ju-Barte, já que em nossas saídas do Ensino Básico, lá nas lindas costas da Bahia, não raro, este nosso então pequeno se debruçava, nas praias, a ouvir os longínquos cantos balináceos (Abrolhos não estava tão longe de nós). Nosso Bart, a despeito dessas troças, decidiu desde muito jovem: seria biólogo. Assim o fez. Dedicou seus últimos anos para ingressar no curso de biologia da Federal de cá. Ingressou, de fato, e sua dedicação e identificação com o curso foi intensa: atravessou a graduação com louvor, fez mestrado e doutorado em uma única tacada.´

Para as defesas, debruçou-se num tema controverso, do qual a epígrafe, de autoria dele nos seus últimos tempos redigiu: os resíduos esparmotozoidais do ato sexual entre baleias constituía uma dieta-base para organismos de micro- e pequeno porte no ecossistema local onde subsistem as baleias, sobretudo as Jubarte e as Azuis. Embora os bastidores troçavam dessa hipótese, sua mesa de arguição tratou de recebê-la com devida atenção, conferindo-lhe os títulos. Mas o ceticismo vigorante o impeliu a desenvolver suas propostas em outras bandas.

Assim, seus últimos três anos em vida foram um intercâmbio para o Extremo Oriente, em busca de respostas assemelhadas, e corroboração de sua hipótese.

Cá entre os presentes nessa cerimônia, fazemo-nos notar que esse período fora decisivo para o que temos diante de nós: nosso estimado Bart jazendo entre nós.

Déssemos atenção aos últimos meses e aos relatos que ele nos contava em reuniões informais, talvez o tivéssemos ainda vivo entre nós. De muitos, tentarei vos citar, mais ou menos, à memória, os seguintes:

Não foi somente a pesquisa que me impeliu a circular Tailândia, Japão, costa da China e Coréia, buscando as minhas desejadas respostas de pesquisa, mas também a militância e o ativismo ambiental, a conscientização de outros jovens biólogos nesses lugares. Foram bons tempos lecionando em cursos rápidos nesses lugares… Mas foram piores os tempos entre o fim dos trabalhos e a detenção que sofri por conta dos impropérios de ordem política que, acreditava, estar divulgando do modo certo. Falava com convicção sobre a situação que eu, supostamente, acreditava que eles sofressem – não sei se os tailandeses ou os coreanos, não sei mesmo te dizer, cara – enquanto civis, diante de seus governos. Creio que meu falso testemunho, com base do que ouvia aqui no ocidente, me levou aos serviços de detenção do Estado…

Eu costumava estar sempre acompanhado por dois sujeitos que pouco se comunicavam comigo em inglês – apenas o essencial, “quer comer?”, “quer beber?”, e assim vai – e mais na sua própria língua, tão melodiosa aos meus ouvidos. Eu até me esforçei pra compreender, afinal, o que eles falavam… Vezes ou outra, procurava imitar sua fala, com a devida atenção minha, mas eles troçavam entre si acerca de meu despreparo. Final das contas, aprendi quase nada do que eles falavam. Não me importei muito com isso.

Tinha um terceiro deles, um chefão. Muito aprumado, esse era durão. Recostava horas ao pé do ouvio, com um inglês absolutamente limpo, de dar inveja a qualquer britânico padrão… Me mostrou como somos enganados por muito que vem da Europa e sobretudo dos ianques… Como eles montam teatros de imagens a respeito de fatos históricos… Ninguém chegou a Lua, ele me mostrou provas disso!!! E os estudos de Astronomia são uma balela. O universo mais se parece com aquele esquema de Aristóleles e Santo Tomás, tem um limite, maior do que se imagina, mas nada tão imensamente grande quanto se divulga aqui. E me deu provas cabais disso: apontem uma lanterna no céu! apontem uma lanterna no céu!!!

Percebíamos, da parte do nosso colega, alguns comportamentos estranhos, como imitar baleias em ato de cortejo, logo após a sua volta. Ele falava pra gente não se fiar nisso, que eram bobagens da parte dele. A gente, entre essas e outras declarações de sua detenção pr’aqueles lados da Ásia, ao questioná-lo sobre mais detalhes, nos fiávamos nas contradições da parte dele. Ora, a detenção era por falso-testemunho, ora, por alguma despesa não ajustada. Não raro, tratava de desviar o assunto, dizia que não tínhamos que nos ver com isso.

