Confissões [21]

Amiga, que sempre comigo esteve, não sou mais o mesmo.

O poeta que te cantava com fervor foi aposentado. Dele surge a poesia tão-apenas como negócio, um exercício de erudição, uma tentativa de não se sentir tão qualquer-um.

A reticência também aos poucos será aposentada, sendo a ela delegada apenas o interlúdio do não-dizível, das coisas que todo mundo sabe mas nega saber. Bem digo de você, amiga, que o errado fui eu, exigir-te fidelidade à poesia: você tomou o caminho correto, o da consciência de nossa pequenez como apontadores-de-dedo insatisfeitos com nossos antigos desejos não-realizados. Você fez, amiga, a digna saída, em detrimento à insanidade que perseguiu as penas de cem anos passados.

É doloroso querer ser Dostoievski ou Oblomov em tempos de James, Meyer ou Tate. É muita metafísica para simplórios ouvintes que se desejam iludir em fantasias desvairadas. Fantasias que eu alimentava nos coloridos de um outro ambiente.

Ser privado das benesses da civilização tem suas vantagens. Permite que me veja como irritante para a tola média das gentes que, na nossa infantil vontade de ajudar, queremos que “veja a luz”. Disse, em outras palavras, um filósofo que na nossa ânsia de mostrar a iluminação ao mundo, acabamos nos recobrindo em um véu de ignorância pertinaz. Sonhei, como você sabe, em ser protagonista, ter holofotes apontando para mim a todo instante, mas tal luz me cegaria de imediato – minha queda seria tão instantânea quanto minha ascensão. Hoje, amiga, o backstage é meu amado lar; operar nas surdinas dos acontecimentos, no pano de fundo dos grandes acontecimentos, granjear confiança para ser fiel braço-direito de alguém que realmente brilhe, para que possa sustentá-la em sua queda previsível. Talvez a responsabilidade da frontline não seja pra mim, que sequer fui instigado, por um senso inútil alheio de superproteção, para ser menos ingênuo nos tempos necessários.

Para a posteridade, não espere, amiga minha, palavras de conforto ou de intensa motivação otimista: há quem faça esse papel com tanta propriedade nas igrejas. O mundo, amiga, verdade seja dita, precisa de pessoas lúgubres, funestas, que racionalizem suas frustrações e apontem seus dedos para os nossos engodos de todo dia. A literatura mais prosaica e não-comercial faz isso; a poesia de festivais é uma admiração excusa, digna das reticências… A poesia não se faz mais nos tons harmoniosos de Haydn e Carvaggio, mas sim no cosmopolitismo prático de Warhol e nas tonalidades de Boulez.

Rimas, minha tão ensejada e desejada amiga, são enfeites desnecessários para se cantar o amor pela gramática. Fortes eram, como uma estimada quasi-irmã sempre sustentou com notável convicção, os gregos, que da Retórica faziam a vida cosmopolita.

Voltemos, minha amiga, aos desvelos de Atenas, à remistificação dos costumes e a nossa sujeição aos fatalismos do panteão grego. Pois apesar de decretarmos que nunca fomos gregos, jamais saímos da famigerada Caverna que Platão disse. Prova disso é esse discurso descabido, afetado e tão contraditório, uma prova de que, nesta busca de um novo confissor de mim mesmo, ainda estou infante na minha arte do backstage.

E cantar os amores, minha amiga, outra afetação da qual tu foste vítima, nada mais foi do que uma tentativa de crescer desta virginal infância que, por outros caminhos, se descobre nos tempos recentes. Verdade seja dita, minha amiga, mas enquanto um homem traçar confissões, nada mais elas estarão circunscritas a uma onça de testosterona e de um destino de perpetuação da espécie. Uma ode à Schopenhauer!

O resto é só rima.


Ouvindo... New Order: Blue Monday ’88 Dub [originalmente no tempo de composição]

Em releitura do texto, e como divisor de águas… Ouvindo... Muse: Dead Inside [muuuuuito divisor de águas, nem vos conto…]

Sobre o grande Hiato das publicações

Hi.a.to (do lat. hiatu) s.m. […] 4. (fig.) Lacuna, falha.

