Projeção

Ligeiro, percorre a distância até o túnel,
entorno que se deriva munido a fundo
o fundo do desejo ampliado a som mais crível
num ambiente predisposto ao imundo.

Qual prece! Qual bala ao alto
se faz a curvatura da Máquina do Mundo
precede a presença ampla difusa ao contralto
num recinto de orquestra mudo.

Precede! Clama Calíope dos tempos modernos
tua canção de rogo, arrebata desde os ínferos
dos infernos às pombas do céu a trompa
numa canção que resume tudo.

E prepara, no banquete dos aedos que anônimos
vagam nas mais diversas ciências…
Eu, mecenas? Se te apraz a embalagem
que seja: faça-se a sua imagem
nesta taça onde projeta-se o fundo.

O caldo das vivências, o triunfo
a canção-presença-existência-come-tudo
a consciência, farta do ócio de Tartufo
pede uma nova ode, erudita, codificada
neste códice-vórtice de objeto profundo.

… o sonho termina e se projeta,
amplifica e venera involuntário
quem quer que diga o contrário
que experimente brincar com as palavras
e com esse ludismo que eu comungo.


Ouvindo... Yes: Shoot High, Aim Low

Confissões [17]

Amiga… Saudades de ti! Eu sei, tu sabe o quanto esse papo já tá enjoado, mas eu já vendi o meu orgulho próprio, já vendi minha honra e até já vendi minha positividade pra ter maior visibilidade diante de ti. Não me resta mais nada a vender…

Eu sei o que me faz mal: é esse ambiente seco, inóspito e podre que vivo! Se eu tivesse naquele lugar que a minha alma clama todo dia – mesmo que longe de ti e de muitos outros que atenuam esse drama existencial e desnecessário – poderia me distrair com um folclore popular, com uma mostra a la Dali, com um cancioneiro popular… Amiga! Foi um decênio que eu pude ter sido feliz, não tivesse me deixado absorver pela pequenez que há dentro de mim, desse conformismo que punge a alma de uma pessoa dita comum. Eu vi o que perdi, indo para esse ambiente cuja presença valiosa de uma distração digna é escassa… Aqui, há muito provincianismo idiota, muito abandono e muita superficialidade…

Confesso que precisei ter essa experiência para perceber o quanto joguei fora por não me conter àquela época. Amiga! Tu sabe o quão necessárias são estas confusas palavras para eu não me insensibilizar de todo. A projeção de um escritor é uma projeção tão sujeita às variáveis do tempo: é certo que seja esse gelo, físico e psicológico que encontro neste fétido ambiente, neste antro de superficialidades; é certo que seja a queixa daquele que precisa se libertar de sentimentos escusos de inveja – se ela não mata, ao menos corrói a alma – que se expõe ao ócio.

Uma voz lúcida pede incessantemente que eu veja a vida por outro panorama, mas esse invernal momento será díficil empreender agora, amiga! Peço a ti um pouco de paciência, um toque de oração e a mim mesmo, um esforço para regalar-me na poesia da vida… Não uma poesia impetuosamente apaixonada, que frustrada pode ser um ingrediente melancolizante; mas uma poesia que fale da ameixeira que outrora tive, em meu decênio de ouro; a ameixeira à qual estendia uma rede, respirando o aroma dos flamboians e que, não fosse a minha ingratidão, poderiam se perdurar por um tempo maior e indefinido.

Mais do que as saudades de ti, amiga, acho que o meu mal de inverno seja as saudades da minha terrinha do coração, um solo pedregoso que – revelias do destino – fui descobrir todas as curas dos meus males.


Ouvindo... ZZ Top: Piece

Semântica Tolerancial

Esta… Um menino me contou; não fosse ele, nunca haveria como teorizar

"Between the line for the sadness and the joy" (aplicativo Paint; pincéis spray e aquarela)


Apresento a vocês,
a semântica tolerancial:

Revolucionária!

Nunca na história da humanidade,
surgiu ciência tão perfeita,
ela lida com material de boa monta
tão perfeito que estudos muito conta.

Revolucionária!

Perfeita pra ambientes urbanos,
onde tudo corre tão rápido,
onde falta tempo, razão
e um pouco de temperamento.

Revolucionária!

De um lado, colocamos a sociedade de sucesso,
onde está o sucesso,
os cases de sucesso,
os hits de sucesso,
os best-sellers de sucesso,
as criações de sucesso,
o programa televisivo de sucesso,

Revolucionária!

Do outro lado colocamos a sociedade do fracasso,
onde está o fracasso,
a idéia furtada e não-indenizada,
a canção desprezada pela gravadora,
o livro na lixeira da editora,
a invenção que falhou,
e a falha radiotransmitida.

Revolucionária!

Aqui, não há tristeza,
há muito sorriso, há muito otimismo,
há muito amor, há muita dedicação,
há sempre inovação, há sempre reciclagem,
aqui está um modelo de sociedade.

Revolucionária!

Ali, mau exemplo:
há muito recalque, há muita crítica,
há muita queixa, há muito conformismo,
um gancho em tradições, preservando o antigo,
aqui temos as coisas como elas se apresentam.

Revolucionária!

Neste hemisfério mórbido,
todas as brigas, as guerras,
a fome, a moléstia, e as desgraças,
fazem sentido enquanto fonte da graça,
das ideologias conspiratórias
e de pouco ortodoxa orientação:

Revolucionária!

Lá, naquele mundo do faz-de-conta,
tudo lindo, harmônico,
comida boa, saúde e bons augúrios,
a busca por todos é a imagem de vitrine
dos bons valores
que de nada tem que ser

Revolucionária!


A ciência que vos falo,
se fundamenta num pressuposto simples,
que tanto pra uma ou pra outra
face da mesma moeda,
um mesmo atributo reivindica pra si
a principal razão de ser dessa ou
daquela postura em vacância…

E esta dá o nome à ciência,
e a chama de Tolerância
(quem dela não bem se aproveita,
invalida o estatuto de moral,
e o mundo perfeito e o mundo real
não são coisas prontas, afinal)


Ouvindo... Primal Scream: A Scanner Darkly