De terceiros, soubemos que o mais coerente foi da intervenção ativista de um grupo que ele participava no mar do Japão, onde figurava uma empresa sino-tailandesa que capturava baleias para fins culinários – pra quem não sabe, ainda a baleia é considerada uma iguaria, tal como o salmão do sashimi, a despeito dos tratados internacionais de cooperação pela preservação das baleias. Temos as fotos da detenção, mas ele assegurava, em vida, que não fosse ele ali. Estava em outro evento, não sabia onde…

Seu semblante, nos pouquíssimos últimos meses de seu retorno a nós, era apático. Não podia se debruçar em ouvir intercambistas dessas regiões longínquas de nós, ficava estático – dizia que era pra aprender a língua que nunca aprendera ali – e, caso eles viessem a olhar nossa mesa, notávamos sua apreensão ao virar a face para outra direção…

Talvez se nos déssemos conta das suas conjecturas de cunho historiográfico pró-sinico e pró-sionístico (desse último, favorável à história da Tailândia, não que ele outrora fosse pró-estadunidense). Ele, considerado muito inteligente, debruçava-se no argumento que nossa história ocidental constrói uma culpabilidade existente aos estados daquela região, tão somente por conta da derrota na Guerra do Vietnã, atribuindo-se um vitimismo infantil de quem não aceitaria a derrota. Daí, justificar que a questão que ele sempre nos pedira ser inonimada da Praça da Paz fora um teatro forjado de história viva, só pra não nos determos em outros exemplos, menos conhecidos e só interessantes aos nossos colegas que realmente se debruçam na história.

Julgamos – os seus próximos e a família – que ele viesse a ter sofrido com traumas diversos nesse meio tempo, então recorremos à Psiquiatria. Ele, já prescrito a ansiolíticos e calmantes, contudo, não fora o suficiente. Se isolava socialmente, debruçava-se mais em redes virtuais, a coisa ficava séria. Mesmo cá nós, morando num estado quente, ele fazia muita questão de roupas longas, para dias de frio…

Se nos acalentássemos em ajuizar com mais carinho a respeito dele, talvez não o encontrássemos sob condição de overdose, o que o levou a este óbito repentino. Talvez não estaríamos aqui, recitando essa homenagem. Talvez não estaríamos testemunhando a hipótese criminológica da única Baleia Azul que deveria, sim, ser exterminada, não só por conta desta vida que nos foi tragada, no barco da existência, como de muitas outras, fragilizadas por motivos, que muitas vezes consideramos picuinhas, embora menores que as testemunhadas pelo nosso querido Bart, Ju-Barte, malgrado esse pequeno bullying que, desejamos, não tenha sido um dos estopins nesse decurso…

Cá encerramos, predispostos a levar em nossos corações, com esta perda, uma lição: se não estiver afim de acreditar em testemunhos – mesmo de teor paranoico – ao menos, não desacredite. Isso pode fazer uma enorme diferença na vida de alguém…

E, ao soar das trombetas, que imaginemos do nosso Bart, para quem em Deus creia, um lugar no Paraíso… Para quem em crenças de reencarnação, que ele tenha um karma menos pesado em vida vindoura. Se, do desejo ulterior dele, ouçamos as baleias… Quem sabe ele virá a ser uma, em breve? Como finda o epitáfio do Bart, e aqui findo minha homenagem:

Sejamos felizes, amigos,
saibamos que, um dia, experimentaremos
ou experimentamos
ser baleias azuis
e comungaremos
nas águas da nossa existência,
senão o privilégio de recitar
a linda-triste canção de amor,
a tão simples existência
de haver um germe de baleia
dentro de cada um de nós
a cada dádiva que mãe-d’água
nos entregar em nossas
redes ribeirinhas…


Essa história tem teor estritamente litarário. Bem como propósitos de alerta a adesão a práticas que envolvam automutilação ou cessação da própria vida; e o devido acolhimento a pessoas que, por seus testemunhos pessoais, denotam comportamentos de ideação suicida. Acolhamo-as, pois não sabemos o universo de experiências que elas vivenciaram e vivenciam. Qualquer semelhança com fatos reais, trata-se de uma casual coincidência.

Ouvindo... Mr. Mister: Broken Wings (from the album “Welcome to the Real World”)

Carta Post-Mortem

Valparaíso, 03 de maio de 2033

Aos meus queridos colegas de pena,

A vida é absurda. Não mais me cabe. Quando lerem esta carta, provavelmente estarei vendo um futuro melhor, distante deste Universo fugaz e horrendo.

