Estórias Abensonhadas, de Mia Couto

Edição em Pauta

COUTO, Mia. Estórias Abensonhadas. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
155 páginas. Segue notas da contra-capa:

Depois de quase trinta anos de guerra, Moçambique vive agora um longo período de paz. Nestas Estórias abensonhadas, o premiado escritor Mia Couto [Beira, 1955-] capta um país em transição. Numa prosa poética e carregada das tradições orais africanas, o autor tece pequenas fábulas e registros que, sem irromper em grandes acontecimentos, capturam os movimentos íntimos dessa passagem.
São histórias que formam um retrato afetivo e mágico da Moçambique de Mia Couto, onde o fantástico faz parte do cotidiano, e a música reside na própria fala das ruas. A partir de vidas enganosamente pequenas, revela-se um prodigioso universo literário, inovador na linguagem, mas sempre atento à força das grandes narrativas.


Especialmente dedicado à comunidade Interação (Rádio USP FM).


Impressões

Nesta nova etapa das resenhas do presente blógue, não só o impacto de uma leitura pessoal que fiz à época, mas a atemporalidade que muitos dos contos presentes nesta obra é algo que chama a atenção: circunscritos num espaço sociopolítico que ainda respira os espólios de guerra, recompondo sua rotina, temos contos que trabalham, de forma muito tocante e ao mesmo tempo muito elaborada do ponto de vista da apropriação da palavra escrita, sem desmerecer o aspecto da oralidade.

Não vou me deter em análises conto-a-conto. Pra efeitos do despertar a curiosidade, vou tecer breves considerações sobre três contos, presentes nessa edição. Eles são afetivamente centrais numa releitura que refiz, em vista dos ciclones que atingiram a África Índica meses passados. O aviso de cocheira é sempre válido: recomendo que leiam na íntegra antes de recorrerem às menções abaixo, se planejam ter as vossas próprias experiências de leitura, e não se “contaminar” pelas experiências alheias. O confronto é sempre válido, e disponho estas breves notas minhas a comentários dos demais leitores.

O Cachimbo de Felizbento (pp. 47-51)

O conto, que basicamente cerceia a demoção de habitantes por forças maiores de Estado, tenciona a afeição que se há pelo lugar em que se morou, por parte do Felizbento, personagem principal neste conto. A relação com a natureza do homem é lindamente trabalhada pela situação de teor místico que se desenrola ao longo da história.

A Guerra dos Palhaços (pp. 111-3)

A singularmente funesta bravataria de dois palhaços que progressivamente vão se digladiando em praça pública e afeccionando o público que vai se aglutinando ao derredor soa uma licença poética de algum factóide absurdo e impossível. Mas se tomarmos a sequência do conto como uma alegoria, podemos nos surpreender sobre como podemos banalizar e tratar de forma leviana certos comportamentos sociais, e dos dias atuais, ainda.

Lenda de Namarói (pp. 115-9)

No melhor estilo de recolha de memórias orais, o autor trata de levar a gênese de ser humano, trazendo o deslocamento para que “no princípio” da existência, “todos éramos mulheres”, e como surgira os homens. Dialogando com os derivativos das narrativas originais dos povos, como a grega, que dá a origem ao conceito da “Alma Gêmea”, temos, aqui, indícios das culturas matriarcais das sociedades originais ao longo da África, que pouco ou nada foram tangidas pelo contato com a sociedade ocidental, exigindo a permissão do lugar de fala da narradora-relatora-de-memórias-da-ancestralidade, “mulher”.


Enfim, afora os três contos, em um total de 26, temos outros que vão se pautar na relação com a natureza, além de dialogar, estruturalmente, com autores, os quais a estética de Mia Couto vai se inspirar. “No rio, além da curva” (pp. 75-80) não só soa sugestivamente afim com “A terceira margem do rio”, de Guimarães Rosa; mas tece uma relação analogamente sensível do homem e da natureza. O mais que eu contar aqui, será interferir em tua experiência de leitura.

Me isento de tecer uma avaliação quantitativa, na base do “tantos de cinco”, “tantos de dez”. Essa nova etapa não tem esse intuito. O que este leitor aqui pode dizer é que toda vez que recorre ao Estórias abensonhadas, uma experiência nova se redesenha, mesmo numa segunda, terceira, enésima leitura… Um número jamais será suficiente, mesmo que ele seja um 10/10, ou mais que isso. Winking smile

Publicado por Potingatu

Estudante de Língua Portuguesa e Linguística pela FFLCH - USP (2010-5), entusiasta e experimentador do máximo de artes que for possível.

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