Melissa: A Dupla [1]

Cinco e meia: o meu despertador toca, e é engraçado! Eu sempre costumo despertar do lado esquerdo da cama, e agora estou despertando do lado direito, e o que é mais interessante é que sequer dei de cara com a parede, mesmo sabendo que na noite anterior, tava lá ela do meu lado direito, portanto tinha que acordar pelo esquerdo… Também não tinha um espelho tão grande assim no meu quarto (um pequeno fio de luz adentrando o quarto que me fez percebê-lo). Mas, como é de costume, sentia necessidade de ir ao banheiro… Não estava me preocupando com a disposição das coisas, que ao mesmo tempo soava tão estranha e tão familiar. E fui. Peguei minha toalha de rosto – que a propósito estava bem mais macia – e segui pro banheiro. Inclusive o caminho do banheiro era o inverso, como que se eu tivesse entrado no mundo dos espelhos…

De repente, meio que a um acesso de inconsciente profundo, me vi num embaraço porque, quando arriei a calça, meio que no aperto da urina, vim a borrar meu pijama… Meu belo pijama rosa de bolinhas vermelhas…

Espera um pouco… Por que borrar? Não tinha deste costume até a última noite… Era certo que se fizesse a necessidade urinária de pé, nada aconteceria… Talvez um pouco de derramamento nas bordas do vaso, um pouco de urina a limpar durante à tarde…

Mas isso foi o exame detido de consciência… Estava, no banheiro, a roupa pra usar no dia que se iniciava. Após lavar a remela dos olhos que me deixavam em alvoroço, me veio o grande susto.

A roupa constava num conjunto de blusinha cor violeta, e um shortinho jeans daqueles bem adornados de peças metálicas.

O banheiro tinha ares de banheiro de uma jovem de dezesseis anos. Azulejos e revestimentos em tons que variam do rosa ao vinho.

E, dentro do boxe, havia uma calcinha.

Deuses gregos que me salvem! O que está havendo aqui! E de repente, me dei conta de que a região frontal do meu corpo pesava em volume, bem como a região da linha dos quadris. Uma sensação fisiológica bem diferente, porém muito familiar. E então, aconteceu uma coisa inexplicável quando me encarei no espelho.

Eu era uma moça de vinte anos, bela, pele lisa sem espinhas, cabelos ondulados levemente tingidos com um tom de vermelho arroxeado, e por mais que me revire durante o sono, basta uma escova de oito minutos e voilá, inveja das amigas sobre mim! Tinha seios bastante volumosos, com um caimento impecável, uma proporção de cintura e quadris de causar acidentes de trânsito e todo esse conjunto, da cabeça aos pés, era algo fantástico de se ver, sou linda, perfeita e gostosa! Eu me amo, minhas amigas me invejam e os rapazes me desejam! E nesse último exame de consciência, me detive amargamente, com uma inexplicável repugnância… Foram segundos de um fluxo de informações que me tomavam a alma e a mente.

O atordoamento culminou quando vasculhei nos inócuos pensamentos meu nome: Melissa Franz Selkie, tenho uma meio-irmã um pouco mais nova, mas nem tanto… Dafne, filha do mesmo pai. Sou uma aluna do curso de Letras da histórica Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, faço grego e português, e ingressei no ano de dois mil e quatro no curso. Havia algo de estranho em tudo isso, não cansava de repetir a mim mesma: eu tinha uma história, tinha uma infância, tive meus problemas de mulher… minha primeira menstruação aos onze anos, os incentivos particulares de prazer no escondido do meu quarto, minha primeira vez com um rapaz que pouco valia com treze anos – algo que profundamente me enojava – e minha experiência quase secreta aos dezesseis com minha melhor amiga, fazendo sexo – que me excitava toda vez que pensava nisso, e não hoje, mas como que se fosse desde sempre – que quase me deixou atordoada, quando durante um ano, minha querida mana Daph – assim me referia carinhosamente – cogitou me denunciar aos meus pais o fato, e assim conseguiu uma série de vantagens no nosso colégio… Mas, de todo, foi até bom… Não olhava pra minha meia-maninha como ela mereceria. Ajudei ela a ganhar auto-estima ao incentivá-la a namorar um amigo de confiança que tinha… Uma moça discreta, que quase não se fazia invejar, hoje, via, uma moça feita, robusta, tão bela quanto eu… O estranho que persistia é que, lembrando o quanto ela é hoje por causa disso, um instinto de desejo possuiu meu corpo, o que não acontecia antes. Era minha irmã… Meio… que seja, mas jamais a havia olhado com olhos assim.

O fato, é que me perguntava o porquê de me estranhar naquela manhã de dez de agosto de dois mil e cinco. Fazia um tempo fechado, mas certeza que não choveria… Ouvia o vento como que se me contasse uma poesia, uma sublime canção, como que se já a tivesse escutado de outros tempos. Segui pra minha ducha quente, e desatei a imaginar o quão divertido seria meu dia com a matéria de Língua Grega II e de Morfologia do Português.

Mas aí, me veio outro surto de consciência… Me lembro de um sonho tão tátil e sensível que tinha um toque de realidade que comecei a pensar se ele seria verdadeiro. Fato é que se eu escrevesse no meu diário, e viesse a guardá-lo e lê-lo daqui a um ano, me surpreenderia com os resultados.


Oito de agosto de dois mil e cinco. Que bela noite observo na chapada Diamantina, as estrelas se detêm em meu olhar de astrônomo apurado… Aquela matéria de Astronomia que fiz no IAG valeu-me enfim de muita coisa. As estrelas nunca foram assim tão vistosas como na capital… Pena que amanhã vou seguir caminho de volta à minha faculdade… A Linguística me espera na quarta-feira… E aquela aula maçante de Morfologia, onde tenho que aguentar aquela esnobe da Melissa…

Esnobe, porém esplêndida e desejável Melissa, entusiasta do grego!

Mas tenho a terça-feira de uma manhã com um café-da-manhã, à moda do sertão…

Uma estrela-cadente perpassa o céu… Fazer um desejo, diz a tradição… Tolices… Tolices… Mas nos rendamos a ela num contexto de tamanha calmaria. Quero ter um ano incrível, disse a mim mesmo, já num decorrer de ano que foi cheio de altos e baixos até então… Mesmo perdendo bons dias de aula, foi feliz ter me dado o direito de fazer esse retiro social.

Mas me foi muito interessante ver a curvatura da estrela que se tornava cada vez mais evidente. E quando me dei conta, assombrei-me com o clarão que dois minutos depois tomava o ambiente. Não tinha pra onde fugir. Um ruído de alta frequência tomava conta de meus ouvidos enquanto no clarão insuportável detia meu olhar nas duas figuras sinistras que se aproximavam na contra-luz.

E então desmaiei.


Ouvindo... Elton John: Understanding Women

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