A existência é absurda. Nascemos, vivemos e morremos, conforme as leis da Natureza. Alguns mais afortunados casam e deixam seus filhos e suas heranças… Bastam se dizerem advogados, deputados ou empresários. Eu escolhi ser escritor e professor de Filosofia, daqueles que defendem uma nova economia de mercado mais humana e solidária. Assinei meu atestado de pobreza. Vivi nos subúrbios de Valparaíso, uma cidade que vi, menino, ser ambiente das festas típicas. Hoje, é local dos condomínios, das festas eletrônicas regadas a orgias (as orgias que tanto li dos antigos prosadores internacionais do início do milênio) e sinestesias geradas por aparelhos de realidades aumentadas, hiperaumentadas, que não só modificam as percepções dessas crianças com cordão umbilical de banda larga e fibra óptica biotécnica, que nascem com uma conta de e-mail vinculada e tantos outros apetrechos a mais que nos falam, Vocês, do fim do século passado, estão por fora das novas tendências, não estão sabendo se adaptar aos novos tempos, tempos de integração, do compartilhamento de pensamento, da unificação de ideias em torno de um bem comum… Eu conheci isso por Marx, fizeram tudo errado, agora os Jovens Ons estão submissos a um Grande Servidor, não sabem o que é sofrer, não sabem o que é sentir-se sozinho pelo sentir-se sozinho, não sabem o que é a falta, não sabem o que é ter necessidade, bastou o paizinho assinar um Termo de Pacto no nascimento e implantar o chip de integração, ainda na barriga, Veem o mundo com o sentimento de útero, São felizes pobres, felizes por não necessitarem de mais o que tem, Não quero ver meu filho sofrer por falta de dinheiro, Vou submetê-lo a essa coisa do demônio, não há jeito, Melhor que ele não se sinta triste por esse mundo. Vão lá eles, assinam, os meninos não choram, as meninas não choram, mamam mecanicamente, não pedem carinho do pai da mãe, não precisam, aos cinco anos, Quero ir ao Magnânimo, centros de máximo prazer, se copulam como gentes grandes não fariam, Os pais, coitados, antes já se mataram por Amor a Deus, imersos na gloriosa vergonha que se declamam. Não há quase mais pessoas acima dos trinta anos desde 2024, quando o Magnânimo foi introduzido nas sociedades. Os poucos que estão aí, são daqueles que não assinaram o Termo de Pacto para os filhos, ouviram xingos e xingos deles aos sete, oito, nove, quando perceberam que acessar a internet, como eu acessava nos meus anos de infância, já era coisa off, Eu quero uma vida totalmente On, diziam pra vocês, meus pares de pena, e quando assinam a Prospecção de Adesão, outro termo, morriam por não estarem acostumados…

A felicidade é absurda. Vocês se arrependeram de eleger o governo que até hoje está, travestido de social, dando tudo o que estas novas gerações pedem, aos oito anos Papai, vou ajudar o Governo a crescer, entram na Criogenia aos vinte e saem de lá aos vinte e dois, diferentes, com uma pele elástica, não sentem nada, Nunca sentiram, Agora moram nos condomínios. Lá não entram minhas, nem suas obras, Livros são desinteressantes, nos fazem entristecer, dizem, Gostamos dos discursos orquestrados, gostamos de ouvir, gostamos de sentir que o que se sentia há bons anos, Eles amam é sentir o discurso… Passam horas baixando os arquivos de discurso, as velhas literaturas não são lidas nem escutadas, e sim assimiladas com gostos e cheiros e visões que certas vezes os atores da finada Globo se submeteram a fazer a mando do Governo. Mas isso… ah, isso meus caros, não demanda mais as vinte e quatro horas do dia, Eles sentem O Capital reverberando em hormônios do sangue deles, enquanto produzem para a sociedade contente deles os utensílios necessários para a vida funcional que vão desempenhar, em favor do Governo, sem queixas, sem revoltas, tudo perfeito, tudo uma felicidade absurda, que me faz ódio pensar como funciona.

A pena é absurda. Depois da morte de Rubem Fonseca, não houve mais contista capaz de dizer o que esse mundo precisa. Todo mundo se tascou a fazer romance técnico, literatura de autoajuda desprezível, os caras da tecnologia trataram de suprir a depressão coletiva que assolava o mundo por volta de vinte. Foi preciso o assassinato de duas lideranças do mundo para que eclodisse a mais eficaz ditadura. Zola, Dostoiévski, Assis, Lispector e muitos outros foram sinestesiados para logo em seguida serem queimados. Bibliotecas? Só as clandestinas. Cartas a papel, preservação tola de costumes dos tradicionalistas. Falam que isso é o futuro inevitável do comunismo. Não não é! Isso é o futuro inevitável da sociedade, o futuro de formigas, o futuro de quem não quis se aplacar das coisas que nos tornam humanos.

