Melissa: A Dupla [2]

A terça de manhã me soa surreal… Do nada, já me desperto dum desperto muito inócuo, lembro-me dos ruídos incessantes tomando posse de meus ouvidos, Cara, como eles zunem até agora, Lembro-me dum sonho tão palpável mas tão palpável, uma narrativa tão acessível, Será que foi verdade? Não, não pode ser, Eu não acredito nessas coisas de aliens, Mas meu sonho – se é que foi assim – me trouxe dois personagens, esguios, magrelos, com contornos suaves, com olhos avermelhados e evidentes, Uma palavra que me soa constante no inconsciente – experimento – experimento – fica ecoando na minha cabeça, Não é porque o ouvi nesse fato, sequer me lembro de alguma língua humana naquele momento, Mas é como se fosse tão familiar, Tão familiar aquela ruidera, Meu Chomsky que me salve! É ele, Sim, é ele, Tem certeza, Óbvio, procuramos tanto tempo por isso, É nossa chance de descobrir o potencial desses seres, O que raios acontecia nesse sonho, não sei bem dizer, Uma dor me persegue até agora na nuca, um calor bem intenso. E se nos enganarmos, Não sei, O que pode haver é um aniquilamento de consciência, E se ocorrer, Que não ocorra em público, Por quê, Silêncio, ele pode estar entendendo, Estou vendo, Estado de suspensão, rápido, Espero que ele tenha períodos de descanso fácil, Essa raça é previsível, entrega-se à loucura e ao desvario com algumas dezenas de horas despertas, Jamais vai achar que isso é real, Asseguro.

Gelo possuindo minha alma, a imagem de toda a minha vida sendo repassada na minha frente. Meu primeiro brinquedo, minha primeira palavra, detalhes que me tomaram a consciência aleatórios, misturados. Chomsky! Me dou conta, e me encontro estarrecido diante do Sol da manhã, refletindo sobre como seria eu se não fosse eu, Por que você faz isso, Sei lá, lidando a noite toda em aceso, em apagado, não sei o quê qual motivo, penso em mim fora de mim, Foi como se eu tivesse sido arrebatado de mim e posto noutro corpo, Ficava vasculhando minha cabeça tentando lembrar de alguma coisa que algum grego lá dos tempos dos grandes discursos filosóficos comentava, Mas ah cara, Sem crises, Sua vida é a ciência lógico-discursiva na linguagem, o Gerativismo é tua pátria, gregos? Ah, vá a merda, os gregos ficaram pro passado, nem língua viva eles têm, O que há de herança hoje? Um país submisso à União Europeia, Onde está o passado glorioso, Quem sabe, Quem sabe é apenas aquela tua colega Melissa! Ah não, a Mel…

E fato é que devo estar farto de Diamantina, Fofocas, focas estranhas tomam meu imaginário, algo que veio como que um automático, Como pode isso, Não sei estou cheio de perguntas e poucas respostas, Só me lembro do desejo da noite de segunda, e que amanhã, começo meu quarto semestre, Quatro sempre foi meu número de sorte, Um quadrado, os ângulos retos, A retidão, O positivismo e a certeza de que o Gerativismo resolve tudo. Que vão à merda os Estruturalistas, os Cognitivistas, os estudiosos classicistas, importa a minha Linguística, importa que basta um simples método acústico, Eu sei, A lógica distintiva, E pronto, Basta decidir quais itens da linguagem promover para verificar o quanto o método é infalível.

Infalível, É ele, Não há outro, Não fosse essa cabeça cheia de ruídos, teria eu plena consciência de ver ele em sua totalidade, Mas essas fofoquinhas tão estranhas que me absorvem à cabeça, Não sei, deve ser a noite mal dormida, e eu tenho uma necessidade urgente de tombar à cama, Mas o café me está aí, Meu jovem, algum problema, Não não, estou bem, Certeza, seu rosto se encontra pálido, Pálido, Palidérrimo, Fosse eu dizer pra você, menino, tu teve de ter uma experiência ufanística, Mesmo, Verdade, dizem que aquele paredão que você fez o repouso na última noite, por vezes, é visitado por etês, Etês! Verdade meu jovem, ontem mesmo, tava lá com meu caboclo, ele dizia, Mulé, vem vê o que tá ali vagando no céu. Ai, João Caipora, respondi, deixa se aprumar, não percebe que são aqueles tais de vião que o povo da cidade fala tanto, vai ver um pouso de mergência. Deixamos o assunto morrer, e fomos cuidar do nosso forninho. Mas descanse, Não, não posso, a viagem será longuíssima e eu tenho que partir o quanto antes, Certeza, Absoluta, Eis a conta, jovem, dinheiro ou cartão?


