Transeunte

Olha! Quem lá segue…
sempre firme,
sempre presente,
dono de seu nariz
sem destino algum porque quis.

Passa pela avenida,
passa pelo beco,
pede uma tubaína do botequim
e um jornal na banca do seu Joaquim
– mas o jornal é tão caro, deixa pra lá…

Tão rota a vestimenta que o cobre,
faminto por uma coxinha,
sedento por um pingado,
bêbado pra passar vergonha
nem quer se dar ao regaço.

Mas o coxinha, convocado pela madame
da loja finesse da Oscar Freire
sequer pensa no que fazer direito
leva as mãos aos punhos desse sujeito
e o conduz ao camburão.

Delegado, depoimento, termo circunstanciado,
e o deslocamento para o abrigo,
decreptude, ignomínia, abjeto
e a intenção de precaução
nada mais se tornou que um ato de contrição.

Apenas era um senhor bem vivido,
enfadado da riqueza,
que decidiu sair das convenções
e percebeu na tua própria pele
como é que é tão duro viver na pobreza.

Mas então, o relógio soa,
tal como a batalha final,
ao som de Mendelssohn
o magnata diz: “foi só um sonho”
e começou mais um diário carnaval.

E ao ver o seu piano, agradeceu “pela beleza do mundo”.


Ouvindo... Pixies: The Sad Punk

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