As oportunidades são abusrdas. Foi há vinte anos, eu era um tecnólogo, disse Não sei se deveria investir nisso, é perigoso Por que, me disseram, As pessoas sentirão falta disso, em caso de pane elétrica. Fingiram que ouviram, foram consultar outro, um amigo meu, Empreendedor ao máximo, Vendeu pai mãe e o caralho-a-quatro pra fazer sucesso. Hoje o que se pode chamar Brasil está nas mãos dele, Ele é o cara! Ele e os filhos dele e os poucos amigos que ali cultivam, lá em São Paulo, numa área isolada de tudo. E o que é melhor – ou pior? – sem essa vida On, esse puto da vida lhes ensinou o quanto isso é pernicioso… Pra eles. Era pra ser comigo, ter a loira que ele tem, a grande fração de terra que ele tem, os amigos que ele tem, a vida que ele tem… Eu? Eu fiquei no meu idealismo, paguei o preço pela minha lealdade à vida, não quis ser o Co-dono do país, em conjunto com o governo. Minha paga? Não foi a deportação nem a tortura nem qualquer outra privação dos anos anteriores, minha privação foi dada por mim… O homem quer ser dominado por algo irresistivelmente maior que ele, ele quer se entregar ao escatológico e inevitável fim, Ele, por mais autônomo que seja, não consegue se desprender das suas humanas convicções e contradições.. O tempo de homens plenos se foi junto com os Anos de Ouro da Grécia…

O futuro é absurdo. Espero, de imensa ingratidão, que essa sociedade seja submetida às larvas interplanetárias e explodam com esse mundo de fingimentos cada vez mais verdadeiros. O futuro livre do homem era ser capitalista, acumulador e individualista. Compartilhar tudo com todos, na realidade é uma bobagem sem tamanho, porque algum sortudo verá nisso uma oportunidade para se promover, e olhar para baixo com orgulho e dizer – enganadoramente? – que é a pessoa mais plena do Universo, que Deus é uma grande bobagem.

O absurdo é Absurdo. Queria que este indivíduo fosse eu, mas, por Fortuna, verei o fim das minhas queixas com minha morte depressiva e libertadora.

Com carinho desprezível,

Aliguiero Danteschi


A lida desta carta, por meio da tecnologia da Sinestesia, em agosto de 2036, comemorou, publicamente, os vinte anos de inserção do Novo Regime, ensinando à Comunidade os malefícios que se têm ao não introduzir seus rebentos no Sistema Sinestésico de Vivência Coletiva Governamental. O sentimento de pena foi devidamente explorado numa experiência emocionante, promovido pela Sociedade de Escritores de Valparaíso.

Em tempo: Aliguiero Danteschi era o último dos sobreviventes dos tempos de transição no país. Sua presença era considerada incômoda pelo governo, pela razão de incentivar a não-adesão dos nascituros a um futuro de serenidade e gloriosa paz que a tecnologia podia lhe oferecer.


Ouvindo... Slayer: Piece by Piece

Humanidade: 11.9 Richter

Smiley indecisoO conto começou com uma mera coincidência com alguns dos fatos, mas foi elaborado posteriormente em algum ponto após os ocorridos recentes.


Num determinado dia, a casa de José, humilde morador do bairro dos Rodrigues, foi aterrada por um berro uníssono familiar: anunciava no Bom Dia Brasil a suspensão definitiva do Bolsa Família, sob decisão do reascendente governo federal tucano.

A mulher de José, que fervia o leite – o último da parcela anterior do programa, – rogou uma praga imensa: pro mundo, pra José e pra si mesma. Jogou uma panela pela janela, atingindo em cheio o telhado dos vizinhos de baixo.

– Que merda é essa??

– Vá para a puta que pariu, sua branquela nojenta!!! Você, seu marido falastrão e o demônio do seu filho que estuda naquela buceta maldita chamada USP, seus tucanos cagões!!!


No bar Nossa Senhora do Carmo, entre uma e outra leva de chope à mesa, os homens discutiam, não sobre o Corinthians que ganhou a Copa do brasil, mas, quem ainda recebia o benefício:

– Então, Mirizola?