Nunca tive a sensação tão magnificente de me banhar e sentir a pele tão lisa quanto antes… Eu, Melissa, meia-irmã da Daph e invejada por muitas na Faculdade, como não me dei nisso antes, e refletia, numa fração de segundo, o quão bom era ter, depois de tanto tempo, ter me olhado detidamente no espelho. Saí de uma noite terrível, era como se não tivesse dormido há dias… Estava cansada! Sim!! Estava cansada, e renovada, e bem não sabia, por que, ao mentalizar essas coisas, me soava tão estranho me qualificar com o feminino. Afinal, eu era uma mulher, e estava espetacular. Apesar do tempo nublado que fazia por aquela hora, tinha certeza de que poderia sair pra desforra me valendo do arsenal que me esperava do lado de fora.

– Ó sua doida! Vem cá, vai me deixar tomar o banho ou fazer uma super-produção? Arranjou namorado, enfim, Mel?

… ó Zeus! Lançai um raio de oblívio nessa ignorante. E o rogo foi tão intenso em mim, como que se a instância de um homem tomasse meu ser. E essa sensação me acompanhava desde a hora que acordei…


Nove, um número que sempre me incomodou, terrível martírio, E quando vou dormir, Não sei, Cansado, Só quero me esbaldar na cadeira do rodoviário a caminho de São Paulo, e começar a me preocupar com a Linguística meu amor, e português o meu terror. As paisagens se sucedem, desde a manhã e até a noite, Uma melancolia me toma seriamente, como que se abandonasse uma parte de mim lá, na Chapada, como se uma vida fosse lá, Deixada, Experimento, Experimento.


A Daph estava lá, esperando na porta, com o seu pijaminha verde-piscina, com sua face corada, parecendo uma bonequinha.

– Vamos, Mel… Eu sei que tu demora uma eternidade pra tomar esse banho, mas eu tenho que ir pro IME logooo!

E depois de tentar lembrar a (diga-se de passagem longa) noite de sono que vim a ter, percebi que havia algo de diferente naquela manhã. Perguntei a mim mesma se possuía quarenta anos, dado que sentia ter uma longa experiência de vida, como se tivesse vivido duas vidas, e muito distintas: como se, a cada sonho que tive, vivesse uma era, uma experiência de outra vida. Fazia sentido pra minha imaginação pensar que o panteão olímpico queria testar minha honra e glória, me atribuindo uma segunda vida. E eu sabia! Sabia muito bem o que fazer, os sonhos não eram disformes, ilógicos ou sem nexos. Talvez um surto de consciências no plano mais profundo das ideias me perturbava. Uma experiência exata, strictu sensu, a lógica, o estruturalismo, o gerativismo… Lembro da Linguística básica do ano anterior, e ela passou a fazer melhor sentido em certos aspectos. Pensei na FonFon do semestre anterior e como todas aquelas explicações tão rápidas do Viaro faziam sentido agora, e de um modo surpreendente. Lógica na fonologia, lógica na sintaxe… Uma segunda leitura de literatura se apossou de mim, um modo diferente de vida…

– Orra, Mel! Parece que você tava travada na privada. Não sei o que demora mais: um homem no envio do barroso vaso adentro ou a gente.

Daph está afiada hoje. Percebia muito rápido que algo me possuía a cabeça. Algo que pesava junto com tudo aquilo que aprendi de casos morfologicamente marcados, desinências e contratos… No grego, eu repetia pra mim mesma, no grego.

E, ao levar as roupas para minha cama, me encarei uma segunda vez no espelho, agora nua: não percebia antes o meu próprio corpo. No começo, tive uma sensação de prazer inexplicável, um segundo espírito me chamando a me jogar na frente daquela imagem. Eu estava vivendo plenamente o mito de Narciso, tive medo de estar apaixonada por mim mesma, mas com alguns minutinhos a mais, convenci-me de que apenas não me encarava há tanto no espelho… Percebi uma marquinha de nascença no meu braço esquerdo, debaixo do pulso, e ela era misteriosamente geométrica: havia ali como que uma estrela de seis pontas, vazada num hexágono ao centro, do tamanho de uma unha do dedo mindinho.


O sono vinha e não vinha, O peso das pálpebras aumentava conforme eu seguia caminho pra capital, bem como minha cisma com relação àquela noite, A luz que me tragava deixava um vácuo dentro de mim, Passei a sentir como se tivesse vivido metade de minha vida, e a outra estivesse perdida, Mas os meus quase vinte anos estavam ali, intactos, Nenhuma das lembranças de infância foram apagadas, E por que seriam, Estava pensando demais, devia ser um choque de temperatura, É, é um choque de temperatura, Uma água, um café, A paisagem se avoluma, luzes de Belo Horizonte se aproximam, São Paulo estará aí, e terei um sonho melhor esta noite Se teria Medo da luz Medo do experimento Medo do vazio Medo do medo do desconhecido, Quantas vezes não tive medo, Sei lá, você teve medo muitas vezes e, Opa! O que é isso? Uma marca debaixo do meu braço esquerdo, na altura do pulso, mostra uma estrela de seis pontas vazada por um hexágono, Nunca te notei aí estrelinha, Não é uma tatuagem, Não é uma queimadura, O que seria, e o Sol, aquela luz amarela do dia que revela tudo, parece me reservar uma quarta-feira incrível, como se eu nunca a vivesse antes!


Nunca fiquei tão satisfeita em compor meu visual pra aquela manhã… Percebia o frescor do vento: como me sopram bons augúrios o Zéfiro que ressoa impetuoso janela do quarto adentro. Daph está preparada pra sua aula de Estatística – ela é ouvinte em condição especial na turma; se ela desejar e ingressar lá, pode aproveitar os créditos – e eu ainda estou decidindo se visto o All-Star clássico ou o marca-texto cor-de-abóbora.

– Arrasa, mana! Pega esse chamativo All-Star e desce pro mundo e mostre a Safo que existe em você!!!

E eu já via, no mirante do Sol que vinha do Leste, a luz que me traria, na Maria Carolina, a manhã que me trazia presságios de mistérios a serem descobertos.

Já eram quase sete e meia: duas horas quase que de reflexão sobre mim, algo que desde que decidi pelo grego em minha vida, nunca pude fazer. Havia uma séria impressão de que uma única imagem me deixaria aturdida pelo resto do dia, da semana, e, quem sabe, da vida. E a imagem – pasme! – inconscientemente me soava como se fosse estranho… Estranhamente particular.


Narciso Sturlini, Minha última parada e bastava alguns passos rua acima pra casa Como dói Não dormi nadinha, pensando na marca que ali cada vez mais não parecia estar, Me lembrava do que houve, Sono, sono, experimento, não aguento mais, Minha mãe, zelosa, viu minha face absurdamente pálida, Filho, Quié mãe, Que cara de morto, Vai… Tome um cházinho, não vá pra aula hoje, Não, tem aula dum tal de Araújo, dizem que ele é genioso, não quero arriscar, perdi quase dez dias. Vá! Toma! Não manhê, Eu tranco a porta à chave e daqui você não sai até tirar esse sorriso de frouxo, Tudo bem, Aaah, as mães: a instância ditadora do feminino, Como seria bom que todos os pais fossem pais, varões, mulher combina com paixão, com amor fogoso; homens com respeito, com ordem e com rigor.

A caneca me vêm às minhas mãos, um vapor sopra e ganha cor diante do vento uivoso que me bate do Leste, Engraçado, vejo um vapor colorido, Ao ingerir a primeira dose, uma série de vozes toma minha cabeça, Vozes femininas, Vozes de criança, Confissões acerca dos rapazes, Meu Deus! Jesus apaga a luz, migaaa! Que é aquele rapaz gatoso da Penha, todo garimpado no ouro, Ah, ele é Beltrano, ele tem um Porsche, a família dele é muito aprumada, é da vizinhança da Mel na Maria Carolina, ei! querida, o que tem a dizer deles? Eu, eu não tenho nada a dizer, só vejo ali um homem, um homem muito cheio de si, Sinto minhas pernas flutuarem, encontro o encosto do meu sofá e admirando o Sol que começa a ensaiar a saída das frestas do (acho que era) meu quarto, meus braços adormecem, e a última luz que vejo por um não-sei-quanto-tempo é um translúcido verde, partindo do meu pulso esquerdo, junto com uma indescritível sensação de atravessar uma película eletricamente forte, e a luz do despertador apontando o início da manhã do dez de agosto.


Ouvindo... PSY: Year of 77 (77? ??) [feat. LeeSSang & Kim JinPyo]

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s