Crônicas paulistanas

Transporte: um rito de passagem… De passagem mesmo! A passagem que você pega nos bolsos e passa na catraca à espera do busão ou do “lagarto de ferro”, como outrora vi o poeta falar. Mundos? Os mais variados possíveis: universos particulares que se manifestam encapsulados em fones de ouvido. Alguns, a propósito, se expandem de maneira um pouco mais indiscreta, no universo do arquiantisubúrbio… O concorrente Rio de Janeiro.

Eu bem sei… Vivo esse mundo do “eu sozinho” quando me apraz… Quando não há uma voz melíflua, um contraargumento dialético ou o que mais haja de tão sublime da força-motriz dos dias úteis, é esse o universo que evita o meu abismo nas correntes das queixas laicas do dia-a-dia… Ah! Esse metrô que nunca chega! Ô motorista pé-de-frango! Parece que tem cabresto esse maquinista! Eu preciso ir pra casa logo: moro em Mogi, mas prefiro pegar os ônibus… Aquele Expresso Leste tá mais prum Funesto Peste de pestilança de sovacos!

Se irritar pra quê?? Tudo bem, estou numa melhor situação que muitos de vocês, meus caros. Confesso que não tenho que atravessar a cidade para bater o ponto no horário certo… longe disso! Atravesso a cidade pra ver o que ela tem de curioso, de espantoso… e por vezes ou outras, se não ela, pelo menos as circunvizinhas. Cidade d’Itália, esse Unhiemlich paulistano, essa Carapicuíba eurocêntrica. Daí parte meu destino noturno de regresso ao cafofo – um caminho que poderia ser menos tortuoso.

Mas é bom que se dispor à tortura permite a amplitude de novos caminhos… O horário? Bem, esse por si não foi nada tortuoso: a hora do rush findou, apenas os mais aventureiros em postergar o seu descanso noturno saem em direção à Osasco de onde vim, até o Grajaú que uma vez passei.

Demos nomes aos bois: Pinheiros foi o meu ponto de convergência. Na dinamicidade do passo largo, de fazer a descida ao subterrâneo mais rápida caminhando a escada-caminhante-automática e descendo um golpe de seis, sete metros em menos de vinte segundos – após subi-los de modo pernal horas antes, num imenso caracol de enterrar-ascender – e fazê-lo isso por quatro, cinco, sei-lá-quantas-vezes – aquele buraco é mesmo um buraco, quase um esôfago ciclópico, daqueles retratados por Zola – me deparo, no sentido do Instituto, com uma moça.

Tá, diz você leitor, encaramos moças e rapazes na maior naturalidade, e como você diz, alguns nos aprazem mais, outros nos repugnam. Hipocrisia é recusar que o princípio da beleza estética impera em situações assim. Olhamos moças e rapazes (como rapazes e moças ou, respectivamente, na ordem contrária… Sabemos bem nosso mundo) com interesses diversos. Uma vestimenta que destoa do momento, um penteado diferente… O caso peculiar que me demoro a introduzir cede vez a uma particularidade de beleza que nada tem de especial: ela vestia-se e muito bem.

Como você, leitor, não é um padre – e confesso que mesmo que fosse, não lhe seria interessante se apoiar nisso, a menos que você tivesse interesses espúrios – não vou desvelar toda a graça que ali havia. Mas, segundo a tradição do evitar-se o “ela”, pretendo chamá-la de Melissa (nem todas as razões que essa aleatória escolha deixarei exposto aqui. Mas, de antemão, já vos adianto que a letra capital é a mesma). A Melissa tomou-me a atenção na plataforma em direção ao dito Instituto. Vestia-se com charme, e que não seja meu engodo a você, meu caro leitor: charme me chama muitíssimo a atenção… Talvez mil vezes mais que a vestimenta piriguete do momento (pode ser um estado de espírito, pergunte-me em outras ocasiões).

Enfim, temos a Melissa, belamente vestida. Conto-vos em confissão, mesmo tu não sendo padre, ó leitor, que há um interessante fetiche por pés da minha parte. Talvez isso seja possível pelo fato de que os pés são a parte do corpo admirável em regiões onde a calçada seja irregular. Tentar elevar um pouco o olhar – e em movimento, torcer o pescoço – pode ter como resultado uma nuca inchada e cheia de escoriações. E as botas dela, com um toque vintage, eram o máximo de fetiche desejável nos meus últimos anos.

