Crônicas busionais #1

[dos arquivos manuscritos do autor de idos de 2013; adições e afetamentos de juízo retificados, entre colchetes]


O folclore busional – ou folclore de busão, para os mais desacostumados, como os solitários motoristas – é uma realidade presente, sobretudo, na ida e volta de grandes distâncias. Uma fórmula matemática verifica que a diversidade cultural (hã?) é mais latente à medida que a distância percorrida aumenta.

— Murilo, segura as ponta aí — eeh Zé Raimunda — espera aí pela minha namorada — vai descê’! Cobradô’…! — a gama diária de possibilidades enunciada na hora do rush coloca o compartimento de quatro rodas a nível de feira livre, ou de classe entediada com a aula. Os diferentes personagens que aqui encontramos variam desde o obliterado trabalhador, fatigado do serviço, ao observador em pesquisa de campo.

Uma peculiaridade muito notada por quem vivencia essa rotina são os desafios a que a física clássica é submetida. Em dados momentos, a lotação do ônibus é tamanha, a ponto de nos perguntarmos: como a suspensão aguenta toneladas? Como minúsculas frestas de ar suprem as necessidades respiratórias de todos? De que forma um corredor estreito consegue ser atravessado por alguém com algum mais sobrepeso [faz-se, aqui, uma nota de que não há um ode à cultura do magrismo, mas sim à evidente questão da tensoatividade entre largura do corredor e quantas pessoas estão ocupando simultaneamente essa largura]?

— Como vai, cacete!!! — Eu acho que vou peidar… — Dá pra vir mais cinco! — Pessoal, aperta um pouco no fundo aí pra caber — vai descê’! Cobradô’…! — um ouvido mais atento e que não se recheia de fones (que mais parecem uma sonda intracraniana alienígena) irá ouvir, no mínimo, cinco frentes de conversa. Mas, seja sentando no banco solitário-anjo-do-motorista, seja se invisibilizando na esquina esquentada pela chaminé, sempre ouvir-se-á a conversa mais notória daquela pessoa, [função social que, a contragosto de um machismo perpetuado nos nossos dias, geralmente é atribuída a uma mulher], tornando público cada detalhe de sua interação com as outras pessoas. Nem mural público de Feicibuque consegue ser tão indiscreto! Não me estranho de se querer colocar um implante auricular para se isolar dessa prosa tão cadeira-de-vizinha. Chamem estas pessoas de aspirantes-a-médio-burgueses.

— Ae, nêga! — Opa, desculpe… — Segura, malandro! — Ô, motorista pé-de-chumbo! — vai descê’! Cobradô’…! — dor imensa é quem tem que dividir seu lugar nos bancos duplos, no lado do corredor. Corre-se o risco de ter alguém na janela a ocupar o espaço de um décimo do seu banco [hoje, 2017, há um nome específico para isso: manspreading], e em pé, no corredor, alguém que é pressionado em sua direção pelo transeunte – o mesmo que desafia as leis da física e que responsabiliza o cobrador por não conseguir descer, quando todo mundo sabe perfeitamente bem que é o motorista, o operador da mágica do abre-e-fecha. Dependendo do indivíduo, a reação é distinta [e que as deidades nos livrem de tal pensamento maniqueísta, a se considerar alguns desses pontos de vista afetados em nossa sociedade]: uma mulher sempre se incomoda com o aperto [e é necessário que se incomode!], sobretudo se for um sujeito que não tem a mínima complacência em evitar que o seu bilau fique bulinando o ombro da desafortunada. [Para os homens, isso é um despropósito assumido,] sentir aquele músculo flácido em seu ombro [ou pior, por vezes em processo de enrijecimento] – e por todos, a justa e amplamente repreendida vontade de meter uma cotovelada na jiroba do velho ou sem-noção tarado; e reprimida por não ser concretizada, na ânsia de se temer iniciar uma contenda que resulte em morte.

