Confissões [14]

Enfim, amiga… Isto é tudo que eu tinha a princípio a te dizer… É o princípio, pois não mais prevejo o meio e tampouco o fim. Pouco estou me importando com as profecias de fim de mundo, Viva o teu tempo, Faça teus acordes de vida, Carpe Diem, falo pra você e você fala pra mim, conforme nosso humor tão transparente quanto um cristal ou opaco feito uma turmalina bruta.

Enfim amiga… Se eu sei quem é você? Pois bem, não é: são vocês que fazem desse confissor uma pessoa melhor. A algumas há paixão de sobra, a outras uma imensa amizade. Para as quasi-irmãs que nunca tive, um pouco mais de confiança. Para as inconstantes, meus terrores. Para os amores cicatrizados, as memórias escritas outrora me restam. Para as feridas afetivas abertas, espero pela boticária capaz de suturá-las através de uma decisiva resposta.

Mas no fim, restará aquela célebre amiga que eu quero que acompanhe de perto minha rotina, que coloque uma pena de pavão no meu ouvido pra me acordar pra ir à faculdade onde lecionarei [sim, serei um pesquisador-docente dos exímios didáticos, digno de participar do prêmio “pesquisador-didático nota dez”], e eu de resposta colocarei dois tequinhos de sal no café dela, adoçado com mel. Ela olhará para mim, e dirá: “Meu, que cê tá pensando que cê é?”, e eu: “Ué! Quem mandou a donzela tomar café, quando podia fazer um chá?”, e enquanto a gente discute o estatuto de que a mulher tem o pleno direito de trollar o marido, mas a recíproca é não-isonômica, nossos pequenos rebentos estarão acordando para ir conosco de viagem para a escola, bem sabidos que a sintaxe do português maçante na escola pode ser reduzida a alguns esquemas bem engenhosos… Coitada da professora deles! E coitada desta amiga aqui comigo que tem que orientar aquela turma nova na área de aquisição… E coitado de mim que terei que assimilar uma língua do sudoeste asiático que tem cada esquema de caso que qualquer um falaria: “que bruxaria é essa!”.

Família margarina, amiga? Não sei… Você é quem decide, e só você sabe, agora, no presente, se há de querer isso. Você? Quem é você? Ah, tenho certeza, minha amiga, que ao ler algumas destas confissões, irá se perceber nelas, e bem dirá, nos anos vindouros, após tantos encontros e desencontros, “Saudades do teu abraço”, e eu, “Saudades do teu sorriso”, “e então, como vai tuas pesquisas?”, “vão de vento em popa, e as suas?”, “ah, sabe… Vão como podem, inclusive você podia me ajudar nesse aspecto aqui na área de (…)”

Desvario do presente… Não sei… O futuro vos dirá o quanto estas palavras foram apenas um tiro na culatra ou uma profecia forjada. Espere pela publicação na banca mais próxima, ou um quadro floreado na parede do teu jardim de plantas, lá no fundinho de casa… Tudo vai depender de teu sim ou não num momento em que eu julgar inevitável ouvi-lo de ti, e apenas de ti, cúmplice amiga!


Ouvindo... Audioslave: Moth

Publicado por Potingatu

Estudante de Língua Portuguesa e Linguística pela FFLCH - USP (2010-5), entusiasta e experimentador do máximo de artes que for possível.

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