Bons discursos: um investimento em declínio

Todo o discurso deve ser construído como uma criatura viva, dotado por assim dizer do seu próprio corpo; não lhe podem faltar nem pés nem cabeça; tem de dispor de um meio e de extremidades compostas de modo tal que sejam compatíveis uns com os outros e com a obra como um todo.

Sócrates, extraído de <http://www.citador.pt/frases/todo-o-discurso-deve-ser-construido-como-uma-cria-socrates-16111>

Se, reproduzindo o discurso alheio, a gente o altera tanto é porque não o compreendeu.

Goethe, extraído de <http://www.citador.pt/frases/se-reproduzindo-o-discurso-alheio-a-gente-o-alt-johann-wolfgang-von-goethe-15553>

É uma grande lástima não ter inteligência suficiente para falar bem, nem discernimento bastante para calar.

La Bruyère, Os Caracteres (in: SELEÇÕES, Viver com sabedoria. Rio de Janeiro: 2004, p. 126)

Eis-me prostrado a vossos peses
que sendo tantos todo plural é pouco.
Deglutindo gratamente vossas fezes
vai-se tornando são quem era louco.
Nem precisa cabeça pois a boca
nasce diretamente do pescoço
e em vosso esplendor de auriquilate
faz sol o que era osso.

Carlos Drummond de Andrade, Ao Deus Kom Unik Assão (in: ______. As Impurezas do Branco. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 11)


RelógioEscola Um aviso de cocheira: apesar de não ter havido um singelo e sério cuidado na redação do texto a seguir,
recomendo aos que aqui chegaram que, embora digo que se sintam livres para comentar o que aqui foi exposto,
favor tomar o máximo de cuidado com o que levarão a público nesse texto: uma leitura atenta mostrará
o porquê desta minha prévia recomendação. Tentei, a título de evitar polêmicas, não citar os fatos que me trouxeram
a essa reflexão, sob pena de desvirtuar a discussão principal, no entanto, para conhecimento de causa, decidi
posteriormente vinculá-los na forma de links em palavras-chave no decorrer do texto
.
De toda forma, prepare seu copo de chá e boa imersão textual!  Smiley piscando


Confesso que este, de longe, não será a melhor das reflexões feitas até hoje por aqui. Creio que, seja por humildade, seja por uma razão logicamente sensata, não posso me imbuir dessa pretensão… A partir do momento em que lidamos com a faceta considerada “espiritual” das palavras e dos gestos, percebemos o quanto estas são capazes de construir ou destruir, dependendo de dois fatores, que podem atuar em separado ou em conjunto: o falante e o co-participante.

Dado então essa premissa, me empreendo nesse percurso discursivo pra construir um semi-desabafo em relação ao próprio discurso. Desembainhando-me de comentários pouco dignos, e também de mencionar as motivações a exercer essa reflexão (basta um exame das notícias dos meses de fevereiro e março sobre política e cotidiano da internet pra saber do que falo), nos últimos tempos ando pensando justamente sobre essa entidade, quasi-irmã da linguagem. Afinal, o próprio Mikhail Bakhtin, que mesmo com suas reflexões voltadas para a literatura russa, foi peça fundamental para se pensar a respeito da comunicação, dotando-a de uma perspectiva, a princípio aterradora – dado que à ela, atribuiu um caráter marxista, o que deixa anti-socialistas ferrenhos com as pulgas nas orelhas – mas que, num exame detido, faz toda a diferença: a linguagem pode ser dotada de um instrumento de poder, a partir do momento que você se apropria dela e a combina de acordo com sua influência na sociedade.

Em síntese, pensemos nessa perspectiva como trama textual dessa reflexão.

Continuando, percebemos que discursos são mais validados que outros… Querendo ou não, influências políticas, sociais e econômicas são fatores fundamentais – mas não absolutos – para que determinadas práticas discursivas surtam o máximo de efeito. Não precisamos ir muito longe pra perceber que a televisão, ainda na nossa sociedade brasileira contemporânea, é a que angaria massivamente a opinião pública: presente na maioria dos lares brasileiros, oferece entretenimento e noticiários, das mais diversas qualidades (adicione aí as duvidosas) àqueles que delas pretendem fazer uso. A internet, apesar de, a passos lentos, estar se consolidando aos poucos nos grandes centros, ainda não tem a plena influência que a televisão construiu nesses últimos anos, dada a familiaridade dos usuários mais velhos e do poder aquisitivo que a base de usuários constitui.

Obviamente, as ferramentas de difusão de informação contam com uma faceta construtiva e uma outra absurdamente desedificante. É no vislumbrar dessas últimas dos últimos anos que tento me empenhar em projetar um despertar aqui.

Temos ciências da linguagem suficientes pra explicar, sob as mais diversas perspectivas, os discursos não-literários presentes no nosso cotidiano: Semânticas Lexicais, Formais, Argumentativas, (…); Pragmática; Análise do Discurso – francesas e anglo-saxônicas; Semiótica discursiva (…) Sabemos que toda Ciência, em uma natureza epistemológica, verifica as ocorrências no mundo, sem ditá-las como elas devem funcionar. Nas humanidades, e sobretudo nas linguagens, de um modo mais detalhado, estudamos fenômenos que as pessoas não precisam pensar pra realizar… Em tese, as pessoas o fazem de modo natural.

Em tese… E aí chegamos no ponto crucial, que sob um termo leigo, invalida a hipótese de que as pessoas, na sua totalidade e em todos os momentos, são exímios usuários do bom discurso. Esse termo se define por “falta de bom senso”. Nas ciências da linguagem, se define por “ruídos” na teoria da comunicação; violações de “cortesia” e quebra segmentada das “máximas conversacionais”, na Análise do Discurso; condições de performance de atos de fala “infelizes” na Pragmática. Os nomes são vários, mas sob diversos pontos de vista, envolvem discrepâncias acerca dos conjuntos de modelos de pensar entre os envolvidos, e da ausência de empatia pelo co-participante.

