Crônicas de um interior

O indivisível


 

Muitos rostos passam diante da nossa vida, mesmo sem sair de casa. Alguns passam. Outros permanecem. Alguns poucos persistem e acompanhamos a evolução natural do processo do tempo. Um ou outro se tornam familiares. Contáveis-nos-dedos significarão muito em toda a nossa vida.

Mensurar isso é, ao mesmo tempo, programático e fora-de-regra.

O que o mundo de hoje fez conosco é ampliar a imensidão desse espectro de rostos que perpassam nossa vida. Mas as contas permanecem as mesmas.

É impossível investir da mesma carga sígnica cada um deles. Prometemos contemplá-los devidamente, mesmo sabendo que não o cumpriremos. Às vezes a mensagem facial sincera é sublevada diante de alguns olhos fascinantes, sorrisos esplendorosos.

E o mundo nada daquilo era da sensação de visão. As almas estão protegidas por um firewall humanístico bastante perverso. Deve ser essa tal de modernidade que tanto dizem. Estamos encapsulando nossas almas em redomas que mais parecem vitrines de antiquário. Alguma coisa de maior raridade recebe cotações absurdas, e se quebra no primeiro manuseio.

Pessoas – seres vitrinais.

Foi-se o tempo em que se contava histórias de como aquele momento surgiu. Aquele meeting. As histórias estão ficando muito parecidas. “Na escola”, “no trabalho”… A mais nova: “te conheci no Face”… essa poderia ser diferente – às vezes é – mas como te conheci? Apenas trocando meia dúzia de palavras contigo? As histórias sempre estiveram nos detalhes, e as pessoas andam justo rejeitando esses detalhes e se atendo nos esquemas gerais. Ah… Os esquemas gerais, tão limitados.

Catalogação – de acordo com o ambiente.

Amigos da infância, amigos daqui, amigos de São Tomé das Letras e Ilha do Mel, eles e elas de todas as dêixis possíveis. O tempo passa, o momento inicial finda, uma história maior é construída. Quem não te acompanha por perto, simplesmente a relação se ausenta – nem o eu nem o tu, tão-somente o intercâmbio.

E fica a história do presente sempre em processo de construção. Enlaçar todas essas histórias numa única é a tarefa impossível: há histórias de teores diferentes. Não dá pra misturar leite e cítricos, em temperatura ambiente. Sempre é preciso um processo químico, um aditivo… Mas a reação é apenas transitória. Não é possível ser o mestre da receita amigável. Milagres com amizades, nem as personalidades públicas foram capazes. Cada sabor teu seu peculiar.

E cada fragmento depositado tem de haver uma garantia de um retorno. Nada pode ser cedido sob pena de não retornar, nem que seja com o mínimo de experiência de uso.

Mas esse motor aristotélico passional é indivisível… E essa estranha função matemática divisível-ao-infinito será sempre a profunda incógnita humana incapaz de ter resultado definido. O momento de uma constante, quando a derivada é zero – o sozinho – permite que todos os eixos desordenados dessa função vivaz se permitam reordenar – para empreender um orgânico e saudável crescimento.

Precisamos, sim, desses momentos de função constante. Ser um eterno somador é tarefa difícil. Se viverá muito pra pensar no tão-tão-imediato que se perderá o momento – perca-se o momento sim, mas com o que se já possui, não com o que virá – e apenas o presente, a função infinitesimal, o sentar-se diante da vitrine, a degustação e a discreta pausa são os melhores artíficios pra se enfrentar a pressão ingloriosa do motor-contínuo-em-disparate…

Que a modernidade nos atribuiu diante de indicadores etéreos e camadas de pixels e bits, nos mais diversos bitrates.


Ouvindo... MGMT: Time to Pretend

Publicado por Potingatu

Bacharel e Licenciado em Língua Portuguesa (2010-7), FFLCH / FEUSP. Aspirante-a-mestre-acadêmico não-qualificado em Filología e Estudos do Discurso em L. P. (idem, 2017-8). Pesquisador juramentado diante do MCTI de Marcos Pontes e com préstimos ao 🇧🇷. Sigamos!

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