Confissões [16]

Eis que me encontro à deriva, inestimada amiga, pois que está tão perto, e ao mesmo tempo, tão distante. Falta incentivo, falta ação, falta muita coisa…

E agora? Me vejo no meio de tantas palavras e agora me vejo prisioneiro delas… Descobri que tudo o que antes fiz, antes construí por elas, nada mais foi do que uma forma de me cativar à solidão. Eu? Estou estou bem comigo mesmo, mas acho que você está certa: nada supera o agir prático, os sentimentos aflorarem sem ruídos. Enfim, mais ação e menos blábláblá… Chega de enrolações, nem que isso custe toda a capacidade poética que construí.

Sim… Quero colocar toda essa escrita a túmulo, se preciso, pra ficar contigo, porque acho injusto a alegria dos apaixonados ser feita dos meus insucessos amorosos. Não é justo tantos casais se aprumarem tendo como base meu amor que manifesto por ti. Não é justo que o motor da compaixão sentimental do mundo se componha do meu inatismo afetivo. Chega disso!

Fala pra mim, amiga, que sim; e vivenciemos a poesia com menos palavras e mais carinhos.


Ouvindo... Stone Temple Pilots: Creep

Transeunte

Olha! Quem lá segue…
sempre firme,
sempre presente,
dono de seu nariz
sem destino algum porque quis.

Passa pela avenida,
passa pelo beco,
pede uma tubaína do botequim
e um jornal na banca do seu Joaquim
– mas o jornal é tão caro, deixa pra lá…

Tão rota a vestimenta que o cobre,
faminto por uma coxinha,
sedento por um pingado,
bêbado pra passar vergonha
nem quer se dar ao regaço.

Mas o coxinha, convocado pela madame
da loja finesse da Oscar Freire
sequer pensa no que fazer direito
leva as mãos aos punhos desse sujeito
e o conduz ao camburão.

Delegado, depoimento, termo circunstanciado,
e o deslocamento para o abrigo,
decreptude, ignomínia, abjeto
e a intenção de precaução
nada mais se tornou que um ato de contrição.

Apenas era um senhor bem vivido,
enfadado da riqueza,
que decidiu sair das convenções
e percebeu na tua própria pele
como é que é tão duro viver na pobreza.

Mas então, o relógio soa,
tal como a batalha final,
ao som de Mendelssohn
o magnata diz: “foi só um sonho”
e começou mais um diário carnaval.

E ao ver o seu piano, agradeceu “pela beleza do mundo”.


Ouvindo... Pixies: The Sad Punk

Confissões [15]

Razão… A razão me chama, minha amiga… Pede pra te dizer adeus! Não dá mais pra viver à custa de sentimentos. Tá na hora de acordar pra realidade no raiar do sol, de encontrar caminhos certeiros… Não mais o calor córdio, não mais o ímpeto emocional. Resultados! Resultados! É tudo que me pedem, e é tudo que preciso oferecer.

Eu sei disso porque, amiga, você seguiu o mesmo princípio: vai formar tua vida profissionalmente, vai fazer algo de útil e não vai se deixar enlevar por essas coisas desse demiurgo de marca maior…

Não mais durante a luz do sol me permitirei distrair-me com floreios, enfeites e adornos desnecessários. O tempo da poesia à luz do dia acabou. Agora é hora de trabalhar…

Pelo menos, amiga, me dê um sorriso no início de noite. Porque somente nessa hora plácida, eu resgatarei todos esses projetos da alma adormecidos.


Ouvindo... Elvis Costello and The Attractions: Uncomplicated