Pena Ulterior

Laça-te às demandas, arboráceas da Terra,
consumam de teus flancos os pungentes dolores da Vida macabra,
àquela que lança em teus antros, ó Gaia adoentada,
o bizarro autoexperimento humanoide.

Revigora-te dos estrames inquisitórios,
rosáceas espinhas de dissabores, ácidas e beladonas
despenha-te ao humano que te cortou
te remodelou e tuas vestes despiu.

Uterina planta, não perdõe o jardineiro,
que lhe remalhetou e te cantou
te fez peça de vaso e te decompôs
numa música e depois lançou-a num outeiro.

Demanda-te a sugar o descalabro sempiterno
àquele que te desfrutifica e te desfigura
o mesmo Inonimado que com teu fluido sacrossanto
assina as penas de morte de teus congêneres.

Esparsa-te nos flancos do Universo,
traze à combalida Terra os seres d’outro mundo
pra desterrar deste chiqueiro imundo
aqueles que ousaram desfiar de tua beleza.

E aos que desafiam opor-se a tua beleza,
lança tuas ramagens sobre eles, sem dó,
desfigura sua face de soberba e vazia ira,
avarenta e lasciva, sem lhes dar chance de quiproquó.

E se preciso for,
lance-vos o átrio emudecedor
à pena ulterior que vos convocou
pois dela emana o estupor
de saber do Sacrossanto Segredo
que tu rosácea Entidade me confiou.

Publicado por Potingatu

Estudante de Língua Portuguesa e Linguística pela FFLCH - USP (2010-5), entusiasta e experimentador do máximo de artes que for possível.

%d blogueiros gostam disto: