Mais uma ode –ou– Poema da Saciedade

Email À M.
ao som de Beatles


Não penso, no avesso
o que teus olhos em mim dizer

Agora você brinca comigo
e acende o selvagem dentro de mim

Não espere incólume
te mostrarei todo o meu furor

Te afagarei em carícias
e te oferecerei odores de amor

Um amor envolvente, inebriante
que sequer negar será capaz

Vai pedir a mim um repeteco
e se insaciar de pedir mais

Não verá outro lugar pra ir
e outros afagos quererá não mais

Vide, ó alva, ternura das terras rojas
ahora que tu fizestes em mí

Num parco espanhol que me domina
o teu afago espraia compreensão

E não espera maior intento
desejos minúcias portentos prazeres

Te dou uma recompensa
se pretender me seguir como te sigo

E quero num poema novo
poder te cantar diferente

Poesia concreta-quente
de carne e osso se manifeste

E acalenta esse martírio
que envolve minha face

E me conduza a novos ares
sim, te peço sem nenhum estertor

Luz de Aurora, rompante extenuante
faz de mim um monumento de ode

À tua beleza que gentilmente apresenta
par a par nos versos que contribua

Par a par apresenta e afugenta
o agouro que comigo enfrenta

E viremos o mundo do avesso.


Ouvindo... Beatles: Being For The Benefit Of Mr. Kite!

Bem um Rolling Stones seria mais conveniente pra selvagizar esse fortuito.

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Melissa: A Dupla [3]

Dia dez… Me parece que, apesar da manhã nebulosa que faz aqui em São Paulo, eu e a minha – estranhamente atraente – irmã Daph seguimos nosso caminho pela linha que passa ao lado do Eldorado, em meio-ligeiros cinco minutos até a padaria da Estrela, onde vamos desembarcar e caminhar até a Cidade Universitária. De lá, pegamos os Circulares: ela, no lado daquelas casinhas máximas (ainda quero morar numa delas e ser a rainha do próprio espaço) em direção ao IME, pro seu curso especial; e eu, eu, bem, à minha amada-enquanto-grego FFLCH, assim porque eu vou encarar uma aula com aquele professor gente-fina…

Gente-fina? É como se houvesse uma criatura de bar imersa dentro do meu subconsciente, falando que o tal professor de morfologia seria pessoa confiável pra empreender uma conversa informal. Mas peralá, como é que posso dar crédito a alguém que fala que foi considerado superdotado no Japão? Sim, gosto de baixezas, mas gosto das baixezas clássicas, das escatologias priápicas, Aristófanes, o Falo no Jardim… Ah, o Falo no Jardim, qual digna obra do latim, eu a quero de presente da Beatriz… ooops, não! Rubens!

Engraçado… De repente, eu passei a admirar a minha grande colega do inglês Beatriz, não sei por quê motivo. Tudo bem, gosto de moças, não nego isso, negar eu sei que é ruim… Mas da Bia eu gosto pelo que ela faz, não pelo que ela é… Sobretudo porque me veio à mente aquele corpo de bailarina-de-dança-ventre em performance…

Uma imagem tipicamente de gosto masculino…

– Me-el! Acorda! Deu de dormir em pé? Veja: canteiro de obras. Chegamos.

Realmente… Deu de querer pensar mais que o normal por hoje… Como se mais uma consciência povoasse minha cabeça, e bem que estava me sentindo como que pensando fora de mim.


Tinha um sujeito falando bobagens no busão hoje… Ele falava no fim dos tempos, falava do que eu bem conheço pela Máquina do Mundo, Imbecil, Diz que faz matemática, mas não faz no IME, está com um jornal nas mãos, lendo a coluna de Cultura, Aquelas novelas da Globo, bem eu sabia santo Chomsky que não fazem bem, Viu Fantástico, anda cumprimentando todo mundo com uma cara de bunda, O pai dele não faz nada!!? Alguém, por favor, dê um atestado de demência pra ele? Bem, não posso me preocupar com estranhos, sobretudo com estranhos que andam anunciando o fim dos tempos… 1999, 2000, 2012… onde vamos parar? Máximas de Grice, vocês são o meu mantra em horas assim. Ele olha pra mim com uma cara de quem viu um assombro, como se lembrará disso por décadas e décadas, santíssimos! Se parar pra pensar, ele tem aquela cara de alien, feito uma lembrança remota e tão recente que me absorve a cabeça.