(do dicionário escolar de língua portuguesa Michaelis)


Enfim, me vejo diante destas linhas de edição, após um hiato de pouco muito mais que de quatorze meses. Para quem tinha o costume de acompanhar o que eu tinha a dizer, acho válido ceder algumas explicações a respeito do sumiço autoral.

Quando empreendi os projetos literários Humanidade 11.9 Richter e A Caneta Magnum, encontrava-me num estado de espírito um tanto quanto depreciado. Decerto, muito da atmosfera do ambiente fora a responsável por tal empreitada. Soma-se a isso o som e a fúria que o mundo passou nos idos dos últimos anos, a exemplo de um cataclismo que, de fato, ainda não ocorreu. Incertezas políticas, econômicas, além de algumas frustrações pessoais tomaram-me de assalto a épocas próximas daquela publicação Visionaridade (ou Manifesto Visionarista), que me levaram, ao revés, das mesmas motivações que me colocaram a escrever há onze anos, a não escrever neste mencionado período.

Falta de inspiração não foi o motivo, até porque uma pequena publicação manuscrita fora realizada então. Decerto, ela levou a iniciar novos projetos, os quais vou levar a cabo aqui. Dos citados anteriormente, vou buscar dar uma abreviada. Sim, meus caros! Eles pedem um pouquinho de volume escrito, e ainda me vejo decidido a continuá-los, como há de parecer necessário. Decerto, o sentimento impresso neles não será o mesmo; é necessário um afastamento pessoal de um ódio que, preclarado, não me pertencia desde então e nem agora me venha a pertencer.

Julgo mais por conta de percalços técnicos a não-continuidade dos projetos. Desprovido de certos equipamentos um pouco antes, acredito que as artes, que tanto ajuizava inserir como um plus a mais, não vão estar disponíveis por um curto espaço de tempo… Demos jeito em casa de estragar a multifuncional que ajudava tanto no processo (!), mas no final tudo se resolve. Outro dos percalços, para quem mais me conhece, a ausência da internet em domicílio, tenho melhores previsões de que, após mais de três anos na contenda, venha a se resolver logo.

Em outros pontos a se assuntar, vejo conveniente reler o modo de conduzir este meu projeto outrora batizado 35º Fonema. Nada de reinícios, apenas releituras de como reamarrá-lo. Contando os mais de quinze anos em intimidade com a informática, é fato que, a esta altura, deveria promover um meio mais hipertextual de experienciar o que já fiz nestes, corridos (nossa! Agora que venho a notar!!) dez anos que pitacos vem e vão adentrar a internet, até assumir a série de projetos literários (muitos, confesso, inacabados) que empreendi aqui. Tal modo de pensar vem do fato de algumas matérias que fui fazer na ECA e deram alguns parâmetros do que se pode esperar da internet, num provável futuro, para costumeiros usuários finais.

Enfim, nessa retomada, quero poder cumprir com uma expectativa pessoal de retomar a frequência de publicação, considerar a maturidade psíquica que me fiz valer através de algumas gerências de saúde pessoal nesse tempo de hiato, e adicionar nestas páginas virtuais os merecidos escritos poéticos que esse período me proporcionou. Adiantá-los aqui sem eles estarem concretamente é chover especulações a quem ainda faz fé me ler, depois de tanto tempo sem publicar nada. Vai aqui o pedido para ficarem atentos às novidades.

E, como não poderia deixar de ser, cada uma destas notas vem findadas com uma sugestão musical, um pouco mais ímpar do que vocês estão acostumados…


Ouvindo... Justin Timberlake: Mirrors [Kizomba Remix]

Nota adicional: minha sorte foi esta nota, escrita em setembro último [de 2016], ter permanecido após eu quase dispensar meu preferido editor WYSIWYG de vez. Em caixa, creio ter ainda cerca de umas duas ou três publicações desse meio tempo a trazê-las ainda a vocês. Smiley piscando