[Duro é pensar na lógica inversa, que não mais é um derivativo de um machismo per acto en passant e assim se descreve: ] Já quando o jovem é involuntariamente bulinado por uma moça [e, óbvio, isso de forma involuntária, já que não ouvi falar em caso em contrário, considerando este ser subintelectualizado chamado homem-aspirante-a-macho], isso ao invés de ser considerado uma angústia, converte-se no mais puro conceito freudiano de fetiche, Aqui, podemos elaborar outra função inversa [já ouvi de matemático alheio para coisa análoga], pontuada em “idade do rapaz” e “possibilidade de, ao chegar em casa, jogar bilhar de mão a portas fechadas”. Não tem outra, [queira-se bem ou mal]: o busão, na modernidade, é um antro de impulsos sexuais agressivamente reprimidos [mesmo se pautarmos que esses tipos de abordagens, felizmente a todos, tendem a se diminuir e serem sancionadas pelo mais profundo desprezo] e de abordagens afetivas fracassadas, [por sorte, conte aí as menos criativas e/ou mais abusadas; no entanto, em contraparte conte também os possíveis casos verdadeiros de amor]. Nunca, em minha humilde existência, soube de um amor nascido em viagem de suburbano…

— Cê tá aí, novinha? — Pode abrir a janela pra mim, senhor? — vai descê’! Cobradô’…! — um ônibus não é, a princípio por lei, depois por convenção social, um ambiente de livre criação artística. Ninguém, a exemplo do cantador de “No Lotação”, de Drummond, se alça à posição de animador de tortuosas viagens [a menos que esteja com juízo prejudicado, mas aí são outras figurações]… mas tá lá a conversa corriqueira proeminente, um objeto [desprezado pela canônica e pretensa-intocada literatura], cumprindo esse papel de preenchimento. No ônibus, toda criação artística, encapsulada na mente do indivíduo, se dissipa debaixo da primeira ducha, com exceção dum bloquinho de papel a salvar a obra memorística. Pelo bem da Arte – e até da Ciência, [os matemáticos o digam] – um bolsa-bloquinho cairia muito bem. [Em se tratando de ocupar o tempo no ônibus, é bom salientar que] dependendo do caso, passamos, em média, um sexto de nosso dia útil dentro dele. [Pra geral – e pros empresários umbiguistas de plantão] – um tempo improdutivo, com certas ressalvas a estudantes universitários e amantes da leitura [e, por consequência, um nicho aos oculistas…]

O [deveras cômico] é que a comunidade busional é paradoxalmente estável e volúvel, ao mesmo tempo. Há da necessidade de ser um [fisionomista com destreza] para perceber [a composição orgânica difusa de pessoas], dia após dia, [a trefegar nesse organismo maior carinhosamente batizado de Pluribus unum]. O típico retrato de família de pobre, reunida ocasionalmente para fazer uma boca-livre farta e falar mal dos desafetos: os estranhos no ninho.

Não se sabe se a idade engessa o passageiro [e por vezes isso acaba, no frigir dos ovos, suscitar um autoquestionamento neste que redige essas notas], mas as crianças lidam com o busão como uma aventura: a disputa pelo banco mais alto, saltar sentado no banco na passagem de uma lombada, surfar dentro do ônibus, [um desafio-mestre à inércia da física] numa curva fechada de média velocidade – afora [os meus mais não contabilizados] atos [ditos?] ilícitos dos marmanjinhos e marmanjões em catar viagem do ônibus do lado de fora ou no teto – e, [nada substitui a sensação de tu, quando jovem, de abrir a janela e sentir o grande golpe de ar na maior velocidade que o ônibus pode praticar]: para as crianças, um sonho; para os adultos, o terror da iminência de um acidente.

São tantas coisas a serem ditas [e menos afetadamente ditas], como os vendedores ambulantes, os esmoleiros, o pregador da salvação eterna, os pavio-curtos, os desatentos[-de-corredor], os amigos inseparáveis, as raras oportunidades de construir uma rede de contatos, e o universo solitário e desértico dos ônibus ônibus rodoviários (que, dependendo da argúcia, [petulância e um senso mútuo de cumplicidade, que vem a ser o principal,] é possível fazer umas sacanagenzinhas…) Mas tudo isso, não cabe devidamente em tão-poucas linhas, mal-traçadas [a efeito de uma caligrafia esteticamente impecável] em razão das trepidações, pois só o busão inspira a se falar de si [na franqueza da paciência ou da pachorra pessoal de estar fulo com o mundo] — vai descê’! Cobradô’…! — Licença? — Enfim, chegamo’, hein Murilo?!


Note The Clash: The Guns of Brixton (from the album London Calling)

… e eu tenho a impressão que vi esse Murilo muito que recentemente, a despeito dos vais-e-vens de pessoas que trabalham com transporte…

E dos ajustes e retificações, eu peço é desculpas pelos juízos nos manuscritos; embora elas sejam pífias se eu atribuir tamanhos disparates ao Espírito do Busão [um subfolclore conclamado na linha de São Paulo 702U (Cidade Universitária – Terminal Pq. D. Pedro II)]

Eye rolling smile

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