Detesto essas pessoas que ficam esquadrinhando sua alma, com a face mais descarada possível e inimaginável. Apesar dele se denominar matemático, eu bem vejo – pela pouca psicanálise que conheço – que ele será daqueles grandes observadores do mundo, daqueles seres que querem descobrir a palavra perfeita, o verso sublime, o objetivo gigante. Há algo naquela alma muito grandioso. Isso é uma afirmação que faço em mente, Faço e assento, basta aqueles olhos esbugalhados pararem de ver o evidente, e passarem a ver o profundo das coisas, Saber esquadrinhar o universo interno dos outros, Saber ver sem ver com as vistas, Bem sei o que é ver o que não é visto, Vide o morfema vazio, vide as estruturas invisíveis das línguas, vide tudo, meu jovem. Te dou um augúrio: você sairá dessa certeza de exatas, meu caro, Sairá dessa certeza e perceberá como o mundo das incertezas das humanas é muito mais interessante, Não virará os olhos para os lados, diante desse ente mais completo e intrínseco da existência: a língua.

Pronto! Ele desceu na UNIFIEO, e eu sigo com os ventos que levantam as folhas no decorrer do caminho em direção à portaria três, O dia nublado na capital paulista será muito produtivo, Algo há, Theo, Algo há de divisor de águas a partir de hoje, O matemático, ah o matemático, Foi só uma infeliz coincidência, Coincidência de quem vislumbrará algo novo provindo do Destino…

E pensar no Destino assim em maiúsculo, me lembra invariavelmente na chata da Melissa aaah!, eu vou ter que encarar ela no meu encalço mais uma vez.


“Pensei no Destino, Bia”

O quanto eu agradeço pela minha habilitação… Não há palavras pra isso.

– Imagina, querida! Eu é que tenho que dizer o quanto o Destino é importante pra mim. Pra mim, pra você, pra todos… Eu juro que quando entrei aqui, não entendia dessas coisas… Achava o mundo grego uma coisa de sete cabeças…

– Sete cabeças só a Hidra, querida Bia!!!

– Enfim enfim… Deu até vontade de fazer matérias do grego contigo.

– Eu sei. E quem não fica com vontade quando ouve falar da mitologia?

Se bem que eu acredito piamente que não há uma simples mitologia. Acredito no mito do Andrógino, acredito em tudo que Platão disse – e a Elaine contesta, mas mesmo assim a considero modelo de influência – e bem imagino o quanto seria menos conturbada a época se voltássemos aos preceitos da grécia clássica.

– Ah, Mel! Você é um gancho na habilitação, sabe? Anote minhas palavras: acho que dentro de cinco anos não haverá outra como você. Sabia que o Theo até está se prestando a fazer uma matéria clássica também.

Pronto… Meu dia se inicia muito bem… “Valeu, senhorita Beatriz.”

– Ele? Bia… Bia… Ele é um pobre coitado que só foi parar na Linguística por medo de aprender uma língua. É sempre assim… Esses linguistas estão ali porque não querem literatura ou não conseguem adquirir léxico. E vale aquela máxima: se não aprende bem um algo, se aprende muitos algos não muito bem.

– Ah, Mel… Querida! Não acha que é implicância sua alfinetar desse jeito o pobre coitado do linguista?

– Nãoooo, Bia… Não é a questão dele ser um pobre coitado. Coitado um coisa nenhuma. Ele bem entende do que ele sabe, sabe de muito, sim, eu sei, mas sabe. Deve ser uma daquelas pessoas que queriam se realizar na engenharia, sei lá.

Volto a tomar um gole do meu suco, enquanto a Bia me olha com uma face tão paralisada.

– Que foi?

– Fiquei te estranhando… É você mesma?

Por que estou sendo posta em dúvida?

– Hum… Por que você diz isso, Bia?

– Numa hora dessas, você se divertiria fazendo do Theo seu saco de pancadas.

– Queee… Quem disse que me faço de saco de panca-a-a-a…

Nem me dei conta se tomei todo o suco da Lanchonete. Só me vi indo pro banheiro num lance de escadas como que o raio de Zeus que consumirá os ossos do boi.