Não fosse ser apenas o fato contemplativo acima descrito, seria apenas mais um remendar de tempo de escrita, mas foi além. Eu bem conheço, do universo particular que bem conheço, que quando saio da bolha e abro mão de um dos canais auditivos – ou até mesmo ambos – em razão dos outros, me permito desdobramentos entre veredas das mais variadas possibilidades e tenho, decididamente, as mais variadas intenções. Diga-se da Melissa, que na ânsia de tomar um refri’, veio a designar um princípio de conversa comigo. E eu – bobo nem nada – aceitei o jogo do discurso.

“As máquinas não aceitam notas graúdas… que coisa”

“É, pois é, também tô com um vintão aqui também”

Um silêncio estratégico presume ou o fim da conversa ou uma nova investida discursiva. Decidi pela segunda:

“Cansada, deve estar… Indo pra casa?”

“Sim.”

“Onde mora?”

“Hum… é difícil dizer. Vamos lá: moro aqui, mas vou pra acolá, tô vindo de algures e passei por alhures.” (favor me corrijam os eruditismos)

“Hum… Sério? Conheço todos esses lugares… Sacumé: tive um pai ferroviário, nasci sobre os trilhos (…)”

E assim vai.

É possível que um investimento discursivo no transporte seja um fiasco ou ou sucesso tremendo (já experimentei ambos). Pensar que você pode gastar o seu latim, todo o seu charme, todo o seu jogo corporal para conhecer e desvendar um universo particular, sem a recíproca não se manifestar é o ulterior drama do mundo em que as pessoas estão menos dispostas a ouvir um “não”.

No entanto, fui feliz com a Melissa. Uma graça de pessoa… Parecia que éramos velhos amigos (o maior defeito que há em mim é tornar pessoas recém-conhecidas investidas de uma confiança que se pode tornar perigosa). O sorriso dela era outro atributo tão mais sublime quanto as vintage que ela usava. E antes que me esperançasse além do que previa – um boêmio e romântico tem muito dessas paixões de esquina, do olhar trespassado – busquei sinais evidentes da existência de um universo particular desconhecido: o terceiro, o ele, mas que era o primeiro, o dela.

E sim, estava ali o portal circular para este primeiro-terceirizado… Bom, antes percebê-lo do que deixar essa traiçoeira solitária afetiva… Mas ali havia um afago discursivo, uma admiração egóica… Uma disposição de se enamorar, sem estar enamorado. “Te amo, Melissa, te amo porque você é um amor de pessoa, e você não precisa jamais saber que deverá corresponder a isso.”

O mito do amor platônico se realiza por diversas e diversas vezes entre os menos corajosos de serem capazes de romper com a cultura do agrado… Mas o intencionalmente perceptível e que me surpreendeu era que, no momento em que a Melissa seguiria invariavelmente seu longo caminho, optei pela materialização mais possível dessa conjunção pluriuniversal: um abraço.

(por sinal, fiquei analisando com minha amiga Mnemosine que então esteve acompanhando o processo de produção dessa crônica-testemunho e percebemos que nada aí rendeu demais… Mas aproveitando o ensejo poético…)

Não sei o quanto há de Pragmática envolvida num abraço. Decerto, ela prescindiu de votos que sequer foram comentados na empreitada. “Sucesso na vida, na carreira e eu tenho a plena certeza que você achará um Amor pra aquecer teu coração”. Em nenhum momento investi, notando pelos sinais evidenciais e o comprometimento dito nessa pequena jornada, alguma conversa nessa linha. Foi o olhar? Foi o molejo de corpo… Foi o dito abraço, um impulso de agonizante carência a ser suprida? É quase certo que nunca mais a verei pra rescindir da pergunta.

Não. Não mais será em razão de a querer, nunca foi. Pelo menos o timing afetivo jamais se efetivou em tempo. Soube reconhecer todos os sinais antes que qualquer luziminescente lampejo de racionalidade afetiva o fizesse cair em meu desvario. Mas, pensemos: se fui capaz de reconhecer um amor foto-fátuo de ônibus, causa de muito pensar se minha lucidez ainda era válida; ou a reminescência quase embotada da porta-voz lilítica, babilônica e luminescente, me impelir a achá-la de novo, ibidem e num ímpeto de notas latinas (lembro-me o encrypton imbuído em territórios Reboucinos)… Quem sabe as histórias algum dia se repetem. Quem sabe elas forneçam roteiros dos mais diversos? A escada musicedente da Catenárica Cidade, essa Cidade D’Itália me espera novamente, o caminho pro pólo-direcionador também. Um pouco de vontade e uma dose de música indie, os sapatos vintage, uma roupa de alma florida e outro sorriso me esperam naquela Pinheiros, Tatuapé, Paulista-Consolação, territórios ainda inexplorados e incansáveis. Ou o mesmo. Enchanté!


Ouvindo... The Charlatans: My Name Is Despair

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