– Pois é, também não recebi.

– Culpa do José que convenceu a nós todos para votar no zé-tucano.

– Culpa real é daquela família de estranhos, brigões, mãozinhas-de-cirurgião; cheios de não-me-toques, com filho metido a universitário e que fica parasitando as mesinhas daqui, quando o Manezilo tem que fechar o bar.

– Pra esperar o caduco do paizinho dele… se bem que… tadinho daquele senhor, quando o nojentinho podia perfeitamente pisar no barro. Ah… essas pessoas da cidade.

– Então Mirizola? Quéque fazemos?

– Colar lá no Professor da Prefeitura. Quem sabe ele dá um jeito.


Caucaia estava um pinel. Além dos habituais alunos do fundamental, havia uma celeridade de pais de família, impedindo os ônibus de saírem. Resquícios daquele momento histórico em que os jovens saíram a protesto pelas tarifas. Pena que, agora, quanto mais se aproximavam do Ensino Médio, menos eram vistos como pessoas amigáveis.

– Agora eles não pagam nada, e aquele aumento tão recusado voltou. Adianta? Adianta???

– Deixa eles, Ernestina. Lutaram por um monte de outras coisas. Temos saúde melhor… tá, não tanto assim melhor…

– Ferre-se Juvenal! Há dois anos ainda perco o meu banco de rainha prum pentelho de sei-lá-onde do barrão, que insiste em colocar a mochila, justo onde devo colocar meus pés. Ele não para de estudar nunca!!! Nunca! E eu, droga, tenho que ficar me matando pra trabalhar o mesmo tanto pra comprar menos. Culpa desses universitários que saíram no treze pra mexer no que tava bom.

O coro em uníssono era amedrontador:

– Estudantes! Vocês vão ver! A copa foi e vamos matar vocês!!!

Dez universitários olhavam a multidão com uma cara resignada. Nenhum susto: saberiam, infelizmente, que a nova tropa de choque de Cotia iria atuar ali, pois outros três ônibus e alguns carros novos viraram alvo de destruição.

– Uma pena, Eleonora, uma pena…


Dois dias depois, a Globo, finalmente, não teve novelas por três dias, em todos os horários. A exemplo do V de Vinagre, o plantão noticiava, de forma perniciosa, focalizando os protestos mais agressivos, e alguns arruaceiros, tatuados com CV e PCC, como se fossem os mandantes da coisa toda. À revelia do manifesto do Gigante, o elogio à proposição, enfim tomada pela presidência, nada mais fazia que inflamar os ânimos do primeiro protesto de classes populares.


As grandes universidades, enquanto faziam seus primeiros debates, foram surpreendidas por hordas de pessoas que, desorganizadamente, gritavam violência, violência! Causando prejuízos inestimáveis, dez vezes maior que o trezão.

A audiência de canais alternativos cresceu, e os menos corajosos em sair às ruas empreendiam seu tempo livre em assistir às sessões do Senado, um hábito que passou a ficar muito comum…

A ex-presidente criticou veementemente o partido da situação, dizendo que acabou por minar a economia brasileira, já falida pelo recuo dos grandes eventos e da presença de políticas antiassistencialistas.

Na casa do Rodrigues abaixo da de José, não se ouvia os sons do filho universitário, comentando ponderadamente sobre o ocorrido. Dizem as línguas justas que havia cartazes no interior oferecendo recompensas por estudantes mortos. Acusação: terem mexido com um Brasil que tava dando certo.


Estado de sítio na Semana da Pátria decretado.

Professores de todas as categorias, estudantes e ativistas, sobretudo os que não estavam empregados, foram refugiados nos quartéis. Um paradoxo: tudo aquilo que historicamente fora combatido pelos movimentos estudantis, agora abriga àquela classe. Falava-se, entre os populares, num pacto entre a inteligência brasileira e os militares.

– Mirizola, aquele pentelho da casa alta não voltou mais faz semanas.

– Bom mesmo. Tô preparando minha carabina pra estourar os miolos dele. Quem mandou ele liderar um protesto aqui, em Ibiúna, destituindo o grande Bello, em razão do familiar do Coronel?

– José, que acha?

– Complicado… Os pais dele fecharam o acesso que tinham por cima, muraram a casa toda, colocaram câmeras e sei-lá-mais que alarmes. Riquinhos… Deixe estar eles derem mole lá, o uspiano bucetudo vai ficar sem papai…


O jovem do Rodrigues veio com escolta, provida pela Universidade. Tinha que pegar toda a sua biblioteca, ameaçada de virar fogueira e charuto de palha pelo bairro. Ao sair da casa, deu duas batucadas marciais e ergueu uma bandeira branca de paz, enquanto se ouvia as sirenes da região apontando para uma incursão de gás sonífero no bairro do Verava, residência do prefeito instituído.