– Mel… Me-el! – a Bia está batendo na porta do meu banheiro. Mas não sei se abro pra ela.

Fala!

– Tá passando mal?

Será que só eu percebi o clítico erroneamente utilizado no contexto? Ou será que a Bia estava pensando em inglês e esperava por um enclítico? Eu ando me perguntando o porquê da primeira pessoa se manifestar dessa maneira tão absurda hoje, como se houvesse outro ser dentro de mim.

E, principalmente, ando me perguntando o porquê acho conhecer tanta linguística quanto o Theo… Será que os deuses estão de brincadeira comigo? Gosto de acreditar no joguete do Destino, mas acho que hoje está um pouco demais…


Eis, Prédio de Letras, Lar de Camões, de Pessoa, de Machado, de Clarice – embora eu concorde com o professor metaleiro que ela seja uma escritora-cozinheira-de-fogão – de Drummond e agora de Saramago, São quase quinze pras oito, e há um monte de gente na área externa, uns descansando na mureta, alguns outros puxando um beque, Não que eu vá contra eles, mas eles por eles e nós por nós, Ah, olha lá o Caio, grande bixo, Diz que vai fazer linguística, Bom caminho o dele, a Vanessa colega de bons tempos de ano básico, foi pro espanhol, Dizia que me seguiria no árduo caminho das pedras da Linguística, que fraquejo! Olha só, o Luiz, como vai meu camarada? É assim, muitos gestos, poucas palavras, hoje decido investir no extralinguístico.

Fome… Não fosse a Corifeu, hoje iria bandejar no café, com a Elisa e a Sara, gente incrivelmente especial, Eu falo, elas vão derreter corações algum dia, Fazer o quê, meu caminho mesmo é ir naquela lanchonete que a cada gestão do Centro, vai inflacionando os preços, mas fazer o que…

Olha só, a Bia está lá, com dois sucos de laranja na mão. Ela não é dessas coisas. Olá, Theo, ela me chama, saudades dela, digo, Tem promoção de fidelidade de clientela, brinco com ela, Ah, o suco? Nada demais, alguém deixou aqui, mas acho que não aguento tanta laranja. Tuuuudo bem, não sou de rejeitar suco, já peguei. Hum, sem açúcar, como bem gosto, e gelado! Ei! Quem pediu esse aqui? Aaah, aquela minha colega, a Mel.

Tive que me lembrar de Grice para evitar de cometer uma gafe diante da minha amiga Bia. Compartilhar da mesma garrafa da Melissa, benza! Não é por nojo meu… Poderia ser do dela, Ela volta pra buscar? Não, não creio, tava falando com ela, de repente ela seguiu caminho pro banheiro. Nossa! Nunca ouvi falar da Melissa passar mal, o que foi que houve? Ahn, eeh… Bem, acho que deve ser uma rinite, sabe né, esse tempo nublado, fumaça da Rebouças.

Bem alguma coisa me chamava a atenção, Tudo me parecia misterioso, Um aroma de cerrado tomava conta de minhas narinas, Era a chapada, era a noite me chamando à lembrança, Experimento, Experimento.

Me sentia impelido a caminhar em direção ao espaço aberto da Letras com a Sociais, haviam cerca de vinte pessoas por lá, talvez mais, Não sei, Era algo além de mim, Vi ela, o mistério de desde os meus tempos de início de curso, aquela beldade que por algum motivo desconhecido sempre entrava em pequenos atritos comigo, Pequenos, eu digo, pois no que a vi, um espírito complacente me impeliu a Está tudo bem com você Melissa? A Bia me falou que você passou mal, quer uma ajuda?

Não entendo o que tá havendo… Só consegui processar agora o que presenciei, quase que como espectador, quando ela me olhou com as pupilas mais que contraídas, com um tom de voz totalmente diferente do já costumeiro. Que é que você está fazendo aí!!! Por que você não vem pra cá ocupar o seu devido lugar!!! Eu devia estar aí!!! Maus agouros pra você, seu monstro!!!

E se recolheu num passo desconcertante, quase que no choro, com todos os presentes, desde a escadaria até o acesso da biblioteca, nos olhando, Sinceramente Melissa, quanto mais tento te entender menos te entendo, Não há Semiótica capaz de te explicar.


Ouvindo... Sophie Ellis-Bextor: Bittersweet