Confissões [17]

Amiga… Saudades de ti! Eu sei, tu sabe o quanto esse papo já tá enjoado, mas eu já vendi o meu orgulho próprio, já vendi minha honra e até já vendi minha positividade pra ter maior visibilidade diante de ti. Não me resta mais nada a vender…

Eu sei o que me faz mal: é esse ambiente seco, inóspito e podre que vivo! Se eu tivesse naquele lugar que a minha alma clama todo dia – mesmo que longe de ti e de muitos outros que atenuam esse drama existencial e desnecessário – poderia me distrair com um folclore popular, com uma mostra a la Dali, com um cancioneiro popular… Amiga! Foi um decênio que eu pude ter sido feliz, não tivesse me deixado absorver pela pequenez que há dentro de mim, desse conformismo que punge a alma de uma pessoa dita comum. Eu vi o que perdi, indo para esse ambiente cuja presença valiosa de uma distração digna é escassa… Aqui, há muito provincianismo idiota, muito abandono e muita superficialidade…

Confesso que precisei ter essa experiência para perceber o quanto joguei fora por não me conter àquela época. Amiga! Tu sabe o quão necessárias são estas confusas palavras para eu não me insensibilizar de todo. A projeção de um escritor é uma projeção tão sujeita às variáveis do tempo: é certo que seja esse gelo, físico e psicológico que encontro neste fétido ambiente, neste antro de superficialidades; é certo que seja a queixa daquele que precisa se libertar de sentimentos escusos de inveja – se ela não mata, ao menos corrói a alma – que se expõe ao ócio.

Uma voz lúcida pede incessantemente que eu veja a vida por outro panorama, mas esse invernal momento será díficil empreender agora, amiga! Peço a ti um pouco de paciência, um toque de oração e a mim mesmo, um esforço para regalar-me na poesia da vida… Não uma poesia impetuosamente apaixonada, que frustrada pode ser um ingrediente melancolizante; mas uma poesia que fale da ameixeira que outrora tive, em meu decênio de ouro; a ameixeira à qual estendia uma rede, respirando o aroma dos flamboians e que, não fosse a minha ingratidão, poderiam se perdurar por um tempo maior e indefinido.

Mais do que as saudades de ti, amiga, acho que o meu mal de inverno seja as saudades da minha terrinha do coração, um solo pedregoso que – revelias do destino – fui descobrir todas as curas dos meus males.


Ouvindo... ZZ Top: Piece

Publicado por Potingatu

Estudante de Língua Portuguesa e Linguística pela FFLCH - USP (2010-5), entusiasta e experimentador do máximo de artes que for possível.

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