– Realmente, pai. Fonseca tinha razão… Mas, agora, pelo bem desta biblioteca e deste pessoal, você não vai poder lê-la. Por favor, se cuide, você e a mãe, e por favor, não escute a Plim-plim elogiando, mais uma vez, o fim do Bolsa Família… Não por eles, mas pelo nosso passado recente.

E quase que ele esqueceu a histórica primeira página de 23 de junho de 2013 da Folha, acreditando que aquilo era um sinal dos tempos de Apocalipse.


Ouvindo... Sophie Ellis-Bextor: Revolution

O sepulcro de Rousseau

Os jornais ficam loucos na passagem do dia 24 para 25 de dezembro daquele fatídico ano inonimável. Tudo porque, na vila Progresso Iluminada, um menino de apenas cinco anos portava uma arma de fogo nas mãos – uma Glock 9mm com silenciador – e assassinou os pais, militantes de esquerda, “acidentalmente”, salientou o periódico, que incluiu a notícia tão tardiamente a ponto de mandar as gráficas pararem o processo que corria no especial de Natal.

Os assinantes da Grande São Paulo ficaram tão putos por receberem seus jornais com três horas de atraso – a maioria deles, trabalhadores de serviços essenciais que não paravam no Santo Dia – as reclamações foram diversas de exemplares afanados, os SACs se entupiram de reclamações, chamou-se o contigente extra de funcionários que estavam em descanso com suas famílias. Houve, nos dias seguintes, um divórcio, três mortes por estafa e um caso de violência relatado na Delegacia da Mulher. Prenderam os médicos e o marido violento. O hospital tinha como provar que a morte dos funcionários nada teve a ver com a incompetência dos médicos, e eles entraram em protesto. A comunidade odiou e foi protestar diante do edifício da CRM. Apesar do trânsito do dia ser diminuto, houve confronto; chamaram a polícia e teve muitos feridos e mais alguns mortos, dos quais um deles era chefe do tráfico de alto naipe na Zona Leste.

Foi a semana mais terrível, pois o PCC montou uma força-tarefa capaz de criar um cenário de terror por conta da pretendida retaliação. Queimou dezenas de postos policiais, explodiu centenas de outros no Estado e ameaçou matar o governador. Este, diante da opinião pública fervilhante, arredou mão de pedir à União para colocar o Exército e a Força Nacional nas ruas. Prenderam quem devia e quem não devia. O caldo ficou absurdamente grosso e a presidente precisou decretar estado de sítio no sudeste, pois a encrenca tomou proporções calamitosas. ONU, os EUA e diversas entidades digladiaram-se para entender o que realmente havia acontecido naquele Natal. Os megaeventos foram cancelados e a economia brasileira foi para o brejo, carregando o mundo para uma interminável crise capitalista… Nada novo.

As famílias, já no desespero epifânico, ao assistir o Fantástico, recheado destas e de diversas outras horripilantes notícias, presenciaram a entrevista que sondou todo o histórico da família do menino que havia morto os pais na virada do ano. Tentaram, a todo custo, explicar algum motivo para o fato dele ter feito aquilo: irresponsabilidade paterna, conduta familiar inadequada pela escolha ideológica dos pais, bullying na escola…

Dias depois, a sociedade estava pedindo o fim do Estatuto da Criança e do Adolescente, bem como decretando o fim da infância tal como a conhecemos. Tudo porque, reiteradas vezes e com uma incomum postura, o menino olhava a câmera e a repórter e dizia “matei por que eu desejava, do fundo da minha alma, que eles morressem!”, com uma voz intumescida de ódio primitivo. Não houve o Angelus do ano novo porque o Papa passou muito mal, vindo a falecer poucos dias depois, ao saber que grupos de extremismo ultraconservadores e fanáticos ao redor do mundo estavam, por si sós, rechaçando violentamente crianças, “potenciais agentes de Satanás no mundo”.

A imagem do fim da infância deu-se, iconicamente, quando um homem vestido de branco e um simulacro de asas de anjo arremessou uma cruz numa estátua de gesso de um menino Jesus na manjedoura, na Picardia, no início do novo ano…


Para ouvir ao som de New Order: Elegia