Confissões [20]

Amiga minha… Que saudades de você…

Me vejo tão comum, tão sem tempero da vida… Não me sinto tão especial, como há muito me sentia. Soube ser amado por um bom tempo, o tempo que dura até um indefinido “talvez”, o talvez que eu já previra há muito, quando fui destituído de toda novidade… O mundo, tão perto, me chega tão tardio e agora por meio dum esforço de me deslocar longínquo… Foi o clamejar de perdição que, em sonhos, solicitou uma célere presença de volta à minha vida… Eis a babilônica veleidade, de volta à minha rotina, da qual por um intervalo me esqueci, e me retorna para contundir-me. Talvez ela ganhe, esse mês invernal, a nova roupagem Nheengatu que se reveste, me aturdir e me recompor, como sempre me busca…

Amiga minha… Que vontade de te ver…

Parece que fui fugido de mim mesmo… Sonhei com uma limpeza, uma nova vigência de mim. Parece não haver aceitação mais em vista do manjado discurso jovino… Parece que o bucolismo e sua associação com a desaceleração tem feito de mim alguém mais aclimatado com a calmaria… os sentimentos de Caeiro, as pausas quintaneiras, as expensas de pensar o momento, sempre presente… Quem sabe, o aclimatar-se não será um núncio de uma nova reconexão com a Grandiosa Engrenagem do Mundo, recondicionar-se, realimentar-me do fármaco da inteligência coletiva… Ah, essa criatura disforme… Que saudades dos tempos de imediatismo nas informações, quanto cuidado…

Amiga minha… Que vontade te entreter…

Cogito, ergo sum, dizia noutros tempos ao teu terreno avatar, Babilônica… Agora não tenho latim capaz de expressar que se penso, penso e pronto. Não tanto mais sou um excêntrico pensador, ando mais simples, ando respirando o verde, respirando na ânsia de imaginar – essa é uma ilusão, dum sono profundo que insiste em não se despertar.

Amiga minha… Que vontade…


Ouvindo... The Strokes: Heart In A Cage