O sepulcro de Rousseau

Os jornais ficam loucos na passagem do dia 24 para 25 de dezembro daquele fatídico ano inonimável. Tudo porque, na vila Progresso Iluminada, um menino de apenas cinco anos portava uma arma de fogo nas mãos – uma Glock 9mm com silenciador – e assassinou os pais, militantes de esquerda, “acidentalmente”, salientou o periódico, que incluiu a notícia tão tardiamente a ponto de mandar as gráficas pararem o processo que corria no especial de Natal.

Os assinantes da Grande São Paulo ficaram tão putos por receberem seus jornais com três horas de atraso – a maioria deles, trabalhadores de serviços essenciais que não paravam no Santo Dia – as reclamações foram diversas de exemplares afanados, os SACs se entupiram de reclamações, chamou-se o contigente extra de funcionários que estavam em descanso com suas famílias. Houve, nos dias seguintes, um divórcio, três mortes por estafa e um caso de violência relatado na Delegacia da Mulher. Prenderam os médicos e o marido violento. O hospital tinha como provar que a morte dos funcionários nada teve a ver com a incompetência dos médicos, e eles entraram em protesto. A comunidade odiou e foi protestar diante do edifício da CRM. Apesar do trânsito do dia ser diminuto, houve confronto; chamaram a polícia e teve muitos feridos e mais alguns mortos, dos quais um deles era chefe do tráfico de alto naipe na Zona Leste.

Foi a semana mais terrível, pois o PCC montou uma força-tarefa capaz de criar um cenário de terror por conta da pretendida retaliação. Queimou dezenas de postos policiais, explodiu centenas de outros no Estado e ameaçou matar o governador. Este, diante da opinião pública fervilhante, arredou mão de pedir à União para colocar o Exército e a Força Nacional nas ruas. Prenderam quem devia e quem não devia. O caldo ficou absurdamente grosso e a presidente precisou decretar estado de sítio no sudeste, pois a encrenca tomou proporções calamitosas. ONU, os EUA e diversas entidades digladiaram-se para entender o que realmente havia acontecido naquele Natal. Os megaeventos foram cancelados e a economia brasileira foi para o brejo, carregando o mundo para uma interminável crise capitalista… Nada novo.

As famílias, já no desespero epifânico, ao assistir o Fantástico, recheado destas e de diversas outras horripilantes notícias, presenciaram a entrevista que sondou todo o histórico da família do menino que havia morto os pais na virada do ano. Tentaram, a todo custo, explicar algum motivo para o fato dele ter feito aquilo: irresponsabilidade paterna, conduta familiar inadequada pela escolha ideológica dos pais, bullying na escola…

Dias depois, a sociedade estava pedindo o fim do Estatuto da Criança e do Adolescente, bem como decretando o fim da infância tal como a conhecemos. Tudo porque, reiteradas vezes e com uma incomum postura, o menino olhava a câmera e a repórter e dizia “matei por que eu desejava, do fundo da minha alma, que eles morressem!”, com uma voz intumescida de ódio primitivo. Não houve o Angelus do ano novo porque o Papa passou muito mal, vindo a falecer poucos dias depois, ao saber que grupos de extremismo ultraconservadores e fanáticos ao redor do mundo estavam, por si sós, rechaçando violentamente crianças, “potenciais agentes de Satanás no mundo”.

A imagem do fim da infância deu-se, iconicamente, quando um homem vestido de branco e um simulacro de asas de anjo arremessou uma cruz numa estátua de gesso de um menino Jesus na manjedoura, na Picardia, no início do novo ano…


Para ouvir ao som de New Order: Elegia

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À José J. K.

Caro Especialista:
para ti
tenho um servicinho…

Vide esta moça (mostro a foto),
Não! Não é execução: trabalho um cadinho diferenciado
Porta de entrada, caríssimo pórtico
para a paranoia social existente
na farmaconspiração.

Eis! Madeixas alvas, feito tua Kirsten
– hey! Não me aponte essa tua Glock aí –
missão: faça-se convalescente
feito um desvario aporético
mas faça bem como o Hamlet
afinal, como tu mesmo diria:
Hominis insania lucidum est
– se alguém o disse, creio que sim,
também almejo ser latinista…
tá tá… Latim só pra quem conhece, entendi!

Enfim, meu caro, chamo-a de Babilônica…
crime? Nenhum, a não ser
ser algoz de minha fármaco condição
pois a ela me rendi
a ela dei minha capacidade de imaginar
a ela dei meu potencial
a serviço da ciência
sim! Essa maldita tecnicidade
que laboratiza os corpos
e põe no bolso encangalhado seus quinhões.

Hum, tu tá entendendo – calma aí!!!
Não estoure os miolos dela –
use-a como pórtico de entrada…
encontre o filho da puta que assina
as bulas de Depakote
essa pequena cápsula robotizada
que vira um Leviatã em nossa rede neural
e impede a telepatia entre pobres mortais
– sim, sabe o que acontece depois que você toma teu antidepressivo, Especialista?
… isso mesmo… Você tá ficando velho em tua função, sua mira não está tão boa assim –
estoure, isso sim, os miolos daquele rabo-mole que age em duas linhas:
a primeira, esta de Natrium Divalprohatum, financiamento ativo,
a segunda, a ode à Cultura do Perfeito, essa pérfida e horrível
capciosa maneira de pensar dos nossos dias, do tudo-contente
do nada-falho, do nunca-descansar…

Aham! Tu compartilha o mesmo…
mas calma aí, Especialista!
munição pouca é bobagem
– não falo em latim porque eles não tinham armas de fogo –
Melhor quatro, não! cinco pentes! Talvez seis ou sete
mil câmeras serão seus primeiros executados
use a Babilônica como seu escudo humano
e tua senha de entrada no pavimento A+³

Eis, lá, o filho da mãe, cagando ouro
e limpando com notas de euros
vai no seu helicóptero
e mora em Alphaville
sim! São Paulo é tua área de ação
e esta, José – falo assim porque você sabe que
isto é absolutamente sério – será
a tua mais difícil missão.

Pago bem: eu
e os tantos milhões
aprisionados por essa bosta de Cultura
e também por essa rósea
cápsula pútrida da vigilância!

Ah! A linda Babilônica?
Faça o que bem quiser,
só não a execute
– afinal, ela também sabe latim.

(Continua)


Ouvindo... Bad Religion: The Hopeless Housewife