Metarrealidades Aporéticas e Literásticas: A Máquina, crônica 5

Dedicado a impressões de N. Y.


Eu tenho um severo problema de saturação de informação visual desde dois mil e cinco. Acho que os dezoito anos trazem consigo, misticamente, uma desativação da capacidade cognitiva de filtrar informação visual relevante. Quase entrei num pinel por causa disso à época – por isso e por outras coisas – mas, acreditem, os tucanos da paulistoide urbe fizeram a única coisa boa, que era diminuir tal fluxo – acho que eles pensaram em mim, ou no pior dos pesares, constituem O Programa que tinha como intuito que eu não revelasse o que pretendia revelar.

Hoje, sinto saudades daqueles tempos de propagandas entoxadas na rua. (…)

Mal tive a possibilidade de conhecer o nosso protótipo de Time’s Square ou de Picadilly Circus. Até percebi muito recentemente quando passei na região da República com a Anhangabaú, lá pelos idos da biblioteca. Estava com quatro colegas, e a eles fiz um comentário mal compreendido inicialmente: nossa! Isso tá me parecendo a Time’s, só que sem as propagandas – acho que foi, justo essa última parte, a não ouvida.

Se eu acho a arte publicitária externa um charme da verminose urbana, posso dizer noutros termos que odeio com todas as potências do meu ser a publicidade maximizada em shoppings. Tenho a grande sorte de entrar num desses e só me importar com três coisas: livrarias, lojas de games e alimentação. Ainda assim, pensando à moda de Adorno, os itens que nestas aí costumo adquirir, em último caso, se configuram em… adornos (ai, Theodorinho, você me perdoa pelo insigne trocadilho?). Roupas? Passo longe em termos, não preciso de uma camisa nova da Yv… todo dia – tenho três que só uso no inverno, há mais de quatro anos – ou um terno Villa Vi… – que acho que só se acha naqueles círculos pomposos e esdrúxulos de BH. Calçados? Me basta, para todos os efeitos, um bom e velho All-St… , já me é o suficiente. Apenas para ocasiões mais formais, que virem a vigorar, empreendo uma vestimenta mais classuda, e, claro, sapatos sociais mais bacanas. Mas eu não preciso de quase todo esse bombardeio lojeístico (Adorno, agora você me perdoa, né?).

Constatações do cotidiano: a propaganda massiva chegou já a três metros do banheiro. Eu, me valendo da minha paranoia, sob outros termos, já prevejo que, quando usar o papel higiênico pra limpar o barroso, ouça um dispositivo movido a biomassa tocar no papel, Alfre-doooooo!!! E ouvir um jingle estúpido de Nev… . Ou começar a pular coelhinhos da tampa da privada assim que eu a baixar. Ou ouvir a propaganda velhaca de laxante caso me demore mais que cinco minutos ali dentro. Será o fetiche do consumismo previsto sob outros termos pela Escola de Frankfurt, elevados às últimas consequências. Habermas deve estar rolando de rir, agora – até onde saiba ele ainda está vivo, e comprovei: está – ao constatar que os seus mestres disseram a verdade, como se fossem portadores da Orbe. Patetas os que disseram que é frescura desses filósofos, que só sabem falar asneiras e em nada contribuem para o engrandecimento da nação. Mas, olha minha gente herdeira do positivismo, quer saber uma coisa? O meu recém-feito “amigo” Adorno lembrou-me de vocês, dizendo que vosso argumento nada mais é do que um escapismo que só serve para assegurar o cocô instrumental que vocês fazem.

Vamos fazer o seguinte? Adorno estava conversando comigo faz alguns dias, mas eu aproveitei e, pra diminuir o cansaço da vida, chamei-o para um bar brasileiro, início de noite, junto com os meus amigos da faculdade. Levei-o pra ver nossa Time’s Square – sem propaganda – e desembocamos num shopping – onde se deve pagar por um toilette, a menos que se consuma – e ele, sempre curioso, perguntou como era a cerveja Deva… . Eu, muito solícito, sugeri que a gente tomasse a Hein… da terra dele, minhas amigas disseram, deixe disso, bom mesmo é uma cerveja artesanal, tomamos uma Germ…, mas no final das contas quem ganhou o jogo foi o doutor Carvalho, que nos convenceu que a melhor seria a Bohe…, por razões que reservo a uma outra época. No momento descrito, resolvemos discutir sobre nossos hábitos de consumo. E eu citei minha preferência pela Peps…, Nes…, Coc…, e os lanches da Sub… . Ok… Estou entregue ao pérfido consumismo e fetichismo alimentar, positivistas… Agora, dá licença que a reflexão banheirística é um momento de reflexão de verdade. RE-FLE-K-SÃO!!! O dia que eu ouvir papel higiênico falar, eu vou responder a ele com um portentoso Vá para a puta que o pariu! e serei preso por atentado violentíssimo ao pudor.


(de 2013)

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