Resultados disso? A constatação (que precisa ser devidamente verificada, quantitativamente e qualitativamente) de que as pessoas estão “desaprendendo” a usar das várias virtudes que o discurso proporciona, na economia do argumento monolítico e categórico, para serem absolutas em suas posições. Não é que isso seja uma prática condenável, mas pensemos que o mundo não é composto pelas individualidades. Querendo ou não, estamos sujeitos a algo que pode muito bem ser descrito pelo contrato social de Hobbes, e por extensão e interdisciplinaridade, a linguagem social também é submissa a esse contrato, fiável ou não pelos indivíduos.

Retomando a comunicação socioideológica bakhtiniana, a partir do momento em que um ator discursivo é munido de quaisquer fatores que privilegiem que seu discurso se interponha aos demais, é uma questão de bom senso que ditará a validade de seu discurso, segundo parâmetros de ética discursiva, estes num contínuo processo de releituras. A coisa começa a ficar um tanto quanto inaceitável quando a empatia é ignorada e esbarra em pressupostos que, numa última análise, existem nos indivíduos de maneira intrínseca, mas que ali, no recôndito do particular, deveriam se manter, em função da preservação do dito contrato social. Em termos mais práticos, discursos de cunho preconceituosos e/ou segregatórios, que deveriam ser resguardados para o particular ou, no máximo (e duvidável defender isso) serem proferidos apenas nos meios a eles empáticos e dali não saírem para a sociedade como um todo, estão ganhando uma amplitude social assustadora (opinião pessoal) e, o que é pior, são inspiradores para a perpetuação de conceitos, muitas das vezes, retrógrados.

O que torna a situação ainda mais deplorável é perceber que pouco se faz pela preservação da cortesia e da elaboração do argumento policromático, que perpassa todas as possibilidades argumentativas possíveis, mesmo que a princípio elas pareçam contraditórias. Isso não quer implicar num tolhimento das perspectivas particulares das pessoas: muito pelo contrário! Apenas devemos prestar atenção para que as pessoas que aí estão, e as que estão por vir, não necessitem de cartilhas que ensinem como elas devem se portar nos mais diversos ambientes e sob quais situações devem expor suas opiniões. Pensar que as pessoas precisarão de aulas pra aprender quando devem usar “todos”, “alguns”, “nenhum”, “a maioria dos (das)”, “a minoria dos (das)” e considerarem as possibilidades de uso de um “mas”, “entretanto”, “porém”, “ademais”, de forma que não achem que seus discursos sejam contraditórios, mas que possuam coesão a partir do ponto em que considerem a perspectiva do outro, e um apagamento do próprio narcisismo, sob o ponto de vista do público?

É uma perspectiva de crença muito imensa, minha, pessoalmente falando, de que as pessoas não necessitem das teorias da linguagem para aprender a própria linguagem no seu uso. Do contrário – e isso me valendo de um expediente deveras controverso – quem necessita destas lições estará assinando seu próprio atestado de anencefalia sócio-discursiva – um estado de vivência social deveras perverso, dado que, quanto mais pessoas residam nessa possibilidade pérfida, mais próxima da parasitagem a humanidade se encontrará…

E aí, se valendo do senso comum, não haverá adjetivo “digno” e inefável o suficiente para designar as pessoas que executem, sob os mais diversos tipos de intencionalidade, tal postura que evidencia a crise do discurso das últimas décadas.

Obviamente, não há o que dizer de forma categórica sobre a situação. Mas, para quem a executa, o bom senso invariavelmente nos dita sermos categóricos e tentarmos iluminar seus mundos… Não porque, como Analistas do Discurso, Pragmatistas, ou outros estudiosos das humanidades, intelectuais e/ou estudantes do ensino superior somos melhores! Muito pelo contrário!!! A partir do momento em que uma pessoa pretende ser dona da verdade e dos ditames da sociedade, ela tolhe o discurso e, aí sim, participa do mesmo terrível jogo do mau uso da linguagem.

Como disse Sócrates, o discurso é algo vivo e orgânico, e tal como um organismo, os diferentes pressupostos, isolados, desempenham funções distintas, mas em conjunto, devem operar de forma integrada, na expectativa de desempenhar um efeito eficazmente benéfico para a alma… E sem esse artifício, adquirido com o bom convívio e a sábia experiência, melhor ficar com o La Bruyère e se calar.

Até porque é muito difícil, dia após dia, dar razão às palavras da Madame de Staël, que, em uma das muitas paráfrases que encontramos, quanto mais conhecemos os homens, mais gostamos dos animais. Mas diante dos impropérios que encontramos na nossa sociedade – e em termos práticos, na televisão e internet brasileira – é difícil nós, que constantemente procuramos tomar o máximo cuidado com o que proferimos (e, ainda assim, falhamos de modo crasso) dar crédito a sujeitos da nossa sociedade que perpetuam as visões unilaterais e de cunho anti-empático para com o outro. E que são venerados pelas formas oficiosas que tornam seus discursos relvantes…


Adições podem ser propostas após a publicação. A título de filologia, manterei possíveis exclusões futuras sob tachados, e modificações serão devidamente assinaladas. Caso seja necessário, sinta-se à vontade para reproduzir esse texto (marquei-o sob a égide de uma tag que assumo como Creative Commons), desde que dados os devidos créditos e referenciado o original.

Enquanto o texto esteve sendo publicado, o shuffle do computador tocava:

Ouvindo... Joe Satriani: Crystal Planet

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